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Arranca agora mais um Explicador, esta quinta-feira, sobre as tarifas impostas por Donald Trump. E para isso convidamos para estar conosco nas manhãs de 360, o Ministro da Economia, Pedro Reis, num Explicador conduzido por Paulo Ferreira.

Muito bom dia, Pedro Reis. Bem-vindo a este Explicador.

Bom dia, Paulo.

Temos agora dados concretos sobre as tarifas que os Estados Unidos vão fazer incidir sobre produtos europeus, concretamente estes que nos dizem respeito, isso depois de várias semanas de discussão sobre o assunto. Neste primeiro momento, em que já há dados concretos, que avaliação é que o governo vai fazer sobre o impacto concreto destas medidas na economia e nas empresas portuguesas?

Vamos fazer primeiro a avaliação em articulação com a União Europeia. Isso é determinante porque além de saber em que setores podemos ser mais atingidos, que áreas são impactadas, quer no ponto de vista da exportação, quer no ponto de vista da importação, porque se isto tiver uma escalada, esperemos que não seja total, na prática nós também receberemos os produtos americanos mais caros e isso entra nas nossas cadeias de valor e cadeias de produção. Portanto, eu chamo a atenção para esses dois ângulos permanentemente, e isso vai ser crítico nestas semanas de negociação, seja da nossa posição articulada a nível da União Europeia, seja da reação e apoio aos setores em Portugal. Na prática, o que nós estamos a alinhar e a sentir é que, através da mensagem até da presidente von der Leyen, há aqui ainda um espaço que era bom explorar ao máximo, de procura de desativação de algumas barreiras alfandegárias e não pela via do aumento recíproco da escalada das tarifas, ainda por cima e não por baixo, ou seja, nivelando por cima e não por baixo, que é o que parece que sai ontem das medidas anunciadas pela administração americana.

Aquilo serão máximos.

Exatamente. Há ali dois aspetos e ingredientes que vão no mau sentido, Paulo, entre outros. O primeiro é que o próprio cálculo é um bocadinho turvo, ou seja, por um lado mistura-se as tarifas que os países vão aplicando com um certo conceito de barreiras alfandegárias, que têm o seu impacto na competitividade, e com isso chega-se a níveis de taxas bastante exorbitantes. Aliás, um indício de que isso não é sempre aplicável é quando a resposta americana é a metade desses valores, que porventura será a base.

Mas isso, Pedro Reis, não foi basicamente uma questão de comunicação e de propaganda da administração americana? Para dizer que, no ponto de vista deles, não estão sequer a colocar tarifas ao nível daquelas que os outros países colocam aos produtos americanos.

Acho que tem isso também, mas não é sempre o caso. E mesmo que se fosse pela via da reciprocidade, era importante alinhar com os valores mínimos que ambos os lados fazem, e que não é sempre o que me parece que seja o caso. Ou seja, a ideia é subir para o nível máximo. De qualquer maneira, obviamente, nós teremos também que a União Europeia tenha apresentado, que é preparar contramedidas. Já o fez em termos de anúncio em relação ao aço, mas estará pronto para fazer noutros setores se algum espaço de negociação, e se formos ver os líderes europeus que têm falado, ainda agora estive a assistir ao tema do Reino Unido, têm mostrado um espaço ainda de ponderação, ou seja, em vez de retaliação, a palavra-chave, por enquanto, ainda é negociação. Espero bem que assim seja. Depois, Paulo, o que se terá que encontrar é que caso tenha que se responder, que isso se faça de uma maneira muito inteligente.

Já lá vamos, se me permitir deixar esse tema da retaliação para mais daqui a pouco. Primeiro vamos aqui ao impacto. Vamos imaginar que de fato as tarifas americanas avançam como foram ontem anunciadas. Que avaliação é que o Pedro Reis faz neste momento, enquanto Ministro da Economia, sobre os setores que serão previsivelmente mais afetados em Portugal?

