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Explicador da Rádio Observador: na noite eleitoral de 2025, os democratas conquistaram vitórias expressivas em três corridas importantes, Nova York, Nova Jersey e Virgínia. Em Nova York, o autoproclamado socialista democrático Zohran Mamdani fez história ao tornar-se o primeiro muçulmano e o primeiro americano de origem sul-asiática, de origem indiana, a liderar a maior cidade dos Estados Unidos. Já em Nova Jersey e em Virgínia, duas moderadas, Mikie Sherrill e Abigail Spanberger, garantiram os estados, consolidando o domínio democrata na Costa Leste. Mas o que é que estas vitórias dizem sobre o rumo da política norte-americana? Estaremos aqui perante uma viragem à esquerda dentro do Partido Democrata? Para percebermos melhor tudo isto, temos conosco uma convidada, Judite França.
Ana Cavalieri, bem-vinda, muito obrigada por estar conosco e ter aceitado o nosso convite. Só para nos situarmos, que eleições foram estas? Ou lhes vamos chamar autárquicas, ou podemos chamar autárquicas?
Boa tarde, muito obrigada pelo convite. São locais, ou seja, não têm uma expressão nacional e são também fora do calendário normal. Nós sabemos que nos Estados Unidos existem eleições para presidente de quatro em quatro anos, mas parte do Congresso vai a eleições de dois em dois anos, e então para o próximo ano, 2026, vai haver eleições muito importantes, são as intercalares. E estas eleições, que foram um pouco atípicas, fora do calendário normal, servem um pouco para testar as águas daquilo que poderemos esperar em 2026. Ou seja, será que os republicanos vão continuar a ter o controle do Senado e da Câmara dos Representantes ou poderemos esperar uma onda, uma maré azul? Azul é a cor do Partido Democrata. E então Trump vai perder o apoio das câmaras legislativas que tanto precisa para passar determinadas políticas da sua administração.
E Ana, o que a vitória deste senhor, Zohran Mamdani, uma figura atípica na política norte-americana, é muçulmana, assume-se como socialista democrata, eleito para a Câmara de Nova York. O que esta vitória nos pode dizer sobre o atual momento, por exemplo, do Partido Democrata?
É interessante, porque nós depois sabemos também que em Virgínia e Nova Jersey ganharam duas centristas e moderadas. Nova York tem uma demografia eleitoral muito típica e é muito progressista por natureza. É difícil um republicano ganhar, sendo certo que ganhou quando o Giuliani foi eleito, mas nessa altura havia um problema de criminalidade nos anos 90, que era muito acentuado, que explica essa viragem para os republicanos. Eu penso que neste momento é interessante vermos Mamdani. Ele é um político ultracarismático. É muito atraente ver o estilo de comunicação dele. E então eu percebo que haja uma sedução para uma grande parte do eleitorado ver alguém com o tipo de oralidade e também o tipo de comunicação e carisma que ele representa.
Tem 34 anos, é um jovem.
Exato. Todavia, é preciso referir que em termos ideológicos, ele não é um socialista como nós aqui falamos do Partido Socialista, que é um partido que vai do centro-esquerda à esquerda. Ele é ultraesquerda. Ele aqui, no panorama político português, seria uma voz intensa do Bloco de Esquerda, por exemplo. Ele, nomeadamente, muitas vezes repetiu o slogan, já há alguns anos, quando em 2020 houve aqueles grandes protestos do verão quente de 2020 por causa de George Floyd. Ele repetia o slogan, que é muito famoso de Marx e uma das grandes bandeiras do Partido Comunista Soviético, ou pelo menos do manifesto do Partido Comunista, que era: "A cada um segundo as suas necessidades, de cada um segundo as suas capacidades". E então eu penso que qualquer pessoa mais habituada àquilo que foi o confronto entre a liberal-democracia e os regimes autoritários comunistas fica um pouco arrepiado de sabermos que ele repete esse slogan com alguma facilidade. Sabemos também que ele é alguém que teve, durante a sua campanha, políticas que assustam alguma parte da elite financeira e corporativa de Nova York. Nomeadamente, ele quer estender a ação do Estado profundamente para redistribuir riqueza e também fez propostas, por exemplo, de supermercados em que o Estado é o dono dos supermercados, ou então comprar blocos de real estate, ou seja, imobiliário, e transformar aquilo em comunidades patrocinadas pelo Estado em termos de habitação.
