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Vamos verificar factos com a ajuda do jornalista André Maia. Bom dia, André.

Bom dia.

Bom dia. Hoje vamos vestir o casaco e rumar até à Antártida. Vamos falar do aquecimento global e de uma publicação que tenta provar que o fenômeno não existe.

É verdade, João. Não é verdade que não existe. É verdade que vamos falar disso, atenção. Até porque isto pode levar a um plot twist. Não vou deixar spoilers, mas sim, vamos pegar no casaco, vamos até à Antártida, um casaco quente, de preferência. Vamos olhar para um post que tem sido muito partilhado, tem circulado um pouco por todo o mundo nas redes sociais, e que mostra uma imagem retirada de um estudo científico que mostra as variações da camada de gelo da Antártida entre 2009 e 2019, ou seja, 10 anos. E espante-se, olhando para a imagem, a conclusão que se tira é que o número e também o tamanho das plataformas de gelo nesses 10 anos aumentou em cerca de 5000 km. No mapa que aparece na imagem, para fazer uma descrição para os nossos ouvintes, vê-se a vermelho algumas pequenas zonas onde o gelo derreteu durante estes 10 anos e depois vemos umas partes azuis muito grandes e em grande quantidade, onde supostamente é onde as zonas de gelo aumentaram na Antártida. Quem escreveu esta publicação aproveitou logo para atacar com uma pergunta: "Aquecimento global, onde exatamente?"

A pergunta percebe-se aí nesse sentido, mas, André, o mapa é verdadeiro?

O mapa, suspense, é verdadeiro. E isto agora pode fazer levantar as orelhas dos nossos ouvintes, também as vossas, mas não é assim tão simples.

Já fiquei de sobrancelha levantado.

O mapa da imagem é verdadeiro, é retirado de um estudo científico real, publicado recentemente na revista científica The Cryosphere, porém, as conclusões que estão a ser tiradas já são um pouco erradas e também forçadas.

Ou seja, é verdade que a extensão do gelo da Antártida aumentou, a explicação é que não é assim tão óbvia nem positiva.

Exatamente, Júlio. A explicação está no próprio estudo, mas tendo em conta que este mapa está a tornar-se viral, os próprios autores vieram deixar explicações mais detalhadas, até nas redes sociais, e a explicação faz todo o sentido. O que aumentou foram as plataformas de gelo. Ora, estas plataformas são formadas através do deslizamento do gelo das zonas mais altas da Antártida, ou seja, do gelo que desce em direção ao mar e as plataformas criam-se no mar. E como é que o gelo desce, meus amigos?

Aí eu aposto que ele derrete. Fica em estado líquido, isto é o efeito do derretimento, vai escorrendo por ali abaixo.

É isso mesmo. O aumento nestas plataformas de gelo só acontece porque há gelo que está a derreter nas regiões mais altas da Antártida. Com mais gelo a derreter nessa zona, mais gelo se vai acumulando nas plataformas junto ao mar e, no fundo, o gelo está apenas a deslocalizar-se, está a passar das zonas mais altas para ficar nas zonas mais costeiras do continente gelado. No Twitter, por exemplo, a equipa de investigadores da Universidade de Santiago do Chile, que é especializada na Antártida, explicou de forma muito simples e direta, em 140 caracteres, agora acho que já dá para escrever um pouco mais, mas diz assim: as plataformas de gelo flutuantes que rodeiam a Antártida aumentaram a extensão em 5000 km desde 2009. É uma boa notícia? Não, dizem eles, porque sugere que há um fluxo acelerado de gelo para o mar. Feitas as contas, dizem eles, a Antártida perde 149 gigatoneladas de gelo por ano e a maioria por causa deste fluxo acelerado, ou seja, aquecimento global onde exatamente? Exatamente nas regiões mais altas da Antártida e por ali fora.

Portanto, André, temos carimbo, qual é?

Temos carimbo vermelho. Sim, é verdade que o tamanho das plataformas de gelo da Antártida aumentou desde 2009, mas não, isso não significa que o aquecimento global não exista ou não tenha impacto nesta zona, antes pelo contrário, estas plataformas só aumentaram de tamanho e em quantidade, porque há gelo que está a derreter nas regiões mais altas da Antártida. No fundo, o gelo está apenas a mudar de sítio.

Portanto, carimbo vermelho no fact-check das manhãs "360", hoje com o jornalista André Maia. Obrigado, André.

Obrigado, um abraço.