Ora bem, basta ver das nossas 4 mil exportadoras onde é que se distribuem para o mercado americano, se formos ver bem. Nós sabemos que a área, em termos de exportações, também temos que ver, como eu disse, das importações.

Mas já lá vamos. Vamos agora às exportações.

O Paulo tem a indústria dos químicos, que vale cerca de 30% das nossas exportações para os Estados Unidos, de bens. Só para te recordar, os Estados Unidos, em termos de exportações, é cerca do quarto cliente e representa 5 bi, 5 mil milhões de euros de exportações portuguesas. Os químicos é importante, os combustíveis com 20%, as máquinas e aparelhos com 10, os plásticos, vidro e borracha. E depois tem um setor extremamente importante, que é pelo seu impacto e pela dimensão até das nossas empresas, que é o têxtil, calçado e o vestuário, e o agroalimentar, onde se inclui os vinhos, o azeite. Estes são setores, já para não dizer alguns componentes automóveis, em que estaremos particularmente atentos e que iremos trabalhar, como já temos vindo a articular com empresas, com associações, mas agora teremos que criar um grupo de acompanhamento desta matéria, primeiro para ir partilhando o que é que se está a preparar a nível da União Europeia e até receber contributos Porque não é só no jogo da retaliação, Paulo. Isto vai desencadear, necessariamente, um redesenho do comércio internacional.

Procura de novos mercados?

Justamente. Aliás, eu acho que esse é um dos pontos que os Estados Unidos estão a avaliar mal, a meu ver, não só porque acham que isto vai aumentar a industrialização americana, quando eu vejo é que o risco de inflação, de perca de competitividade, abrandamento, mas também um redesenho, reequilibrar do circuito do comércio internacional.

Deixe-me pegar nesse ponto, nessa intenção a prazo que a administração americana tem, no fundo, que é forçar unidades industriais que neste momento estão a exportar para lá, que transfiram a sua produção para fábricas em solo americano. Vê que, a prazo, há algum risco de alguma unidade industrial sair de Portugal para se instalar nos Estados Unidos, precisamente pelo efeito destas tarifas aduaneiras?

Eu acho que a Europa tem um programa tal de crescimento, de investimento e de ajustamento à transição digital, climática, da temática das áreas da saúde, de competências críticas e por aí fora, que há um espaço de investimento na Europa que não estou a ver que seja necessariamente por contraponto. Agora, Paulo, se me pergunta se quando isto estiver tudo estabilizado, se algumas empresas que considerarão investir nos Estados Unidos por causa deste elevar dos muros para não estarem do lado de fora, que não tem necessariamente que ser em sacrifício das suas unidades na europeias, até agora não vi casos desses, é claro que é possível e é claro que tem que ser ponderado. Dito isto, também não sei se não terão certos efeitos perversos na economia americana, porque está escrito, é daquelas evidências na economia de que medidas protecionistas abrandam a competitividade, abrandam a inovação, tornam a inflação incorporada através da importação e, portanto, na prática, está para se ver se isto vai ser indutor de crescimento nos Estados Unidos. Portanto, assim veremos, o protecionismo nunca é amigo da aceleração do crescimento e da inovação. E as empresas também sabem avaliar isso, não é?

Claro. Já há pouco disse, Pedro Reis, que uma das formas de, no fundo, reagir a isto é ir à procura de mercados alternativos que substituam as exportações para os Estados Unidos. Faz algum sentido nesta fase pensar noutro tipo de medidas, eventualmente apoio a empresas?

