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Começa agora o Explicador das manhãs 360, esta segunda-feira sobre o futuro do Bloco de Esquerda. Este fim de semana, Mariana Mortágua anunciou que não se vai recandidatar à liderança do partido. É por isso nosso convidado Pedro Soares, militante do Bloco de Esquerda. A entrevista é conduzida pelo Bruno Vieira Amaral.

E é assim, Mariana Mortágua está de saída da coordenação do Bloco de Esquerda. José Manuel Pureza perfila-se como possível sucessor e a sucessão deverá ficar definida na convenção agendada para o final de novembro. Pedro Soares, bem-vindo a este Explicador. Obrigado por ter aceitado o nosso convite. Defende o adiamento da convenção. Acredita que seria possível formar uma alternativa dentro do Bloco de Esquerda com mais tempo?

Olá, bom dia, muito obrigado. Eu gostava de precisar mais essa questão do adiamento da convenção. Sabe que a convenção já foi adiada praticamente desde o início do ano, várias vezes, houve várias alterações ao regulamento da convenção e sempre com a mesma orientação política. E o que eu tenho vindo a dizer é que já que foi adiada tanto tempo, com certeza nesta situação, que é claramente uma situação de crise, seria importante que houvesse uma renovação da própria direção, do secretariado e que, portanto, o processo convencional, que aliás está todo inquinado com problemas democráticos e estatutários, pudesse ser reencaminhado de forma aberta, porque o que é fundamental é que haja um grande debate interno dentro do Bloco de Esquerda.

Mas esse debate não tem existido, Pedro Soares?

Não, claramente que não. É evidente que tem havido uma sucessão de dados eleitorais que também dificultam esse processo. Mas há uma prática, já de alguns anos para cá, de um condicionamento muito grande em termos do debate interno do Bloco. E acho que essa é uma das razões que leva à situação que hoje se está a viver dentro do Bloco. Eu recuso a ideia de que o problema do Bloco seja a Mariana Mortágua. É evidente que não. A Mariana Mortágua é um grande quadro político da esquerda e, portanto, o problema não está aí. O problema já vem praticamente desde o final da geringonça, que o Bloco começou, praticamente desde 2019, 2020, a perder eleitorado, a perder votos, num plano inclinado, cada vez mais inclinado, e chega agora às eleições autárquicas em que de fato os resultados são terríveis. E portanto, o problema é mais profundo do que uma mudança da coordenadora, de se mudar a Mariana Mortágua pra outra pessoa qualquer. O problema é mais profundo, é mais estrutural.

Mas na origem desse problema, crê que está a questão da geringonça, o apoio ao governo do PS após as eleições de 2015. É isso que marca o declínio do Bloco de Esquerda ou foram decisões tomadas depois, na sequência até das eleições de 2019, que acabaram por criar esta conjuntura particularmente difícil pro partido?

Sim, há um conjunto de fatores que levam a este declínio, é evidente. E mais uma vez, recusando a ideia de que o problema é a Mariana Mortágua. Há um conjunto de fatores que vêm desde 2019, e repare que aí não era a Mariana Mortágua a coordenadora do Bloco, mas, na realidade, a geringonça ou a participação do Bloco na geringonça, teve impacto em todo este processo. E sobretudo mais ou menos a meio da geringonça, portanto, por volta de 2017, 2018, há uma alteração da orientação política do Bloco, que se reflete nas eleições legislativas seguintes, que é a de que a solução pro país é manter um acordo com o Partido Socialista, quando nós sabíamos, e cada vez ficou mais evidente, aliás, desde as declarações do então primeiro-ministro António Costa, que o Partido Socialista não estava interessado na geringonça. Aliás, tudo foi feito no sentido de obter uma maioria absoluta. Ora, o Bloco de Esquerda ficou cada vez mais ligado ao Partido Socialista. Eu me recordo fazer campanha eleitoral na rua nessa altura, nas legislativas, houve duas legislativas sequenciais, em que as pessoas me perguntavam: "Então, mas o Bloco no governo não faz isso e não faz aquilo?" Quer dizer, o Bloco ficou colado ao governo do Partido Socialista. E é fundamental que se descolasse e conseguisse afirmar uma política própria, clara, em demarcação com o Partido Socialista.

