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Portugueses, acabei de decretar o estado de emergência.

Faleceu um doente que tinha a doença Covid-19.

Esta pandemia ainda não atingiu o seu pico.

Começaram a trabalhar na linha SNS 24 mais 112 enfermeiros.

Vamos ver como vai ser o desfecho.

E vamos vencer.

Há ou não possibilidade de uma segunda vaga e com que intensidade? A discussão começou perante a incerteza lançada por responsáveis da OMS, em declarações aparentemente contraditórias. Em tempos de pandemia, é fundamental uma informação clara, verdadeira, assertiva, para não semear o medo e a ignorância. Hoje conversamos sobre a possibilidade de novas vagas da Covid-19 com o professor de Epidemiologia, Manuel Carmo Gomes. E a fechar, esta pandemia expôs a miséria em que muitos vivem, mas também mostrou aquilo que a humanidade tem de melhor para ajudar o outro.

Esta é uma luta pela nossa própria sobrevivência.

"La priorité absolue pour notre nation sera notre santé."

"La victoria depende de cada uno de nosotros." Test, test, test. "If you are sick or not feeling well, stay home."

A situação em Lisboa é complexa, está sob observação, mas também está sob medidas de controle muito apertadas.

219 novos casos em todo o país. Destes 219, 211 são da região de Lisboa e Vale do Tejo. 96,3% do total de novos infetados, a maior percentagem desde o início desta pandemia. Foram descobertos três novos focos na margem sul do Tejo, nos conselhos de Almada e Seixal. Graça Freitas, diretora-geral da Saúde, que acabamos de ouvir, confirma que um deles é no bairro da Jamaica.

É um dos focos e neste momento tem identificados 16 casos positivos que estão todos a ser acompanhados pelas autoridades de saúde da região. Concretamente em relação à Azambuja, a situação é estável e controlada, portanto, a política de testes está a ser feita de acordo com uma estratificação do risco, obedece a um determinado plano.

Poucos casos nos últimos dias na Azambuja. As autoridades de saúde consideram que a situação está controlada. Em todo o mundo, o número de casos confirmados passou a barreira psicológica dos 5,5 milhões e o número de mortos aproxima-se agora dos 350 mil. Só no Reino Unido morreram 47 mil pessoas e os Estados Unidos vão chegar aos 100 mil mortos nas próximas horas. Nas Filipinas, o presidente diz que não há aulas enquanto não existir uma vacina. Estamos a falar de 25 milhões de crianças e jovens que deviam regressar às aulas no final de agosto. O número de certificados de óbito na Cidade do México aumentou mais 8000 do que a média dos últimos quatro anos. Os números oficiais de óbitos devido à Covid-19 apontam para 7400 em todo o México, mas são tidos como muito pouco credíveis por diversas fontes. A Austrália vai manter as fronteiras encerradas e a única exceção poderá ser a vizinha Nova Zelândia. Um estudo japonês revela que as máscaras podem ser perigosas para crianças com menos de dois anos, representam um sério risco de asfixia e não devem ser usadas. Já a seguir falamos com Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia de Doenças Transmissíveis da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Afinal, está ou não prevista uma segunda vaga?

Esta manhã, Maria Neira, uma das diretoras de Saúde Pública da Organização Mundial de Saúde, afirmou que a hipótese de uma segunda vaga é cada vez menos provável. Uma posição que não é partilhada pelo diretor-executivo de Programas de Emergências Sanitárias da OMS. No habitual briefing diário da organização, Michael Ryan defendeu que é preciso estar ciente que a doença pode disparar a qualquer altura. Em reações ao Observador, os especialistas portugueses pedem precaução perante a incerteza.

Bem-vindo, professor Manuel Carmo Gomes.

Obrigado.

Deixe-me começar por lhe perguntar como é que se posiciona em relação a uma eventual segunda ou mais vagas. Deixe-me provocá-lo mesmo assim à séria. É a favor, é contra ou antes pelo contrário?

Antes pelo contrário. Ninguém sabe exatamente se nós vamos ter uma segunda vaga ou não. O mais provável é que nalguns sítios tenhamos, noutros sítios não. E já agora, não basta só dizer se haverá ou não segunda vaga. É preciso também ter uma ideia da duração e da dimensão da vaga. Portanto, tudo isto são incógnitas neste momento. Ninguém me pode dizer com certeza que haverá, não haverá. E eu como lhe digo, o mais provável é nos locais sim, noutros locais não.

