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Seja mais uma vez muito bem-vinda ao "Fio Condutor". Esta semana, e porque a ocasião assim o pede, fazemos uma viagem de longo curso. Olhamos o ano de 2019 online em perspectiva. O "Fio Condutor" vai entrar na febre dos balanços. O meu nome é Vicente Figueira e hoje apresento-me como fazedor de coletâneas. O ano está a chegar ao fim. Este é o último "Fio Condutor" de 2019 e por isso mesmo urge fazer uma seleta do que nos trouxe o mundo online ao longo do ano. Esta semana abandonamos as linhas tradicionais, a minha aldeia, a contenda e o momento unânime, para dar lugar a três outras linhas. Ciente de que na internet há lugar para a estupidez e que num ano ela se acumula como cotão, esta semana começamos com a facécia do ano, aquilo que no meio de um manancial significativo de estupidezes, foi capaz de assumir proporções planetárias e, deixo numa pista, teve mais likes do que salmonelas. Seguimos depois para o Grande Irmão, a internet e os seus bilhões de olhos tudo veem, até ao ponto da picuinice, acredite. E terminamos o 2019 online com as grandes questões. É sempre bom dedicar um olhar às grandes inquietações modernas, sobretudo se lá houver uma coisa chamada incongruência. É isso mesmo que vamos olhar, é para as perguntas que os portugueses fizeram ao Google e com o final do ano, uma pessoa vai-se entregando aos chavões de Réveillon e por isso mesmo, se o ano novo é vida nova, ficamos com o Manuel Cruz, que nos traz uma música precisamente deste ano que agora está a terminar. Chama-se, veja bem, "Vida Nova". O "Fio Condutor" volta já daqui a pouco.

Depois de passar a prova, penso em vida nova. De olhos na paixão antiga. Não se esquece, mas sem ti, arrefece. Quando me sinto em brasa, volto a arrear casa. Sai o animal à rua. Que vergonha, traz-te alto, todo nu. Junta-lhe uma mão de culpa e uma colher de teimosia. Tens um bolo de rancor. Sabes bem, tens poupado no amor. Os outros hão de falar sempre. É isso que os outros fazem. São as vidas a ferver. E então, tens a tua para viver.

Está de regresso o "Fio Condutor", esta semana com linhas especiais. Vamos olhar o ano 2019 online em perspetiva e para já vamos à facécia do ano. No fundo, quer isto dizer que vamos olhar para uma pequena estupidez que assumiu proporções globais. E este ano de 2019 na internet fica marcado por uma revogação, a revogação do ditado: "Não se fazem omeletes sem ovos". Ficou provado que um ovo apenas pode fazer uma omelete que alimenta 54 milhões de pessoas. A simples fotografia de um ovo com o fundo branco chegou a todo o mundo, teve 54 milhões de likes no Instagram e apesar da boa resolução da fotografia, não há nada que o justifique. Mas a internet tem destas coisas, potencia fenômenos que não se sabe como explicar. Pequenas estupidezes podem chegar a todo mundo. Eu admito que gosto de participar em algumas delas. Aqui foi o caso, o Eugene, o ovo mais famoso do mundo, conta com o meu like. Foi o grande fenômeno aleatório da internet este ano e na memória de quem deixou o seu like neste ovo, uma coisa é certa, passe o tempo que passe, ele nunca vai desenvolver salmonelas. E porque é do ovo mais famoso de 2019 que falamos, vamos ouvir os Felice. O tema é Fried Egg. Foi esta a facécia do ano no mundo online. E continua este fio condutor especial revista do ano e a internet, onde o comportamento das pessoas passa por tudo mostrar, é também o sítio onde tudo se vê. São bilhões de olhos esta semana. A segunda linha do fio condutor é, por isso mesmo, o Grande Irmão. I'm watching you, Wazowski. Always watching. Vamos olhar para aquilo que a internet foi capaz de detectar e disseminar em 2019. São os pormenores que só não escapam ao online e por isso mesmo entramos também na moda dos tops. Neste caso é um pódio, é o top três pequenas coisas que a internet apanhou por se tratar de um meio em que muitas pessoas despendem demasiado tempo a olhar para aquilo que não interessa. E começamos com o terceiro classificado, uma imagem de uns arbustos de tom amarelado que se tornou viral porque alguém passou demasiado tempo a olhar para ela. Na verdade, essa imagem não se faz apenas de arbustos, no centro da imagem, em profundidade e mais ou menos escondido atrás de uma pedra e mais camuflado do que um camaleão, está o leopardo. O desafio para encontrar este felino foi lançado no Twitter e como é que alguém encontrou o leopardo em primeiro lugar é algo que me choca. Asseguro-lhe que nem com uma imagem criada com uma seta no sítio onde estava o raio do bicho eu fui capaz de o encontrar. Em segundo lugar, neste top de coisas que só a internet viu em 2019, está um copo de café que depois de ser encontrado indignou os fãs mais chatinhos de Game of Thrones. Isto porque numa das cenas da última temporada da série, um copo de cartão para café foi para o ar numa mesa cheia de canecas medievais. O erro foi detetado numa imagem publicada na internet e como sempre, os fãs mais hipsters bradaram gritos de revolta. E em primeiro lugar, neste top de pequenos detalhes que só a internet e os seus muitos olhos são capazes de detetar, está o Windows XP, que é ainda o sistema operativo utilizado por Vladimir Putin. Ora ficámos a saber disto porque alguém na internet ao olhar uma fotografia oficial do Kremlin, reparou que a barra de ambiente de trabalho no computador do presidente russo ainda era a do velhinho Windows XP, que é considerado obsoleto. Todo mundo ficou a saber, por causa do online, que Putin rejeita a modernidade tecnológica. E em 2019 podemos falar de uma internet que tudo viu. Foi este o top três para este grande irmão. A escolha foi minha, deve por isso ser bastante dúbia. Ainda assim ficamos com um som que retrata bem o que se pode sentir na internet. "Someone is Watching Me", o tema é de Rockwell. O fio condutor volta já daqui a pouco para olhar para as grandes questões.

