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A silly season finalmente ganhou algum espaço na atualidade nacional e na última semana as atenções viraram-se todas para o eclipse solar, que em Portugal aconteceu a 100% em Rio de Onor, mas que se viu de forma entusiasmada um pouco por todo o país. Por aqui, deixamos esse assunto para os muitos especialistas que se ouviram nas rádios e televisões nos últimos dias e vamos olhar para o presente e o futuro da nação, para a economia e para a política, até porque as rentrées estão mesmo aí à porta. Esta sexta-feira há a Festa do Pontal, a tradicional festa social-democrata que este ano faz 50 anos e no domingo também há a rentrée do PS. Vamos deixar isso para a jogada da semana na segunda parte. Eu sou a Inês André Figueiredo e este é o Fora do Baralho, na Rádio Observador. Esta semana contamos com os ases Luís Aguiar Conraria, Nuno Garoupa, Susana Peralta e uma ás extra, a Vera Gouveia Barros. Muito bem-vinda, Vera. Neste tabuleiro fica só a faltar o Jorge Fernandes, que não se pode juntar a nós. E vamos aproveitar esta presença menos comum para começar exatamente pela Vera, que nos traz ouros para o novo regulamento de bolsas do ensino superior. Tem-se dado destaque às novas regras para o apoio ao alojamento e para os estudantes deslocados. O que te leva a dar este naipe, Vera?

Olá, boa tarde. Deixe-me começar por agradecer este convite, que não é comum, mas que já se vai tornando uma tradição das minhas férias.

Nós é que agradecemos que estejas aqui também.

A escolha deste tema foi relativamente fácil, porque junta aqui duas coisas que me são muito caras. Por um lado, ensino superior, e tem-se falado muito este ano de ensino superior. O Luís já escreveu até um artigo sobre algumas formas menos felizes de comunicar os números das candidaturas. Parecia que de início a coisa não estava famosa, mas é porque, na verdade, o prazo foi alargado e, portanto, estava-se a contar de forma, se calhar, não correta a evolução dessas candidaturas. Mas de facto, nós no ano passado assistimos a uma redução das entradas no ensino superior, que é algo que nos devia preocupar e fazer refletir. E houve até uma tendência para interpretar esses números à luz daquilo que são as dificuldades sentidas no setor da habitação, outro tema que me é muito caro e que se junta aqui desta forma. Eu acho que estas alterações, devo confessar que ainda não li a portaria, pode haver algum pormenor importante que me tenha escapado, mas por aquilo que li dos resumos que foram feitos, há aqui uma evolução que me parece positiva. Desde logo, aquela questão de não se obrigar os alunos bolseiros a ter de ter habitação nas residências, portanto, não ficam com esse constrangimento, dá-se-lhes mais liberdade para procurar outras soluções. E depois, muito importante, o facto da bolsa, quando a solução da residência, que é de facto uma competência do Estado, uma obrigação do Estado proporcionar esse alojamento, quando não é possível, porque nós sabemos que os números de alojamento estudantil não são famosos no país, a bolsa também é adaptada àquilo que é o custo estatístico de um quarto na região onde o estudante vai permanecer. E portanto, são alterações que me parecem importantes e parece-me também muito importante. Muitas vezes misturam-se todas estas coisas com o debate sobre as propinas e aproveitam-se estes custos para reivindicar a eliminação de propinas, o que eu acho que seria uma péssima medida, porque conduziria a um subfinanciamento do ensino superior, que depois prejudica precisamente aqueles que são mais vulneráveis e, portanto, o fundamental é, de facto, apoiar estes estudantes que não estão em igualdade de circunstâncias socioeconômicas e este é um apoio que é importante. Nós sabemos que os custos com a habitação representam uma parcela importante dos encargos que um jovem que está deslocado vai ter de suportar com a sua formação superior.

E ainda na educação, mas não só. O Luís Aguiar Conraria vai dar pause a algumas reações no rescaldo do caso dos exames, mas também atitudes nas redes sociais após a bala perdida em Lisboa que atingiu uma turista, há duas que o Luís vai destacar, a de Alexandra Leitão e a de Carlos Moedas. Luís, os nossos políticos deviam usar as redes sociais com mais parcimônia nestes casos ou o problema é mesmo o conteúdo de alguma destas aplicações?

