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Começa agora mais um Explicador das manhãs 360, hoje sobre os avisos de uma alegada degradação dos serviços do Hospital de São José, em Lisboa. É nosso convidado Miguel Paiva, presidente do Conselho de Administração da ULS de São José. Moderação é do Paulo Ferreira e do Luís Soares.
Bem-vindo, Miguel Paiva, a este Explicador. Bom dia. Ontem foram conhecidas queixas de alguns diretores de serviços do hospital. Dizem não ter condições para dar um tratamento digno aos doentes. O diretor de urgência ameaçou abandonar o cargo, a diretora de medicina interna entregou mesmo a demissão, de acordo com o Expresso. Já teve a oportunidade de falar com estes responsáveis para perceber exatamente o que está a falhar e que queixas são estas?
Bom dia mais uma vez e agradeço a oportunidade de estar convosco. É um gosto estar com a vossa equipa e poder falar para o vosso auditório. Eu não falei com eles, eu falo com eles todos os dias. É uma prática que tenho de procurar acompanhar a gestão do hospital com grande proximidade, nomeadamente com as nossas chefias intermédias, que precisam de estar sempre alinhadas com o conselho de administração e com as nossas equipas. E naturalmente que sim, estamos a falar de dois dirigentes em particular, um deles que pediu a sua saída de funções por questões estritamente do foro pessoal e naturalmente são respeitáveis. E no caso do diretor de serviço de urgência, manifestando uma ambição de melhoria das condições do funcionamento do serviço, que é uma ambição que eu fico muito contente que ele tenha, porque nesta instituição nós queremos sempre oferecer o melhor e queremos dirigentes ambiciosos na evolução da capacidade, das condições de trabalho e daquilo que é, no fundo, o resultado do trabalho que oferecemos aos nossos doentes e nisso estamos perfeitamente alinhados. Portanto, são situações que nós estamos a lidar em conjunto para que a ULS de São José, nomeadamente o Hospital de São José, onde funciona o nosso serviço de urgência polivalente, seja aquilo que é.
Mas esta ideia de que o que existe no hospital não é um tratamento humano nem digno, como usou esta expressão Luiz Bento ao Expresso, não é compatível com a realidade?
Claro que não, é óbvio. Aliás, nem ele disse que não é humano nem digno. A única coisa que ele disse é que gostaria que fosse ainda melhor.
Eu estou a citar a declaração que ele faz ao Expresso, entre aspas.
Exatamente. E a declaração que ele faz é a ambição de melhorar essas condições. Repare, para as pessoas terem uma noção, o serviço de urgência polivalente do Hospital de São José é uma urgência de fim de linha, ou seja, é uma urgência não só da cidade de Lisboa, mas mais de 40% dos seus doentes vêm de fora da cidade de Lisboa. Portanto, é uma urgência que está sob grande pressão. É uma urgência de fim de linha, é uma urgência onde muitas vezes os doentes que nós recebemos, não são só aqueles doentes referenciados, ou melhor, os doentes que têm situações agudas de saúde e que recorrem ao serviço de urgência, mas são doentes referenciados por urgências de outros hospitais, sejam públicos, sejam mesmo privados. Muitas vezes existem situações de alta complexidade, alta gravidade, agravamento do estado de saúde, onde nenhum hospital aqui, provavelmente Santa Maria, tal como nós, na maior parte das situações, mas poucas unidades têm capacidade de resposta com altíssima diferenciação e esses casos vêm parar à Unidade Local de Saúde de São José. Qual é o nosso problema? Nós temos dado uma resposta altamente qualificada, nós damos uma resposta cumprindo razoavelmente os tempos de espera. E se reparar, os tempos de espera do nosso serviço de urgência são bons. A nossa maior dificuldade, e é nisso que o senhor diretor de serviço está preocupado, tal como eu, é no escoamento dos doentes que depois do seu atendimento e tratamento precisam de internamento hospitalar. Quinze por cento dos nossos doentes, depois de serem tratados no serviço de urgência, precisam de ser internados. E o que é que acontece? Em muitas dessas situações, a disponibilidade de cama de internamento não é imediata e os doentes acabam por ter que permanecer algum tempo dentro do serviço de urgência e a capacidade instalada no serviço de urgência, em muitos momentos, é incompatível com o volume de doentes que lá estão, muitos deles já não em fase aguda de estabilização da doença, mas já a aguardar o internamento. E essa é a maior dificuldade.
Essa é a maior dificuldade. Miguel Paiva, isso significa que faltam camas para internamento? Ou essas camas até seriam em número suficiente se não fossem os internamentos, digamos assim, sociais, isto é, pessoas que já poderiam ter alta, poderiam deixar a unidade de saúde, mas por questões sociais permanecem no hospital?
