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Começa agora o Explicador da Rádio Observador. Esta manhã é sobre o novo Podcast Plus do Observador, "Os segredos da seita do yoga". Conta a história de como dezenas de mulheres portuguesas se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador, que acabou acusado de exploração sexual e tráfico humano. É uma série de seis episódios narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim e da autoria das jornalistas Mariana Marques Tiago e Tânia Pereirinha. Muito bom dia aos três. Sejam muito bem-vindos aqui à Rádio Observador, casa já muito conhecida pela Tânia Pereirinha e pela Mariana Marques Tiago, que já estão conosco aqui todos os dias, na Rádio Observador. Mas Benjamim também está aqui conosco. Vou te ligar o microfone, se eu conseguir.
Já está.
Muito bem. Já temos também o da Tânia. Já está tudo certo. Muito bem. São muita gente aqui em estúdio, não estou habituado a isto. Vamos falar sobre este novo trabalho. Vou começar pela Mariana. Uma seita, um guru, tudo acontece em Portugal. Que história é esta e por que sentiram esta necessidade de a contar em um podcast plus?
Esta história é muito desafiante e impressiona bastante, porque temos sempre esta ideia de que tudo que sejam seitas ou exploração não acontece cá e muito menos aqui perto de nós. E esta história vem mostrar precisamente o contrário. Vem mostrar que isto estava acontecendo em uma escola aqui em Lisboa, no centro da cidade, e aconteceu com mulheres portuguesas. E daí esta necessidade de a contar também, porque não foram só mulheres portuguesas. Obviamente que estes casos que nós retratamos aqui são alguns daqueles a que nós tivemos acesso e das muitas centenas, talvez, que tenham acontecido nos últimos tempos e associados a este guru do yoga.
E quando é que ocorreram estes factos?
As pessoas com quem nós falamos, foram pessoas que estiveram nesta seita nos últimos 10 anos.
A escola abre em Lisboa em 2009, não é?
Sim. Mas é importante dizer que isto é uma organização com muitas ramificações, portanto, temos ligações a vários países, não é só Portugal, obviamente. Já temos mulheres que ficaram envolvidas na seita e que foram exploradas já muito antes destas portuguesas que nós retratamos aqui no podcast.
E foi difícil chegar até estas pessoas, até estes testemunhos que vamos poder ouvir neste novo podcast plus?
Foi um bocadinho desafiante, porque é um tema que além de ser muito sensível, ainda é muito atual. Porque além de continuar a acontecer, e mesmo que não aconteça exclusivamente com este guru ou com esta organização, acontece com muitas outras e muitas outras mulheres. E obviamente, há sempre o medo associado à exposição. E também ao estigma e ao preconceito que se associa muito a este tema, porque é muito fácil cair naquela ideia de que só quem fica envolvido em seitas são pessoas que ou não estão atentas, ou às vezes até acha-se que são pessoas que não pensam sobre as coisas. E aquilo que o podcast mostra é precisamente o contrário, que é as pessoas que acabaram por ficar envolvidas nesta organização, são pessoas que inclusivamente tinham formação superior, que eram pessoas que pensavam sobre as coisas e precisamente por pensarem sobre as coisas é que acabaram por se envolver com a organização. É muito interessante.
Superar esse lado, não é? De alienação, quase.
Exatamente. Sim.
Tânia, tu tens acompanhado muitos destes projetos dos Podcast Plus, praticamente todos, és autora de alguns deles. São muito diferentes, têm sido desde o início muito diferentes. Temos tido podcasts mais históricos, outros mais políticos, outros até quase de mistério, policiais. Até já tivemos um podcast de ficção. Quais são os ingredientes deste novo podcast? Em que família incluirias este podcast?
Como é uma coisa que continua a acontecer, não vamos para a parte histórica, que isso é uma coisa que nós temos feito muito. Temos recuperado muitas histórias da nossa história portuguesa e não só. Isto é um caso real, é um caso de crime, também. Nós chamamos a este podcast "Os segredos da seita do yoga". Isto é uma seita que tem base numa escola de yoga, num movimento de yoga fundado na Romênia em 1990. Mas temos que dizer também, isto não é exclusivo do yoga. O yoga aqui é circunstancial, é apenas a porta de entrada.
É a capa para o desfase, de alguma maneira?
Sim. Yoga não é isto.
Certo, claro, obviamente.
Eu tenho que todas as quartas-feiras fazer yoga e não é isto.