Eu acho que o problema é conteúdo. Não tenho problemas com os políticos usarem as redes sociais, isso é a forma moderna de comunicar. Acho bem que estejam presentes nas redes sociais, agora devem fazer posts ou tweets, ou o que se queira chamar Ou vídeos no TikTok, seja onde for. Acho essas presenças todas bem, mas depois as mensagens que passam têm de ser ponderadas e não podem ser o primeiro disparate que lhes vem à cabeça. E neste caso, lembrei-me aqui de dois que foram desta semana. Um foi da Alexandra Leitão, que é exatamente aqui a ponte com o tema anterior, que tem a ver com a questão dos exames, e faz um tweet a dizer isto: "Se se confirmar que há casos de alunos cujas avaliações subiram na reapreciação dos exames e agora não conseguem atualizar a candidatura, há motivos para uma ação judicial para proteção dos seus direitos. O ministro não pode ignorar estes jovens." Isto é simplesmente um tweet absolutamente manhoso, não sei o que lhes chamar. Isto é com base em nada, aliás, a própria mensagem é: "se se confirmar", ela nem se quer se dá ao trabalho de confirmar que existem casos destes ou não. E eu procurando, passei aqui alguns minutos à procura disto, encontrei um ou outro relato e nada na imprensa mais séria, digamos assim, e nada que parecesse preocupante. Há um ou outro relato de alguém que está com dificuldades em aceder à plataforma e até me parece que isso tem mais a ver com a alteração do formulário do que outra coisa. Não há nenhum indício de que este problema exista. Segundo lugar, isto é um direito legal. Toda a gente sabe que quando as notas são alteradas, os alunos têm três dias para alterar as suas candidaturas. E depois esta insinuação: "o ministro não pode ignorar estes jovens", mas há alguma coisa que indique que o ministro está a ignorar estes jovens a quem as notas foram alteradas? Se há coisa que ele tem insistido é precisamente que havendo a alteração das notas, que os miúdos não são prejudicados, têm três dias para alterar as candidaturas. Acho que aproveitam muito bem as falhas para criticar um político. Aqui começa a ficar a ideia de que já não têm coisas para apontar e, portanto, começam a inventar. Este foi um deles. O outro caso que é mais grave. O caso Moedas é mais grave. É mais grave, para já, porque é presidente da Câmara de Lisboa, apesar de tudo, não é só alguém que está na oposição e, portanto, tem uma posição institucional importante. Aliás, ele neste tweet declara-se presidente da capital de Portugal. Já nem é presidente da Câmara, é presidente da capital. E tem a ver com uma decisão de um tribunal de libertar um suspeito. Libertar no sentido de não ficou em prisão preventiva. Isso tem a ver com aquele caso, penso eu, em que houve o caso de uma turista baleada.

Uma bala perdida que atingiu uma turista que estava na baixa.

Uma bala perdida que atingiu uma turista. E depois o presidente da Câmara diz: "Comentar uma decisão de um órgão judicial, que é o tribunal, é inaceitável esta decisão. Além do exemplo socialmente reprovável que se transmite, é também uma falta de autoridade para as nossas forças de segurança. Como presidente da capital, repudio em absoluto terem libertado um criminoso." Ele já sabe que é um criminoso, não é a julgamento, ele já decidiu que ele é culpado. Não é só a imagem de Lisboa que fica em causa, é a imagem de Portugal. Para já, isto é inadmissível, um político no activo e presidente de câmara estar a comentar assim uma decisão de um tribunal, que obviamente ele não conhece o caso, não sabe que provas foram apresentadas, não sabe nada, ponto final. É só uma decisão, parece aquelas coisas que uma pessoa ouve nas tascas. E depois, ainda por cima, quando uma pessoa vai conhecer melhor o caso, percebe que isto é perfeitamente descabido. A pessoa que foi apresentada em tribunal nem estava propriamente relacionada com isto. Ele tinha ido a tribunal por um caso de violência doméstica, foi nesse âmbito que foi mandado para casa sem ser em prisão preventiva. E, na verdade, as polícias ainda não sabem qual é o papel desta pessoa no caso do baleamento.

Que precipitou-se.

