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Explicador da Rádio Observador, nas campanhas eleitorais, como no desporto muito competitivo, quem comete menos erros, por regra, consegue ter bons resultados. João Cotrim Figueiredo estava numa rota ascendente quando em apenas um dia conseguiu cometer um erro político grave e foi alvo de uma acusação também grave. Depois disto, haverá recuperação possível a tão pouco tempo das eleições? E como está a correr esta campanha eleitoral? Eu sou Ricardo Conceição, comigo está a Judite de França. Judite, quem é o nosso convidado?
Edson Ataíde, especialista em comunicação política, publicitário, já trabalhou em campanhas nacionais. Bem-vindo, obrigada por ter aceitado o nosso convite. As campanhas eleitorais são muito exigentes, muito cansativas, mas Cotrim Figueiredo cometeu aqui um chamado erro de palmatória?
Primeiro, boa tarde. Com relação à questão do possível apoio ou não do Ventura numa segunda volta, digamos que ele não soube ter a melhor resposta possível à pergunta. Se tivesse, possivelmente não teria tido o trabalho de corrigir, ele mesmo ter vido a corrigir. Então, sim, é normal que aconteçam essas gafes ou esses momentos menos conseguidos de qualquer candidato. Tão perto assim do dia de voto, não é bem-vindo.
Porque depois o candidato tem que se explicar, vem dizer que não foi bem entendido, ou seja, depois perde ocasiões soberanas de continuar a espalhar a sua propaganda, se assim quisermos dizer, e está a explicar-se, não é?
É. Para tentar talvez dizer uma coisa menos consensual, a gente sempre pode tentar olhar pro copo meio cheio, meio vazio. E para mim, eu até acho que é meio vazio mesmo, mas olho meio cheio também, podendo ser possível. Do nada, ele acabou sendo visível pra boa parte do eleitorado do Chega, que se calhar não estava olhando pra ele, se calhar achavam que ele era mais um adversário, mais um inimigo, do que um possível parceiro. E entretanto, do nada, apareceu essa possibilidade. É só pra lembrar que eleição é que nem futebol mesmo. A gente nunca sabe se aquele chute ao lado não vai ser ele que vai entrar no gol. É preciso realmente ter sangue frio pra poder analisar as situações pra quem está no terreno. Então, na prática, sim, acho que não foi bem conseguido. Há possíveis efeitos positivos? Há. E também a questão da notoriedade. E de repente, do nada, ele também teve muito mais espaço midiático do que talvez teria naquela manhã ou naquela tarde.
Do outro lado, numa campanha como a de Cotrim Figueiredo ou a de André Ventura, que escapa muito aos media tradicionais, isso beneficia-os ou não? Porque, no fundo, não ouvem comentadores, não leem artigos de opinião, estão mais a salvo dessas mensagens?
Mas sempre há um efeito de ruído, de eco. Ou seja, talvez não leem aquele jornal, ou talvez não ouçam o comentário político, mas vai na barbearia que alguém teve esse momento, digamos assim, de democracia informativa. E comenta também. Ou seja, há sempre um eco. A sociedade vive envolvida em comunicação, envolvida em estímulos de comunicação. Ninguém consegue estar completamente distante do que se comenta, do que se fala no dia. A pauta do dia é relevante sempre.
E depois, nesta campanha eleitoral, Edson Ataíde, temos tido vários episódios de insinuações, desde logo lançados até por Cotrim Figueiredo, antes da campanha eleitoral, em relação a Marques Mendes, depois Gouveia e Melo também nos debates. Agora, Cotrim Figueiredo é alvo de uma acusação grave no arranque da última semana de campanha. A pergunta aqui, Edson Ataíde, é: mesmo que nada disto seja verdade, tanto no caso de Cotrim Figueiredo, como no caso das insinuações que foram feitas em relação a Marques Mendes. Eu estou aqui a falar mais num plano teórico e não nos casos concretos. Mesmo que nada disso seja verdade, a ideia, apesar de tudo, cola-se à pele dos candidatos e depois é muito difícil tirar ou não?
Tudo que é comentado e é falado vai ter um tipo de efeito na realidade. Aí temos aquelas questões. Pode ter um efeito na realidade, mas essa mensagem ser totalmente desassociada ao emissor. Disseram que fulano tem essa característica, mas até se tivesse, o eleitor dele é indiferente. Então não tem um efeito negativo que se calhar alguém gostaria que tivesse. E também pode ser o contrário. Justamente no perfil, na persona, naquilo que tem de mais valioso, enquanto qualidades positivas desse candidato, e alguém vem e difere uma mensagem que atinge ali, nesse lugar. Isso tem efeito muito negativo. E o tempo da comunicação e o tempo da eleição não é o tempo da prova concreta, não é o tempo do tribunal, não é o tempo da realidade. Algumas carreiras políticas foram abatidas a tiro por questões que depois vieram se provar que não eram verdadeiras e outras merecidamente Foram abatidas e depois comprovou-se que é real. Fica sempre essa possibilidade.