Não tens esta imagem.
Portanto, eu diria que se calhar voltamos um bocadinho ao crime. E ao universo das seitas, onde nunca tínhamos entrado, e que é um universo que, não sei por quê, exerce um fascínio sobre as pessoas.
É verdade. Se nós pensarmos em muitos documentários que estão nas plataformas de streaming, há inúmeros documentários sobre seitas e são, na verdade, um sucesso.
Acho que temos todos os ingredientes para isto. A história é difícil Nós temos alguns episódios que são bastante pesados, porque estas mulheres passaram por coisas complicadíssimas. Mas acho que sim, que tem todos os ingredientes para poder ser uma história que vai agarrar as pessoas.
Benjamin, fizeste a banda sonora. Já conhecias o formato?
Já, eu tenho seguido os podcasts aqui do Observador já há bastante tempo. Sou um grande fã, sigo atentamente, adoro o formato. Acho que o formato está muito bem feito, agarra logo. O fato de ter banda sonora original para mim, obviamente, que sou muito sensível à música.
Estamos aqui a ouvir em fundo, só para os nossos ouvintes também estarem a par.
E, portanto, obviamente, fiquei muito feliz quando me convidaram para fazer a banda sonora para este podcast.
Já conhecias a história ou não?
Não, não conhecia a história. A história foi-me apresentada na primeira reunião que tivemos aqui. Depois passaram uns episódios em formato guião. Pronto, e fazer a música tem esta coisa que eu depois não tenho que me envolver no lado emocional, porque a história realmente envolve pessoas que passaram por situações complicadas. Mas eu quando estou a fazer música, felizmente, posso esquecer-me disso quase e trazer só uma componente emocional auditiva ao podcast.
Já tinhas feito, Benjamin, alguma banda sonora para algum projeto parecido?
Já tinha feito banda sonora para filmes, mas para podcast, não. Neste formato, eu acho que fazer música para podcast ainda é mais interessante porque as pessoas só estão a ouvir. Não estão a ver nada, só estão mesmo a ouvir. Portanto, o impacto da música ainda é mais direto do que em um filme.
Tiveste mais atenção aos detalhes, por exemplo, como tudo se casava no fim?
Sim, tentei ter. Sim. Foi engraçado também porque estavam aqui a dizer, isto não é ioga. As seitas aproveitam sempre, seja qual for o pretexto, seja uma religião. Não se pode confundir uma seita religiosa com a religião em si. E eu, por acaso, o ano passado tinha ido lua de mel para a Índia e fiz ioga pela primeira vez.
Foi quase um estar sempre a isto.
Foi ótimo, não aconteceu nada disso.
Estava-te a ligar, tu é que não sabias.
Estivemos em Jaipur também e parámos numa lojinha muito gira de instrumentos musicais. E eu tinha comprado estas espécies de guizos e uns pratinhos pequeninos. E quando me convidaram para fazer isto, eu pensei: "É a oportunidade perfeita para usar estes instrumentos". E depois veio um bocado a ideia de criar uma banda sonora mais plástica, bastardizar o que é a ideia de música indiana, música de ioga, e criar uma coisa mais new age, mais fake também.
Aquilo que fazem as bandas.
Exatamente. Ou seja, ter esta componente mesmo plástica, fake, destes sons, alguns sons assim mais étnicos, que são digitais.
E é feito, ou fizeste também tendo aí atenção àquilo que estava a ser contado em cada momento?
Sim. A música tem sempre uma carga, uma intensidade constante, quase opressiva. E essa ideia surgiu exatamente quando eu li o guião. Eu li o guião, sentei-me e comecei a ler com um certo ritmo, e o ritmo com o qual eu estava a ler era o ritmo que estamos a ouvir aqui no fundo, basicamente. Comecei sempre a sentir que a música tinha que fechar a história para frente.
Bem, estávamos aqui a ouvir, de facto, esta banda sonora de fundo pelo Benjamin. Quem também dá voz a este podcast é a Daniela Ruah, que pela diferença horária, não pode estar aqui conosco neste momento. Deve estar a dormir num belo sonho. Sonho e sono. Tânia Pereirinha, como é que foi trabalhar com a Daniela Ruah e Mariana também? Já vamos ouvir aqui uma pequena passagem da Daniela Ruah, que fez questão de nos mandar aqui dois áudios, mas como é que foi trabalhar com a Daniela Ruah? É, com todo o respeito pelas outras pessoas que já fizeram, atores e atrizes, que fizeram narrações do podcast, estamos a falar de uma estrela internacional.