Custa-me. Mas é precipitou-se. Isto não é admissível. Não é admissível um presidente da Câmara, e logo da capital, estar assim a comentar uma decisão de um tribunal. Caramba, informe-se primeiro, e mesmo depois de se informar, não é assim que se comenta. Mesmo depois de se informar, não se ataca desta forma uma decisão do tribunal. Tem de ser de forma mais ponderada. Eu ainda tinha mais umas coisas para dizer para fugir a estes, mas acho que agora vamos ficar sem tempo, portanto vou passar à vez.

Vamos dar agora aqui a palavra ao Nuno Garoupa, que traz espadas para tudo aquilo que envolve as férias do primeiro-ministro, que anunciou publicamente, através de um comunicado, que não ia ter férias, mas que podia pontualmente tirar uns dias aqui e ali. Depois foram publicadas fotografias na praia com acusações de que estava a quebrar essa promessa. Nuno, que sentido é que faz tudo isto? Os políticos não tirarem férias mostra alguma coisa sobre a sua ética e o seu profissionalismo ou estamos aqui a confundir tudo?

Na verdade, é pause, porque isto é tudo um conjunto de demagogia das várias partes. Vamos começar por entender. O primeiro-ministro tem direito a férias, como é evidente, mas o primeiro-ministro tinha um problema com as suas férias nos últimos anos, ainda líder do PSD e não primeiro-ministro, e depois como primeiro-ministro, porque houve alegações de que essas férias no Brasil eram pagas pelos clientes de Spinoviva. E aliás, isso foi parte da investigação, por parte da averiguação preventiva do Ministério Público. Portanto, eu acho normal que este ano o primeiro-ministro não quisesse entrar nessas polémicas e que, portanto, não quisesse falar das suas férias para não se reabrir uma polêmica sobre a origem dessas férias e quem paga essas férias. O que aconteceu em julho foi que, como nós comentamos aqui no programa, acumulou-se uma série de críticas pela participação do primeiro-ministro no mundial, onde ainda por cima disse que era o amuleto da seleção e depois não correu bem à seleção. E obviamente, houve outro problema, que vamos falar depois talvez na segunda parte, que é as sondagens. Quase todas as casas de sondagens apresentaram sondagens em julho, que eram todas muito más para a AD. Portanto, alguém achou no gabinete do primeiro-ministro que uma forma de responder a tudo isto era apresentar o primeiro-ministro que não vai de férias e que está a trabalhar pela pátria durante o mês de férias, porque é um primeiro-ministro dedicado e que evidentemente já foi ao mundial, agora não faz férias. Demagogia número um. A seguir, por causa dessa polêmica, cria-se uma polêmica se o primeiro-ministro tem ou não tem direito a férias e se é bom para os portugueses saber ou não saber se o primeiro-ministro prescinde ou não prescinde das férias, porque as férias podem ou não ser um direito que se pode prescindir ou não. Demagogia número dois. A seguir, aparecem estas fotografias do primeiro-ministro na praia, no seu direito absoluto, e ninguém deveria discutir isso, e começa uma polêmica sobre as fotografias. Demagogia número três. O líder do Partido Socialista vai se imiscuir neste debate, que nem se devia ser objeto de qualquer reparo por parte da oposição, porque é ridículo e, sim, silíciza. Demagogia número quatro. E depois, finalmente, o líder do grupo parlamentar do PSD vem responder ao líder do Partido Socialista dizendo que ele é mais populista do que o líder dos populistas. Demagogia número cinco. Eu acho que todos ficaram muito mal nesta história e é de fato um continuum de demagogia que não interessa ao país e que principalmente seria de evitar no momento em que o país atravessa tantos desafios.

E Susana, para fechar esta primeira parte, tens um naipe de paus para ti própria e por causa do eclipse, quer explicar-nos o que andaste a fazer quando o país todo estava de olhos postos no céu?

