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Começa agora o Explicador. Esta manhã sobre o novo podcast de Maria João Vilas, "Melhores é Difícil", com entrevistas aos portugueses que são exemplos de excelência e que contam como chegaram ao topo. O primeiro episódio estreia hoje ao meio-dia com Paulo Macedo, CEO da Caixa Geral de Depósitos.

Bom dia, Maria João Vilas.

Olá, Bruno. Bom dia.

Muito bem-vinda. Em primeiro lugar, perguntávamos como surgiu a ideia de falar de excelência em Portugal, quando tantas vezes nos referimos ao nosso país como um país resignado.

Tem toda a razão.

Pessimista.

Sim, pessimista instalado. Porque eu estava a ler uma reportagem numa revista estrangeira onde se falava de excelência sobre outras coisas, de empresas, e eu pensei: "Então e as pessoas? Há pessoas excelentes. Então e em Portugal não há pessoas excelentíssimas?" E pensei: não se dá, como o Bruno bem disse agora, não se dá o devido valor. E eu decidi: eu vou dar o devido valor ou vou tentar dar o devido valor. Então fiz um ramo de flores, melhor dizendo, de gente. Claro que fica sempre gente de fora, escolher é difícil, escolher suscita depois ou ressentimentos ou não sei o quê. Toda a gente acha como os treinadores de bancada: "Devia ter entrado aquele jogador, devia ter sido o A em vez do B". É indiferente. Escolhi variado de propósito e com gerações diferentes.

Era isso que lhe queria perguntar também em relação ao critério. Houve esse cuidado de ter aqui uma paridade ao nível do gênero e também ao nível das gerações.

Paridade e gênero são duas palavras que me incomodam um bocadinho pelo mau uso às vezes que têm.

Mas teve esse cuidado?

Não, eu sou a prova de que se trabalha no feminino. Portanto, não preciso ter essas preocupações.

Não precisa de estar a provar.

Exato. Eu tenho imensas mulheres e tenho mulheres em áreas que não são as imediatas ou as óbvias. Por exemplo, uma enóloga, a Sandra Tavares, que cuida de vinhas no Douro e cuida de vinhas na região de Torres Vedras. Não são as mesmas castas, não é o mesmo clima. E ela cuida, e cuida muito bem. Portanto, é a excelência na enologia, a enologia no feminino e tratando de duas zonas diferentes do país. A juventude na ciência, a Joana Gonçalves Sá, é a ciência no feminino, no seu melhor, muito nova, e vem-nos falar do que é isso de ciência e como é que se lida com a ciência todos os dias, como se fosse com a arquitetura, mas a gente acha mais difícil à primeira vista, de repente, a ciência que a arquitetura. Ou, por exemplo, jovens, o Virgílio Bento, que tem a SwordHealth, que é um unicórnio que vale milhões. A grande novidade dele é que pôs a colaborar, benéfica em termos muito positivos, a inteligência artificial ao serviço da saúde. Por exemplo, são coisas que não se sabem muito bem, mas que passam a ser contadas. Eu tenho quase essa obrigação como jornalista. Se eu descubro, ou se eu tenho acesso, ou se eu tenho uma conversa que me suscita, isto pode ser interessante e exemplar até para outras pessoas.

E procurou revelar pessoas que o grande público não conhece ou tentou depois também temperar com outras pessoas mais conhecidas?

Tentei, por exemplo, o Paulo Macedo, evidentemente, que é um indiscutível, é o topo da excelência para mim, em Portugal, absolutamente. Ou o veterano Manuel Severino Simões, do Porto, o HepaTImuno, que ele criou, como criou mil outras coisas, que está novo em folha com 70 e tal anos, dá cartas a qualquer jovem, trabalha de manhã num hospital, à tarde no HepaTImuno, absolutamente fantástico. O Herman, que se pode dizer: "O Herman outra vez?". Mas é que o Herman fez o nosso humor dos anos 70, 80 e 90 com uma criatividade inesgotável. Continua a fazer. Mas aquelas três décadas, a fertilidade, a produtividade, a criatividade com que ele inventava personagens tão diferentes uns dos outros, tão bem interpretados, tão bem observados, eu tiro-lhe o meu chapéu. E mandei-lhe um telefonema e disse: "Tem que ser você".

Tem que ser. E conseguiu. Maria João Vilas, quando estamos aqui a falar de excelência, estamos a falar de quê? Estamos a falar de talento e trabalho individual ou estamos a falar também de contextos e de oportunidades?

