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"Fora do Baralho" na Rádio Observador, que reúne os ases do comentário: Luís Aguiar-Conraria, Jorge Fernandes, Nuno Garoupa e hoje com a Susana Peralta em modo Big Brother, em modo mensagens de áudio. Vamos ouvir a voz da Susana mais à frente. Não pode participar no programa de hoje, mas decidiu enviar mensagens. A jogada da semana, na segunda parte, será sobre os exames nacionais e nesta primeira parte vamos à polêmica com o ministro da Administração Interna. Eu sou o Ricardo Conceição e este é o "Fora do Baralho". A cada dia, praticamente cada hora, há mais um pormenor, mais uma história envolvendo Luís Neves e o amigo construtor. Depois de um atrelado de caminhão, uma galera, é esse o nome do atrelado, apreendido pela Judiciária, ter desaparecido no Seixal e aparecer em Braga, alegadamente rebocado pelo construtor, agora é a empresa do construtor que afinal não tem licença válida desde março. Isto depois da questão das piscinas, da licença, enfim, como sai o ministro Luís Neves de tudo isto? Nuno Garoupa, começo por ti. Como é que o ministro sai de tudo isto?

Olá, boa tarde a todos. Repara, para já, acho que antes de falarmos do ministro, temos que reconhecer que há aqui um fenômeno histórico. Eu não me recordo, acho que é a primeira vez na democracia, que há um ministro da AD que está a ser extremamente criticado e é apoiado pelo Partido Socialista e pela esquerda em geral. Portanto, isto há que notar. Acho que é a primeira vez que há um ministro metido em trapalhadas, mas que é elogiado pela oposição desta forma. Isso é importante porque é um feito histórico. Deixa-me dizer, as trapalhadas vão somando e provavelmente vamos ter mais trapalhadas nos próximos dias. E na verdade, o argumento de quem defende o ministro, quer da parte da AD, quer da parte da esquerda, é que isso são trapalhadas típicas de políticos, não é nada muito grave, não há nada ilegal, serão umas pequenas faltas éticas. Não fez exatamente o que é suposto fazer do ponto de vista da lei, mas o país já está habituado a estas coisas. São, aliás, trapalhadas que temos de aceitar se queremos gente com qualidade na política, porque pelos vistos não há gente com qualidade sem trapalhadas. O que eu quero dizer é: eu penso que o grande problema está a passar ao lado e o grande problema é a PJ. Para mim, o problema não é o ministro, porque se ele tivesse todas essas trapalhadas noutro lugar qualquer do Estado, exceto no Ministério Público, eu estaria muito menos preocupado, porque diria: "São as trapalhadas de sempre, estamos cheios dessas trapalhadas na vida política portuguesa." O problema é o efeito na Polícia Judiciária e isto tem o efeito de descredibilizar o papel do diretor nacional na Polícia Judiciária.

Achas que contamina a polícia?

Acho que contamina a polícia e acho que os comentadores e a bolha política da AD do PS não está a perceber o que está a acontecer, porque o que está a acontecer é que estamos a descredibilizar uma das poucas instituições que havia em Portugal que tinha uma réstia de credibilidade. No fim, aliás, parafraseando um artigo do João Paulo Batalha, eu diria que o problema é que foi dito ao país que íamos ter um polícia na política, mas o que temos agora é um político que estava na polícia. Isso cria uma série de problemas. Acredito que o ministro possa sobreviver e parece-me claro, já das palavras que vou ouvindo ao governo e aos seus apoiantes, que vamos todos aguardar agora o inquérito na Polícia Judiciária e talvez o inquérito no Ministério Público, que depois pode acabar arquivado. E tudo isto no fundo, o ministro sobrevive a todas estas trapalhadas e nada acontece. E aliás, não é novidade, pois Luís Montenegro é primeiro-ministro e sobreviveu a trapalhadas na Spinola. O problema é que, na minha opinião, isto afeta a credibilidade da Polícia Judiciária, como afeta a credibilidade de juízes, procuradores, Polícia Judiciária, isto vai somando. E depois, daqui a uns anos, está tudo a chorar pela democracia e pelo populismo, porque não percebemos porque é que uma vasta parte do eleitorado já não acredita no Ministério Público, não acredita na Polícia Judiciária e não acredita nos tribunais. Portanto, aqui, para mim, mais que o caso particular do ministro, é a irresponsabilidade da AD, do Partido Socialista e de muita bolha mediática que não percebem o que estão a fazer à Polícia Judiciária.