É verdade, é um naipe de paus pra mim mesma, portanto isto é um típico naipe de silly season, de estação parva, e no fundo é um naipe de parvuice cósmica e ancestral pra minha própria pessoa. E o que acontece? Acontece que, como é sabido, houve um eclipse total este ano em Portugal. Eu tenho, aliás, vários amigos e até familiares que viajaram para os locais mais bem posicionados para verem efetivamente o eclipse total. Recebi, aliás, um vídeo que me deixou muito invejosa da minha prima Catarina. Olá, Catarina, se nos tiveres a ouvir, num sítio recôndito em Espanha. E o que acontece? Eu realmente vim para leste, estou a leste de Portugal, num sítio onde não houve eclipse. É que não houve de todo, nem sequer foi parcial, portanto, perdeu o eclipse. E por que isto é um naipe parvo para mim, desta parvuice cósmica e ancestral e de algum modo eterna? É que, como é sabido, isto são fenômenos bastante raros e eu já vivi num país onde, não neste século, mas no século passado, houve um eclipse total também, que foi a Bélgica, onde eu fiz o meu doutoramento e onde em 1999, em agosto de 1999, houve um eclipse total, ao qual vários amigos meus, incluindo o meu namorado da altura e hoje em dia o meu marido, foram assistir e que também foi um fenômeno. Na altura, não havia smartphone, portanto, não tive direito aos vídeos que tive desta vez para me fazerem inveja, mas tive direito a relatos bastante fascinantes. E eu na altura consegui ir de férias para Portugal. Neste momento eu estou mais a leste de Portugal do que nessa altura estava a oeste da Bélgica, estando em Portugal. Ainda assim, parece que eu tenho este condão estúpido, burro, ou seja, parvo, no fundo, da estação parva, de fugir a eclipses. E pronto, eu já me estive a informar. Parece que o próximo em Portugal é para o próximo século, portanto eu já perdi um no século passado, já perdi neste século. Vou tentar não perder o do século XXII.

Acho que esse todos vamos perder.

Não.

Tens uma sugestão pra mim? Diz, estou toda ouvidos. Mas talvez o melhor seja não me dizeres onde é o eclipse, porque eu de certeza que vou arranjar maneira de não estar lá.

É aqui ao lado. Em 2 de agosto, no sul de Espanha, em Cádiz, e também se quiseres ir a Ceuta, vamos ter um eclipse total. Em Ceuta vai durar quatro minutos, nem sequer é só alguns segundos.

E haverá outros em Portugal.

Vamos todos invadir Ceuta para ver o eclipse total de 2 de agosto de 2027. Serão invadidos por nós e não por marroquinos.

Além dos óculos, levem o casaquinho, porque ninguém avisou que quando o sol encobre, aquilo fica mais fresco. Portanto, as preocupações, o casaquinho, ninguém lembrou.

E fazemos agora uma curta pausa com este ambiente de eclipse. Voltamos daqui a pouco para a jogada da semana sobre o estado em que está a nossa nação numa altura de reentrês. A economia portuguesa acelerou no segundo trimestre de 2026. O ministro da Economia e Coesão Territorial garante 100% do PRR a 31 de agosto e pede confiança no trabalho que está a ser feito. E, por outro lado, há a questão do preço dos combustíveis. Também as contas públicas tiveram déficit no primeiro trimestre e este mês foi anunciado um aumento da dívida pública portuguesa. Muitas contas aqui para serem feitas. Porém, o nosso primeiro-ministro Luís Montenegro deixou dois recados sobre este tema em específico da dívida pública. Um deles é que não nos assustemos e outro é que no final do ano vamos ter um resultado surpreendente. É isto que vamos falar na jogada da semana do Fora do Baralho. Começava por ti, Luísa Aguiar Conraria. Há motivos para acreditar nas palavras de Luís Montenegro? Portugal está no bom caminho?

Há motivos, mas é independente de Luís Montenegro. Felizmente, a nossa economia vai funcionando e tem vindo a funcionar razoavelmente bem desde 2013, 2014, como já aqui referi várias vezes, com taxas de crescimento sempre positivas, sem recessões, excetuando a fase do COVID. Na verdade, se olharmos para os anos da geringonça, vemos que há vários anos com taxas de crescimento próximas dos 3%. Agora, nos primeiros anos do governo da AD, reduziu um bocado, mas não há nenhum motivo para não voltar a crescer de forma mais vigorosa. Portanto, sim, acho que a economia portuguesa, regra geral, tem estado bem. Os políticos vão se queixando, vão dramatizando, também a opinião pública ou a opinião publicada vai fazendo o mesmo.

Cada vez que há resultados, há sempre duas formas de olhar para os mesmos resultados.

