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Rádio Observador. Desporto.

À sétima jornada, descanso. Depois de todos os jogos já realizados, pausa no campeonato. Agora vêm 20 dias de pausa no futebol de clubes. À sétima jornada, fazemos as contas do arranque deste campeonato. O Futebol Clube do Porto lidera com 21 pontos. O Sport Lisboa e Benfica, na perseguição, está em segundo com 16 pontos. O Sporting Clube de Portugal é terceiro com 15 pontos. Topo da tabela arrumado depois de uma jornada com clássico, vitória do Futebol Clube do Porto por 3 x 1 frente ao Benfica, e depois de uma dupla escorregadela do Sporting, dois empates nas duas últimas jornadas. Vamos à análise. Recebemos na Rádio Observador José Dias Ferreira, adepto do Sporting, Bruno Batista, adepto do Sport Lisboa e Benfica, e Manuel Pizarro, adepto do Futebol Clube do Porto. E começo por quem lidera. Manuel Pizarro, sete jogos, sete vitórias e a sétima foi no grande clássico de ontem frente ao Benfica. Acredito que seja um homem feliz nesta segunda-feira. É um arranque que pode ter dado embalo para este Porto?

Eu quero começar por cumprimentar os que me acompanham no painel, cumprimentar todos que nos estão a ouvir e dizer que sou um homem feliz, um portista hoje só pode sentir-se feliz. Devo dizer que os resultados são muito animadores, mas não garantem nada. Passou mais ou menos 1/5 do campeonato. O campeonato tem 34 jogos, fizemos sete, é mais ou menos 1/5. O que quer dizer que é preciso é manter a consistência. Aliás, a dificuldade de uma prova como a Liga é precisamente essa, é que é preciso manter a consistência ao longo de toda a prova. Agora, é melhor estar à frente do que estar atrás. É melhor ter vantagem do que não ter.

Sete vitórias em sete jogos já mostra muitos sinais de consistência.

Mas isso é um pouco aquilo que aconteceu na época passada, se nos recordarmos. Eu sou um conhecido adepto do treinador do Futebol Clube do Porto. Gosto muito da forma como ele monta a equipa. Acho que é mesmo uma equipa muito sólida, que sem deixar de dar espaço aos seus criativos. Aliás, acho que foi isso que se viu ontem no jogo, que foi uma equipa que tem uma enormíssima solidez e, ao mesmo tempo, tem espaço para que os jogadores com maior capacidade técnica também a possam exibir durante os jogos de futebol. Acho que é um futebol muito interessante, o futebol da equipa treinada pelo Farioli.

Bruno Batista, o Benfica começou a época mais cedo, já compete há dois meses, praticamente, mas tanto a estrutura como o treinador garantem que é para lutar por todos os títulos. O jogo de ontem no Dragão, com a derrota para o Benfica, complicou as ambições do Benfica no campeonato?

Boa tarde aos colegas de painel, boa tarde aos ouvintes do Observador. Respondendo diretamente, complicar as contas do campeonato, não complicou, mas é claro que preferia ter vencido o jogo de ontem, mas faltam muitas jornadas, há muitos pontos em causa. Mas ontem o Benfica tinha o seu jogo mais difícil até ao momento. Vou fazer aqui um parêntesis no jogo de Milão, porque esperava mais do Milan do que aquilo que Rúben Amorim foi capaz de mostrar frente ao Benfica, num jogo completamente dominado por nós e, portanto, que não teve o grau de dificuldade que se esperava. E este jogo de ontem, o Benfica entra bem, o jogo até aos 35 minutos está bastante equilibrado. Apesar do gol do Futebol Clube do Porto, era um jogo que estava com muito equilíbrio e a expulsão de Lenglet acaba por ter um papel fundamental naquilo que foi o disputar da partida. A partir daí, com Sudakov a ter que ser sacrificado, acho que ontem os benfiquistas perceberam que Sudakov vale muito mais do que aquilo que pensávamos, porque a forma como guarda a bola na manobra ofensiva do Benfica é fundamental para aquilo que se passa a seguir. E vou recusar completamente o papel de vitimização e da expulsão de Lenglet, porque admito que seja bem expulso, não tem necessidade nenhuma um jogador com a experiência que tem este francês de fazer aquela falta, mas a dualidade de critérios esteve antes e depois desse lance, onde os jogadores do Porto foram muito poupados a cartões e até à possível expulsão de Gabi Veiga. A partir daí, o Benfica ainda consegue marcar o gol, mas faltou-lhe, e é aqui que eu me vou centrar, naquilo que o Benfica não conseguiu, não tanto nas culpas de quem ou de arbitragens ou do que quer que seja. Ontem notou-se a inexperiência desta equipa que, reduzida a 10 unidades, e depois de chegar ao empate, na jogada seguinte, acaba por conceder o 2 x 1 e volta novamente, até mimicamente, a sofrer um duro golpe. É este o Benfica que ainda está em construção, mas temos que dizer que vemos uma equipa completamente diferente na atitude em relação à que tínhamos com o José Mourinho. Este Benfica deve deixar os benfiquistas todos entusiasmados com o trabalho feito em pouco tempo. É verdade, como dizia a pergunta, que o Benfica já compete há dois meses, o que neste momento tem até que ser um fator positivo em relação aos adversários, porque a equipa está mais madura. Revelou-se neste jogo de ontem que efetivamente ainda falta limar algumas arestas nesta equipa, nomeadamente na questão defensiva, mas acho que vamos ter Benfica e vamos ter competitividade neste campeonato até o fim. De reparar que o Santa Clara ontem perde uma oportunidade de estar em segundo nesta paragem de três semanas. Portanto, isto só é bom para o campeonato, só é bom para os amantes do futebol.