Tem toda a razão, porque pode haver pessoas que sejam naturalmente dotadas ou que estudaram, se esforçaram e não houve a oportunidade. E, portanto, eu tentei também chegar aí. Mas de fato, estas pessoas, e sobretudo estas mulheres jovens, como a Cristina Fonseca, que em 2016 foi eleita pela revista Forbes uma das 100 jovens abaixo dos 30 anos mais influentes do mundo nesta área de unicórnios, de criatividade. É uma coisa extraordinária, não é?

Ter esse reconhecimento.

Isto foram pessoas que deram nas vistas pelo seu talento e depois a oportunidade foi ter com elas de tal maneira deram na vista.

E estes convidados, parece que pelos nomes que entretanto também já indicou, têm esta particularidade de a excelência ser revelada, ser manifestada em Portugal.

Exatamente.

Há muitas vezes essa ideia de que para ser reconhecido, tem que ser lá fora.

Não. Esta Cristina Fonseca que eu disse que foi eleita pela Forbes Já era excelente aqui, depois com 24 anos foi para os Estados Unidos e aí desenvolveu com mais meios e mais experiência a sua excelência. Mas, por exemplo, estou me a lembrar do Zé Vilês, que internacionalizou os nossos sabores e a nossa cozinha, mas começou aqui. Todos eles começaram aqui. O Paulo Macedo começou aqui, o Severino Simões, o António Coutinho, que é um cientista de reputação internacional, que foi presidente do Instituto Gulbenkian de Ciência, fez imensa carreira lá fora, mas é um português e está cá, e o Instituto Gulbenkian de Ciência é aqui que está e quando ele o dirigiu. E, portanto, eu nunca quis uma pessoa que estivesse só sempre. O Virgílio Bento da Swords Health mora no Porto. Eu quero pessoas que estejam cá e depois, com certeza, que estão permanentemente também. O Virgílio Bento está em 80 países. Já está hoje em 80 países, mas a raiz é portuguesa.

A excelência projeta-se, nestes casos, de Portugal para fora.

Exatamente. É evidente que eles foram todos muito amparados pelo que aprenderam lá fora, com outros horizontes, com o que vocês quiserem. Isto partiu de Portugal e eles são portugueses e foi aqui que nasceram. E, portanto, há portugueses excelentes, e portuguesas.

E amparados também pelas origens familiares. Há um peso determinante, para não dizer determinístico, nas origens destes exemplos de excelência.

É uma boa pergunta, porque eu atribuo muita importância ao chamado contexto familiar, o que se vivia em casa.

Aliás, temos um ótimo podcast com a Maria João precisamente sobre isso, sobre os apelidos, a influência dos apelidos.

Exatamente. E dou imensa importância a isso. Pode haver ou não pode haver um espírito, uma influência, um ambiente que determine aquilo que a pessoa vai ser. Mas aqui há um misto. Há pessoas que não teriam, talvez, à partida, esse motor de arranque da família e outras que indiscutivelmente, ou melhor, Severino Simões explica que teve dois avós, etc., que influenciaram muito. Depende um bocadinho, porque a natureza humana também é vária e variada e, portanto, nós encontramos, quando vamos à procura de um cesto com cerejas, encontramos imensas cerejas e vamos tirando uma e outra.

A Maria João é muito associada mais ao jornalismo político, às entrevistas políticas, estas serão necessariamente diferentes. Como é que articulou a questão do lado mais pessoal com o lado público? Por exemplo, a primeira entrevista com o Paulo Macedo, que é o responsável pela Caixa Geral de Depósitos, agora Comigs.

Eu convidei muitas pessoas com um e-mail que se explicava tudo, muito bem descrito. Com o doutor Paulo Macedo, cujo trabalho político acompanhei como jornalista no tempo da troika, que não foi fácil, e portanto achei que tinha, enfim, não direi a obrigação, mas o gosto de lhe pedir uma audiência e de lhe explicar. E depois disse-lhe que era interessante ainda fazer algumas perguntas sobre o governo, sobre a vida dele, sobre quantos e-mails recebe por dia, como é que é possível atender a tanta coisa. Eu tenho uns filhos gêmeos, falámos dos filhos gêmeos. Tentei misturar a pessoa.

Fica-se a conhecer a pessoa também.

Sim, absolutamente. E fiz isso com muitos. É evidente que 39 minutos para uma jornalista que está habituada desde sempre a fazer entrevistas que parecem rios, e sem tempo, é sempre uma coisa quase dolorosa. É dolorosa, é como se me tivessem a cortar os dedos. Mas também tem que ser disciplinada e inteligente o suficiente para produzir o mesmo, com a mesma qualidade, tento, em pouco tempo ou em muito tempo. Agora tentei atender também ao lado pessoal, evidentemente. O Zé Vilês, por exemplo, conta uma história de família muito interessante.

Porque as histórias de família podem marcar também as opções de carreira.

Podem, absolutamente.