Foi de Los Angeles para Alvalade.
De Los Angeles para Alvalade e para o mundo.
Foi incrível, correu muito bem. E lá está, acho que ela dá um toque incrível a este podcast, porque é ótima. A Daniela acho que fez tudo bem. E fez tudo bem à primeira, que é uma coisa que nem sempre acontece. Foi uma experiência muito boa.
Mariana.
A minha experiência foi um bocadinho diferente da Tânia, porque obviamente que produzir o podcast envolve muitas mãos. Não é só quem escreve, não é só quem faz a música, é muita gente, é uma equipe muito grande. E foi muito interessante porque eu só acompanhei o início, portanto, acompanhei o primeiro dia, penso eu, de gravações da Daniela, e nunca tinha tido essa experiência, portanto, daí a minha experiência ser diferente da Tânia. E achei espetacular, porque a Daniela tinha feito todo um trabalho de casa, digamos assim, porque tinha lido algumas coisas. Ela própria disse que andou a procurar notícias também, informação sobre o guru e esta seita e tudo mais. E, portanto, acho que isso também ajudou muito, porque ela própria já tinha uma noção do peso da história, da seriedade da situação, da gravidade.
E acho que isso também contribuiu muito para a narração, o compreender a história e o impacto que isto teve e continua a ter nas pessoas que estão envolvidas.
Daniela Ruah, que como dissemos, pela diferença horária, não pode estar aqui em direto conosco, mas conversou com o Observador. Neste pequeno excerto que vamos ouvir, ela fala e diz como é fã de podcasts de crime e investigação, que de certa forma também é uma ajuda para o vosso trabalho, Mariana e Tânia, como sempre quis narrar um e fala também sobre a história e como as seitas se aproveitam muitas vezes de pessoas mais fragilizadas. Vamos ouvir.
Oiço muitos podcasts, adoro audiobooks, audiolivros e passo muito tempo no trânsito em Los Angeles e aquilo que eu mais faço é ouvir audiobooks e podcasts. Por isso tenho imenso gosto em participar num, também sempre quis fazer. Eu gosto muito de histórias de investigação e tenho tendência a ouvir muitos podcasts que têm a ver com crimes, tanto alguns resolvidos como não resolvidos, e acho fascinante como existem pessoas no mundo com uma certa distorção mental e que para nós, visto do lado de fora, é tão óbvio, mas no fundo, quem está metido na história e quem está por dentro não tem a objetividade de conseguir identificar aquilo que lhe está a fazer mal. No fundo, é como qualquer coisa, qualquer um de nós já esteve numa má relação, mas quando estamos lá dentro é muito difícil identificar aquilo que nos está a fazer mal até sairmos cá para fora e vermos realmente: "Meu Deus, como é que eu deixei que isto durasse tanto tempo? Como é que eu permiti que me fizessem isto?" E neste caso, não é uma relação em que houve discussões, neste caso realmente é um tema que envolve tráfico de seres humanos, tomar partido de uma pessoa que esteja fragilizada pelas experiências de vida que teve ou que tem ou problemas de família, ou problemas do que quer que seja, e aproveitam-se disso porque criam uma comunidade. Estas seitas criam uma comunidade em que as pessoas se sentem muito bem recebidas e sentem-se ouvidas e vistas e logo estão dispostas a dar tudo. No fundo, quase como agradecimento ou "pronto, eu preciso fazer isto para me manter parte desta comunidade. Eu não tenho uma comunidade fora daqui, faço tudo para ficar aqui." Mesmo que haja aquela vozinha a dizer: "Não faças". Há as pessoas ali à volta que vão dizendo: "Mas podes, estás bem, estás segura, estás em boas mãos." E eu acho que as pessoas acabam por nem saber como é que chegou a um certo ponto.
Daniela Ruah, que é a narradora deste novo podcast plus, "Os Segredos da Seita do Yoga". Queria vos perguntar também, Tânia, Mariana, o nome, chegar a este nome. Brainstorming muito complicado, muito elaborado, como é que foi? Ou foi mais simples?
Palavra-chave: seita, yoga.
Esse processo é sempre um brainstorming.
É porque depois é um nome que fica para sempre, não é?