Controlar rendas também, prever, não é?
Controlar rendas. Mas isto indica duas coisas, a meu ver. Primeiro, aquilo que é mais importante para os americanos, não só para Nova York, mas isto vai ser a mensagem principal nas intercalares para o próximo ano, é o custo de vida. E os republicanos distanciaram-se dessa mensagem. A política tarifária de Trump, confusa e talvez implementada de forma deficiente, não tem dado confiança aos americanos de que as melhorias económicas da sua vida têm melhorado. E então os republicanos estão a perder essa mensagem que, por exemplo, na origem do trumpismo em 2016, dar novas oportunidades à classe trabalhadora era a grande mensagem. Nós vemos que, se calhar, muita dessa classe trabalhadora e até algumas minorias étnicas que apoiaram Trump em 2024 não estão a sentir melhorias naquilo que são as políticas dos republicanos, mas também querem o estilo de Mamdani de contra o sistema, sendo Trump agora o sistema, e ter uma postura mais intensa e quase furiosa.
É uma resposta radical.
Exatamente.
A um presidente radical?
Eu penso que pelo menos naquilo que é a mensagem de ir contra um sistema instaurado, porque Trump, a maior parte das suas políticas, o estilo pode ser radical, mas ele não é radical. Por exemplo, ele é muito menos conservador em determinados assuntos sociais do que aquilo que era o normal do Partido Republicano.
Há aqui um facto também curioso. Esta votação terá sido a maior para a Câmara de Nova Iorque desde 1969, desde os anos 60 do século passado, mas estamos a falar de dois milhões de votos. Também não são muitos.
E Nova Iorque é um ecossistema muito específico.
Mas é o dobro do habitual, que costuma ser um milhão e tal de votos, portanto, não há muita gente a votar também, é isso?
Não, há muita gente a votar. Eu acho que todas estas comparações têm que ser relativas e não em termos de olhar para o número da totalidade de votos absolutos. Eu penso que é inegável que a energia está do lado democrata em Nova Iorque, eu penso também nas outras eleições, mas aqui talvez o que é interessante, quando a pessoa vai esmiuçar os votos em cada dos cinco boroughs de Nova Iorque, vemos que Staten Island, por exemplo, continua mais conservadora, e se foi Brooklyn, Bronx e Queens que saíram em peso para Mamdani. E é interessante que no fundo, aquilo que os republicanos estão a dizer é que Nova Iorque representa as consequências políticas e eleitorais de uma imigração descontrolada e agora Nova Iorque basicamente é dominada por imigrantes, isto é de acordo com os republicanos, vindos do terceiro mundo e que, portanto, estão a eleger formas e ideologias políticas que preponderam nesse terceiro mundo. É algo assim que os republicanos estão a tentar interpretar.
Há quem diga que os eleitores estão descontentes com o estado da economia, lá está a questão do custo de vida, diz-se sempre que os americanos votam muito com o seu bolso e, portanto, isso faz muito sentido. E, portanto, a pergunta é: é mais um voto de protesto ou de entusiasmo?
É ambos. Eu penso que é sempre quem quer protestar, quem está descontente com o status quo, tem uma motivação acrescida para ir às urnas. E é por isso que quase todos os presidentes perdem as eleições intercalares depois de ganharem o seu mandato. Aconteceu em quase todas, há três exceções. É o FDR, já há imensas décadas atrás, Bill Clinton, que o primeiro mandato dele foi tão bem recebido que ele conseguiu reforçar até a maioria democrata na Câmara dos Representantes, e foi George W. Bush a seguir ao 11 de setembro, em que havia um ímpeto de união nacional muito forte e a maior parte dos independentes estavam por detrás do presidente Bush, quando quis responder aos ataques do 11 de setembro. Fora isso, todos os outros presidentes, e até Bush no seu segundo mandato e Clinton no seu segundo mandato, todos perdem as eleições intercalares. Não é o presidente que as perde, naturalmente, são os candidatos do partido que o presidente representa que perdem, mas é aquilo que é normal acontecer. Mas Trump, naturalmente, sabe que isso vai limitar aquilo que será o resto do seu mandato se, de repente, não ter o apoio das Câmaras e dos congressistas e dos senadores.
