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Hoje, no Explicador das manhãs 360, já temos ao telefone o nosso convidado. É especialista em cibersegurança, Bruno Castro. Bom dia, muito obrigada pela sua disponibilidade.

Bom dia.

Bruno Castro, este novo coronavírus pode ser também uma ameaça para a segurança na internet?

Sim, confirmo. Realmente, hoje temos cada vez mais fraudes baseadas neste tema mais actual que estamos agora a correr. Acaba por ser um novo isco para fraudes de cibernautas. E realmente confirma-se que estamos cada vez mais a ter tentativas de ataques de cibernautas e fraude baseadas neste novo tema quente, e que de alguma forma transforma-se num isco universal para todos nós.

Bruno Castro, e com esta mudança de hábitos, com muita gente a trabalhar a partir de casa, nota-se alguma mudança no consumo de tráfego das redes? Há mais troca de informação? Há mais informação a circular?

Sem dúvida, até porque, em termos práticos, de uma forma muito realista, a nossa sociedade já vivia baseada na internet. Este meio de informação transversal e universal em que não há fronteiras nem há geografias. Isto só veio, de alguma forma, concretizar um bocadinho aquilo que nós já sabíamos. Ou seja, a partir do momento em que nós temos a nossa sociedade baseada na informática e nos meios de transmissão e telecomunicações, hoje, com este estado de quarentena generalizado, todos nós estamos a trabalhar remotamente, ou uma grande parte de nós está a trabalhar remotamente, e estamos assentes agora realmente sobre o que é a sociedade de informação e o que são os meios de comunicação transversais. É um facto que também estamos a stressar essas mesmas infraestruturas e penso que todos nós estamos a sentir de alguma forma que estar em quarentena ou trabalhar remotamente em casa não é a mesma coisa que estar no escritório ou estar nos clientes.

Há riscos maiores, é isso?

Há muito maiores, obviamente. O trabalhar remotamente não é a mesma situação de estar a trabalhar dentro de uma organização em que eu estou protegido por ela. Estou a trabalhar em minha casa, baseado no meu conceito de segurança, na minha noção do que é a segurança e como eu me protejo, e não estou debaixo de uma infraestrutura corporativa que me protege.

E neste caso, quais são as técnicas mais utilizadas e quais são o tipo de crimes ou o tipo de ameaças mais comuns?

Voltamos ao mesmo, ou seja, nada de novo. Nesse aspecto, nada é novo. O que está a acontecer de uma forma muito natural. O que acontece? Hoje, o que todos nós conhecemos por ataques de phishing, que é dos ataques mais conhecidos e com mais sucesso que há na internet. Todos nós recebemos isso no Black Friday, e-mails falsos com certos links para roubar a password, e por aí fora, e fazer fraudes de cartões de crédito e por aí em diante. Hoje, está a acontecer o mesmo, mas com um tema actual, que se chama coronavírus. O isco para ataques de fraudes deste género de phishing, que é o ataque mais conhecido, mais violento e com maior sucesso, utiliza o tema do momento, que é o coronavirus phishing, que tem uma grande vantagem, que é um isco universal, é do interesse de todos nós. Quando alguém agora envia um link com uma nova app mobile para se ver o mapa da propagação do coronavírus no mundo, todos têm interesse em ver. E depois quando clicam e fazem o download dessa app e instalam no telefone, estão também a instalar um malware que vai, por sua vez, roubar passwords e por aí fora. O tema é o mesmo, o conceito é o mesmo. Estamos a usar agora um isco muito mais poderoso.

É um isco que também é global, não é?

É do interesse de todos.

Como é que podemos conseguir identificar aquilo que é phishing, aquilo que é o tal isco que o Bruno nos está a explicar, ou algo que é fiável? Que filtro é que podemos ter? Que estratégias é que podemos utilizar?

Essa é a pergunta de 1 milhão de dólares, não é? Eu posso sempre dizer o mesmo e fazem-me sempre a mesma pergunta: qual é a vacina para ataques de phishing ou para ganhar sensibilidade do que é fiável e o que não é fiável no mundo da internet? Não existe. Isso não existe. Isso é um mito urbano. O que tem que existir cada vez mais é o que nós propomos mais às organizações ou às pessoas, à sociedade em geral, é que passem a ter mais sensibilização do que é informática, o que é cibernauta, o que é os ataques cibernautas, que passem a ter algum conceito do que aquilo que fazem no mundo real, quando passeiam na rua e têm todos esses alertas e essas autodefesas pré-instaladas no seu sistema operativo mental e que aplicam na rua, não andar à noite em zonas perigosas, não andar com o telemóvel na mão na rua, e por aí fora, também não podem fazer o mesmo no mundo cibernauta.