Nós já o estávamos a desenhar. A nível europeu, parece-me que já está indicado alguns aspectos, que é primeiro reavaliar algumas situações em que na entrada da Europa foi sinalizado, por exemplo, na Comissão Europeia, a nível da indústria do aço, em que havendo cotas, digamos, não tarifadas para outros origens, a proteção da indústria europeia, há que avaliar isso para dar espaço de respiração e de crescimento da nossa própria indústria. Nós aqui estamos, aliás, eu devo dizer que a nível do Compete estamos a desenhar novos avisos a nível do Banco de Fomento, a nível da reindustrialização, apoio de garantias e de financiamento, justamente para o apetrechamento industrial e para o reforço da internacionalização, porque é por aí que nós vamos ter que ir, Paulo. Portanto, nós exploraremos o espaço máximo a nível nacional, e já temos algumas medidas nessa matéria preparadas, e também teremos que esperar, porque esta é uma dimensão, Paulo, que se está a passar, que tem que ser articulada a nível europeu e estou confiante que assim será, numa primeira fase, como disse, de negociação, numa segunda fase, que se tiver que haver retaliação, que haja também compensação em medidas pró-ativas para estimular o crescimento europeu.

Vamos então olhar agora para aquilo que pode ser a resposta. O Pedro Reis já há pouco foi avançando um pouco por aí e defende, segundo entendi, e confirma Pedro Reis, que mais do que ser uma resposta musculada, a resposta da União Europeia deve ter em conta aquilo que é o previsível impacto de tarifas colocadas para os produtos americanos, esse impacto na inflação e nos consumidores, é isso?

Eu, acima de tudo, defendo o alinhamento total neste momento, sem brechas, sem bilateralidade, sem especificidades, a nível da União Europeia.

Uma resposta comum.

Sim, absolutamente. O que não quer dizer, atenção, não confundir isto com termos bem a percepção de quais são os setores mais atingíveis em Portugal e acompanharmos essa matéria, e até, mas isto cabe prudência não desenvolver, e até fazer ouvir a nossa posição em relação às matérias de eventual resposta que protejam quer as nossas exportações, quer as tais importações que impactam mais a economia portuguesa. Mas isso é uma negociação interna. A nível geral, o que eu defendo é justamente o acompanhamento do que a presidente von der Leyen tem dito e muito bem nestas horas, que é explorar ao máximo a negociação, estando a Europa disponível até para rever as regras do comércio internacional, do sistema global, desmontar barreiras mais do que ir pelo aumento das tarifas. E o segundo aspecto é a tal preparação de medidas de resposta se as negociações falharem. Eu uso mesmo este termo, vim com este termo usado pela presidente von der Leyen Que é que dá a abertura a esse espaço. Terceiro e último aspecto: considerar a revisitação dos apoios da União Europeia. Devo dizer que a presidente Von der Leyen referiu três setores específicos, o aço, os carros e os farmacêuticos, para ver como é possível ainda reforçar mais o estímulo ao seu crescimento e à procura de novos mercados. Eu acho que é muito por aqui que se vai andar nestas próximas semanas, que vão ser intensas. Nós sabemos que a nível de estudos de impacto da economia europeia, há quem aponte para 0,5% do PIB ou algo assim, e portanto, se vier o impacto total das medidas a médio prazo, vamos ver se conseguimos mitigar todo este processo.

De qualquer maneira, acha que os consumidores, de alguma forma, se devem preparar para um risco muito grande de aumento de preços ou de subida da inflação, se quisermos ser mais corretos nos próximos tempos, em função desta guerra comercial?

Acho que o impacto nos Estados Unidos é mais direto a esse efeito. O impacto a nível dos consumidores europeus tem muito a ver com a incorporação nas cadeias de consumo dos tais componentes, ingredientes, produtos, e a presidente Von der Leyen justamente apontou mais uma vez isso, é que isto bate e impacta nos consumidores, no pequeno negócio, no emprego, se formos por aqui neste caminho, continuarmos nesta senda, que é uma senda de protecionismo e até de algum tipo de isolamento, que era exatamente do que nós não precisávamos, Paulo. Nós quando saímos do Covid, dissemos: "Agora a ver se temos espaço no mundo para respirar e caem-nos as guerras em cima". Agora que se anda à procura, mal ou bem, de alguma mitigação dos conflitos, a dizer que agora a ver se não nos acontece mais nada e sai-nos isto das guerras tarifárias, era só o que faltava. Mas enfim, cá estaremos para reagir como Europa e como Portugal, certamente estando muito próximo dos setores mais afetados e construindo aqui uma estratégia de apoio, que na prática terá que ser justamente o que eu disse, através de planos de apoio à industrialização e da abertura de novos mercados.