Mas Ana, já aqui afloraste isto, mas Nova Iorque é uma coisa, os Estados Unidos são outra completamente diferente?
Em termos demográficos, sim. O problema é que Nova Iorque é um símbolo tão formidável, não só para os americanos, mas também para todos. Há muitos turistas que vão lá, que a esperança dos republicanos será algo assim: se as coisas correrem muito mal com Mamdani em Nova Iorque, eles podem apontar para Nova Iorque como: "Vejam o que isto pode vos acontecer se vocês seguirem o mesmo caminho". Não só em termos de migração, mas em termos eleitorais, de votar para alguém que é ultra progressista.
Então isso pode expandir-se a outros estados?
Depende. Isso vai depender muito da demografia e eu penso que aí será mais interessante ver o que é que aconteceu, tanto em Nova Jersey como na Virgínia. É preciso referir que estes dois estados votaram Kamala Harris nas últimas eleições, ou seja, são estados que não iriam facilitar a vida aos candidatos republicanos. Todavia, eu sei que isto ainda não é possível fazer uma grande comparação e leitura, mas houve uma das eleições que é pouco falada, que foi na Georgia, que foi uma eleição para todo o estado para eleger aquilo que seria um controlador de tecnologia e comunicações. Aquilo que nós vemos na Georgia, que o Trump ganhou, é um swing state, em condados desse estado que tinham dado uma grande vitória a Trump, de repente, estão a votar democrata. Para algo, naturalmente, que muito pouca gente se calhar foi votar. Não esquecer que Trump também apelou a um eleitorado normalmente abstencionista, que se calhar não vota nas intercalares para estas eleições com menor importância, mas parece que aquela coligação que deu vitória a Trump, que é a classe trabalhadora, que neste momento se calhar está descontente com o custo de vida, as mulheres nas zonas rurais de vários estados, que provavelmente estão um pouco saturadas do tom mais agressivo e truculento de Trump Apesar de terem votado nele, porque tinham as suas reservas relativamente a Biden ou a Kamala Harris. E também o facto de Trump ter conseguido um número recorde do voto afro-americano e também hispânico. No caso dos hispânicos, há sondagens a revelar que acham que a política de imigração de Trump está a ir demasiado ao limite. Parece que os outros candidatos republicanos não conseguem reunir essa coligação que o Trump conseguiu.
E começámos esta conversa também pelo Partido Democrata. E há também um dado curioso nestas eleições em Nova Iorque, o antigo governador Cuomo, que concorreu como independente, que era considerado provavelmente um possível candidato à presidência pelo Partido Democrata, perdeu frente a Mamdani. Como é que podemos também ler esta derrota? Isto é um sinal também para o partido?
Andrew Cuomo era um candidato horrível. Vamos lá ver. Ele é um ex-governador do estado de Nova Iorque que saiu em desgraça porque foi acusado há poucos anos, por uns mulheres de abuso sexual. Para além de ter também, supostamente, posto os números de mortos durante o Covid, manipulou os números supostamente de pessoas idosas que tinham falecido durante a crise do Covid. Ele era um péssimo candidato.
Ele saiu com estrondo, não é? E até o irmão que trabalha na CNN acabou por sofrer as consequências disso.
O Chris Cuomo. Pelo que, no fundo, Mamdani também conseguiu beneficiar do facto de o grande concorrente dele, que era independente, mas vinha da tradição democrata, também era péssimo. Sim, era péssimo. E havia muitas pessoas, também republicanas, que não queriam votar em Curtis Sliwa, que era o candidato supostamente republicano, mas que iam de forma a exercer um voto útil e votar em Andrew Cuomo, mas isso também afeta muito o tipo de energia.
Mas mesmo que isso tivesse acontecido, Mamdani ganhava, não é?