Sim. E lá está, temos aqui palavra-chave. Havia outra que não entrou e que não encaixamos, que foi a parte do sexo, porque tudo isto está muito relacionado com abusos sexuais, com iniciações. Este guru funciona, as aprendizagens que se têm nesta escola estão ligadas com yoga e com tantra e são todas transmitidas muito através do sexo. Há muitas iniciações teóricas que são dadas nas aulas e depois há iniciações práticas que só o guru pode dar. E essas iniciações nada mais são do que abusos sexuais ou práticas sexuais.
Mascarados.
Mascarados, sim. E claro que aqui é sempre muito difícil definir o abuso, porque na altura em que lá estão, estas pessoas acham que querem aquilo. E acham que estão a fazer aquilo pelo seu bem e pela sua evolução espiritual. É uma expressão que todas elas utilizam muito. E só quando conseguem sair, quando conseguem perceber e olhar de fora para dentro, é que se apercebem que foram abusadas. Portanto, o nome não incluiu o sexo.
Também podia dar uma imagem errada acerca do próprio papel do sexo nesta seita.
Exatamente, sim.
Não estarmos a falar de abuso sexual.
Sim. E lá está, tudo gira à volta de segredos. Como é que isto se mantém? Isto mantém-se porque não há comunicação, porque a informação é compartimentada, porque há grupos de homens e grupos de mulheres, porque tudo é segredo, todas as iniciações são secretas e nada se pode partilhar fora da sala ou do quarto em que acontecem. Percebes? E além dos segredos, desculpe interromper, além dos segredos, há a questão dos juramentos. Porque além de terem de garantir esses segredos, por que garantem os segredos? Porque fazem os juramentos. São forçadas a fazer juramentos antes de qualquer coisa. Nem sequer sabem o que vai acontecer, mas já estão a fazer juramentos e jurar pela sua evolução espiritual, em como não vão contar nada daquilo que vai acontecer a seguir.
Já vamos contar esses segredos, guardar esses segredos. Não todos, como é óbvio.
Na segunda parte, e dizer que este primeiro episódio do novo podcast plus do Observador, "Os Segredos da Seita do Yoga", já está disponível. Voltamos já a seguir. Segunda parte do Explicador, esta manhã sobre os segredos da seita do yoga. É o novo podcast plus do Observador, que estreou hoje uma série de seis episódios narrada pela atriz Daniela Ruah, banda sonora original de Benjamim e autoria das jornalistas Mariana Marques Tiago e Tânia Breirinha. Já falámos aqui muito do podcast, agora se calhar vamos ouvir aqui um pequeno excerto para ficarmos também com água na boca daquilo que vamos poder ouvir ao longo dos próximos seis episódios.
Muitas vezes, para terem acesso a algumas iniciações, as alunas não precisam apenas de jurar silêncio sobre a Bíblia, pela própria saúde, pela saúde da família ou pelo futuro espiritual. Têm também de provar que o privilégio é merecido. E isso, dependendo da iniciação, pode levar meses. Vera revela que a forma de atuar é sempre a mesma. A aluna é chamada à parte e informada de que pode vir a ter uma iniciação muito especial. Ninguém explica que técnica vai aprender, só o que tem de fazer para poder ter acesso a ela. E ela obedece, sem questionar.
E se eu fizesse essa prática toda direitinha, então depois no final, eu assinava um juramento em como tinha feito a prática em condições, que ia manter secreto tudo o que nos tinha sido ensinado.
Benjamim, ouvimos aqui a musiquinha de fundo sempre. Já nos contaste há pouco que começaste por receber um guião escrito. E a partir daí, como é o processo criativo? Tu crias vários ambientes que se adaptam depois a vários momentos da história? Como é que é?
Por acaso eu tinha um brief bastante específico da maneira como é produzido o podcast.
Esta é a parte em que a Tânia se esconde.
Não, em relação à música, eu tive liberdade total. Aliás, nem sequer havia a questão de aprovação, que é bastante refrescante, devo dizer, não ter essa preocupação de passar o tempo todo com dúvida se as pessoas vão aprovar a ideia ou não. Isto obviamente é uma produção complexa, são muitos episódios e imagino que a pós-produção disso dê mesmo muito trabalho. E o que me pediram foi que fizesse uma faixa mais comprida para poderem conseguir extrair vários ambientes a partir de uma grande música, e foi o que eu fiz. Eu basicamente enchi de sons e camadas o máximo possível para dar o máximo de liberdade depois na pós-produção para poderem usar vários ambientes.
