Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Não um, nem dois ou três, nem quatro, mas cinco candidatos ou protocandidatos às presidenciais deste ano passaram nestes últimos dois dias pela mesma convenção, Pensar Portugal, organizada pela SEDES. Hoje foi a vez de Henrique Gouveia e Melo e António Vitorino. Para este explicador convidámos Carlos Carreiras, que aqui na Rádio Observador recentemente disse que não excluía apoiar o almirante. A moderação fica a cargo da Judite França e do Miguel Vítor Dias.
Carlos Carreiras, bem-vindo. Gouveia e Melo vai mantendo, para já, o tabu, não querendo assumir tão cedo a candidatura a Belém. Faz sentido a Gouveia e Melo ir aparecendo neste tipo de eventos como este da SEDES, que basicamente convidou todos os candidatos e protocandidatos a Belém?
Muito boa tarde. Em primeiro lugar, como diz, e bem, protocandidatos, portanto, não têm que necessariamente ter uma relação direta. Quanto à pergunta, se faz sentido, no meu entender, faz, porque em primeiro lugar, é uma decisão pessoal que tem todo um conjunto de circunstâncias, também de ordem pessoal, que poderão levar qualquer cidadão a ser candidato ou não a presidente da República. Por outro lado, já num contexto político, repare que nós estamos muito preocupados com as eleições presidenciais, mas na verdade, antes das eleições presidenciais, irão existir eleições autárquicas. Eleições autárquicas essas, que se realizam cerca de três meses antes das presidenciais e que neste momento ainda não estão apresentados, pelo menos nas principais Câmaras do país, os candidatos, pelo menos dos principais partidos. Portanto, estar de alguma forma a criar uma confusão entre candidatos presidenciais a presidente da República e candidatos presidenciais a presidentes de Câmara, eu acho que não é útil para a própria discussão que deverá haver, quer no espaço de eleições presidenciais, quer naturalmente no espaço de eleições autárquicas.
Mas acha que é viável esperar pelas autárquicas para se lançar na corrida ou convém irem se apresentando antes? Já não foi o Marques Mendes que já o fez, não é?
Sim, mas isso dependerá também da própria evolução do processo de decisão de cada um dos protocandidatos ou daqueles que possam admitir vir a ser candidatos. Eu pessoalmente, se fosse um processo de decisão meu, não veria grande inconveniente em só aparecerem depois de estarem resolvidas as eleições autárquicas. Agora, com este frenesim que está criado, também penso que estar a adiar até às eleições autárquicas, de alguma forma, está a prejudicar a sua própria candidatura. Portanto, eu admito que não sendo o atual tempo, um tempo obrigatório de apresentar candidaturas, que se calhar já nas autárquicas será tarde por via desse frenesim que entretanto se instalou no país.
Já que nada está decidido ainda em relação ao seu apoio, Luís Marques Mendes ainda o pode convencer?
Eu posso te adiantar que se o almirante Gouveia e Melo, no seu processo de decisão e com as circunstâncias pessoais e de contexto político, decidir avançar, certamente terá o meu apoio.
Desde que esteve cá da última vez, Gouveia e Melo procurou dar-se a conhecer com um artigo no semanário Expresso. Reve-se naquele pensamento?
Completamente. Aliás, aquilo penso que é uma reflexão de um cidadão que, nas suas linhas gerais e em todas essas linhas, também não diz nada de extraordinário. Há ali algo que me parece ser fundamental. Em primeiro lugar, é o reforço da necessidade de nós estarmos permanentemente a defender a democracia, que está a passar por fases que têm tido muitos ataques à própria democracia. Por outro lado, também a importância no âmbito do regime democrático que os partidos políticos devem ter. E por outro também, algo que me parece fundamental, que tem a ver com nós evoluirmos para posição que nos afaste dos extremos e, portanto, do extremismo, do populismo, que é uma das formas de ataque ao próprio regime democrático. Aí revejo-me completamente. Aliás, já o vinha a defender há muito tempo a esta parte. Por outro lado, também as eleições presidenciais, não se pode ver isto como um campeonato desportivo, ou seja, podemos todos vir a ganhar com isso, desde que haja respeito pelos restantes candidatos. E eu penso que nessas próximas eleições, daquilo que já é possível poder ter uma análise, nós iremos ter um leque de candidatos de grande qualidade e, portanto, haverá alguns que teremos uma maior aproximação, outros que nem tanto, mas que não há dúvidas nenhumas sobre a dimensão humana e política dos candidatos que se fala que poderão vir a apresentar as suas candidaturas E isso é um esforço que eu penso que tem que ser feito pelo próprio Presidente da República, que é atenuar, de alguma forma, esta crispação, que muitas vezes é uma crispação ilusória e que não faz bem a ninguém, muito menos àquelas camadas da população que estão mais fragilizadas do ponto de vista socioeconômico, porque são aquelas que sofrem mais no seu próprio dia a dia. Por outro lado, também, o artigo que nos traz é uma visão que é aquela que o Presidente da República pode ter, porque ela é, acima de tudo, ou deverá ser, acima de tudo, alguém que congregue, que agregue, que motive, que convoque a esmagadora maioria da sociedade portuguesa para objetivos que são fundamentais para os processos de projetos de felicidade de vida de cada um dos portugueses. E, portanto, nesse sentido, o artigo responde de uma forma muito positiva àquilo que é também a minha análise, vale o que vale, mas que me leva a poder adiantar hoje que se, de facto, o almirante Gouveia e Melo, na sua decisão individual, decidir avançar como candidato, terá o meu apoio.