José Dias Ferreira, antes de falar do Sporting, acredito que tenha visto o clássico de ontem, o que achou do nível das duas equipas?

Em primeiro lugar, boa tarde a todos e a todos os ouvintes. Acho que o Benfica começou a controlar o jogo nos primeiros 20, 25 minutos, não posso agora precisar.

Me pareceu que o Benfica entrou realmente para discutir o jogo e para o ganhar, mas passados 20, 25 minutos, o Porto começou a controlar o jogo e a ser mais perigoso, que culminou depois com a marcação do seu primeiro gol. Acho que o jogo mudou completamente com a expulsão, a meu ver justa, do Lenglet, e aí o Porto passou a ser dominador, embora o Benfica, por vezes, até nem parecesse que estava com menos um elemento. Portanto, eu acho que foi uma vitória justa do Porto. Nada a apontar. Apenas verificar isso.

Sobre o Sporting, porque de facto são três empates nas sete primeiras jornadas, é um sinal preocupante para o resto do campeonato? Também é uma questão, como já referiu o Bruno Batista, de inexperiência do plantel nesta fase?

Eu não falaria inexperiência do plantel. Eu acho que realmente o Sporting perdeu até agora esses seis pontos que lhe permitiriam estar a par do Porto. Perdeu-os grande parte por culpa própria e também por culpa de terceiros, como referi, efetivamente a arbitragem, como já é habitual. Mas acima de tudo, também por culpa própria, porque estando a vencer como esteve a vencer nesses jogos, independentemente das falhas da arbitragem, o Sporting podia ter ganho o jogo e neste momento estar a ocupar o primeiro lugar ex aequo com o Futebol Clube do Porto. No entanto, preocupado está. Qual é o adepto que não está preocupado quando ao fim da sétima jornada está a seis pontos do líder? É evidente que isso preocupa. Mas eu continuo a confiar muito na equipa e no seu treinador, porque a equipa alterna um pouco entre o muito bom e o mau, sobretudo no que diz respeito ao aspecto defensivo, para conservar as vantagens que tem obtido nos jogos. Portanto, eu acho que como ainda há bastante campeonato para fazer, e o Sporting ainda não defrontou nenhum dos seus diretos rivais, acho que estando preocupado, como é evidente, eu e todos os outros, entendo que não é altura de ter medidas drásticas, mas aguardar com alguma serenidade o entrosamento de toda esta equipa constituída por jogadores valiosos e que em momentos de qualquer dos jogos dos que empatou e dos que ganhou, incluindo os da Liga dos Campeões, mostra determinados momentos de bom futebol e a categoria dos jogadores que integram essa equipa. Portanto, eu penso que numa prova longa como o Campeonato Nacional, o Sporting poderá ainda recuperar e que não é a altura de tomar medidas drásticas, como algumas pessoas defendem, que normalmente a comunicação social, não sei com que sondagem acha que a maior parte dos sportinguistas querem outro treinador. Eu não me apercebo disso. Há gente descontente, como eu também estou descontente, mas não atiro com as culpas para cima do treinador, que acho que é um bom treinador e que já deu provas disso. Portanto, ele é o mesmo treinador quando a gente ganha e quando a gente perde. Se fizer o balanço, acho que o seu trabalho é positivo ao longo destas épocas que está no Sporting.

