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Olá, seja muito bem-vindo a mais um "Fio Condutor", o seu catálogo semanal do que a internet nos trouxe de mais interessante, mas também mais permisco. Meu nome é Vicente Figueira e sou eu quem o conduzo nesta viagem semanal. Por norma, são três as linhas das quais se faz este fio condutor, mas esta semana vão ser só duas. Isso porque temos um assunto para tratar e arrumar de uma só vez e vai levar algum tempo. Por isso, esta semana passamos, como sempre, pela minha aldeia, seguimos com a contenda da semana e é com ela que fechamos, porque esta semana vamos dar espaço a uma profunda análise à natureza parva de um reality show que gera burburinho diário no Twitter. Numa semana marcada pelo início do processo de instrução da Operação Marquês, que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates, Carlos Santos Silva, o alegado testa de ferro do ex-governante, diz que comprou 500 exemplares do livro de José Sócrates por amizade. E por isso mesmo, deixo com o som de Randy Newman, o famoso tema da banda sonora de "Toy Story", "You've Got a Friend in Me". Eu volto logo depois e vou consigo até ao Canadá. E esta semana, na minha aldeia, viajo consigo até ao Canadá, uma pequena cidade da província do Quebec, porque nesta parte francófona do Canadá, a cidade de Asbestos quer mudar de nome e a mudança já está a ser equacionada pela Assembleia Municipal. Não é todos os dias que uma terra quer mudar de nome. Para que isto aconteça, só mesmo com uma razão muito forte, mas digo que os habitantes e responsáveis políticos de Asbestos acreditam ter uma razão mais do que suficiente para encontrar outra forma de nomear a cidade. E sendo que não é todos os dias que encontramos uma cidade que quer mudar o nome de batismo, não o faço esperar mais, vou contar-lhe o porquê. Esta pequena cidade de Asbestos quer batizar-se de outra forma, porque asbestos é, na verdade, uma outra maneira de dizer amianto. Ora, bem sabemos que este mineral, caso esteja em mau estado de conservação, é responsável pela libertação de fibras para o ar, que podem provocar cancro. Isso tem vindo a gerar campanhas que querem excluir estes minerais no leque muito variado de construções. Esta cidade de Asbestos, ou amianto, se quiser, ficou assim nomeada porque tinha uma mina precisamente de amianto, que por muitas décadas se revelou fundamental para a economia local. A mina encerrou em 2012, mas a sua influência continua a pairar sobre esta cidade e não é, em nada, uma influência secundária, uma vez que o amianto é o mineral que dá nome a esta localidade, que fica a 152 quilômetros de Montreal. A Assembleia Municipal anunciou a vontade de mudar a nomenclatura da cidade num post de Facebook. Os membros deste órgão queixam-se de que o nome dificulta os planos para construir relações econômicas externas, porque o nome Asbestos não tem uma boa conotação. O mayor, Hugues Rhimard, diz ainda que várias empresas decidiram não investir na cidade, isto, claro está, por causa do nome. Ainda não foi escolhido um novo nome, isso só deve acontecer no próximo ano. Rhimard, o mayor da cidade, frisou também que o processo vai ser explicado à população para que estes participem no processo de criação de uma nova identidade. Seis mil e oitocentas pessoas, que é o número de habitantes de Asbestos, a cidade canadiana que tem o nome que é sinônimo de amianto, podem agora vir a viver no mesmo sítio, mas com outro nome. E se há uma terra que procura nome, por que não ouvir uma música em que o nome é dito com vimência? Deixo-o ao som de "His Name Is King", de Luis Bacalov, o compositor ítalo-argentino de filmes western. Esta faz parte da banda sonora de "Django Unchained", de Quentin Tarantino. "His Name Is King". Eu volto já daqui a pouco para a contenda da semana, e esta semana vai ser uma especial. Está na hora de lhe dar a conhecer aquela que foi a contenda da semana na internet. Hoje muda a trilha, porque vamos analisar em profundidade uma das grandes questões da nossa contemporaneidade. Eu andei estas semanas todas a adiar. Admito aqui que tentei mesmo fugir a este tema, mas fazê-lo mais uma vez seria negligenciar a minha missão, que é trazer-lhe aquilo que na internet está mesmo a badalar. E uma das coisas que está sempre nas trends e que mais marca a discussão no Twitter todas as semanas é o reality show "Casados à Primeira Vista". Este é um reality show, um programa em que duas pessoas tentam fazer, sem nunca se terem conhecido antes, aquilo que mesmo quem se conhece se vê muitas vezes com dificuldade: casar. Tendo em conta o teor do programa "Casados à Primeira Vista", estamos perante uma receita para o sucesso, da contenda, é claro, porque a instituição do matrimónio sai daqui, no mínimo, arranhada. Mas que tipo de coisa é que passa na cabeça das pessoas para se inscreverem num programa em que a premissa é serem emocionalmente exploradas aos olhos do grande público? No que é que uma pessoa destas acredita?