Ouça, eu posso lhe dar um número que nós temos avaliado ao longo dos últimos meses, que provavelmente responde diretamente à sua pergunta. O número de doentes que nós temos no serviço de urgência a aguardar internamento é sensivelmente idêntico ao número de doentes que estão internados, vamos chamar de indevidamente, ou seja, estão internados depois da alta, digamos assim. Esse número é equivalente. Significando isto que, se esses doentes não estivessem no hospital, se estivessem em condições de estar no seu enquadramento familiar, ou se houvesse respostas dos serviços das áreas sociais, das estruturas residenciais para pessoas idosas, para o seu internamento, se esses doentes não estivessem conosco, seguramente teríamos a capacidade de alocar essas camas, que estão ocupadas, aos doentes que estão a aguardar no serviço de urgência. Mas gostava também de dizer, e isto também tem que ser honesto, eu penso que há também alguma margem de melhoria da eficiência hospitalar para conseguirmos diminuir a nossa demora média do internamento hospitalar. Eu considero que há aqui uma grande margem de melhoria dentro daquilo que está ao nosso alcance.
Claro.
Eu não consigo da noite para o dia mudar o sistema e fazer com que o sistema, em geral, em Portugal, consiga disponibilizar respostas sociais para esses doentes que têm que permanecer no hospital.
Mas esse é o ponto, Miguel Paiva.
Há coisas que eu posso fazer dentro de casa.
Claro. Mas o essencial do problema, porque nem tudo se consegue com eficiência, certamente, o essencial do problema, como nos diz, é exterior, neste caso, ao Serviço Nacional de Saúde. É uma resposta social que o país não está a dar.
Ouça, esse é um problema, tem impacto, e o que eu queria dizer, e dizer-lhe a si, e dizer isto às pessoas, é: não me chega ter uma desculpa externa às minhas responsabilidades e aos meus meios de intervenção para, com isso, ficar tranquilo e deixar que as coisas continuem como estão. Não. Nós sabemos que isso existe. Se esse problema não existisse, a nossa dificuldade melhoraria quase que diria imediatamente, mas o nosso desafio, e é nisso que estamos a trabalhar com o serviço de urgência e os outros serviços, é: nós vamos conseguir criar, dentro daquilo que está na nossa esfera de atuação, respostas internas para conseguirmos que esses doentes, que neste momento esperam na urgência em número para além daquilo que seria desejável, encontrem dentro da Unidade Local de Saúde de São José, das nossas unidades, espaços e condições melhores que aquelas que hoje têm que viver.
Mas essas respostas internas passam por quê?
Passam por reorganização de equipes, passam por encontrarmos aqui alguns espaços internos que vamos reorganizar, passam por reorientar equipes de trabalho, reforçar algumas equipes de trabalho, com médicos-
Mais médicos e mais enfermeiros?
...com médicos, com enfermeiros. Estamos a reorientar essas equipes e, portanto, é um trabalho que estamos a fazer e o nosso desafio e o compromisso que temos assumido é conseguir que essas condições, no fundo, este projeto que temos neste momento em curso, esteja totalmente implementado antes do pico de procura de inverno. Para que, como disse, para chegarmos ao inverno e estarmos melhor do que aquilo que estamos hoje.
Mas deixe-me voltar ainda às questões externas, só para lhe perguntar o seguinte: o governo tem anunciado, já fez vários anúncios relativamente a camas, nomeadamente na rede de cuidados continuados e outras respostas, precisamente para esses doentes que estão internados, mas que já tiveram alta médica. Aquilo que lhe pergunto é, apesar de haver esta aprovação de camas, só em julho, por exemplo, foram aprovadas cerca de 750, se estas medidas estão ou não a chegar aos hospitais, ou seja, se estão a permitir ou não aos hospitais libertar algumas dessas camas.
Estão. Se compararmos aquilo que aconteceu no primeiro semestre de 2026 com o primeiro semestre de 2025, o número de doentes com alta protelada, digamos assim, ou seja, que estão com alta hospitalar, mas que permanecem conosco, diminuiu em cerca de 25%. Portanto, sim, há algum resultado, mas a verdade é que o volume ainda é muito significativo.
Estamos a falar de que volume, Miguel Paiva?
Eu hoje tenho 51 doentes.
51.
Eu hoje tenho 51 doentes. Mas, repare, se fizéssemos por espelho com mais 25% relativamente ao ano passado, teria mais. Mas estes são os números agregados do primeiro semestre, que demonstram uma tendência positiva, ainda insuficiente, mas num sentido positivo. E, portanto, eu considero que é importante estas medidas que estão a ser pensadas. Enfim, vamos ver o efeito que elas poderão surgir, mas este esforço que está a fazer-se e esta sensibilização, e programas como estes são importantes para efetivamente agudizarmos esta sensibilização da importância de intervir nesta temática.
O Miguel Paiva está a administrar a ULS de São José desde fevereiro, antes estava na ULS de Entre Douro e Vouga, se não estou em erro. As dificuldades que está a encontrar aí, ou a realidade que está a encontrar aí, necessariamente diferente da realidade anterior, enfrenta dificuldades maiores do que aquelas que estava à espera, ou são realidades muito semelhantes, por exemplo, em São José ou Entre Douro e Vouga?
