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Explicador da Rádio Observador, o primeiro-ministro anunciou medidas adicionais para fazer face ao aumento dos preços dos combustíveis e do gás devido à guerra no Irão. No debate quinzenal, Luís Montenegro anunciou, por exemplo, o aumento da comparticipação para 25 € na botija de gás solidária, isto nos próximos três meses, e vai também ser criado um mecanismo extraordinário para o gasóleo profissional, um desconto adicional sob a forma de reembolso de 0,10 € por litro para os próximos três meses, gasóleo profissional. Isto inclui também bombeiros e táxis. E de forma permanente, o governo vai ainda limitar os preços em situação de crise energética e criar uma proteção para os consumidores vulneráveis, mas não foram avançados pormenores sobre estes pontos. Ainda não se percebeu bem o que o governo pretende fazer aqui. Eu sou Ricardo Conceição e comigo está a Judite França.
E conosco está Ricardo Marques, é especialista em mercados energéticos. Bem-vindo, obrigada pela disponibilidade. No campo da incerteza que estamos a viver, estas medidas podem ajudar a almofadar os aumentos, por exemplo, no gasóleo e na gasolina?
Boa tarde. Obrigado pelo convite. Em primeiro lugar, isto é só para os profissionais, ou seja, para os veículos comuns, que eu perceba, não há nenhum apoio extraordinário. Agora, o fato é que a situação continua preocupante. Eu estou a ver hoje os preços do gasóleo no mercado internacional 11 cêntimos acima do que estavam na sexta-feira. Não sei como é que a situação vai evoluir até o final da semana, mas se hoje fosse sexta-feira, teríamos um aumento entre 0,10 e 0,12 € na segunda-feira que vem.
No gasóleo.
Sim, no gasóleo.
E em relação à gasolina, alguma ideia já ou ainda é muito cedo?
Tenho que fazer umas contas. Eu acompanho mais de perto o gasóleo, mas assim, o gasóleo há de aumentar mais que a gasolina, porque o problema não está só na subida do petróleo, que o Brent já vai acima dos 108 dólares, mas também o prémio do gasóleo sobre o Brent já está nos 42 dólares por barril. Para terem uma ideia, antes da guerra estava nos 24, 25. Ou seja, não é só o petróleo que está a aumentar, é o prémio que se paga sobre o gasóleo. E isto porque a Europa não produz o gasóleo suficiente para consumir, ao contrário da gasolina, portanto, tem que importar e tradicionalmente as importações vêm do Médio Oriente e da Ásia.
E têm de passar pelo Estreito de Ormuz, não é?
Sim, exatamente. Ou então, mesmo que venham da Ásia, o problema é que alguns países asiáticos que costumavam exportar gasóleo, como a China, estão a proibir as exportações.
A proibir as exportações pra Europa.
Não. Estão a proibir as exportações pra qualquer lado.
Para não correrem o risco de ficar sem gasóleo.
Exatamente. Ou seja, como correm o risco de ter menos petróleo pra processar, antes os excedentes eram exportados, nesta altura poderia haver a tentação, por causa do aumento dos preços, de exportar para ser mais rentável.
Mas preferem armazenar.
Mas não deixa, portanto para segurança interna.
Por falar em reservas, a medida de colocar barris das reservas no mercado está a ajudar a controlar os preços?
Não está. Estamos a falar de libertar reservas até 400 milhão de barris. O problema que temos em mãos anda na ordem dos 12 milhões de barris por dia, que já está há algum tempo, portanto, já se arrasta há algumas semanas. É fácil fazer as contas que 400 milhões de barris, se a situação se prolongar e se agravar, e hoje a situação agravou-se. Houve um ataque a um campo de gás do Irão. O Irão diz que vai retaliar e atacar infraestruturas energéticas nos países do Golfo. Pela primeira vez, temos ataques diretos a infraestruturas energéticas. Portanto, mesmo que o Estreito de Ormuz abra, se forem atingidas refinarias ou poços de petróleo, a produção fica comprometida.
Ou seja, Ricardo Marques, não antevê nem uma solução rápida, nem relativamente simples para este problema e aqui olhando até para quem nos ouve agora e está no carro de regresso a casa, não se antevê uma mudança rapidamente para este aumento no preço dos combustíveis.