Proponho agora ouvirmos a mensagem que a Susana Peralta nos enviou.

Eu ao ministro da Administração Interna dou ouros pelo jackpot que lhe está a sair. Quer dizer, eu até admito que muitas destas coisas sejam histórias mal contadas, mas de facto, obras aparentemente sem recibo, em que enfim, os materiais pagaram, teve recibo dos materiais ou faturação, mas aparentemente não terá havido a totalidade dos trabalhos encomendados ao seu amigo construtor, que por outro lado era um construtor que ao mesmo tempo estava a construir para a PJ mais uma piscina, que era um tanque, mas afinal já é uma piscina e que nem sequer tem licenciamento. Mais o fato das faturas estarem em nome da empresa da mulher, ele agora diz que a casa era para usar como alojamento local, mas quer dizer, até ver nós não sabemos. E estas histórias das empresas unifamiliares são uma forma conhecida de fugir aos impostos. E agora mais esta história do atrelado, quer dizer, outra vez isto Deve ser apenas uma sequência de histórias muito mal contadas, mas é um jackpot tão grande que eu não vejo melhor naipe para dar ao ministro da Administração Interna do que ouros. E é evidente que se de fato forem apenas histórias mal contadas, ele já devia ter vindo a público dar esclarecimentos pra acabar com as especulações.

Ficam os ouros da Susana Peralta. Recordo que estamos a fazer o Fora do Baralho em direto, são 7h18min de sexta-feira, pra quem nos ouve depois na rádio ou em podcast, mas na rádio nas repetições de sábado ou domingo, é há que ter em conta que estamos a fazer o Fora do Baralho em direto à sexta-feira às 7h20. Jorge Fernandes, o que tu pensas de tudo isto e destes casos? Cada cavadela, cada minhoca.

Sim, olá Ricardo, olá a todos. Eu acho que há que fazer uma apreciação política mais geral sobre tudo isto. Eu concordo com tudo o que o Nuno disse, mas é preciso fazer uma apreciação política mais geral sobre tudo isto, porque no governo duas das suas maiores estrelas, digamos assim, políticas, midiáticas, estão claramente sob fogo cerrado. Vamos focar agora aqui no caso da Administração Interna. Luís Neves veio da PJ com uma reputação absolutamente impoluta e uma reputação de ser um homem à prova de bala. Aliás, a esquerda passou a gostar imenso dele desde que ele foi ao Parlamento dizer que Portugal não tinha rigorosamente problema nenhum de criminalidade. Aliás, é curioso, nós temos vindo a debater ao longo das últimas semanas, o Luís principalmente tem vindo a debater isso, que com o aumento da população em Portugal, o PIB per capita diminuiu, não diminuiu, enfim, todos estes debates que tem havido ao longo destes programas sobre isto. Mas aquilo que sabemos também agora é que apesar do aumento bastante forte da população, aparentemente, a criminalidade continuou a descer sob a égide de Luís Neves na PJ. Ele realmente tem que ter sido um diretor absolutamente fenomenal para, com um aumento de um milhão e meio de habitantes em Portugal, não ter havido um aumento do crime reportado. Mas adiante.

Jorge, ou seja, não só o PIB per capita terá descido, como garantidamente desceu a taxa de criminalidade.

Pois, não sei se desceu. Luís, eu gostaria mais de dizer a taxa oficial.

A taxa de criminalidade reportada. Está bem, pronto. Mas isso é que temos.

Isso, exatamente, que eu acho que isso é sempre uma coisa importante, porque aparentemente por aquilo que estamos a descobrir, como o Ricardo estava a dizer, cada cavadela, cada minhoca, a ética do senhor aparentemente é um bocadinho mais frágil do que aparentava ser. Não sei, e sempre alegadamente, claro, porque daquilo que estamos a ver, o conjunto de histórias que estão a aparecer agora ligadas a Luís Neves, de facto, não são recomendáveis nem são compatíveis com a imagem pública que ele tinha. E é uma imagem pública, como o Nuno disse, que põe em causa muitas coisas. A imagem pública do ministro da Administração Interna é algo muito precioso, porque é alguém que mexe com coisas e tem acesso a informações que não são propriamente informações menores. Terá acesso, quer agora, quer quando foi diretor da PJ, terá tido acesso, imagino eu, a tudo o que é informação sobre casos que estão sob investigação, políticos que estão sob investigação. Portanto, eu imagino que ele neste momento tenha muito capital político pra gastar pra se salvar desta situação. E veremos agora, mas de facto, isto não é nada recomendável nem para o ministro, nem para o governo.