Mas como é possível estarmos a assistir este tipo de dúvidas e discussão lançadas por pessoas com responsabilidade na praça pública? Isso não tranquiliza nada, nem ninguém, não é?

Sim, é verdade, houve uma certa confusão. No entanto, eu chamaria a atenção para o facto de que quando a doutora Maria Neira, que foi a responsável da OMS, que deu origem, aparentemente, a esta confusão, quando ela deu a sua entrevista, que salvo erro, foi a uma rádio da Catalunha.

Exatamente.

Se ouvirem com atenção, ela na mesma entrevista diz três coisas que são importantes e que não são muito coincidentes com a conclusão de que a segunda vaga seria improvável. E as três coisas são: ela, por um lado, diz que há dúvidas sobre como é que a transmissibilidade do vírus se vai dar com o verão. Portanto, não se sabe. É verdade, não se sabe. Depois diz que há ainda muito pouca gente imunizada. E isto é importante, porque se houver uma segunda vaga, vai explorar o fato de não haver pessoas já imunizadas. E depois diz, ela própria, que a OMS está a utilizar modelos, ou pelo menos está a olhar para modelos, que preveem desde surtos pontuais até uma segunda vaga importante. Ela diz isso tudo na mesma entrevista. E depois, na entrevista, também diz que a OMS considera que é mais improvável uma segunda vaga. Eu diria que as três primeiras coisas que ela diz não são muito coerentes com esta última coisa, porque se há dúvidas sobre o que vai acontecer no verão, há pouca gente imunizada e os modelos preveem tudo e mais alguma coisa, como é que se pode dizer que a segunda vaga é mais improvável? Da entrevista dela, ouvindo aquilo tudo com atenção, não sei porque ela disse esta última frase, mas as primeiras premissas que ela diz não batem certo com a conclusão de que uma segunda vaga é mais improvável. Isto não quer dizer que eu não concorde com isso, mas da entrevista dela há ali uma certa incoerência.

Mas por prudência devemos estar obviamente muito preparados para isso, não é? E já estamos.

Sim, com certeza. A propósito de segunda vaga, vamos lá ver. Do que depende haver ou não segunda vaga? Depende, em termos um bocadinho técnicos, do valor que o famoso R, neste caso seria o R efetivo, vai tomar durante um certo período de tempo. Se ele passar para cima do valor um, significa que por cada doente nós vamos ter mais do que um contágio. E se ele se mantiver acima de um, durante algum tempo, nós começaremos a assistir a um crescimento do número de casos, que pode ser um crescimento exponencial. É evidente que se isso acontecer, as autoridades dos países que têm sistemas de vigilância, que estão atentos, vão imediatamente reagir e aquilo que se poderia transformar num crescimento exponencial, vai se transformar numa vaga. Eu sou da opinião que é pouco provável que tenhamos qualquer coisa que se assemelhe àquilo a que assistimos em março e abril. Por várias razões. Primeira razão é que, de facto, as pessoas estão mais alerta. Esta coisa do R da doença passar para cima de um, depende não só do número de contactos que as pessoas têm entre si, mas também da probabilidade de um contacto ser um contacto de risco.

E do comportamento.

Exatamente, do comportamento. Eu posso contactar com 10 pessoas por dia, mas se todos nós mantivermos distanciamento, usarmos máscaras, lavarmos as mãos, tivermos os cuidados que são recomendados, eu posso contactar com 10, 15 pessoas por dia, que como não são contactos de risco, não significam que eu vou estar a contribuir, se eu estiver infectado, para a propagação da doença. E eu acho que neste aspecto, nós estamos muito melhor preparados, todos nós. Nós estamos alerta e desde que nós não nos esqueçamos que o vírus está entre nós e provavelmente não vai desaparecer com o verão, é evidente que nós, mantendo o nosso comportamento, vamos diminuir a probabilidade de que um contacto dê origem a um contágio.

