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Explicador da Rádio Observador. Donald Trump retirou Nicolás Maduro do poder, levou para os Estados Unidos, quer explorar as ricas jazidas de petróleo na Venezuela e pretende também governar o país. O presidente dos Estados Unidos falou e agiu e aparentemente ninguém, internamente ou a nível internacional, tem capacidade para travar Donald Trump. Afinal, quais são os planos da administração Trump, que volta agora a falar na Gronelândia, Colômbia, Cuba ou mesmo México? Eu sou o Ricardo Conceição, estou com a Judite França e Judite, quem é o nosso convidado?

Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana, a quem agradeço desde já a participação neste Explicador. Nuno Gouveia, depois da Venezuela, já ouvimos Donald Trump ameaçar a Colômbia, Cuba, México e a Gronelândia. São ameaças vãs ou depois do exemplo da Venezuela, podemos esperar que o presidente dos Estados Unidos cumpra o que está a prometer, como avisou o secretário da Defesa norte-americano no sábado?

Olá, muito boa tarde e obrigado pelo convite. Sim, de fato, eu penso que toda gente deve levar a sério as palavras de Donald Trump, embora saibamos que desde o início do seu mandato, ele já fez outras ameaças. Ele começou o seu mandato a ameaçar o Panamá, o vizinho Panamá. Também ameaçou, talvez não então tão a sério, o Canadá, de anexação. Portanto, esta segunda presidência de Donald Trump, que está a encerrar em si mesmo um aspecto quase imperial, de fato, é muito diferente daquela primeira e com o que já vimos no último ano, não só com a deposição do ditador Maduro, mas também, por exemplo, com a intervenção no Irã, quer dizer que esta segunda administração Trump é muito diferente da primeira e que deve ser levada a sério quando Donald Trump ameaça algum país. Agora, sabemos que Donald Trump diz muitas coisas e nem sempre as cumpre. E, por exemplo, também, todos nos lembramos que ele dizia que iria resolver a guerra da Ucrânia em 24 horas e a verdade é que passado um ano, a guerra continua e não se prevê que vá terminar tão cedo. Agora, o que Donald Trump está a fazer com esta sua, digamos assim, presidência imperial, é de fato acabar com o sistema internacional que tínhamos praticamente desde a Segunda Guerra Mundial. E nós europeus, particularmente, devemos olhar para tudo que está a acontecer com muita preocupação, até porque a ameaça à Gronelândia, que é um território governado pela Dinamarca, é uma ameaça que, digamos assim, a concretizar-se, terminará a aliança da NATO, que pra nós tem sido muito importante nestas últimas décadas.

E Nuno, o porquê desta insistência com a Gronelândia?

De fato, parece-me que alguém convenceu Donald Trump que o território é essencial para os Estados Unidos, não só por questões de segurança, e se fosse apenas por questões de segurança, nós sabemos que existe presença militar no território. A Dinamarca é um aliado fiel dos Estados Unidos. Aliás, a Dinamarca participou no Afeganistão, teve soldados também no Iraque, portanto, sempre foi um aliado importante dos Estados Unidos, sempre lhes permitiu quase tudo na Gronelândia, portanto, não me parece que seja uma questão militar. Infelizmente, como parece que tudo é na administração Trump, terá a ver com as riquezas que a Gronelândia terá e que Trump pensa que pode simplesmente usurpá-las para si e para os Estados Unidos.

Também na Colômbia, como no México, a ideia será distrair os presidentes e levá-los à Justiça norte-americana ou as alegações são diferentes?

Eu, honestamente, considero que a questão da Venezuela é muito diferente da questão mexicana e da questão colombiana. Repare-se, por exemplo, na Colômbia. A Colômbia é um dos países que sempre foi aliado dos Estados Unidos na região, o principal aliado, e as elites políticas militares da sociedade civil sempre tiveram uma grande proximidade com os Estados Unidos. Neste momento, temos um presidente de esquerda, que aliás, chegou ao poder democraticamente, mas muito apoiado pela Venezuela e pelo narcotráfico e também por Cuba. Portanto, neste momento temos um governo de esquerda na Colômbia, mas este ano vamos ter eleições. As eleições serão em maio. O novo presidente será diferente, pois Gustavo Petro não pode ser reeleito. E parece-me que seria uma intervenção muito mais arriscada, até porque colocaria em causa também outros aliados do continente, pois o que nós observamos, por exemplo, neste fim de semana foi os países que neste momento são controlados por governos de direita, a Argentina, o presidente do Chile, que vai tomar posse em março, a Bolívia, o Equador, o Panamá, portanto, tudo governos aliados dos Estados Unidos que, é claro, obviamente, apoiaram a queda de Maduro, mas que exigem, no fundo, uma transição democrática. E por acaso, na Venezuela, já há uma líder à espreita, Maria Corina Machado, e o presidente eleito Edmundo González, que seriam os aliados tradicionais dos Estados Unidos na Venezuela. Parece-me que não, eu pelo menos quero acreditar que não haverá uma intervenção do gênero na Colômbia e também no México, porque a presidente do México é uma líder eleita democraticamente e seria verdadeiramente inaceitável que os Estados Unidos depusessem uma líder democrática no seu vizinho.