Sim, Bruno Castro, diz que é preciso mais sensibilização, claro, compreendemos essa parte, mas há certamente coisas que podemos fazer para tentar evitar ser vítimas de cibercrime, destes ataques pela internet.

Sim, claro, obviamente. Eu apostaria, numa primeira fase, dividir isto em dois grandes grupos. Um que é o grupo em que são colaboradores dentro de uma organização, que estão a trabalhar actualmente remotamente através de casa. Têm acesso a informações corporativas importantes através da sua casa, da sua segurança pessoal, e podem colocar em risco a organização que está a trabalhar remotamente de casa. Eu diria que a organização tem que lhes proporcionar ferramentas tecnológicas e sensibilizações para que consigam minimizar o risco que vai haver, quer queiram, quer não, ao trabalhar remotamente de sua casa, interligadas à empresa. Este é um ponto. Depois há o outro mundo, que é o mundo das pessoas. Ou seja, todas as pessoas que utilizam a internet em casa, de forma natural, terem uma sensibilidade maior para não abrir e-mails falsos, não abrir e-mails de pessoas que desconhecem Algo que lhe saia alguma informação que pareça a desconfiar. E obviamente, depois tem que ter tecnologias normais, o antivírus, o antiphishing e coisas assim, que possam ajudar também a minimizar isso. Mas o mais importante acaba sendo sempre o mesmo, que é o factor humano. É dar forma de se informarem, de aprenderem, de que o mundo cibernauta é tão ou mais perigoso que o mundo real. Portanto, têm que se informar o máximo possível antes de utilizar.

Bruno Castro, disse agora que isso depende também muito do comportamento e dos investimentos das empresas. Por aquilo que conhece, acha que as empresas portuguesas, de uma forma genérica, estão sensibilizadas para isso, sobretudo neste momento em que têm cada vez mais pessoas a trabalhar à distância?

Cada vez mais. Nos últimos cinco anos, a minha sensibilidade para que o tecido empresarial está cada vez mais preocupado e aplica mais investimentos na segurança da sua organização e dos seus colaboradores, por essa mesma razão, porque grande parte deles não estão no escritório, andam nos clientes, querem trabalhar remotamente de casa, estão em viagens. E, portanto, hoje já não se põe a possibilidade de eu não estar em qualquer momento interligado à empresa, faz parte do nosso dia a dia. Quer por e-mail, quer por acesso a informações internas, por aí fora. As empresas ou darem essas aberturas aos seus colaboradores poderem aceder aos dados, à informação e à infraestrutura da empresa, estão cada vez mais preocupados também, ou lhes dá essa possibilidade de eles poderem trabalhar fora de horas e em qualquer momento e qualquer local, também têm que obrigatoriamente montar sistemas de os proteger, a si e a eles, por inerência.

Mas isso está a acontecer, Bruno? Porque está a dizer que, de facto, há uma disponibilidade grande das empresas e também de muitos trabalhadores para este teletrabalho, mas depois há essas limitações e essa maior fragilidade na segurança.

É um pau de dois bichos, mas não há alternativas. Neste momento, no estado em que nós estamos, eu diria que houve uma evolução grande nos últimos anos em que as empresas e o tecido corporativo deu aos seus colaboradores a possibilidade, quer por benefício, quer por necessidade, a capacidade de trabalhar remotamente. Isto é uma tendência já há cinco, seis, sete anos, nada de novo. Mas seria isso numa óptica de ou um benefício, para a pessoa poder trabalhar em casa por alguma razão, ou porque é importante para a empresa a pessoa estar disponível 24%. E, portanto, essa possibilidade dá-se numa óptica de benefício para o colaborador e algum apoio à empresa para estar sempre a operar o máximo possível, com a maior eficiência possível. Hoje, no estado em que nós estamos, a quarentena que está a aplicar de forma transversal no mundo inteiro, já não é um nice to have. É um must to have, tem que existir. E não há alternativas. As empresas, neste momento, aquelas que não se prepararam para isto durante os últimos dois, três, quatro anos, estão a fazê-lo neste momento, porque não há alternativas. As pessoas têm que trabalhar remotamente de casa e têm que trabalhar de forma segura para não condicionar e não pôr em causa a segurança da empresa. Não há alternativas.

O especialista em cibersegurança, Bruno Castro, muito obrigada pelos esclarecimentos e por ter estado em directo connosco na Rádio Observador.

Muito obrigado.

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