Mas esta situação que estamos a viver, onde felizmente muitos de nós não contactaram com o vírus, não estão doentes, isto não pode levar a um certo relaxamento por parte da nossa atitude, do nosso comportamento? Isso não pode ser perigoso?

Com certeza que sim. E por isso, ainda bem que fala no assunto, eu não vejo com muito maus olhos o facto de nós, Portugal, e não só Portugal, a generalidade dos países europeus, pelo menos, estarmos a assistir a um permanente número de novos casos por dia. Nós em Portugal, neste momento, estamos com cento e tal, 200 casos por dia continuamente, e isto tem alguns aspectos positivos. O primeiro aspecto é que estamos a consumir as pessoas que são suscetíveis, estamos a imunizar a população, preferivelmente sem atingir os grupos de risco. O segundo aspecto é que as pessoas mantêm a memória de que o vírus está entre nós, portanto, não desapareceu.

É algo muito presente, não é?

É algo muito presente. Imagine que, por exemplo, nós passávamos o mês de julho e agosto sem ter casos. Íamos ter o risco que o Ricardo referiu.

Em setembro já ninguém se lembrava.

Exatamente. E portanto, podem relaxar as medidas de contacto na altura mais perigosa, que é o outono. E por que é mais perigosa? Porque as pessoas começam a encontrar-se mais em recintos fechados, e portanto, a probabilidade de contacto e contágio é maior.

E temos aquele tal fator da temperatura e da umidade que o professor falou no nosso programa sobre as praias.

Exatamente. Em sistemas confinados, em sistemas fechados, a umidade relativa é baixa e isso é vantajoso para o vírus. Portanto, convém que nós mantenhamos a memória precisamente para não relaxarmos as nossas medidas de precaução em relação aos contactos que temos.

E há aqui também notícias que tivemos recentes ainda desta semana, que dão conta de que o vírus poderá estar a tornar-se mais infeccioso. Em que ponto é que estamos nesta altura? Conseguimos também ter uma resposta taxativa neste ponto, ou não?

Eu não li nada ainda sobre esse assunto que me convença que isso que acabou de dizer é verdade. Para já, não há propriamente ainda várias estirpes de vírus. E a definição de estirpe em virologia é uma coisa um bocadinho complicada, porque não é muito claro o que é uma estirpe nova. É preciso que um vírus conduza a alterações patológicas ou de transmissão muito inequívocas para se poder falar de uma nova estirpe. O vírus está a mutar, é um vírus RNA. Os vírus RNA mutam muito, mais do que os vírus DNA, mas este vírus tem uns mecanismos de biologia molecular que o fazem não mudar tanto como o vírus da gripe, por exemplo. Ele está a ter mudanças. A esmagadora maioria das mutações que ele tem não fazem nada. Não afetam nem a transmissibilidade, nem a infecciosidade. Agora repare uma coisa, existe teoria em biologia populacional sobre estas coisas dos vírus e da virulência e da transmissibilidade. Repare, do ponto de vista do vírus, entre aspas, não é vantajoso tornar-se muito infeccioso e, portanto, liquidar rapidamente o seu hospedeiro, o humano que ele infectou, porque se o vírus fizer isso, a sua transmissibilidade diminui. Não sei se me faço entender. Se eu for infectado por um vírus que é altamente infeccioso e que me isola rapidamente e eventualmente liquida-me, eu terei muito menos oportunidade de transmitir o vírus a outras pessoas, porque não ando por aí a passear na rua, vou imediatamente para a cama e sou confinado ou no hospital. Do ponto de vista do vírus, não é necessariamente vantajoso tornar-se mais infeccioso. E isto é tanto mais verdade, quanto menos pessoas suscetíveis ao vírus houver. Ou seja, numa fase inicial, em que toda a gente é suscetível ao vírus, o vírus pode se dar ao luxo, entre aspas, de ter mutações que o tornam mais perigoso, mais infeccioso, porque há tanta gente suscetível ao vírus que ele tem facilidade em transmitir-se. Mas a partir do momento em que há menos pessoas suscetíveis, porque estão imunizadas ou porque as pessoas têm cuidado, do ponto de vista evolutivo do vírus, não há vantagem em tornar-se infeccioso. Pelo contrário, há vantagem em ser menos infeccioso, que é para a pessoa não adoecer logo, andar mais tempo com poucos sintomas ou sem sintomas a transmitir, isso do ponto de vista do vírus é vantajoso. Aquela ideia de que estes vírus têm tendência para mutar e tornar-se mais perigosos, etc, do ponto de vista evolutivo, isso não é muito defensável. E como lhe digo, para voltar à sua pergunta inicial, eu até agora não li evidência nenhuma de que estejamos a caminhar numa direção ou noutra, pelo menos evidência convincente, em revistas da especialidade.