Nuno Gouveia, qual é o quadro de valores que está aqui em causa? Estou a falar também de um quadro ético, legal. Que quadro de valores guia Trump? Nós aqui deste lado do Atlântico estamos ainda a acordar de tudo o que aconteceu este fim de semana e faz-nos muita confusão que o líder de um país democrático atue desta forma no modo de "quero, posso e mando". Afinal de contas O que é isto da doutrina Monroe e o que vai na cabeça da administração norte-americana para tentarmos perceber melhor o porquê de tudo isto?

É, de facto, muito difícil até à luz do que a primeira versão Trump sempre defendeu. Recordemos que Donald Trump emerge como líder do Partido Republicano precisamente para contrariar a ala mais internacionalista do Partido Republicano e das intervenções externas, o America First. Donald Trump sempre disse que os Estados Unidos deveriam era cuidar do seu povo e governar internamente e não entrar em guerras estrangeiras. E esta inversão total de valores neste segundo mandato é de facto totalmente diferente daquilo que foi prometido. Parece-me que Donald Trump está neste momento sem freios. Repare-se, a oposição interna do Partido Democrata quase não tem intervenção, não tem capacidade de reagir. O seu próprio partido, o Partido Republicano, que neste momento governa as duas câmaras, o Senado e a Câmara dos Representantes, diz que sim a tudo a Donald Trump. Donald Trump neste momento menorizou completamente o poder legislativo. As duas câmaras praticamente não existem. E de facto Donald Trump parece agir sem que ninguém se lhe possa opor. Agora, todos nós queremos acreditar que nos Estados Unidos as instituições ainda existem. Nós vamos ter umas eleições intercalares este ano muito importantes e talvez seja este o ano onde Donald Trump possa ser parado. Agora nós estamos em janeiro. As eleições serão em novembro e muito poderá acontecer até lá.

Deixa-me só voltar à questão da NATO, porque tendo em conta que tanto a Dinamarca como os Estados Unidos fazem parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte, há pouco dizia que isto pode ser o fim da NATO. Como assim?

Repare-se, se os Estados Unidos atacarem um território de um país aliado, obviamente que essa aliança deixa de ter sentido, pois a aliança é um acordo de segurança comum e se um desses membros é uma ameaça aos outros membros, essa aliança deixa de existir e certamente deixará de fazer sentido. E os países europeus neste momento parecem sem reação. Repare-se que Donald Trump voltou a ameaçar este fim de semana a Gronelândia e desta vez se calhar num tom mais sério, e praticamente apenas os países nórdicos vizinhos da Dinamarca reagiram de uma forma mais convincente, enquanto o resto dos países europeus parece que não levam muito a sério esta ameaça.

Isso porque a Europa está numa dependência total no que toca à defesa em relação aos Estados Unidos?

Sim, infelizmente, nós continuamos completamente dependentes dos Estados Unidos. Temos a guerra da Ucrânia, que é fundamental para os nossos interesses e para a Ucrânia manter a viabilidade da sua defesa, continua a necessitar do armamento americano, agora que está a ser comprado pelos estados europeus aos Estados Unidos. E a Europa sente que sem esta relação com os Estados Unidos não terá capacidade, primeiro para defender a Ucrânia e depois para defender a si própria.

E só para fechar a nossa conversa, Nuno Gouveia, Cuba será mais uma questão ideológica e de afirmação regional se o mesmo acontecer em Cuba?

Nos Estados Unidos vê-se desde a década de 60 que a poderosa comunidade de exilados cubanos luta pelo fim do regime castrista.

O secretário de Estado, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Marco Rubio, é de origem cubana.

Eu tenho a certeza absoluta que se Marco Rubio tiver a possibilidade de derrubar o regime cubano, não vai perder essa oportunidade. E também é importante dizer que Cuba, de facto, está numa crise brutal. O país está completamente dilacerado e o que mantinha alguma viabilidade, sobretudo das elites cubanas, era o dinheiro venezuelano. Se agora com esta intervenção na Venezuela, esse financiamento venezuelano acabar para o lado cubano, os responsáveis americanos, aliás, ontem Marco Rubio disse isso, esperam que o regime caia por si e que não seja necessária uma intervenção americana. Agora, eu acho que Marco Rubio, se tiver essa oportunidade, não vai desperdiçá-la.

Obrigado, Nuno Gouveia. Nuno Gouveia, especialista em política norte-americana, aqui também a ajudar-nos a tentar perceber o que irá na cabeça de Donald Trump.