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E a nossa convidada neste Explicador, Maria José Roxo, professora catedrática em Geografia e Planeamento Territorial. Muito bom dia, bem-vinda. Poderíamos ter evitado alguns dos efeitos deste temporal? Ou seja, poderiam ter sido tomadas medidas preventivas que mitigassem os efeitos do temporal? Estamos a falar de um evento extremo, nem tudo poderia ser evitado, mas teria sido possível mitigar pelo menos alguns dos efeitos?
Olá, muito bom dia. Eu creio que nós poderíamos já ter começado a mitigar alguns dos impactos e vou explicar porquê. Esta não é uma situação nova para nós. Ela tem sido recorrente, vai continuar a ser recorrente e, de uma maneira muito simples, eu gostava de explicar que toda esta perturbação que nós estamos a ter no clima é uma evidência desta mudança climática e, portanto, vamos ter que nos adaptar, vamos ter que criar mecanismos de mitigação, porque aquilo que interfere e que está na origem destas tempestades é uma enorme instabilidade dos oceanos, que têm uma ligação muito grande à atmosfera. E quando eu tenho temperaturas dos oceanos mais elevadas, quando eu tenho o degelo, quando eu tenho estes fenómenos que conjuntamente criam estas situações de tempestades muito mais intensas a nível do planeta, mas que agora nos começam também a afetar, eu creio que está na altura, e já temos um background, porque já tivemos aqui várias tempestades a acontecer, e portanto, temos de uma vez por todas ter em atenção que o planeamento territorial é muitíssimo relevante e importante, mas que o planeamento nas cidades também o deve ser.
Maria José Roxo, só para canalizar: quando estamos a falar de cidades já muito antigas, como é que elas se podem preparar para este tipo de fenómenos extremos?
As cidades muito antigas tiveram, e nós todos sabemos, por muitas iniciativas, grandes remodelações, grandes modificações das suas áreas centrais, de certa forma com boa intenção, mas muitas vezes não tendo em conta coisas muito simples como esta: pavimentos que fossem mais permeáveis à água da chuva. Outro exemplo concreto, as próprias áreas ajardinadas serem mais relevantes, para poderem absorver mais água. A nossa questão aqui, e eu digo muitas vezes isso, é nós pensarmos cidades como sendo elementos naturais, onde a água circula. E então temos que ter necessidade de perceber onde é que a água se vai acumular, onde é que a água pode ser dispersa, como é que eu posso canalizar. E então, todos esses elementos têm que ter uma visão muito mais naturalista da intervenção nas cidades, mesmo nas cidades mais antigas.
Mas na sua opinião, Maria José Roxo, isso já acontece atualmente ou estamos a falar de práticas que são continuadas? Continua a ignorar-se a necessidade de adaptar as nossas cidades.
Continua. Há bons exemplos que deviam ser replicados.
Como por exemplo?
Como por exemplo, em algumas áreas de cidades que criaram parques naturais, com mais vegetação. Eu estou-me a lembrar aqui no concelho da Amadora foram criados dois ou três parques para serem bacias de retenção dessa água da chuva, para não invadir tanto a parte urbana. Portanto, há soluções e elas podem ser implementadas. E também temos soluções que podemos replicar de outras cidades, que estão a renaturalizar os seus cursos d'água, que não deixam construir nas margens dos rios. Portanto, nós temos aqui muitos desafios, mas eu acho que estes desafios podem ser ganhos.
Podem ser úteis. Maria José Roxo, estamos de facto aqui a falar de água. Vimos de uma seca prolongada, agora estamos a falar do risco de cheias. Isto também remete para a questão da gestão da água. Pode ser mais eficaz e mais inteligente, por consequência.
Eu acho que estamos nos dois extremos. E estes dois extremos vão ser a nossa realidade futura. E esta questão de estivemos em seca, devíamos ter trabalhado seriamente para, um exemplo muito concreto, durante os períodos de seca, devíamos ter trabalhado seriamente na limpeza de barragens, para elas poderem receber mais água. Devíamos ter arranjado outras soluções, devíamos ter outras soluções com pequenas barragens, por exemplo, no Baixo Alentejo interior, na margem esquerda do Guadiana, que precisa sinceramente desta água Podíamos ter recuperado os sistemas antigos. Portanto, temos aqui uma série de elementos que podiam ter sido feitos e não foram, e que agora teriam recebido muito mais água. Podíamos ter armazenado muito mais água do que armazenámos.
Maria José Rocha, aquilo que diz vai ao encontro de uma ideia que é, por exemplo, do nosso convidado que esteve aqui na primeira parte, o José Carlos Ferreira, que é também especialista em ordenamento do território. É a ideia de que é produzido conhecimento, nomeadamente ao nível da academia, sobre os riscos destas alterações climáticas e destes eventos extremos, mas que depois há uma dificuldade em transferir esse conhecimento para a comunidade e para o aplicar. Esse é um dos problemas, a produção de conhecimento, conhecimento esse que depois não é aproveitado?
Eu acho que é, sinceramente. E por uma razão: nós produzimos muito conhecimento, nós trabalhamos e muitos de nós temos esta missão que é divulgar ciência, mas há aqui outro passo a dar. E outro passo é na educação e na formação. E esse passo ainda não foi dado com a devida intensidade, que é nós recebermos os avisos da Proteção Civil ou recebermos avisos do IPMA, mas há uma série de pessoas que não têm ainda aquela facilidade em perceber: "Isto é mesmo importante, vamos lá ver como é." Isso tem a ver com formação, tem a ver com educação, que deve começar desde muito cedo. Isso é verdadeiramente importante.
E é um trabalho mais a longo prazo. Maria José Rocha, muito obrigada por ter estado connosco neste Explicador. Um bom dia, Maria José Rocha. É professora catedrática em Geografia e Planeamento Territorial.