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Está no ar o Explicador da Rádio Observador. Esta quarta-feira falamos sobre a Comissão Parlamentar de Inquérito à TAP e a polêmica que envolve David Neeleman. E para isso está conosco a grande repórter do Observador, a jornalista Ana Suspiro, para uma conversa com o Paulo Ferreira.

Muito bom dia, Ana Suspiro. Bem-vinda e obrigado por conseguir estar aqui esta manhã. Isto no arranque de uma maratona que nos vai levar à reta final da Comissão Parlamentar de Inquérito. Temos hoje no Observador o artigo de David Neeleman sobre os polêmicos fundos Airbus que chegaram à TAP. Há obviamente a versão do empresário americano sobre este tema que tem dominado algumas audições no Parlamento. Ana, tu já leste o artigo, algum dado novo que mereça ser sublinhado ou destacado?

Olá, bom dia, Paulo. Já li o artigo. De facto, o que o David Neeleman diz? Ele diz que toda a gente sabia da existência destes fundos Airbus e que se não sabiam, tinham a obrigação de saber, porque toda a documentação foi entregue ao governo socialista e porque a utilização destes fundos para capitalizar a TAP foi já em grande medida feita com os socialistas no poder a partir de 2016.

E, portanto, no fundo, ele diz que o governo socialista que tomou posse em 2015 só não sabe para quê.

E aqui a questão é: uma coisa é saber ou não saber. E nós vimos vários ex-ministros e ex-responsáveis dizer que não sabiam, que não foram informados, não foram avisados. Outros que souberam, como por exemplo, o caso de Pedro Marques, que era o ministro das Infraestruturas socialista, que soube através de uma entrevista que o próprio David Neeleman deu à revista Visão e que depois foi tentar perceber o que era. Mas uma coisa é o que eles sabiam ou não sabiam, outra coisa é a legalidade da operação, que é aquilo, a legalidade e a adequação da operação para a TAP, se foi bom ou não para a TAP. E são duas coisas diferentes. Eu acho que na questão do desconhecimento, obviamente, eu acho que o David Neeleman tem razão. Isto era uma informação que quem quisesse saber, saberia. E o que nós temos nos apercebido dos testemunhos que temos ouvido é que isto não foi valorizado na altura, ou seja, sabia-se, mas ninguém procurou perceber se havia aqui algum problema ou não, até porque em 2015, quando a operação foi aprovada, havia vários pareceres, que são aliás citados pelo empresário americano, a dizer que a operação era não só legal, como economicamente vantajosa para a TAP.

Para a TAP, claro.

E esta é que é a questão. Esta é a questão, é perceber, não é o facto do empresário ter usado fundos da Airbus. É se nesta operação, que envolveu uma compra de aviões pela TAP, se a TAP pagou o preço justo pelos aviões ou se pagou acima do valor de mercado.

Se foi prejudicada em benefício do próprio empresário e na altura acionista da TAP.

Exatamente. Essa é toda a questão que está aqui por trás, porque se foi prejudicada, significa que houve um inflacionamento do preço dos aviões e foi através desse inflacionamento que David Neeleman capitalizou a TAP.

E pagou, no fundo, a entrada na TAP.

Com o dinheiro da TAP.

Com o pelo do próprio cão, como se costuma dizer. Claro. Este é um dos temas que ainda sobra e que seguramente vai dominar pelo menos algumas das audições que começam hoje nesta reta final. Esta é a posição de David Neeleman. Ele depois vai responder por escrito à própria Comissão Parlamentar de Inquérito. Certamente que ou Hugo Mendes ou Pedro Nuno Santos serão também questionados sobre isto. Ana, nesta reta final, depois daquele desvio provocado pela intervenção do SIS no tema, a Comissão Parlamentar de Inquérito volta a estar recentrada no tema que a motivou.

Vamos certamente ouvir muito falar destes fundos Airbus, sobretudo na audição de Pedro Nuno Santos, porque já ouvimos na semana passada. Isto obviamente é uma arma que ele vai usar contra o PSD, porque esta privatização foi feita pelo PSD. E eu acho que David Neeleman tem razão aqui numa coisa. Ou seja, o governo tem, enfim, o ex-ministro recebeu uma auditoria o ano passado da TAP a indicar que a operação Airbus foi má para a empresa, mas nós não conhecemos este documento.

Aliás, David Neeleman sublinha isso no artigo e contrapõe essa auditoria às anteriores, claro.