Quando nós temos a taxa de desemprego mais baixa dos últimos 20 anos, eu não vejo, nem consigo perceber muito bem como é que há uma forma negativa de olhar para isso. E evidentemente que essa taxa de desemprego tão baixa pressiona os salários em alta, e se formos ver a evolução dos salários dos últimos dois, três, quatro anos, vemos que também tem sido bastante boa. Eu sei que a lamúria é um desporto nacional, nós somos uns pessimistas militantes, mas para já as coisas parecem estar a funcionar bem. Falaste das declarações do ministro em relação ao PRR, e já agora queria falar nisso, porque nós assistimos a um caso prático daquilo a que o Nuno Palma tem dedicado agora as suas intervenções e aquele último livro sobre o vício dos fundos europeus, que nós temos um caso prático de como os fundos europeus podem mesmo prejudicar o funcionamento das coisas quando são mal usados, naturalmente. Fica um bocado a ideia que no caso dos exames nacionais, que houve esta pressa da digitalização da correção para obedecer a um item do PRR que nos dava direito a não sei quantas dezenas de milhões de euros. Ora, cá está um caso em que se não houvesse lá esse item do PRR, se não tivesse havido esse dinheiro, e se com isso não tivesse havido essa digitalização da correção dos exames, este ano teria corrido melhor nos exames. É daqueles casos em que a existência do PRR prejudicou, em vez de ter beneficiado. Isso para dizer o quê? Para dizer que não me interessa muito esta estatística de saber se vamos aplicar os fundos todos até 31 de agosto ou não. A verdadeira avaliação da aplicação dos fundos não é pela quantidade, é pela qualidade, e essa será feita daqui a uns anos.

Vera, Luís Montenegro dizia recentemente também que parece que está tudo mal, mas não está, e que Portugal vive um bom momento. A realidade dá razão ao primeiro-ministro ou é difícil que este aparente bom momento chegue aos bolsos das famílias, por assim dizer, usando esta expressão?

Eu acho que o contrário também se pode dizer, ou seja, o simétrico também se pode dizer. Também nem tudo está bem. E é algo que se pode dizer sempre em todos os momentos do tempo, em proporções variáveis. De facto, nós estamos a viver, como o Luís já referiu, do ponto de vista conjuntural, um bom momento econômico, em termos daqueles indicadores de taxa de desemprego, do crescimento, principalmente quando olhamos para a conjuntura noutros momentos do tempo. Preocupa-me aqui alguns sinais que a evolução das finanças públicas têm dado, mas depois preocupa-me, sobretudo, o lado que não tem a ver com a conjuntura, que também como o Luís referiu, largamente não depende de nós e não depende das decisões políticas que sejam tomadas, porque nós somos uma pequena economia aberta e isso significa que vivemos essencialmente daquilo que é o momento dos países com que nos relacionamos, da União Europeia, da OCDE, mas o lado estrutural dos serviços públicos, dos desafios da demografia e do que tem sido feito relativamente a esse aspecto, isso sim preocupa-me mais e não acho que possamos estar satisfeitos. Não é entrar no desporto de lamúria, mas o nosso grau de satisfação também vai sempre depender muito daquilo que são as nossas expectativas e de quão alto colocamos a fasquia, e eu sou capaz de ser um bocadinho exigente neste aspecto e noutros. Mas acho que um bom exercício é sempre cada governante e cada elemento da oposição, aliás, na vida em geral, tentar calçar os tamancinhos do outro lado. Portanto, perguntar: se eu agora estivesse na oposição, o que eu diria sobre este momento que o país atravessa? E o contrário também, se eu, em vez de estar na oposição, estivesse à frente dos destinos do país, como é que eu avaliaria? E se calhar aí iríamos ter coisas menos bipolares, ou aliás, como já uns bons tempos nos dizia o Nuno:

Que os políticos sejam incoerentes. É uma questão do critério de coerência não ser exatamente aquele que eu adotaria.

Susana, também achas que devemos ser mais exigentes e que não devemos estar satisfeitos com os últimos anos? Ou o país está, de facto, no bom caminho?