Mas é essa afirmação, Pedro Soares?

Também é preciso dizer isto. O Partido Socialista também está em declínio. Aliás, a social-democracia na Europa está em declínio. E o grande problema é o Bloco estando ligado, profundamente ligado ao Partido Socialista, vai por arrasto pra este declínio da social-democracia. E a questão é que está-se a criar à esquerda, eu diria mais até que à esquerda, está-se a criar no campo do descontentamento, no campo da revolta, no campo da contestação a este sistema, etc, um espaço vazio que infelizmente, lamentavelmente, está a ser ocupado pela extrema-direita. E este é que é o problema que está colocado aqui.

Pedro Soares, mas vemos o partido, que foi o primeiro a defender a necessidade de uma união entre a esquerda, a crescer. É o único partido da esquerda, o Livre, que cresce. Isso não é um pouco contraditório com os resultados?

Há analistas, politólogos que também analisam essa matéria e dizem que essas votações no Livre são muito fluídas Eu tenho a opinião que a votação no LIVRE é uma espécie de votação de refúgio. Pessoas descontentes com o caminho do Partido Socialista votam no LIVRE. Mas independentemente disso, a realidade é que o Bloco de Esquerda não nasceu com a mesma matriz do LIVRE. O Bloco de Esquerda cresceu na afirmação de uma política alternativa, radical, muito clara, de contestação a este sistema neoliberal, coisa que o LIVRE não faz. Aliás, o LIVRE defende o rearmamento da Europa, defende os gastos com a defesa, etc., na linha da NATO, coisa que o Bloco nunca defendeu, mas cada vez mais está ligado a essas políticas.

O que diz é que o Bloco cresceu como partido de protesto e que deixou de ter essa capacidade de captar esse voto de protesto a partir do momento em que se ligou ao Partido Socialista. É isso?

Repare, voto de protesto e de proposta, porque eu não me esqueço que propostas muito importantes que foram apresentadas pelo Bloco logo no início do século XXI, como a reforma fiscal, outra forma de tratamento da toxicodependência, as questões laborais, da Segurança Social, etc., foram apresentadas pelo Bloco nessa fase, nessa primeira metade da fase do Bloco. Portanto, era um partido radical de protesto, de acolhimento da revolta que existe na nossa sociedade e ao mesmo tempo, de fazer propostas que iam de encontro às necessidades das pessoas. Ora, isso deixou de acontecer. Hoje em dia, porque a memória em geral é muito curta, não nos lembramos disso. Mas as eleições legislativas, as campanhas eleitorais depois da geringonça, feitas pelo Bloco, foram no sentido de que o Bloco iria para o governo. Mariana Mortágua iria ser ministra das Finanças. O fulano tal deputado seria ministro não sei de quê. E portanto, ficou absolutamente ligado a esse percurso e isso foi o grande problema de fundo do Bloco de Esquerda. Ou seja, o Bloco, para enfrentar esta situação, tem que encontrar um caminho que seja o da recuperação da sua gênese, da sua matriz identitária, e deixar de ter a cabeça na geringonça. O Bloco saiu da geringonça em 2019, mas a geringonça não saiu da cabeça de grande parte da direção do Bloco de Esquerda. E esse é o problema estrutural.

E a decisão de Mariana Mortágua de não se recandidatar é o sinal de uma possibilidade de renovação ou acredita que a mudança de liderança não vai significar uma alteração no rumo que o partido tem seguido?

Eu mais uma vez reafirmo a ideia de que o problema não está na Mariana Mortágua. Mariana Mortágua é um grande quadro político da esquerda, com provas dadas. E portanto, o problema é outro. Eu acho que esta direção, sobretudo este secretariado da Mesa Nacional, que procura sobreviver no meio desta tormenta brutal que vem de há meia dúzia de anos pra cá, de perda eleitoral e de perda de influência política, acabou por oferecer a cabeça da Mariana Mortágua. Passe a expressão, não é bem o São João Batista, mas quase. E portanto, para sobreviver, porque repare, o que vai acontecer é que a próxima convenção nacional, que vai ser no final de novembro, vai manter tudo na mesma. Quem substituir na coordenação a Mariana, será alguém deste núcleo central.

José Manuel Pureza é o nome de que se tem falado, iria significar uma continuidade?