Mas eram mais requisitos técnicos, por assim dizer, do que propriamente sugestões em relação ao produto.
Sim, que condiciona ou que informa, não é a maneira como o processo criativo vai aparecer, porque pode-se fazer música de mil maneiras e é bom que já que há um processo mais ou menos definido, isso ajudou-me a balizar também o que eu vou fazer, como é que eu vou fazer a música, depois havia o requisito que a música tinha que ir crescendo e atingir um clímax.
Isso é muito diferente do teu processo criativo habitual?
Eu acho que é sempre diferente, porque cada música, cada canção, cada disco, cada projeto tem a sua história.
Mas muitos outros autores de bandas sonoras para podcast do Observador falaram desse lado quase lúdico e experimental, de fazer coisas muito diferentes daquilo que costumam fazer. Aconteceu o mesmo?
Sim, 100%. Aliás, poder fazer um fake yoga. Esta música que tem estes contornos mais exóticos, entre aspas, e eu saber que não haver qualquer, ou seja, tentar mesmo forjar a autenticidade da coisa, tem um lado irônico, eu não ia fazer isto num disco meu, não ia pôr um som de sitar de repente. Quer dizer, nunca se sabe.
Agora que já tens os instrumentos, não é?
Até podia, mas eu diverti-me mesmo muito a fazer isso. Eu ria-me sozinho a pensar quão longe é que eu poderia ir nessa brincadeira, nesse jogo. Depois também convidei um amigo meu para tocar uma bateria por cima e trouxe esse elemento percussivo ainda mais denso. Deu muito gozo fazer, mesmo.
Mariana, escrever para outros, para a voz de outros, é diferente ou não?
É.
Então.
É, mas é muito giro, porque é diferente daquilo que estou habituada.
Uma coisa é escrever para ser lido.
Sim, exatamente.
Para o leitor, outra é escrever um guião.
E mesmo a própria lógica, o encadeamento das ideias, tende ser diferente. E nesse aspecto, eu agradeço muito à Tânia, que tem muito mais experiência do que eu.
Já. Uma veterana.
Exatamente. Mas é muito engraçado, porque custa um bocadinho a arrancar nesse modo de escrita, porque as ideias, as frases tendem ser mais curtas.
Sim, a pessoa não pode ficar sem fôlego.
Exato.
A cadência tem muito reflexo depois no resultado final.
Exatamente.
Posso fazer aqui um elogio ao guião, é porque quando eu li o guião, parecia que eu estava a ouvir o podcast. Eu não tinha ouvido, ou seja, só a ler, a maneira como está escrito, já está.
Já tu próprio estavas a ser a Daniela Ruah também.
Exato.
Está pronto para a reação. Não sei se as pessoas vão concordar.
Deixa-me fazer ainda uma pergunta acerca daquilo que estávamos a falar ainda na primeira parte sobre os segredos. Esta é uma história com muitos segredos. Segredo também é a palavra que está no título do podcast. Como é que se conta uma história, como é que se chega ao sumo da história, numa história tão marcada por segredos?
Sim. Eu acho que aí temos de agradecer muito às pessoas que aceitaram falar conosco. E há bocadinho até partilhava isto com o Benjamim, porque foi um trabalho também de confiança das pessoas que falaram conosco e que aceitaram sentar-se conosco durante quase três horas ou quatro de entrevista em que
Estiveram a reviver tudo aquilo que algumas já estavam a suprimir e outras que continuam a lidar com isso. E é um trabalho difícil de ouvir, é difícil depois escrever também, de forma que também haja alguma sensibilidade para aquilo que aconteceu. E aqui não estamos a falar só das mulheres, estamos a falar também de homens, porque os homens também fazem parte desta organização e nós também não falámos disso ainda. A questão é que eles ficavam à parte daquilo que acontecia. O que acontece é que muitas vezes tinham relações com estas mulheres e não sabiam, relações no sentido de terem relacionamentos.
Não sabiam o que se estava a passar.
Exatamente, porque elas próprias também escondiam isso. É difícil e acho que também envolve muito este exercício de confiança. Elas e eles confiaram em nós e confiaram que nós íamos fazer o melhor trabalho possível.
Tânia.
Ia acrescentar só que na parte técnica, nós pela primeira vez no Podcast Plus temos vozes trabalhadas com inteligência artificial. Disfarçadas, exatamente.