Eu acho que dou resposta positiva a ambas as perguntas. Por um lado, parece-me evidente que o país está no bom caminho, em todo caso, em termos relativos. Nós vivemos o século XXI, que foi marcado por duas grandes crises. A primeira, a crise das dívidas soberanas, e a segunda, a crise do Covid, que foi uma crise que, embora tenha sido muito mais curta, afetou sobretudo os Estados, os países com mais dependência do turismo, e Portugal foi um dos países da União Europeia que mais sofreu com essa crise. Agora, de facto, como eu dizia, em termos relativos, relativamente à nossa situação, se quiseres, no final do século passado e depois da grande crise deste século, quando foi o período do ajustamento, nós obviamente que estamos a atravessar um período muito positivo. E esse período positivo, verdadeiramente, na verdade, já dura há 10 anos. Quer dizer, ele já dura desde o fim da crise das dívidas soberanas, sem contar com aquela grande quebra da Covid, que não foi, de maneira nenhuma, que essa então caiu-nos em cima, não é imputável a nós. Nós podemos pensar: "Ah, mas se calhar podíamos ter uma economia menos dependente do turismo". Parece que ela agora até está a ficar menos dependente do turismo, mas essa dependência do turismo também foi o que nos ajudou a sair da crise das dívidas soberanas. Porque, no fundo, o turismo, como toda a gente sabe, é uma indústria de exportação e portanto, foi o que permitiu trazer rendimento de fora do país. Não foi só isso, mas foi também. Eu não acho que isso seja conjuntural, sinceramente. Eu discordo desse ponto de vista da Vera, no sentido em que o que nós temos é um aumento substancial da qualidade das pessoas no mercado de trabalho, do ponto de vista da educação. É uma espécie de efeito secular que neste momento está a começar, parece-me, a trazer os seus frutos pela substituição das gerações mais velhas por gerações mais novas, que são mais qualificadas. Mas não tem nada a ver com aquela história da geração mais qualificada de sempre, porque todas as gerações portuguesas são, por definição, a mais qualificada de sempre, quando nós vimos de onde vínhamos. Eu recordo que há um estudo do Miguel Portela e de coautores para a Fundação Francisco Manuel dos Santos acerca precisamente dos benefícios do ensino superior, que também se liga com os NAIPs da primeira parte e que mostra que o nível médio de anos de educação dos portugueses no virar do século, ou seja, no ano 2000, era equivalente à Alemanha dos anos 30. E portanto, há aqui efeitos que são completamente estruturais. E depois houve, de facto, uma limpeza do nosso tecido produtivo, que podia ter sido mais rápida, podia ter sido mais lenta, podia ter sido noutro sentido, não sei. Mas a verdade é que nós nos tornámos uma economia muito mais virada para a exportação e neste momento somos uma economia que, quando nós olhamos, por exemplo, para os números do desemprego, que aliás eu discuti aqui no NAIP da semana passada, nós o que vemos é uma criação de emprego, sobretudo concentrada nos trabalhadores mais qualificados, o que demonstra que a economia, de facto, mudou estruturalmente. Agora, podemos ser mais exigentes? Eu acho que podemos e devemos ser mais exigentes. Eu acho que nós temos um problema claro de políticas públicas, de qualidade de políticas públicas, de feitura de políticas públicas. Temos um problema, neste momento, de derrapagem nas finanças públicas por causa de medidas casuísticas e a larga medida de compra de eleitorado, como por exemplo, a compra do eleitorado jovem com o IRS Jovem, a isenções de IMT e o DIABA 4, e não só. Nós estamos muito melhor do que alguma vez estivemos, parece-me, certamente nas últimas décadas. Podíamos estar muito melhor se tivéssemos políticos mais responsáveis e menos focados no curto prazo.

Continuando aqui na saga das citações de Luís Montenegro. Nuno Garoupa, em tempos, Luís Montenegro, então líder parlamentar do PSD, disse uma frase que ficou para a história: "O país está melhor, os portugueses é que não". Já como primeiro-ministro, acabou por corrigir a mão, digamos assim, passado bastantes anos, e disse que o país está melhor e os portugueses também estão melhores. Estamos mais perto da segunda versão que Luís Montenegro adotou?