Já vou ver que naipe é que reservaste. Queria ouvir o Luís Aguiar Correria primeiro, ainda nesta primeira ronda.

Deixa-me voltar aqui um pouco atrás, até um bocadinho na linha da argumentação do Nuno Garoupa. Eu devo dizer que como gosto que venham pessoas de fora da política e especialmente pessoas que nunca pensaram em ser governantes, acho que nós, quando chega alguém nessas condições a um governo, devemos ser um bocadinho mais pacientes com aqueles pequenos pecadilhos que toda a gente comete. Como por exemplo, quando se tem pequenas obras em casa, parte das despesas são pagas sem fatura pra não pagar IVA e, portanto, sim, os materiais têm de ser incluídos, esse tipo de coisas. E eu desvalorizo esse tipo de coisas. Claro que o Nuno Garoupa tem razão quando diz: "Isto é mais ou menos aceitável numa pessoa normal, mas quando é um diretor da Polícia Judiciária, uma pessoa de facto espera que seja mais impoluto." Mas ainda assim, e com a história do tanque e da piscina e de não ter feito o licenciamento, de facto é um bocadinho mais grave por ser o antigo diretor da Polícia Judiciária, mas eu ainda assim aceitava, digamos assim. Já com mais reservas, mas aceitava. Agora, a história do atrelado, que acho que foi encontrado em Barcelos e não em Braga, deixa-me aqui defender a honra de Braga.

É no distrito.

É no distrito, sim, mas deixa-me aqui empurrar isso para Barcelos.

Sim, Barcelos e Braga não são a mesma coisa.

Não são a mesma coisa. Isso, de facto, é uma história que está muito mal explicada. Tem de haver uma muito boa explicação.

Foi aberto um inquérito pra tentar perceber o que aconteceu.

Exatamente. Eu percebo que não há boas explicações para as coisas, por exemplo, aquelas pequenas obras naquela barraca que ele tem no Alentejo, porque de facto ele não pode vir à televisão dizer: "Desculpa aí, aqui houve €10 mil que paguei em notas pra não pagar o IVA e pra ser um bocadinho mais barato." Claro que não há boa explicação pra isso. Todos nós mais ou menos imaginamos que seja isto e cabe a cada um de nós valorizar ou desvalorizar a situação. A parte do atrelado que desapareceu do Seixal e que foi parar a Barcelos É uma coisa que ou é muito bem explicada ou é muito complicada.

Nuno, tu não chegaste a dar um naipe. Qual é o teu naipe?

Eu diria copas à Polícia Judiciária. Agora, em relação ao Luís Neves, deixa-me só acrescentar aqui uma coisa, que talvez por isso eu seja um pouco menos otimista que o Luís. O diretor da Polícia Judiciária supostamente está a investigar histórias mal contadas de uma série de outros políticos. Portanto, ter a pessoa que anda a investigar as histórias mal contadas dos outros políticos, ele próprio em histórias mal contadas, é muito complicado. Claro, tem outra questão aqui: se ele não tivesse sido ministro e tivesse continuado diretor nacional da Polícia Judiciária, saberíamos nós dessas histórias? Isto levanta um problema do escrutínio dos diretores nacionais e do nível de diretor-geral e subdiretor-geral, que no final talvez não sejam tão escrutinados quanto deveriam ser, e só o são quando chegam a ministros. Mas isso são outras questões que eu acho que podemos discutir mais abstratamente. Neste caso concreto, o meu problema é a pessoa que investiga os outros não pode vir dizer que não conhece a lei, que não sabia que era pra fazer, que não sabia muito bem como isso funciona. Aqui eu acho que há um problema de inconsistência entre ser o diretor nacional da Polícia Judiciária e qualquer outro diretor-geral, presidente de câmara, vereador, que tantas histórias temos dessas personagens pelo país fora.

Jorge, vamos ao teu naipe.