E por que essa utilização? Tem a ver com isto, com o conteúdo também sensível, com a proteção de quem partilhou estas histórias?
Não foi difícil chegar a estas pessoas, até porque este podcast já nasce depois de "O Observador" ter feito uma reportagem sobre esta história.
Ou seja, já havia um ponto de partida.
Havia um ponto de partida. Aliás, "O Observador", como todos os meios do mundo inteiro, dão a notícia quando este guru, Grégory Bivolaru, é preso em novembro de 2023 em Paris. E depois disso, nós, "O Observador", recebemos um e-mail a dizer: "Atenção, este senhor também tem atividade em Portugal. Há vítimas desta pessoa em Portugal" e a partir daí, "O Observador" faz uma reportagem, portanto, as pessoas estavam identificadas. Na altura, nem todas falaram. O trabalho foi feito com muito menos tempo, claro. E aqui a Mariana teve um grande trabalho a tentar convencer e a conseguir que estas pessoas confiassem e quisessem falar. Entretanto, elas aceitam falar, mas não dão nem o nome, nem dão a voz. Nós costumamos dizer que não dão a cara, neste caso, não dão a voz. Elas sabem que as pessoas que estão ainda dentro da escola e dentro da seita, digamos assim, sabem quem elas são. Elas vão ser reconhecidas, isso é óbvio. O que elas não querem é que as pessoas cá fora, do resto da vida, os familiares, os amigos.
Uma exposição pública.
Claro.
Exposição pública dessa informação.
De facto, Tânia, por regra, os Podcast Plus contam-nos histórias que acabaram no tempo, de alguma maneira. É um processo, uma história que acabou, teve o seu desfecho de alguma maneira. Por aquilo que acabas de dizer, são práticas que continuam, de alguma maneira.
As iniciações com o guru não continuarão porque ele agora continua preso.
Está detido, portanto, com aquela pessoa não.
Sim, com aquela pessoa não. Nós não conseguimos falar com pessoas que ainda estejam lá. Aliás, temos as respostas oficiais da escola, que se demarca de tudo e que diz que não sabe.
Certo. Mas é um processo que está em curso.
Sim. Grégory Bivolaru, tal como outras pessoas do topo da hierarquia deste movimento, continuam presas preventivamente em França. Pode vir até quatro anos, ele já cumpriu dois anos de prisão preventiva.
Vamos fazer aqui uma ronda rápida para perceber também, leram o guião e de certa forma a Tânia e a Mariana estiveram aqui mais envolvidas na construção daquilo que é o podcast. O Benjamim já nos disse que leu o guião para se inspirar para a banda sonora. Qual foi o ponto que mais te marcou nesta história?
Não, leste tudo.
Eu não li o guião todo.
Nem dês spoiler.
Não, é o controle das pessoas. Como é que as pessoas ficam isoladas do mundo. Esta história repete-se, nós já vimos este formato em muitos outros contextos. Como é que de repente alguém consegue controlar a vida de pessoas de maneira tão absoluta?
A capacidade de manipulação.
É muito assustador isso.
E o sentido etimológico da palavra seita é esse, é o corte com o resto.
Exato.
E às vezes até com pessoas que são próximas. Sentiram isso à medida que iam avançando na investigação?
As próprias pessoas contavam-nos muito isso. Aliás, sabemos de pessoas que ainda pertencem à organização e cortaram ligação com os pais, por exemplo, a partir do momento em que os pais os confrontaram com os factos. Estas pessoas vivem no interior da seita. Exato. Eles vivem em ashrams. Estas pessoas com quem nós falámos viveram durante vários anos da vida delas em comunidade com aquelas pessoas apenas. Outra coisa que eles têm também é agendas carregadíssimas, têm que praticar ioga várias horas por dia, no mínimo duas, têm trabalhos domésticos que têm que fazer no ashram, depois têm trabalho voluntário que têm que fazer fora. Portanto, a vida deles direciona-se toda para ali e deixa de haver espaço para o resto.
Em Portugal havia apenas uma escola, havia várias comunidades, como é que funcionava?
Em Portugal havia duas escolas, uma em Lisboa, outra no Porto. Nós entrámos, digamos assim, entre aspas, na comunidade de Lisboa, que tinha vários ashrams, várias casas onde estas pessoas viviam em comunidade.
Acreditam que esta história também pode levar a que sejam outras conhecidas, outras casas, aqui falamos de dois casos, Lisboa e do Porto, vocês entraram na de Lisboa. Acreditam que seja possível que também desperte para outras realidades, para outra consciência sobre isto?
