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Fora do Baralho, na sua versão de episódio dominical dedicado às perguntas dos ouvintes. É muito fácil enviar perguntas ou comentários, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt e, à vez, cada um dos membros do painel vai respondendo aqui neste episódio extra. Hoje cabe ao Nuno Garoupa responder. Olá, Nuno, bem-vindo.
Olá, tudo bem?
E temos aqui perguntas hoje muito ligadas à economia. Vou começar pela pergunta do Pedro Filipe Sousa: como se calcula o cabaz de produtos e serviços que são analisados para definir a inflação? E acrescenta o Pedro: esse cabaz pode ser alterado? Se sim, por quem?
Diretamente, o cabaz é definido pelo INE, de acordo com um conjunto de critérios que, segundo o INE, refletem fundamentalmente os padrões de consumo dos portugueses. Isto é feito com base em inquéritos e com base em informação estatística que o INE tem e o INE decide, momento a momento, aquilo que é os padrões de consumo. Portanto, o INE pode alterar essa base. Aquilo que é o conjunto de bens e serviços incluídos para o cálculo da inflação, o INE pode alterar quando entende que se alteraram os padrões com base, por exemplo, no inquérito às despesas da família ou outras fontes estatísticas adequadas. O contexto que eu queria dizer, que também se acrescenta a qualquer outra estatística nacional, é que tudo isto segue padrões do Eurostat. Portanto, Portugal não escolhe livremente como é que calcula a inflação. Isso é importante, A, para podermos comparar a inflação entre os Estados membros da União Europeia e, B, Portugal teve que ajustar em 86 e 87, quando aderiu à União Europeia, na altura CEE, teve que ajustar muitos dos seus critérios, quer no cálculo da inflação, como vamos falar do desemprego. Portanto, dizer que isto não é só uma decisão do INE, nem o INE pode fazer isto de qualquer maneira. Aliás, como estamos a ver com o cálculo da população, o INE teve que explicar ao Eurostat o que é que anda a fazer. Portanto, o INE não anda em roda livre nesta matéria.
Portanto, qualquer alteração terá de passar pelo INE.
Tem que passar por justificação ao INE e também não são alterações todos os meses.
Claro.
Terá que haver uma razão que tem a ver com alguma alteração do padrão de consumo, de acordo com a evidência estatística que o INE venha a ter em algum momento do tempo. Portanto, essas coisas não são alteradas de seis em seis meses. Também é preciso atenção a isso.
Vamos aqui a outra pergunta que, neste caso, nos é enviada pelo Diogo Costa. Ele envia várias perguntas, acho que vou fazê-las todas, porque penso que isto depois se pode resumir numa resposta um bocadinho maior. Se o desemprego jovem está praticamente em 20%, como dizem os analistas que estamos em pleno emprego? Por que o Estado não considera desempregados pessoas que estão em formação? Será uma forma de mascarar os dados reais? E ainda uma terceira pergunta: os novos dados enviados pelo INE sobre a população portuguesa terão algum impacto na taxa de desemprego? Nuno, queres ir uma a uma ou queres juntar as três?
Vamos juntar, mas começar outra vez por realçar que o cálculo do desemprego é feito com base naquilo que são as recomendações do Eurostat. Portanto, o governo e o INE não podem disfarçar estatísticas em função de agendas do momento. E portanto, quando dizemos, por exemplo, as pessoas em formação não contam, bem, não contam em Portugal, mas não contam nos restantes 27 países da União Europeia e isso, obviamente, é que os faz comparáveis. E depois o próprio Eurostat, é preciso dizer, segue recomendações da Organização Internacional do Trabalho para que as taxas de desemprego a nível mundial possam ser comparadas. Portanto, atenção, só estar a alertar que isto não são coisas que se inventam para favorecer o partido A ou B, ou a agenda A ou B, isto está sujeito a regras internacionais. Coisa que, por exemplo, era muito menos verdade há 30, há 50 anos, e era por isso que havia grandes disparidades na forma como estes números eram medidos. Em relação às questões principais, repare, pleno emprego não significa que não há desemprego, significa que estamos naquilo que os economistas chamam a taxa natural de desemprego. Significa por quê? Porque em qualquer momento do tempo há flutuações. Há pessoas que estão entre empregos, pessoas que decidiram tirar um ano sabático para fazer outra coisa, pessoas que decidiram que querem procurar outro emprego e pessoas que entram e estão à procura de emprego e pessoas que estão já a pensar na sua fase de pré-reforma. Em Portugal, normalmente a taxa natural é de 5% a 6%. Portanto, quando a taxa oficial de desemprego se aproxima desses valores, é por isso que dizemos que estamos em pleno emprego. Não quer dizer que toda a gente no país está empregada. Portanto, primeira coisa que é preciso ter em conta. Jovens. É verdade que as taxas de desemprego de jovens em muitos momentos são mais altas. Mas atenção, só contam os jovens que estão ou ativamente à procura de emprego ou que já tiveram emprego e ficaram desempregados. O que quer dizer que é uma porcentagem muito pequena da população abaixo dos 25 anos e mais ainda quando o país tem mais jovens a estudar.
E quando falamos de desemprego jovem, é esse número que conta, não é?
É esse número que conta, não é quem está, por exemplo, a estudar na universidade.
Exato.
Portanto, é preciso pôr isso em conta. E por isso é que é possível ter 20% de desemprego jovem e estarmos, em termos agregados, próximos do pleno emprego. E temos o exemplo espanhol, que tem normalmente altas taxas de desemprego juvenil, jovem, inclusive a região fronteiriça da Andaluzia é conhecida por ter taxas de desemprego jovem, 30% a 40%, e no entanto a economia espanhola não está em recessão nem está em crise. Portanto, é preciso pôr em contexto que o desemprego jovem é uma fração muito pequena do total do desemprego, porque realmente reflete apenas os jovens que estão no mercado de trabalho ativamente. Finalmente, a questão dos imigrantes. Quando recalculamos e descobrimos que temos mais de 1 milhão de imigrantes, estamos a descobrir que temos mais 1 milhão de pessoas que estão a trabalhar, portanto, contam como população empregada, mas também quer dizer que temos mais 1 milhão de população ativa. Portanto, o rácio não é muito claro que vá variar muito. E portanto, é muito mais provável que vamos ter alterações, como já falámos no programa, no PIB per capita e outras variáveis per capita. Na taxa de desemprego, é muito provável que isto não venha a ter grandes variações quando o INE finalmente apresentar os dados todos depois de recalcular. Precisamente, insisto, porque estamos a alterar o denominador e o numerador e, portanto, não é claro qual dos efeitos é que vai ser o mais importante.
Obrigado, Nuno. Respondemos aqui às perguntas do Diogo Costa e do Pedro Filipe Sousa, que enviaram e-mail para foradobaralho@observador.pt. Coube ao Nuno Garoupa responder esta semana. Obrigado, Nuno, e um abraço para ti.
Um abraço a todos.
As respostas são dadas aos domingos na rádio e ficam também disponíveis em podcast. Bom fim de semana.