Ouros, claro, porque isso envolve dinheiro e eu acho que todos nós, e atire a primeira pedra quem nunca tiver feito, já pedimos certamente serviços em casa sem fatura. Mas de fato estão começando a se acumular várias coisas e há aqui indícios um pouco estranhos, no mínimo. A história do atrelado é inenarrável. Eu acho que ouros e espero que o ministro esclareça tudo muito rapidamente, porque ele já foi à televisão e não esclareceu nada. Inclusive, o Observador tem um artigo em que diz preto no branco que quando confrontado com a necessidade de produzir as faturas que comprovavam o pagamento à dita empresa, o ministro não produziu as ditas faturas. Continuamos todos à espera.

E Luís, também o teu naipe. E o comunicado da Judiciária, no fundo, confirma na história do atrelado que vai ser investigado como é que o atrelado vai do Seixal para Barcelos.

E logo pra empresa do amigo do ex-diretor da Polícia Judiciária. Isso encaixa perfeitamente no meu naipe. Claramente, os amigos que Luís Neves deixou na Polícia Judiciária merecem copas. Ele deixou um monte de amigos na Polícia Judiciária que não lhe estão a fazer a folha e não estão a fazer nada como vingança. Amigos de peniche, não é assim que se costuma dizer?

Os amigos de peniche, exatamente. Vamos já voltar para a segunda parte do "Fora do Baralho", já daqui a pouco. Fica ainda um desafio aos ouvintes para partilharem pensamentos ou perguntas para o nosso episódio extra de domingo, em que um membro do painel responde aos comentários, à vez. É muito fácil, basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt. Este fim de semana, a resposta ou as respostas cabem ao Nuno Garoupa. Na segunda parte, vamos à jogada da semana sobre os exames nacionais. Esta sexta-feira foi um dia de ansiedade, com vitrines vazias um pouco por todas as escolas do país. Já vamos ouvir a análise dos nossos ases sobre os exames nacionais. Segunda parte do "Fora do Baralho", com Luís Aguiar Correria, o Jorge Fernandes e o Nuno Garoupa. A Susana Peralta desta vez não está presente, mas mandou mensagens e vamos ouvi-las mais à frente nesta segunda parte do "Fora do Baralho", na jogada da semana. Eu sou o Ricardo Conceição e na jogada da semana regressamos aos exames nacionais. São agora 19h35 de sexta-feira. Para quem nos ouve na repetição de fim de semana, é preciso dar esta nota, porque a esta hora já contávamos, a avaliar pelas declarações públicas do governo, ter as notas nas vitrines, mas ainda não temos. Antes de ir aos exames, vou começar por uma pergunta que nos foi enviada por Leonor Moreira, que nos enviou um longo e-mail, uma reflexão. É professora reformada, mas no fundo resume o e-mail numa pergunta e numa consideração, ambas muito diretas: "Por que Fernando Alexandre é considerado um ministro estrela? Para mim, quando muito, é um meteorito em queda." Luís Aguiar Correria, queres renovar a tua declaração de interesses e ser o primeiro a responder à Leonor Moreira?

Vejo se não vale a pena renovar. A declaração de interesse está no podcast, basta irem ver o último podcast e é logo a abrir. Mas toda a gente sabe que sou muito amigo do Fernando Alexandre. Os meteoritos em queda são aquilo que nós chamamos de estrelas cadentes, portanto não é propriamente incompatível com ser uma estrela. Por que ele era a estrela? Ele é a estrela porque começou o seu período de governação a resolver o problema dos professores há muitos anos, que tem a ver com a questão da reposição da carreira. Coisa que foi adiada por sete, oito anos. Esse grande olho, uma grande popularidade. E depois disso, de facto, foi fazendo reformas várias, e quando há tanta gente a apelar por reformas, ele passou a imagem de que era um ministro reformista, e de facto é. Por isso é que acho que era o ministro estrela. Nunca fui eu a dizer que ele era uma estrela. Aliás, tentei evitar, dentro do possível, comentar a performance do Fernando Alexandre, naturalmente. Não posso responder mais do que isto.

A esta hora já contávamos ter notas, mas ainda não temos e ainda não sabemos se vamos ter até às 20h.

Já sabemos que não temos as do nono ano.

As do nono ano não vamos ter, mas isto já parece noite de passagem de ano. Já é meia-noite, isto nunca mais. Que leitura é que fazemos disto, Luís?