São realidades diferentes, desde logo pelo volume. Ou seja, o volume é maior. Em São José, eu tenho 10 mil trabalhadores, no Entre Douro e Vouga tinha 3500 trabalhadores e, portanto, a dimensão é diferente e há aqui uma complexidade associada à dimensão. Por outro lado, repare, o serviço de urgência polivalente da Unidade Local de Saúde de São José, do Hospital de São José, só para se ter uma ideia, as pessoas não têm esta ideia, mas entram 3,8 doentes por minuto. Entram 3,8 doentes por minuto aqui. São doentes, como disse, altamente complexos. Nós temos cerca de 160 pessoas a trabalhar em cada turno, multiprofissional, muitas especialidades médicas Nós recebemos na Unidade Local de Saúde de São José, ontem quatro doentes na via verde da AVC, oito doentes na via verde coronária, doentes altamente complexos, 27 doentes com trauma, com fraturas. São efetivamente realidades diferentes em termos do volume e da complexidade, sendo certo que, à sua dimensão, tem também muitas similitudes. Que é este desafio de fazer com que o Serviço Nacional de Saúde cumpra aquilo que os cidadãos esperam, e para o qual os cidadãos contribuem muito fortemente em termos do pagamento dos seus impostos, que é saber que no momento em que precisarem, o SNS não lhes falha. E felizmente, aqui na Unidade Local de Saúde de São José, eu sinto que isso acontece, e que nós, felizmente, somos um esteio da sociedade, e nós somos uma unidade da qual as pessoas se podem orgulhar.
Miguel Paiva, com essa experiência que tem, a norte e a sul, confirma que há um certo tipo de problemas que a norte, de alguma forma, estão resolvidos ou vão sendo resolvidos e que se manifestam mais a sul?
Considero que houve uma capacidade de estruturação do funcionamento do Serviço Nacional de Saúde em rede, ou das unidades em rede, no norte, que foi pensado há bastantes anos, implementado há bastantes anos, que aqui na região de Lisboa e Vale do Tejo, ainda está relativamente incipiente, nomeadamente a questão da centralização de serviços, da concentração de serviços e do funcionamento em rede. Por quê? É uma boa pergunta. É uma pergunta difícil. É uma boa pergunta e é uma pergunta-
O país é o mesmo, não é? E as regras são as mesmas.
As regras são as mesmas.
Há mais capacidade de entendimento mais a norte entre as várias unidades, deixe-me pôr as coisas assim.
Sim, a norte é mais fácil juntar as pessoas, é mais fácil criar consenso nas pessoas do que aqui. Aqui exige bastante mais trabalho. O tipo de predisposição, muitas vezes, para a geração de consensos, é mais difícil de gerar aqui e portanto, dá mais trabalho. No meu caso, que gosto desse tipo de desafios, é muito estimulante. E portanto, se quiser, o Paulo é economista e eu também sou economista.
Eu sou de gestão.
Sou economista. Nós encontramos, quando nos defrontamos com uma situação que tem grande potencial de melhoria, são aquelas que nós mais gostamos. Quando você encontra uma coisa que já está a funcionar de uma forma perfeita, é mais difícil conseguir obter ganhos. E portanto, eu diria que aqui há, efetivamente, um potencial de obtenção de ganhos. Estamos a trabalhar nisso e essa capacidade de geração de consensos é o fundamental. Repare a grande diferença que se conseguiu, no caso da ginecologia e obstetrícia, aqui na região, pelo fato de terem concentrado as urgências de ginecologia e obstetrícia da margem sul numa única urgência. Repare, aquele que há um ano, há dois anos, era um dos grandes focos de tensão no SNS, que era a indisponibilidade de qualquer serviço de urgência de ginecologia e obstetrícia na zona sul do Tejo, que era uma coisa inaceitável. Hoje, praticamente, é uma coisa que vai funcionando com naturalidade e normalidade, e isso foi possível. Se me perguntar se era preciso tanta dificuldade, se aquilo era tão óbvio há tanto tempo que era necessário ser feito, e por que foi tão difícil? Enfim, não lhe sei explicar, mas sei que o resultado está alcançado. E portanto, nós temos ainda aqui bastantes situações onde podemos melhorar essa articulação interinstitucional, assegurar o funcionamento em rede e garantir que os recursos que dispomos possam ser possíveis. Porque repare uma coisa, hoje o meu problema não é falta de dinheiro para contratar médicos, porque se reparar, o SNS teve sempre dinheiro para contratar, porque o SNS, os orçamentos têm aumentado. Hoje, a grande dificuldade é que o mercado não oferece profissionais.
Não há médicos.
Nós, nos últimos concursos médicos, veja este exemplo dos médicos de família.
Para concluirmos, Miguel Paiva.
Ok, mas veja só, isso é muito interessante. Veja o exemplo dos médicos de família. O Ministério da Saúde colocou no mercado a possibilidade de contratação de todos os médicos de família que faltavam para preencher as necessidades do Serviço Nacional de Saúde. Mas o mercado não foi capaz de responder a isso. E, portanto, o que nós precisamos é da articulação em rede, melhorar essa articulação em rede para irmos responder às pessoas, àquilo que são as suas necessidades.
Miguel Paiva, muito obrigado por ter vindo a este Explicador, presidente do Conselho de Administração da ULS de São José. Bom dia, obrigado.
Bom dia, obrigado.