Isso porque nós, enquanto seres humanos, valorizamos mais uma imagem negativa do que uma positiva, ela fica mais cravada na nossa memória do que uma positiva?
Os algoritmos dizem isso. A ciência veio comprovar essa teoria, que nós engajamos mais com aquilo que nos ofende, aquilo que nos fere, do que aquilo que nos agrada, por incrível que pareça. Talvez seja algum tipo de defesa do próprio ser humano, mas o certo é que elogios são bonitos, mas não agarram tanto quanto ofensas. Mas uma coisa é certa também, no momento que um determinado candidato é ofendido ou é receptor de uma ofensa, isso tende a fazer com que o seu núcleo duro de eleitores o defenda. E engaja também. A questão é saber se há mais gente a querer defender ou mais gente a querer descartar esse candidato porque acreditou ou teme que seja real aquela ofensa.
E por falar em ofensas e acusações, houve muitas de Govêa Melo a Marcos Mendes. Terão feito mossa na candidatura de Marcos Mendes?
As sondagens dizem que sim. Porque talvez tenha a ver com o próprio posicionamento do candidato. No fundo, ele vem e se apresenta como o candidato da experiência, o candidato que tem muito tempo de conhecimento dos corredores do poder, e alguém vem e diz: "Mas esse conhecimento não é positivo". Ou seja, para esse candidato, aparentemente, realmente causou dano. Para outro, poderia ser irrelevante.
Mas também queria ouvir sobre isto, se fica com esta ideia ou não. O Govêa Melo também sai prejudicado com isto ou não?
O personagem dele que, no fundo, seria o não político. Temos aqui uma questão também: quem é o emissor? O emissor direto, inclusive. Porque muitas vezes na política o emissor não é o candidato, é alguém da assessoria, é alguém do partido, é alguém da sociedade. Ao ele decidir fazer isso por vontade ou inabilidade, não sei, ele acaba se colocando como político. E aí temos uma crise de persona.
De identidade.
Exatamente. Ou seja: "Espera aí, mas não é esse que falou que não se meteria nessas coisas da política e agora está sendo um político, no mau sentido da palavra?" Possivelmente, isso também não deve ter ajudado muito.
E vamos a André Ventura, está com uma postura diferente nesta campanha?
Não diria que ele esteja com uma postura diferente, eu diria que nós é que já conhecemos quase todos os lados do personagem. E confesso que é difícil você a cada três meses estar numa eleição e a cada três meses você conseguir fazer um circo novo. Digamos que nós já sabemos, já conhecemos e algumas das coisas que ele faz agora, são as mesmas que fez há um ano atrás, porque agora é mais do mesmo. Mas ainda falta uma semana.
Exato.
Falta uma semana.
E depois ainda falta a segunda volta. A ver quem vai à segunda.
Temos dias ainda.
E na segunda volta, tudo o que está a ser dito agora poderá ser completamente diferente pelo mesmo candidato.
Não.
Não?
É um tempo muito curto. Fosse três, quatro meses, ainda dava para você fazer algumas correções, mas não é em alguns dias que é viável você dar um piparote completamente nas coisas. Você pode ter, dependendo do candidato, dependendo do que ele disse, você pode ter aproximações. Não fechei essa porta, logo eu posso abri-la. Não recuso apoio, logo posso receber. Normalmente, não dá tempo de você fazer grandes alterações da primeira para a segunda volta.
E a tua visão ainda é rainha nas campanhas?
Hoje, a comunicação de massa é rainha. Ou seja, incluo também a rádio, incluo também os jornais e a televisão, com certeza, e incluo as redes sociais nessa comunicação de massa. Eu acho que hoje em dia dizer que as redes sociais não fazem parte desse organismo de comunicação de massa, é uma ilusão.
A minha pergunta ia no sentido se elas já são mais importantes do que os meios tradicionais, onde a mensagem é mediada, é filtrada.
Mas são canais intercomunicantes. O efeito da televisão existe, mas existe em conjunto com todo o resto. Se você tirar todo o resto, fica menos relevante. Há sempre uma coisa que acontece de um lado, há um eco, uma refração de informação que vai para outro, que é apanhado e é continuado. Se hoje em dia a gente pode dizer que os cartazes políticos não servem para grande coisa, quando há 30 anos a gente podia dizer que não eram muito relevantes. Hoje a gente pode dizer que a televisão é muito relevante, mas em conjunto com as redes sociais e com a rádio. Sem essas três coisas juntas, e os jornais, claro, mas esses três meios principais numa campanha política, hoje em dia.
Edson Ataíde, muito obrigado mais uma vez por nos ajudar aqui a ler também o atual momento da campanha eleitoral. Obrigado por ter estado neste "Especher".
Obrigado.
Edson Ataíde, publicitário, especialista em comunicação, tem no currículo várias campanhas eleitorais.