Pedro Reis, o fato de em Portugal estarmos neste momento com um governo de gestão, estamos a um mês e meio de eleições, de alguma forma condiciona a resposta ou aquilo que o governo gostava de fazer?

De maneira nenhuma. Aliás, isto é uma questão de Estado, não se coaduna com ciclos eleitorais, nem com condicionamentos naturalmente constitucionais. Eu penso e sinto que há uma postura de interesse nacional geral e, portanto, nós estaremos nessas próximas semanas, nomeadamente através do Ministério da Economia, mas também, obviamente, em articulação nessas agendas que é sempre coordenada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, mas em articulação com o Ministério das Finanças, o Governo estará muito atento e muito próximo das associações das empresas em termos nacionais e a articulação via Ministério dos Negócios Estrangeiros com a Comissão Europeia para estarmos em cima do acontecimento e aí não há cá antecâmaras eleitorais, há foco total em ajudar a nossa economia a mitigar, a recuperar e a evitar.

Alguma articulação também, nomeadamente com o Partido Socialista, eventualmente através do Parlamento, dado esse caráter, se quiser, transversal e o importante impacto económico que isso pode ter?

Paulo, sempre, felizmente, isso não é de agora nem é deste caso, sempre que se trata de situações de Estado, de interesse de Estado, e esta é uma delas, esses circuitos funcionam sempre bem e nomeadamente os grandes partidos chamados de regime, como é o caso do Partido Socialista, têm sempre um canal aberto e uma ponta aberta. Eu não tenho dúvidas nenhumas que a esse nível há uma unanimidade na defesa do interesse nacional, como já falou o senhor Presidente da República, passando pelo Governo e obviamente pela oposição, e nomeadamente o Partido Socialista. Não tenho dúvidas nenhumas que assim será no que houver que articular nesta matéria, mas há uma parte aqui que se trata muito de gestão, de discussão, de governação e aqui estaremos a responder à chamada, dando prioridade máxima a esta matéria neste momento na economia.

Pedro Reis, quase chegamos ao fim deste nosso explicador. Só de ir aqui a um tema que tem a ver, obviamente, com a economia, tem a ver com o investimento que a Autoeuropa vai fazer em Palmela, que foi anunciado para a produção de um veículo elétrico. Em termos políticos, o Partido Socialista reclama que a negociação partiu ainda do seu governo. Em que é que ficamos sobre essa matéria?

Olha, eu acho que essa troca de galhardetes neste momento tão importante do mundo é o que menos interessa. O que interessa é que o país absorveu aquele investimento. De facto, o trabalho do carro elétrico foi iniciado nestes meses. Eu não falo por mim, falo pelas palavras do diretor da Autoeuropa e da administração da Volkswagen alemã, que foi crucial nestes últimos meses, até porque não estava no horizonte o carro elétrico, e muito bem, e o anterior governo tratou da nova geração do T-Roc. É mesmo assim. Não vale a pena gastarmos energias à procura de méritos. Olha, os méritos são dos trabalhadores da Autoeuropa, que temos uma belíssima empresa há muitos anos, é da gestão da Autoeuropa e é dos governos que fazem o seu papel, que é apoiar. E aqui não se trata de colher louros, trata-se é de abrir futuro.

Muito bem, Pedro Reis, ministro da Economia, obrigado pela disponibilidade para o explicador desta manhã, onde olhámos aqui para o impacto das tarifas impostas pelos Estados Unidos. Bom dia, obrigado. Recordamos que vamos ter novo explicador à tarde, depois das 18h, na tarde política.