Infelizmente, não. A menos que, por milagre, cheguem a um acordo e pare a guerra naquela região.
Mas já agora, Ricardo, só pra perceber isto melhor. Portanto, em sua opinião, esta medida que os Estados estão a tomar, todos os Estados, Portugal salva-se, retém três meses de reservas de gasóleo. Ou seja, se colocar esse gasóleo ou esse petróleo no mercado, e peço desculpa se não estou a ser mais correto nos termos, mas isso é pouco eficaz. Isso é um duplo problema, portanto, é pouco eficaz no preço E vão-se as reservas.
Isso não vem influenciar. O preço é determinado pelo preço internacional. Temos de distinguir duas coisas: uma coisa é o preço alto, outra coisa é haver escassez. Nesta altura, não há falta de produto. Não há falta de produto exatamente porque há reservas. A partir do momento em que deixar de haver reservas, há falta de produto, passa a ter que haver racionamento. Se o mundo consome cerca de um pouco menos de 105 milhões de barris de petróleo por dia, se há 12 milhões de barris que não saem, vai ter que passar a consumir 93.
Deixe-me só perceber então, esta medida de colocar barris no mercado, de colocar reservas no mercado, não é uma boa medida?
É boa se a situação se resolver. Se a situação que isto vier se prolongar por mais de um mês, depois não há mais reservas para libertar.
O Ricardo Marques acha que seria prudente avançarmos já com alguma limitação nos consumos?
Eu penso que pode ser alarmista, mas a Dinamarca já o fez, já uma recomendação. Houve países como o Vietname que também já recomendaram o teletrabalho. Não sei, é uma decisão política.
Claro.
Mas já há quem esteja a tomar como prevenção.
Se o governo decidir criar tetos, limitar preços ou limitar margens de lucro, foi uma medida que o primeiro-ministro falou agora no debate quinzenal, mas não explicou como é que poderia funcionar. Isto pode ter consequências nos mercados e alguém vai ter de pagar, se pode ter consequências nas finanças públicas.
Sim, temos aqui três componentes do preço. Um é o preço internacional, que é o que eu estou a acompanhar, que me está a dizer que hoje o gasóleo está 97 cêntimos no Porto de Roterdão. O outro é o ISP. Depois ainda há um terceiro, que há de ser as margens, todas as margens até chegar ao retalho. O que o governo está a dizer é que nesses 97 cêntimos não conseguem mexer. É preço de mercado.
E as margens são muito altas, só para termos uma ideia, entre o quê?
Eu não gosto de falar de cor.
Claro.
Eu diria que poderiam ir a 15 cêntimos no total.
Por litro?
Sim, por litro. Há uma parte de margem da comercialização da refinaria, depois também o retalho há de ter outra margem.
Sim, sendo que os revendedores têm ali dois a três cêntimos, ou quatro cêntimos.
Não estou seguro, mas é questão de fazer a conta e tirar o preço internacional e os impostos, e ver quanto é que sobra.
Ricardo Marques, voltando aqui quase ao início da nossa conversa para terminarmos e agradecer mais uma vez por estar disponível para esta conversa aqui na Rádio Observador. A preço de hoje, na segunda-feira, o gasóleo poderia aumentar 11 cêntimos por litro. Claro que ainda temos que esperar agora por quinta e sexta para saber como é que o mercado evolui.
Exatamente.
Ricardo, muito obrigado mais uma vez.
Alberto, também já agora mais uma questão que tem a ver com a garrafa de gás.
Exato.
Por vezes há uma confusão entre a garrafa de gás, que é gás propano, e o gás natural, que é o que vem do Catar. Estamos a falar de duas situações diferentes.
É que o governo anunciou o apoio para a garrafa de gás.
Pronto, e que é gás propano, que é gás que é produzido a partir do petróleo e não retirado diretamente da terra.
Ricardo, muito obrigado mais uma vez pela sua ajuda e por nos ajudar a perceber também como é que se fazem as contas no meio desta guerra. Obrigado, Ricardo.
De nada. Prazer, obrigado. Até.