Exatamente. Ou seja, nós conhecemos as conclusões, mas não conhecemos o documento, nem sabemos, e ele levanta aqui uma questão relevante, o que eles estão a comparar? Aviões comprados na mesma altura, em alturas diferentes, com recheio, sem recheio? Nós não sabemos. Mas essa, obviamente, vai ser uma das questões que vai dominar esta última tranche de audições. Não a única, mas será importante, sim.

E Ana Suspiro, o que ainda nos falta saber, agora neste tema da total tutela política da TAP, o que ainda nos falta saber? Além das versões dos próprios, obviamente, o Mendes Pedro Nuno Santos e Fernando Medina, mas em termos factuais, já estamos medianamente esclarecidos sobre a forma como o governo tutelou a TAP.

Eu diria que estamos, mas é preciso perceber quem é que fez exatamente o quê e com que conhecimento de quem. Porque esta quarta-feira nós vamos ouvir Hugo Mendes. E sabemos que há várias histórias que o envolvem a ele, relacionadas, por exemplo, com a famosa interferência política na gestão da TAP.

Aquele e-mail, claro, sobre o voo de Moçambique para o presidente da República.

O voo de Moçambique para o presidente da República, mas o que nós vamos perceber, sobretudo hoje, é se ele agiu ou tomava essas decisões sozinho ou se de facto havia aqui um conforto, entre aspas, do ministro da tutela, não é? Isso vamos perceber. Neste momento, não temos essa informação. Eu acho que isso é importante, até porque o ex-ministro das Infraestruturas tem obviamente ambições políticas e joga aqui uma cartada importante no seu futuro dentro do Partido Socialista.

Podemos olhar, no início talvez tenha sido essa a sensação, olhar um pouco para o Nuno Mendes como um bode expiatório, uma espécie de para-raios para quem foram atribuídas uma série de ações, porque era o nome dele também que estava naqueles e-mails, de alguma forma, para proteger Pedro Nuno Santos?

Vamos ver se de fato ele foi para Reis ou se tinha autonomia para agir como agiu e até que ponto o ministro sabia ou não sabia, ou era consultado ou não era consultado. Sabemos que no valor da indenização paga a Alexandra Reis, que está na origem desta comissão de inquérito, que foi tudo acompanhado por Hugo Mendes, mas que Pedro Nuno Santos deu o aval final ao valor. Portanto, havia aqui uma grande interação entre as duas principais figuras do Ministério das Infraestruturas.

Uhum.

Vamos perceber porque é que as finanças foram postas à margem aqui numa série de questões.

E aí com Fernando Medina, que atenção, Fernando Medina não era ministro ainda quando toda a negociação e o pagamento da indemnização a Alexandra Reis foi pago. Fernando Medina pode elucidar sobre a forma como a tutela foi feita e o envolvimento das finanças depois da sua entrada no governo, claro.

Eu acho que o Fernando Medina tem que explicar melhor é porque é que convidou Alexandra Reis para Secretária de Estado do Tesouro, sem fazer algumas perguntas. E de onde é que veio esta proposta dela ir para a Secretaria de Estado do Tesouro e por que é que antes tinha aprovado a ida dela para presidente da NAV. Portanto, foram tudo decisões que foram tomadas já com ele nas finanças e que nós não temos agora falado muito sobre isso, porque são questões relativamente paralelas à TAP, mas que sabia-se que ela tinha sido administradora da TAP até há pouco tempo. E há aqui um conjunto de perguntas que não foram feitas. Ele já disse que não as fez, já foi ouvido no Parlamento, mas fora de uma comissão de inquérito. Mas certamente que vai ter que voltar a responder. E há uma outra questão. Nós não sabemos se nos milhares de documentos que os deputados receberam, se não exista alguma coisa que de alguma forma o comprometa, a ele ou algumas das pessoas que vão ser ouvidas, porque são muitos documentos, são trocas de comunicações, trocas de e-mails, enfim, é um acervo enorme. E eu penso que os deputados estarão eventualmente a guardar aqui alguns trunfos finais para estas audições.

Uhum, que são politicamente muito relevantes. Muito bem, vamos então aguardar esta tarde ou início da tarde, começa então a ser ouvido o Hugo Mendes, amanhã Pedro Nuno Santos, na sexta-feira Fernando Medina. Ana Suspiro, muito obrigado por teres estado aqui neste Explicador, no fundo, a perspetivar essas audições e também a ajudar-nos a perceber este artigo de David Neelman numa das subpolêmicas do grande assunto TAP. Bom dia.

Bom dia.