Repara, eu penso que aqui, aliás, vou um pouco usar as palavras no final da Susana, porque eu acho que ela disse tudo. Quer dizer, aqui é um problema, onde é que nós colocamos as expectativas? E repara, a AD, em particular, quando iniciou o ciclo em 2024, o lastro que vinha atrás era o lastro da austeridade e, portanto, de alguma forma, o PSD e o CDS quiseram descolar dessa austeridade e mostrar que é possível ter políticas econômicas e algum crescimento com a AD, coisa que não tinha acontecido, obviamente, sobre o governo anterior, onde obviamente enfrentaram uma situação de plano de austeridade. E desse ponto de vista, o primeiro-ministro tem razão. De facto, estes dois anos não foram dois anos de austeridade e o país, de facto, tem uma economia que está a crescer e tem um bem-estar econômico hoje ligeiramente melhor do que tinha há dois anos e definitivamente melhor do que tinha há 10 anos. Portanto, desse ponto de vista, é normal que o primeiro-ministro insista nesse ponto de vista, porque o que ele está a dizer é: "Nós não somos o governo da austeridade. Olhem para os nossos resultados, eles são bastante melhores, quer em termos de crescimento econômico, quer em termos de bem-estar, de redistribuição, de apoiar os mais desfavorecidos, do que eram no tempo da austeridade". Isso é uma perspectiva. Mas tal como a Susana também disse, também temos que olhar para a outra expectativa. E eu fui aqui buscar os números, quer do PS, quer do PSD Os números do PS no relatório encabeçado por Mário Centeno em 2015, quando o PS foi às eleições, dizia que com as reformas do Partido Socialista que estavam preconizadas por António Costa, o país estaria a crescer 3,1% em 2017 e próximo dos 4% em 2019, e estaria depois a crescer a taxas de 4%. AD, o ministro das Finanças, poucos meses antes de ser ministro, disse numa célebre entrevista, que até foi o título da entrevista: "É muito fácil pôr o país a crescer a 3%, não percebo como é que o PS não consegue, comigo isto vai crescer a 3%". Portanto, o PS e o PSD é que introduzem sistematicamente, quando estão na oposição, é que vêm dizer que o país pode crescer a 3, 4%, assim que eles tomarem conta do país e implementarem um projeto de reformas. Como é evidente, o país não cresceu a 4% nos últimos 10 anos, nem vai crescer a 4% nos próximos tempos. Aqui depois há um problema entre a expectativa que o partido que está na oposição cria, em que diz que põe o país a crescer 4% facilmente e não se percebe como é que os outros não conseguem, e depois a realidade de um crescimento a 2%. Agora, como disse o Luís, 2% é melhor que zero? Sem dúvida. E ainda bem que o país está a crescer 2%, ou próximo de 2%, e ainda bem que está com a taxa de desemprego mais baixa dos últimos 20 anos, sem dúvida. Agora, esses números não são os números que os mesmos partidos, quando estão na oposição, dizem que o país vai ter quando eles chegarem ao governo. Está aqui um problema de expectativas, se estamos a olhar para o passado ou se estamos a olhar para o futuro.

E apelando aqui à vossa capacidade de síntese, só para olharmos para o que está para vir, o PSD e PS fazem as rendes este fim de semana, os dois partidos rumam ao Algarve, como é habitual. Isso é sinal de que o novo ano legislativo está mesmo à porta. Espera-se o arranque de uma comissão parlamentar de inquérito ao ministro Luís Neves, que recai sobre os mandatos enquanto diretor da PJ. Há um orçamento do Estado para discutir e aprovar, e um governo que continua a ter constantemente de escolher um parceiro para negociar. Recordar, já agora, que estamos a gravar este episódio antes dos discursos do Pontal, que acontecem no fim da tarde de sexta-feira. Vera, como é que o governo deve encarar este novo ano, quando ainda por cima, e recuperando aqui as palavras do Nuna há pouco, as sondagens não estão famosas para o PSD?