Eu não sei se é o José Manuel Pureza, não quero especular à volta disso, é uma possibilidade, mas de fato é uma pessoa que está dentro deste núcleo central que tem a responsabilidade de ter trazido o Bloco até esta situação. Mais, o José Manuel Pureza e a maior parte dos dirigentes, neste momento, do Bloco, nem sequer são deputados. Portanto, só há uma possibilidade que é haver alguém que seja deputado, que assuma essas funções e outra pessoa que não seja deputado, possa ser da coordenação. Agora repare que tudo isto vai sair do núcleo central do Bloco de Esquerda, da direção do Bloco de Esquerda, do secretariado do Bloco de Esquerda, que tem trazido o Bloco ao longo desta última meia dúzia de anos pra situação atual. Ou seja, a possibilidade de uma renovação, a possibilidade de um debate profundo e sobretudo, e essa é a questão central, de retirar conclusões, fazer balanço destas derrotas eleitorais sucessivas, tirando conclusões e tirando consequências, isso não está a ser feito, não foi feito e continua a não ser feito.

O que explica que essa reflexão não tenha sido feita após as derrotas eleitorais e que não tenha surgido uma alternativa dentro do partido? O que impede o surgimento dessa alternativa?

Repare que alternativas surgiram. Nós apresentamos moções próprias e tivemos alguma repercussão, elegemos pessoas pra direção do Bloco, de forma minoritária, nas duas últimas convenções. Só que isso foi entendido como um ataque à direção e, portanto, todas as pessoas que se envolveram na moção E, na moção alternativa, foram ostracizadas. Boa parte delas já saíram do Bloco porque não estiveram pra aguentar a situação que se vive de falta de debate, falta de democracia interna, falta de transparência numa série de aspectos. E portanto, de fato, esta direção, este secretariado nacional, para além de ter trazido o Bloco pra situação muito difícil, infelizmente, que estamos a viver, também bloqueou qualquer possibilidade de uma alternativa credível.

E o Pedro Soares já encabeçou essa alternativa. Por que não está disponível agora para concorrer à liderança do Bloco?

Por estas mesmas razões que acabei de dizer. Foram seis anos de massacre sobre quem já apresentava uma alternativa E isso levou a uma espécie de eucaliptização, ou seja, tudo o que estava à volta do secretariado foi neutralizado, foi aniquilado. E, portanto, hoje em dia, de facto, as alternativas dentro do Bloco são muito poucas. Serão dentro do mesmo núcleo de direção que trouxe o Bloco para esta situação. E, portanto, de facto, a situação do Bloco é muito difícil.

Está pessimista em relação à capacidade do partido de sair desta crise, de ultrapassar este momento particularmente difícil?

Eu devo lhe dizer com toda a sinceridade. À esquerda, e perante o cenário que nós estamos a viver de progressão da direita, da extrema-direita, etc, eu acho que é necessário uma nova resposta política. É necessário, venha de onde vier, venha de dentro do Bloco ou fora do Bloco, é preciso uma nova resposta política, é preciso repensar todos estes problemas.

Mas que forma é que essa solução poderia assumir e quem é que a poderia e deveria liderar?

Eu não tenho a bola de cristal, nem sequer quero especular à volta disso. O que eu lhe quero dizer é que a opinião pública, muita gente da esquerda, muita gente que esteve dentro do Bloco e que fez este caminho de progressão do Bloco, hoje sente-se órfã, hoje sente que não existe uma alternativa, hoje sente que é necessário uma nova resposta política. E acho que é por aí que nós temos que ir. Temos que construir a nossa resposta política. E espero, gostaria, apesar de ter poucas expectativas sobre isso, que esta direção do Bloco percebesse isso, percebesse que era necessário esta nova resposta política, que era necessário uma renovação e, portanto, que os métodos que têm vindo a utilizar de falta de democracia interna, de ostracização das alternativas e de cada vez mais se manter ligado a uma alternativa política que está dependente do Partido Socialista, não colhe, está a trazer a esquerda para uma situação dramática e que só pode ser resolvida, de facto, com uma nova resposta política.

Pedro Soares, muito obrigado pela sua participação neste Explicador. Um bom dia e uma boa semana. Muito obrigado.

Igualmente, obrigado.