E mais um ponto importante: estará ele a desaparecer ou poderá ele vir a desaparecer ou vai tornar-se endémico?

Eu acho que ele vai se tornar endémico.

Ou seja, vai viver entre nós, não é?

Exatamente. Eu acho que isso é a opinião generalizada da maioria dos epidemiologistas. Não vejo razão para ele desaparecer. Nós antigamente tínhamos a época dos vírus respiratórios, da gripe e dos coronavírus que só dão origem a constipações, que é outono/inverno, e agora passamos a ter este também. Penso eu que é isso que vai acontecer. Penso que é o mais provável, sim.

Obrigado, professor Manuel Carmo Gomes.

De nada.

Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia de Doenças Transmissíveis da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Já a seguir vamos ao fact-check. E agora uma história que nos chega de Varzela, Vila do Conde, que mete morcegos, cobras, cidadãos chineses e portugueses, e ainda a GNR. Num vídeo que por aí circulou, dois homens denunciam: família chinesa colocou morcegos e cobras a secar num estendal para depois comer. Isto foi publicado a 18 de abril. O vídeo foi apagado do Facebook por ser falso e por incitar ao ódio racial, mas voltou a circular com milhares de partilhas dias depois. Dois homens conversam neste pequeno filme de cerca de dois minutos e dizem que terão sido eles os chineses que deste modo trouxeram o coronavírus para Portugal. No vídeo, nas imagens, é possível ver algo pendurado num estendal. A GNR foi chamada e não, não eram cobras, nem morcegos, mas sim peixe. Estes cidadãos chineses põem peixe a secar no estendal. Isto já acontece há algum tempo. Há relatos e imagens do ano passado que dão conta dessa prática, que deve ser realizada em condições de salubridade. O carimbo de falso, hoje com sabor de peixe seco ao sol. Esta é a voz de Salman Ravi, jornalista indiano que à beira de uma estrada na Índia, encontra uma família que está a fazer uma viagem de 600 km a pé para a terra natal. Milhares de indianos perderam o trabalho e a fome empurrou largos milhares de pessoas para um êxodo das grandes cidades, como por exemplo, Nova Deli. Salman Ravi está a trabalhar, está em reportagem, interpela um homem que tem um bebê ao colo e está descalço. Os chinelos rebentaram algures nos 250 de 600 km já percorridos a pé. Salman Ravi baixa o microfone, é o microfone da BBC News, tira os tênis, dá-os ao homem e fica ele com as meias pretas calçadas, com os pés no asfalto e diz-lhe: "Mesmo que não sirvam, muito bem, é melhor do que caminhar descalço". Mais à frente, esta família conseguiu completar esta viagem de autocarro. Salman quebrou a regra do jornalismo e tornou-se ele próprio notícia. Foi notícia em todo o mundo, mas aproveitou para denunciar as condições miseráveis e a falta de apoio efetivo do governo indiano a estes muitos milhares de pessoas que perderam o quase nada de que iam vivendo e que decidiram abandonar cidades como Nova Deli. E este é o último Explicador Especial Coronavírus desta série que fizemos. 60 programas dedicados a esta pandemia que todos estamos a viver. Podemos voltar um dia destes com uma nova temporada deste Explicador Especial Coronavírus. O fact-check é da Carolina Branco, a sonorização é da Beatriz Martel Garcia, eu sou o Ricardo Conceição.

Portugueses, acabei de decretar o estado de emergência.

Faleceu um doente que tinha a doença Covid-19.

Esta pandemia ainda não atingiu o seu pico.

Começaram a trabalhar na linha SNS 24, mais 112 enfermeiros.

Vamos ver como vai ser o desfecho.

E vamos vencer.

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