Eu acho que se calhar esta história pode ajudar pessoas que conhecem pessoas a perceber sinais. Não me parece que vá fazer alguma coisa às pessoas que estão lá. Porque as pessoas que estão lá são blindadas de tudo aquilo que vem de fora.
Sim, a Mariana falava disso há bocadinho.
Não, mas estão blindadas, não podem ver notícias. Tudo aquilo que se diz do guru é falso, as pessoas querem atacar. Existem fóruns na internet. Está tudo desenhado para proteger aquela pessoa e esta organização e tudo que vem de fora é ruído, é mentira. São pessoas que querem atacar o modo de vida deles.
É o comportamento típico das seitas, e não só religiosas.
Sim, inclusivamente.
Ou mentalidade de seita.
Exatamente. Eu ia só dizer que são incentivadas a não fazer perguntas, que também é curioso. Supostamente dão espaço a isso, mas quando alguém avança com uma pergunta, são automaticamente suprimidas. Portanto, não há informação exterior a entrar lá dentro.
A Daniela Ruah, como já dissemos, é narradora deste novo podcast Plus do Observador, está em Los Angeles. Neste momento é madrugada, portanto está a dormir e faz muito bem, mas falou com o Observador e fala sobre isto, como este podcast é importante para ajudar, denunciar e até reconhecer outras seitas.
Não só é uma história importante de contar, porque realmente podemos aprender a identificar os sinais que levam uma seita a ser criada, como muitas vezes nós pensamos: "No meu país isto não acontece" ou "na minha comunidade isto não acontece" e é chocante que tenha passado por Portugal. Isto se calhar não é a resposta mais adequada, mas eu acho que o que me surpreendeu mais foi não me surpreender. Porque não é a primeira vez que isto acontece, que as pessoas são manipuladas e não estamos a falar só na seita de ioga, estamos a falar em várias coisas diferentes. Waco, Texas, seitas políticas. Eu acho que há muitas maneiras de existirem seitas em várias vertentes da vida diferentes. E o chocante é que a psicologia e a psiquiatria atrás disto é sempre igual. Os passos que é preciso para manipular uma pessoa e para começar a distorcer uma pessoa, a aceitar certas coisas que lhes aconteça ou manipular alguém para fazer algo que normalmente não fariam. Isto é livro científico, isto é um textbook, isto é uma coisa que existe há muito tempo e sabendo como é que isso funciona, eu acho que o que é mais surpreendente é que as pessoas ainda se deixam manipular dessa forma. Mas quando nós estamos numa fase de vida um pouco mais frágil e todos nós já passamos por isso, quer seja divórcio de família, perda o emprego, há uma morte na família, há uma falta de sucesso no trabalho, existem mil maneiras de nós nos sentirmos um pouquinho mais fragilizados e um pouquinho mais abertos a receber o que vem de fora. E é nessas alturas em que as pessoas se tornam presas dos predadores que andam por aí. A mentalidade de uma seita também, quer seja em Portugal ou não, é isolar as pessoas, não deixá-las ouvir a informação toda ou desmistificar a informação que lhes chega. "As pessoas têm más intenções, as pessoas não querem que tu faças parte da nossa comunidade, não estás tão feliz aqui." Faz tudo parte da manipulação, mas é muito mais chocante estar a ler uma história que tenha passado por Lisboa. Eu acho que a forma do próprio podcast ser desenvolvido, a parte da sonoplastia, o design de som, tudo, irmos buscar entrevistas, eu acho que se estamos no carro a ouvir, conseguimos imaginar-nos mesmo presentes com o podcast. É quase como se estivéssemos a ver um filme sem ver. É isso, é muito imersivo. É uma história fascinante. Aconselho mesmo a ouvirem.
Benjamin, e como é que tu agora ouves a integração de tudo? Leste um guião, fizeste a música e agora está tudo junto. A voz, todo o trabalho de sonoplastia, para além da música, sincronização.
Eu estava a ouvir no caminho para cá. Comecei a ouvir o podcast, que eu só tinha ouvido uns testes, mas obviamente, é daqueles momentos sempre mágicos, quando de repente ouvimos aquilo que fazemos num contexto. Neste caso, é um contexto muito específico, de repente a música ser aplicada.
E não tiveste interferência depois de onde é que se põe a música. Entregaste o produto e a partir daí ficou nas mãos da produção.