Sim, mesmo somando os seus votos. Mas isto tudo tem a ver, porque as eleições nos Estados Unidos são um processo de muita motivação para votar. Há milhares de voluntários que vão bater às portas, que vão fazer o chamado canvas. E isso quando um partido, os voluntários, quando a equipa não está muito motivada, porque não gosta particularmente do candidato, não tem tantos meios, não tem tanta energia para ir bater às portas. E os democratas, em termos de entusiasmo e em termos também de financiamento, estão com um nível de energia muito mais acima do que os republicanos.
Ana, tu viveste em Nova Iorque, conheces bem esta realidade. Ajuda-nos também aqui a perceber um pouquinho melhor e talvez até de um ponto de vista geográfico. Portanto, há muitas realidades nesta Nova Iorque, há Manhattan, que é tal centro da cidade, e depois há as periferias, o Bronx.
Brooklyn, Queens.
Brooklyn, que vamos dizer que é do outro lado do rio. Como é que isto funciona em termos de eleitorado?
Votou Andrew Cuomo, o eleitorado com meios financeiros mais elevados, provavelmente porque acham que Mamdani vai ser muito progressista na esfera económica, e então ganharam em Upper West Side, Upper East Side, Manhattan e Tribeca e Financial District. Ou seja, são no fundo as áreas mais caras de Nova Iorque.
Onde o apartamento custa uns milhões, não é?
Sim. Eu bem me lembro daquilo que eu tive aqui agora. Eu vivi em Midtown. Mas Mamdani ganha aquilo que é o Lower East Side, Greenwich Village, Soho, que é no fundo a parte mais artística e boémia, e toda essa facção mais criativa e artística gosta muito de Mamdani. E depois ganha em Brooklyn, também é muito boémio, mas com taxas elevadas de imigrantes, mas até que são imigrantes com altas qualificações. E depois Bronx e Queens, que têm talvez um panorama socioeconômico menos privilegiado e que naturalmente foram seduzidos pelas mensagens de alívio do custo de vida e de combate às disparidades de riqueza de Mamdani.
Estes resultados têm algum significado para Donald Trump e para o Partido Republicano? Isto num contexto de paralisia em Washington e de divisões internas entre moderados e trumpistas.
Isso vai ser interessante, porque o Trump, a reação imediata foi dizer: "Eu não estava no boletim de voto e, portanto, as pessoas que gostavam de mim não saíram porque eu não estava lá, mas isso é preocupante para aquilo que é a identidade ideológica do partido, porque nós queremos, quer dizer, qualquer movimento ideológico quer que não dependa apenas de uma pessoa só, a sua manutenção e expansão." Então os republicanos têm de perceber até que ponto o trumpismo consegue sobreviver sem Trump. Relativamente, em termos mais operacionais, o Trump está a fazer uma pressão enorme para acabar com o filibuster. Isto é muito interessante o argumento dele. O filibuster é uma guerra de procedimento para acabar no Senado os debates para se poder passar uma votação. E para isso é preciso ter muito mais do que uma maioria simples. É preciso 60 senadores concordarem, o que significa que à partida temos sempre de seduzir o outro partido, alguns senadores do outro partido a avançarem. E os democratas tentaram precisamente terminar com o filibuster, mas houve dois senadores democratas que não apoiaram essa medida. E agora o Trump diz: "Têm de ser os republicanos a acabarem o filibuster, porque os democratas daqui, quando tiverem o poder, vão fazer isso, e então nós só temos um ano para aprovar todas as medidas que nós precisamos, que seguem as políticas da administração, porque vamos perder a Câmara em 2026, e em 2026 os democratas vão ter maioria. Eu posso vetar tudo aquilo que os democratas queiram passar, por isso durante quatro anos, durante o mandato, estamos a salvo, mas vamos estar paralisados porque não vamos conseguir, porque vamos perder a maioria." Então o Trump está nesta urgência de neste ano conseguir ainda passar, já antecipando que irá perder as Câmaras em 2026.
Ana, muito obrigado.
Muito obrigada.
Por ter estado aqui, por ter aceitado o nosso convite. Ana Cavalieri, que é investigadora do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, que esteve aqui conosco no Explicador da Rádio Observador, no fundo, a tentar ajudar-nos a perceber melhor que leitura podemos fazer destas eleições de ontem nos Estados Unidos.