Eu inscrevi-me no "Casados à Primeira Vista" porque eu acredito no amor.

Olha, isso é muito lindo, mas mesmo acreditando no amor, eu continuo sem perceber porque é que uma pessoa se inscreve num programa de televisão para encontrar, e estou a citar 90% dos candidatos, a cara-metade.

Porque eu quero respeito, valorização, carinho e honestidade.

Podia ter dito logo. Que sorte a desta concorrente, porque estes programas têm sempre uma equipa de psicólogos altamente qualificados e empenhados em que as suas necessidades emocionais sejam satisfeitas. Ou isso, ou desenhar situações-limite que gerem o atrito necessário para atrair audiências. Uma das duas. Vamos ouvir.

Isto que a Eliana mostrou é alguma liabilidade emocional. O que isto quer dizer? Que ela é muito instável nas suas emoções. Ou seja, a emoção que ela sente neste momento pode mudar a qualquer altura.

É emocionalmente instável, mas graças a Deus agora vai ter a sua vida filmada e exposta 24 horas por dia ao lado de um desconhecido na televisão, terapia tradicionalmente recomendada a quem quer reduzir a ansiedade e encontrar estabilidade emocional. E graças a Deus, os concorrentes são acompanhados por profissionais muito competentes.

A Eliana é uma mulher muito sensível. Procura alguém que lhe traga tranquilidade, respeito e que a valorize bastante.

Que diagnóstico exímio! São raríssimas as pessoas que querem estas coisas. Eu, por norma, ando sempre à procura de alguém que me traga instabilidade enquanto me desrespeita e se, para além disto tudo, ainda me desvalorizar, aí eu peço em casamento. Feita a introdução do que é este programa, vamos agora a uma das discussões de casal deste programa que levaram o Twitter à loucura esta semana. Luís e Marta são um dos casais que depois de uma primeira vista, casou nesta edição do programa, mas para surpresa de toda a gente, não se estão a dar lá muito bem. Diria até que parece mesmo que não se conhecem. Mas lá está, quem sou eu para pôr em causa as compatibilidades construídas pelos psicólogos e coaches amorosos altamente qualificados que fazem o mapa das compatibilidades entre os concorrentes. Não sou ninguém. Se as discussões neste programa são recorrentes, esta semana houve uma especialmente distinta, sobretudo pela clareza que pautou a troca de ideias. Tudo começou com uma tal de Marta a acusar um tal de Luís de ser indiferente, mas, por outro lado, de estar chateado.

Isso dizes-me: "Ok, eu não tenho uma relação contigo", mas depois se eu vou ao fim de semana a casa, ficas chateado.

Mas Luís, que alega não ter uma relação com a mulher com a qual casou, não ficou chateado, nem pensar, e vai deixar bem claro aquilo que pretende para que nada fique por esclarecer.

Fico chateado quando temos zero contacto para fazermos projetos, para andares para a frente, para estares feliz.

Muito bem, aqui eu só não percebi se o Luís está a falar com a companheira ou com o empreiteiro que tem uma obra em atraso porque ainda está à espera dos fornecedores. Mas, Luís, que não se faça de vítima, porque tu, Luís, tu...

Ficas incomodado se eu fico um bocadinho a dançar até mais tarde, porque já fazes filmes do que eu fiquei a fazer.

Ao que parece, o Luís tem ciúmes, mas ele diz que não e explica porquê.

Não, isso é diferente. Quando toda a gente sai do bar e eu vou ali buscar o teu casaco e estás a falar com um homem toda feliz e happy.

Portanto, Luís explica que não tem ciúmes, descrevendo um ataque de ciúmes. Bravo. Bem, esta discussão terminou com o sempre contundente "tchau, vou-me embora". Este programa, "Casados à Primeira Vista", marca todas as semanas as tendências do Twitter. Fica abordado de uma vez por todas. Prometo aqui que não volto a entrar neste programa, até porque tive de me alongar para arrumar este assunto e por isso mesmo esta semana não há momento unânime. O fio condutor volta para a semana com mais do que nos disse a internet. Terminamos com uma ode sonora ao amor pausado. Um conselho para os participantes do programa "Casados à Primeira Vista". Chegam os Orleans com "Love Takes Time". Até para a semana. O meu nome é Vicente Figueira. E chegou até aqui, quer dizer que ouviu até ao fim. Muito obrigado. O meu nome é Vicente Figueira e este é um podcast da Rádio Observador, uma rádio que pode ouvir online e também em 98.7 Lisboa e 98.4 no Grande Porto.