Às vezes, seguir no mesmo caminho, mas às vezes também de divergir do caminho.

Exatamente, de várias maneiras, porque o que se ouve em casa pode depois originar, não digo uma revolta, mas uma discordância que leva a dizer: "Eu não quero nada disto, vou fazer outra coisa", por exemplo, ou vou ser outra coisa, ou eu não vou ser assim. E isso eu estou sempre a dizer, eu gosto da natureza humana, gosto muito de pessoas, gosto muito de as observar, gosto muito de conversar com elas. Agora, encontro de tudo. Não digo que os podcasts tenham todos o mesmo ritmo ou o mesmo interesse permanente, porque as pessoas são acima de tudo elas próprias.

E esse é também o objetivo destas conversas.

Estou muito contente, pelo menos com o que tentei fazer.

E com toda esta diversidade, consegue encontrar a receita para a excelência? O que é que está na base da excelência, Maria João Villas?

Eu acho que na base da excelência está uma coisa que é muito pouco valorizada em Portugal, pouquíssimo, que é o enorme mérito de não se ter desistido, de se ter trabalhado, estudado, insistido Puxado pelo que cada um tem de melhor, sem nunca dizer esta coisa também um pouquinho portuguesa: "Não vale a pena", "Deixei", "Não era capaz". É um pouco português. O país mudou imenso, graças a Deus, temos cheios de exemplos de excelência. Cheios. A minha dificuldade foi a escolha. Só que ficou muita coisa de fora: o desporto, património, literatura, etc.

Tem que vir uma nova série, não é?

Naturalmente. Mas o que está à partida é o que a pessoa foi capaz de fazer dela própria, fossem quais fossem as condições, mais adversas ou mais fáceis. A pessoa puxou por ela, não desistiu, seguiu pra frente, acreditou.

E sentem-se reconhecidos, estes convidados? Sentem que essa excelência é reconhecida? Sentem-se recompensados? Estamos a falar de pessoas com trajetos muito diferentes. Por exemplo, o Herman José, com uma carreira longuíssima, que foi também pioneiro na sua área.

Pioneiríssimo.

Mas sentem-se reconhecidos pelo país, pela sociedade?

Penso que sim. A este nível, já acho que sim. Eu não entrevistei nenhum arrogante, por exemplo, foi uma coisa interessante. Não houve um simulacro. O Mário Laginha, eu gostava só de contar isto, não sei se tenho tempo.

Tem tempo.

Eu convidei o Mário Laginha porque eu o considero um gênio, uma pessoa que cerca de um piano e tão depressa compõe e cria maravilhosamente, como interpreta, desde grandes clássicos ao jazz, até ao fado, não podia deixar de aqui estar. Simplicíssima, a rir, a dizer: "Maria João, então tenho que levar essa pergunta da excelência a sério". Eu digo: "Tem, porque é o mote do programa, é como é que se chega à excelência". E depois fez uma coisa, eu gostava de contar, porque foi também uma espécie de uma homenagem. Eu admiro muito o Mário Laginha e admiro a simplicidade dele na excelência. E quando chegou a altura dele falar de ter interpretado tão bem, quase como se fosse uma guitarra portuguesa, o fado, que não é fácil, eu lembrei-me e convidei o Camané, com quem ele tinha feito uma dupla, cantou pelo país inteiro e pela Europa, com grande sucesso aqui há poucos anos. E convidei o Camané e na altura em que se ia falar eu com o Mário Laginha sobre: "Então e essa coisa do fado, agora, de repente, um pianista, o fado, que é a guitarra e a viola". E foi o Camané que explicou. E então foi uma homenagem, porque o Camané pra mim é indiscutivelmente o melhor, é uma amália. E eu pude dar-me a mim própria o pequeno mimo de ter ali duas pessoas absolutamente notáveis que podem cantar e cantam, e exibem-se nos melhores palcos. O Mário Laginha vinha de Frankfurt, de Berlim, de tocar com bandas locais, com músicos desses países, e muito aplaudido. E há coisas que não se sabem bem. De repente, quem é que neste momento sabe que o Mário Laginha acaba de vir de uma turnê ultra exitosa?

Pois. O Bruno Gagliasso falava às vezes do reconhecimento não é total.

Espero que as pessoas percebam o que eu tentei fazer, mas mais importante, muito mais importante que eu, é que há uma quantidade de excelentes absolutamente notáveis em Portugal, eles e elas, e todas as idades.

Maria João Vilela, muito obrigada por ter vindo aqui.

Quem agradece sou eu, por amor de Deus.

"Melhores" estreia hoje, depois do jornal do meio-dia. O primeiro convidado da Maria João Vilela é Paulo Macedo, CEO da Caixa Geral de Depósitos.