Mas este posicionamento entre o socialismo e a social-democracia não é pouco específico? Isto não é uma tentativa de agradar à larga a maioria da população que vota sempre entre o centrão?
Não, é acima de tudo manifestar claramente que é oposto àqueles que apostam em políticas extremistas, políticas populistas, exatamente o contrário disso. E, portanto, esse é um dos fatores que me leva também a apoiar, além de naturalmente ser uma área onde eu me sinto também inserido do ponto de vista político.
Este posicionamento mais ao centro, digamos, que pode retirar votos ao PSD. Sentirá de alguma forma que o seu apoio pode contribuir para uma derrota de um candidato apoiado pelo seu partido?
Não, é por isso que eu digo. Não podemos analisar isso como um campeonato desportivo. Para já, porque deve depender a candidatura da própria decisão individual e não é uma decisão de um partido. Nestas eleições, está-se a situar muito em que cada partido tem um candidato. E isso também me parece que não é o mais aconselhável no processo em que estamos todos a viver, porque naturalmente o Presidente da República, para ter essa capacidade de congregar, de convocar pelo menos uma maioria larga da população, não deve estar vinculado ao sistema partidário e isso parece-me que é óbvio. Aliás, nós temos visto que nesse momento, que é uma coisa que é coincidente com o próprio almirante Gouveia e Melo, quer dizer, quando hoje se analisa os vários presidentes da República, penso que é um acordo comum de que o General Ramalho Eanes teve esse contributo para a própria democracia portuguesa. Era um ex-militar, tal como é o almirante Gouveia e Melo, e não esteve vinculado ao partido A ou partido B. Na altura, quanto muito, o que esteve vinculado foi a um combate contra um extremismo, que era o extremismo da época, e ganhou exatamente por isso. Não me parece que seja algo que seja contra os partidos. Aliás, o próprio artigo reforça a importância dos partidos no regime democrático, mas acima de tudo passa uma mensagem de que o extremismo e o populismo, além depois de outros fatores como a xenofobia, etc, pode criar clivagens da sociedade portuguesa que não são de todo aconselháveis e são prejudiciais para todos, mas muito especialmente para aqueles que têm uma situação socioeconômica mais fragilizada.
Gouveia e Melo diz no artigo que publicou no Expresso que o Presidente da República pode demitir o governo quando não cumpre as promessas eleitorais. Isto não é uma interpretação abusiva da Constituição?
Não, posso lhe dizer a minha interpretação, que não sei qual é que era a intenção do almirante Gouveia e Melo ao escrever uma situação dessa natureza. Acima de tudo, é um alerta para que de facto também está nos poderes do Presidente da República, como sabemos, e está definido pela Constituição, convocar eleições antecipadas com a demissão da Assembleia da República. Agora, o que nós não podemos continuar é ter um sistema que descredibiliza a própria democracia, que é de na altura das eleições vale tudo em termos de promessas e depois em termos da concretização, parece que vale menos do que tudo, ou seja, que fica desvalorizada a concretização dessas promessas. E isso vai em desfavor do regime democrático, porque afasta o cidadão dos próprios partidos. Aqui, claramente, os partidos têm que demonstrar que estão em condições daquilo que prometem de vir a cumprir, que aliás, é uma das áreas em que também é abordado no artigo, que é a capacidade de concretizar, a capacidade de fazer. E nesse sentido, não vejo que seja algo que extravase os próprios poderes constitucionais de um Presidente da República.
Carlos Carreiras, nós estamos aqui mesmo já a chegar ao fim. Acha que Henrique Gouveia e Melo conseguirá vencer na primeira volta ou uma segunda volta é inevitável, por ter se falado muito dessa repetição de 1986?
Tudo o que eu puder dizer sobre isso é mera especulação. O que lhe posso dar é a minha sensibilidade para aquilo que hoje vejo, até porque o cenário não está ainda completamente preenchido, mas eu se tivesse que hoje apostar, e estamos a falar de algo muito mais sério do que de apostas, mas se eu hoje tivesse que arriscar algum sentido, eu diria que teríamos segunda volta nas eleições presidenciais, sendo que também não é nada estranho, porque tem sido aquilo que desse momento se demonstra pelo próprio espectro sociológico-político que o país apresenta.
Carlos Carreiras, obrigado pela disponibilidade para se juntar a nós nas tardes políticas da Rádio Observador.