E falaremos mais de Sporting depois da 12:30 aqui na Rádio Observador. Vamos ter um especial sobre essa situação do clube de Alvalade. Focando aqui também estas contas de campeonato e neste topo de tabela, Bruno Batista, no final desta fase inicial da época do Benfica, com muitos jogos e agora com essa pausa para seleções, fazendo a análise, o que aplaude neste Benfica e o que identifica como algo para melhorar?

Claramente, aquilo que Marco Silva vai acrescentar é que neste momento há uma identidade na forma de jogar do Benfica, há um esquema de jogo, os jogadores sabem onde estar com bola e sem bola, há uma diferença abismal na forma como saímos a jogar. A transição entre a defesa e ataque é feita desta vez com consistência e, portanto, temos um meio-campo onde jogadores como Palhinha vieram dar uma segurança e vieram permitir que outros pudessem jogar, como é o caso de Sudakov, este terceiro médio, segundo avançado, como lhe quisermos chamar, dependendo da forma como olhamos para o esquema tático de Marco Silva. Existe o número 10, que tem sido mais utilizado o Sudakov, mas que segura muito bem a bola, que permite que os extremos consigam chegar com perigo à área adversária, que permite que os laterais também subam e faz com que o Benfica tenha uma quantidade de 22 gols marcados na Liga, mais uns 10 ou 12 nas competições europeias e, portanto, faz com que seja o Benfica mais goleador dos últimos anos. Este arranque deu-nos aqui uma forma de ver a forma de jogar completamente diferente. É claro que ainda existem algumas lacunas, nomeadamente no setor defensivo. É verdade que esta troca entre o guarda-redes tem gerado aqui alguma dúvida sobre quem será o melhor para ocupar as redes da baliza do Benfica. Turbin é um guarda-redes que está aqui há três anos. Eu não penso que seja mau guarda-redes, mas, no entanto, era esperado mais na evolução, desde que chegou até aquilo que está a defender neste momento. E Samuel Soares, que tem tido a oportunidade de brilhar ontem. Poderá não sair bem ali no primeiro e no segundo gol, mas é um guarda-redes que precisa de jogar, tem 24 anos, portanto, não é propriamente uma jovem promessa, mas na realidade não esteve nunca à frente das redes e portanto, precisa desta oportunidade. Mas isto tem criado também com que no centro da defesa, Langlet com Tomás Araújo não estão ainda rodados. Era esperado que estes dois jogadores pudessem ter uma performance ligeiramente acima daquilo que está a acontecer e esta debilidade no setor defensivo tem provocado os poucos deslizes que o Benfica teve nesta época, porque na verdade, o desempenho tem sido bastante bom. Portanto, isto é uma diferença abismal, porque estamos a ir cirurgicamente até alguns erros individuais da defesa que levaram a sofrer gols, mas temos um Benfica que sabe jogar, que tem métodos. A diferença, a forma como, e perdoem-me a expressão, morde o adversário na perda de bola, é substancialmente diferente daquilo que acontecia com José Mourinho. E acho que aqui Marco Silva tem um trabalho impressionante nestes poucos meses que leva à frente da equipa do Benfica, o que nos deixa perspetivar uma época de sucessos ou pelo menos de disputa até tarde de todas as competições, que é isso que se exige no mínimo ao Benfica, é que dispute todas as competições até o final, coisa que não aconteceu na época passada.

Manuel Peizarro, Futebol Clube do Porto, já falamos aqui da palavra consistência, e é certo que estamos numa fase inicial, mas também já referiu, é algo que vem da época passada esta consistência. Faço-lhe uma pergunta semelhante O que este Futebol Clube do Porto tem que lhe faz dar um forte aplauso e o que gostaria de corrigir neste Futebol Clube do Porto? O que tem gostado menos?

Antes de responder, permita-me que por uns segundos volte ainda ao clássico.

Claro que sim.

A boa maneira de nunca mais se ter sucesso é tentar explicar as nossas falhas por uma espécie de conspiração dos outros. Como disse o Marco Silva no início da conferência de imprensa de ontem: "O Benfica ontem perdeu por sua inteira responsabilidade". Não vale a pena tentar criar aqui um qualquer fantasma de desigualdade de critérios. É incompreensível que um jogador com a experiência do Lenglet tenha tido aquela descompensação emocional. Se o puserem a desculpar, a minha tese é que não vão longe. Talvez seja melhor mesmo que cada um assuma as suas responsabilidades.