I don't know anymore are the neighbors watching me. Well, is the mailman watching me? And I don't feel safe anymore. Oh, what a mess. I wonder who's watching me now. The IRS. I always feel like somebody's watching me. And I have no privacy. I always feel like somebody's watching me. Tell me, is it just a dream? I always feel like somebody's watching me. And I have no privacy. I always feel like somebody's watching me. Who's playing tricks on me? I always feel like somebody's watching me. I always feel like somebody's watching me. Tell me it can't be. I always feel like somebody's watching me.

E chegamos à última linha do último "Fio Condutor" deste ano e, por isso mesmo, é uma linha especial. Vamos responder às grandes questões, que, na verdade, são duas, são dois comos, os dois comos mais perguntados pelos portugueses em 2019 ao Google. E digo-lhe desde já que são duas perguntas completamente desfasadas uma da outra. Já vai perceber porquê. A segunda pergunta mais feita pelos portugueses ao Google foi: como usar o Tinder? O Tinder é uma aplicação cujo funcionamento não é difícil. Trata-se de uma plataforma online onde uma pessoa avalia a outra com base em apenas algumas fotografias e, caso queira falar com ela, varre para a direita, caso não queira, varre para a esquerda. Mas não basta. Para desbloquear um chat com uma pessoa, é mesmo preciso que ela devolva uma varridela para a direita. Digamos, portanto, que é a plataforma ideal para os maniqueístas. Só há sim ou não e por isso é capaz de não valer assim tanto a pena. Avaliar uma pessoa por algumas fotografias não é justo e eu se calhar só digo isto porque não sou lá muito fotogênico. Mas adiante. E posso dizer-lhe que as questões que intrigam os portugueses podem ser muito incongruentes. Se a segunda pergunta mais feita ao Google foi como usar o Tinder, a primeira foi: como saber onde votar? Percebe-se que assim seja. Afinal de contas, este ano tivemos dois sufrágios, foram as europeias em maio e as legislativas em outubro. Mas olhando para a taxa de abstenção destas duas eleições, desconfio que o Google não tenha dado lá grande resposta. Uma coisa é certa, ao menos a pergunta em quem votar ainda não chegou ao top das mais feitas e por isso, isto por si só, há de valer qualquer coisa. Bom, e está na altura do "Fio Condutor" se despedir deste ano de 2019. Boas entradas e como despedida deste ano, que foi um ano de muita internet, vamos fechar o "Fio Condutor" com uma das músicas que marcou o ano em Portugal, mesmo que tenha sido lançada no seu início. Todos acedemos, e muito, à internet pelo telemóvel. O "Fio Condutor" despede-se deste ano precisamente com telemóveis de Conan Osíris. Boas entradas até para o ano. Uma coisa é certa: a internet não vai parar.

Eu parti o telemóvel a tentar ligar para o céu, para saber se eu mato a saudade ou quem morre sou eu. E quem mata quem, quem mata quem, mata quem, mata quem? Nem eu sei. Quando eu saber não liga mais ninguém. E se a vida ligar, se a vida mandar mensagem, se ela não parar e tu não tiveres coragem de atender, tu já sabes o que é que vai acontecer. Eu vou tirar a minha escada, vou estragar o telemóvel. O telelei, eu vou partir o telemóvel. O teu e o meu, eu vou estragar o telemóvel. Eu quero ver descambalhar o telemóvel. E se eu partir o telemóvel, eu só parto aquilo que é meu. Vou para ver se a saudade morre, vai na volta quem morre sou eu. E quem mata, quem mata? Eu nem sei. A chuvaria não consegue mexer em nada. Eu parti o telemóvel, mas eu nunca mais parto o meu. Eu sei que a saudade está morta. Quem mandou a flecha fui eu. Quem mandou a flecha fui eu. Fui eu.

E chegou até aqui. Quer dizer que ouviu até o fim. Muito obrigado. O meu nome é Vicente Figueira e este é um podcast da Rádio Observador, uma rádio que pode ouvir online e também em 98.7 Lisboa e 98.4 no Grande Porto.