Eu sou um bocadinho naïf e utópica neste domínio, porque o que eu esperaria é que a governação não dependesse de sondagens, na verdade. E o que eu gostava mesmo era de um governo, ainda há bocadinho a Susana falava disso, que melhorasse a decisão que tem em termos de política pública, porque obviamente diferentes partidos têm diferentes visões da sociedade e têm diferentes propostas e atribuem prioridades distintas aos temas e tudo isso. Mas depois há um lado, também, que é diferente deste, que não ofusca este, mas que é obviamente importante, que é o lado técnico da política pública, que passa por ter diagnósticos sérios dos problemas quantificados, estabelecer a partir deles objetivos também quantificados com uma calendarização, e depois ir monitorizando a aplicação dessas medidas e fazendo avaliações. Portanto, o que eu gostava mesmo era de termos um governo que não faz um comunicado a dizer, por exemplo, que fez a reforma, chamemos-lhe reforma, porque tudo é reforma, todas as pequenas medidas são reformas, relativa às heranças indivisas, porque acredita que uma parte substancial daqueles imóveis que aparecem como vagos nos censos, têm que ver com a situação de disputas de heranças. Ora, isto não é matéria de fé, de crença, isto é matéria de estudo, de conhecer exatamente quais são os motivos subjacentes a essas casas vagas. Temos aí um exemplo de muitas vezes como as coisas são adotadas, e isso é que eu esperava que não fosse assim.

Susana, esperam-se sempre anúncios nestas rendes com o atual estado das contas públicas, que falávamos há pouco nesta segunda parte. É propício avançar com propostas que impliquem novas despesas? Luís Montenegro poderá fazer isso esta tarde?

Idealmente não o faria. Até porque isso não são verdadeiras reformas e também, mais do que isso, é porque de facto as finanças públicas e, se quiseres, a política fiscal e a política de transferências, são políticas de parte inteira, não deviam andar ao sabor de anúncios casuísticos, de benefícios fiscais para isto, de um aumento pontual nas pensões para aquilo. Isso é uma forma errada de fazer política pública e não deviam. Agora, é também uma forma muito fácil de comprar eleitorado, porque quando nós fazemos esse tipo de desenhos na política ou fiscal de transferências, estamos de maneira muito fácil a designar determinados alvos que depois mais facilmente ficam com vontade de votar neles. E eu, em Luís Montenegro, não tenho qualquer confiança, ou seja, é um político que vive permanentemente obcecado com o curto prazo e que não tem nenhum grau de sofisticação política. Eu estou à espera que ele saque algum coelho da cartola na sexta-feira à tarde, na Festa do Pontal Desde logo, porque ele está em abraços numa gestão política complicada. O seu ministro Luís Neves, filho da bronca dos exames nacionais, que eu acho que apesar de tudo, já passámos o pior, mas que foi um episódio muito desagradável e grave, que causou bastantes dissabores a muitos jovens, mesmo que venha a ser corrigido a posteriori. Vai haver a terceira fase, depois ainda há o adiamento do ano letivo, que é uma péssima notícia. Eu estou à espera que ele vá tirar desses ministros a cartola, mas são sempre pensos rápidos, que no fundo mascaram um governo que eu acho que já não tem salvação pelo seguinte: Montenegro governou um ano, depois tivemos a bronca da CP não viva, que é uma falha ética gravíssima. Nós tivemos um primeiro-ministro a governar com um veículo privado que podia servir para tráfico de influências, uma conta aberta de tráfico de influências, o que não quer dizer que tenha sido usado para tal, quero deixar isto aqui bastante claro, para não processar. E a seguir, esta indefinição estratégica de não saber se quer governar com o Chega e com o PSD, a lambada que levou na cara por causa da reforma laboral, que aliás estava ao rubro há um ano. Tudo isso, não há nenhuma maneira de ele nos próximos dois anos fazer alguma coisa de jeito, mesmo que fosse no sentido que não me diz respeito, mesmo que isso fosse fazer alguma coisa com o Chega, que obviamente detestaria, mas este primeiro-ministro já não é nada disso. É um homem completamente perdido a apanhar bonés, a ver o que é que cai em cada mente e vamos lá ver o que é que lhe sai na inspiração na Festa do Pontal deste agosto.

Vamos mesmo deixar para a próxima semana o que virá daí, o que Luís Montenegro vai ou não fazer. Esta semana ficamos por aqui. Pode sempre entrar em contacto connosco e enviar perguntas para os nossos ases através do e-mail foradobaralho@observador.pt. E este domingo é o Nuno Garoupa a responder aos ouvintes. Eu sou a Inês André Figueiredo, este é o "Fora do Baralho" e pode ser ouvido aqui na Rádio Observador e em podcast nas plataformas habituais.