Se posso interpelar.

Evidentemente.

Só dizer que eu não justifiquei a derrota do Benfica com a arbitragem e acabei mesmo por dizer que Lenglet não devia ter tido aquela atitude. Mas na questão da dualidade de critérios, eu entendo que ficaram cartões amarelos por mostrar à equipa do Porto. Não sei se isto mudava resultados, mas na verdade condiciona muito depois a atuação dos jogadores. Portanto, não justificando o resultado do Benfica, porque entendo que o Benfica não fez o suficiente para ganhar o jogo, a questão da arbitragem é um tema transversal a todos, porque o Porto ainda na semana passada também se queixou da arbitragem. Portanto, não vou discutir este jogo, não vou discutir nenhum caso em concreto, mas entendo que a arbitragem deve ser repensada em Portugal, porque todos os clubes têm queixas, todos. Dos três grandes, pelo menos.

Isso também estou de acordo. Até nesta matéria há uma diferença. Veja o cuidado com que o Farioli geriu o cartão amarelo do Gary Veiga. É verdade que ele também teve uma queixa física, mas o Farioli não hesitou em tirar do campo um dos elementos mais influentes do Futebol Clube do Porto. E eu não tenho nenhuma dúvida que uma das razões foi a gestão de uma certa tensão emocional, que se acentuou muito, naturalmente, a seguir à expulsão do Lenglet. Ao contrário, por exemplo, do que fez o treinador do Benfica com o Pestiani, que devo dizer, eu assisti ao jogo no estádio, que esteve a muito pouco de justificar um segundo cartão amarelo. Que é um jogador de enorme qualidade técnica e que teve um grande papel neste, chamemos assim por exagero, renascimento do Benfica, mas que do ponto de vista emocional tem muito a ser trabalhado. Ele esteve ali em vários momentos envolvido em discussões com o árbitro, cujo sentido nem sequer se conseguia compreender. Já tinha um amarelo, não falta muito para levar um segundo. Eu acho que o treinador do Porto foi mais engenhoso na gestão dessa questão emocional, que num jogo desta dimensão existirá sempre. Agora, voltando àquilo que me parece a vantagem do Futebol Clube do Porto. O Futebol Clube do Porto está construído como uma equipa de entreajuda. Eu acho que o aspecto mais importante é o Farioli ter recuperado aquela mística do esforço coletivo, do esforço em que todos participam. Veja como na defesa do lado direito da defesa, um jogador como o Liam Gomes teve um papel tão importante. Não teria sido possível conter uma dupla, que é uma dupla muito engenhosa, Sjöstrand e Pestiani, sem uma forte colaboração de todos os jogadores. Essa forma de defender, já há quem diga que é uma espécie de catenaccio portuense, por elogio à nacionalidade italiana do treinador, parece-me muito importante. Como eu acho que o Porto, sobretudo em relação à última época, mostra uma enorme capacidade de ataque em construção, não apenas nas transições. Já na época anterior, as transições se revelam de enorme importância e na época anterior já o tinham sido, mas há também uma capacidade de cuidado continuado, de ataque continuado, que nós antes não víamos com maior tranquilidade, com maior imaginação, com maior capacidade de jogar entre linhas, de jogar nos extremos, de jogar pelo meio do terreno, que me parece muito interessante e que tira partido de o melhor de cada jogador. A minha grande expectativa é que o reforço da linha avançada, eu acho que o André Silva entrou bem, eu não faço parte dos que o menorizam. Ontem ele fez duas assistências e isso é muito importante num avançado. Um avançado não existe só para rematar à baliza, existe também muitas vezes para ajudar que outros possam rematar à baliza. No Futebol Clube do Porto há muitos gols marcados pela linha média, por jogadores da linha média, por esta razão mesmo, por uma construção em que todos participam. Mas eu tenho uma enorme expectativa que quer o Santiago Gimenez, quer o Samu, constituam agora reforços muito importantes para que o Porto possa ter mais opções na forma de atacar a baliza adversária.

Manuel Pizarro, Bruno Batista e José Dias Ferreira, obrigado por esta participação na Rádio Observador. José Dias Ferreira vai continuar num especial que vamos ter sobre a situação no Sporting. Já a seguir uma curta pausa na Rádio Observador, apenas para atualizarmos toda a informação. Rádio Observador. Desporto.