E a maneira como eu produzi a música foi exatamente para conseguir dar o máximo de liberdade e o máximo de opções. Houve algumas escolhas, aquele som que é uma espécie de uns crótalos indianos, que eu quando gravei imaginei que pudesse ser um som que identificasse logo o podcast e de repente, quando eu vi isso, obviamente fiquei logo todo feliz.
Eles perceberam. Bem, vamos ouvir mais um excerto deste primeiro episódio, que já está disponível e que já pode ouvir.
"Não é que as relações monogâmicas fossem proibidas na escola", diz Lara, que entrou na Nata de Lisboa justamente pela mão de um amigo que havia de se tornar namorado. Eram só desaconselhadas e vistas como menores. Por isso, sempre que possível, deviam ser evitadas, de forma voluntária ou com uma pequena ajuda de outros alunos e alunas.
Chegaram a existir casais, às vezes até pessoas casadas, que frequentavam as aulas, e ia haver sempre, por exemplo, mulheres um bocadinho a tentar seduzir aquele homem e homens a tentar seduzir aquela mulher
No fundo, para tentar tirá-los da monogamia. Não sei se era propositado. A forma como era vista a monogamia era que era uma coisa demasiado fechada.
Mais um excerto deste primeiro episódio do podcast "Os segredos da seita do yoga". Mariana, tu que és uma das autoras deste novo podcast Plus, se pudesses deixar aqui um convite aos nossos ouvintes, a quem nos está a ouvir agora, está no carro a caminho do trabalho ou já está no escritório, o que é que dirias?
Convence os nossos ouvintes, Mariana.
Acho que é uma história que toda a gente deve ouvir, seja para identificar os sinais, seja para ter conhecimentos que isto acontece e acontece no meio das nossas cidades, no meio da nossa comunidade e pode acontecer com amigos nossos e, acima de tudo, afastar o preconceito de que isto só acontece a quem não pensa sobre as coisas. Não sei, que não está tão intelectualmente envolvido.
É um pouco como as burlas, que nós ouvimos muitas vezes. Nós achamos sempre que pessoas de um determinado nível, com instrução, não são vulneráveis a esse tipo de esquemas, mas a verdade é que são.
Sim, exatamente. E acho que o podcast é essencial para isso e para alertar para isso. Não sei se a Tânia quer deixar outro convite.
Tânia, já são muitos podcasts, o que é que este tem de diferente?
Todos são diferentes.
Qual é o teu preferido?
Não tenho filhos preferidos. Mas acho que pegando naquilo que a Mariana dizia, de que pode acontecer a qualquer pessoa, e pode, parece-me mesmo muito fácil, porque no início é tudo incrível e isto é o ABC da seita. No início, é tudo maravilhoso. Aquelas pessoas encontraram um sítio onde finalmente se sentem acolhidas, se sentem parte de alguma coisa, o espaço delas é ali. Não existem abusos no dia um, nem no primeiro ano, provavelmente.
É um caminho.
Isto é um caminho, exatamente. E nem todas as pessoas que frequentam ou que frequentaram esta escola, por exemplo, seguiram este caminho, porque só algumas é que eram puxadas para este lado. Portanto, também pode acontecer que haja pessoas que frequentaram a escola e que digam: "Isto não acontece. Eu andei lá e não é assim."
E também há a escolha das pessoas que têm perfil visível.
Exato, claro. Há um padrão de seleção, digamos assim.
Agradecer-te a ti, Tânia Pereirinha, Benjamim, Mariana Marques Thiago e também a Daniela Ruah, que esteve aqui de certa forma presente nesta conversa. "Os segredos da seita do yoga" é o novo podcast Plus do Observador. A cada terça-feira sai um novo episódio e a boa notícia é que se é assinante Standard ou Premium, já pode ouvir tudo, assim de uma assentada só. Portanto, está tudo disponível no site do Observador.
E vai ser um grande sucesso, de certeza.
Vai ser. A Tânia já está aqui a esfregar as mãos. Ainda hoje, aqui na Rádio Observador e depois das 15h30, o Pedro Oliveira, que é o sonoplasta de serviço deste novo podcast, e o João Santos Duarte, editor de podcasts do Observador, vêm também falar dos segredos da seita do yoga para ouvir aqui logo à tarde, depois das 15h30. Muito obrigado. Obrigado.
Obrigada
Obrigado