Deixa-me tentar fazer uma leitura objetiva. Eu acho que neste momento é perfeitamente óbvio que não havia condições para avançar para a digitalização da correção das provas. Isso é a primeira coisa. Houve um erro político, de uma decisão política errada, que foi a de avançar para este ano. E aliás, parece-me razoavelmente óbvio, no sentido em que está contratada uma empresa para fazer uma plataforma para gerir isto tudo para 2027. Mesmo que isto tivesse corrido bem este ano, uma nova plataforma vai ser feita. Portanto, também dizer por que não se começou um ano mais tarde. Algum ímpeto reformista? Custa-me chamar a isto, a esta digitalização da correção dos exames, uma reforma. Isto não é nada, isto é uma mera operação logística em que se está a alterar a logística da correção dos exames.

Isto é passar um papel numa máquina.

É isso. Está-se a alterar a forma como se corrigia. Antes um professor corrigia um exame e agora cada professor corrige uma pergunta de vários exames. Isto é uma alteração logística, não é nenhuma reforma. A educação não fica melhor ou pior por causa disto, nem o país fica melhor ou pior por causa disto. Isso é o primeiro erro. Depois, eu acho que há um segundo erro, que foi quando isto começou a correr mal e começaram a aparecer imensas queixas dos professores, claramente, o ministro cometeu um erro de avaliação, que foi desvalorizar as queixas dos professores, foi dizer que muitas delas eram exageradas, algumas falsas, e acreditar nos seus serviços. Se ele tivesse acreditado mais nos professores, teria logo percebido que os três dias de adiamento eram muito pouco. A minha cunhada, isto também já faz parte da minha declaração de interesse, que faz a correção dos exames, disse logo que era tanto erro, tanta confusão, que os três dias nunca seriam possíveis. E eu percebo que aqueles três dias foram uma tentativa de minimizar os efeitos secundários, de evitar mexer nas férias, as notas ainda saíam na mesma semana, esse tipo de coisas, mas depois criou todo este suspense. Mais valia ter assumido que as coisas estavam verdadeiramente a correr mal, que não eram pequenas falhas técnicas, que não eram pequenos problemas com agrafos, e dar logo um adiamento, pelo menos uma semana. Sim, ia trazer problemas de gestão imediato, de curto prazo, com as férias dos professores, dos pais, dos alunos, quando é que se faria a segunda fase, entrar-se-ia por agosto. Sim, havia todos esses problemas difíceis de resolver, mas eram politicamente geríveis. Ao desvalorizar as queixas dos professores e convencendo-se de que bastariam três dias de adiamento, cometeu outro erro de avaliação e agora estamos nisto.

Nuno Garoupa, ainda queres ir ao ministro estrela ou queres avançar já para a classificação dos exames?

Não, deixa-me falar do ministro estrela, porque há aqui uma coisa. O Luís tem feito a sua declaração de interesse, mas a verdade, vamos assumir, neste programa, nós temos quatro ases e somos todos mais ou menos fãs do Fernando Alexandre. Portanto, se há programa onde estão pessoas que seriam, em princípio, bastante favoráveis a Fernando Alexandre, este é um desses programas. Aliás, Fernando Alexandre neste programa, na minha opinião, e da minha parte falo também, tem sido muito melhor tratado do que se calhar outros ministros deste ou de governos anteriores, com os quais não temos relações pessoais tão próximas. Agora, dito isto, é evidente que há aqui vários problemas que vão ter que ser esclarecidos. Eu concordo com tudo o que o Luís disse. Aliás, é evidente que há um grande erro político aqui do Fernando Alexandre. Agora, para mim não é claro exatamente o que motivou esse erro político. E o que motivou esse erro político pode ter diferentes consequências, porque não é claro se, de facto, foi apenas voluntarismo do ministro, e nesse caso, o ministro não podia ser tão voluntarista, ou se a informação que os seus serviços lhe deram não era tão confiável, o que já não é a primeira vez, e isso remete para outro problema. Se deveria ter delegado isto no secretário de Estado para precisamente resguardar-se e estar numa posição política mais forte neste momento. Esse é outro tipo de erro político e há aqui depois que esclarecer isso. Repara, eu apenas diria, para terminar, o que me parece que não funciona muito bem neste momento é as duas tentativas de spin

Da AD. E também aí a AD tem que fazer uma reflexão. O primeiro spin que tem passado é: isto é porque o Ministério da Educação está cheio de uma escardalha, que é contra o ministro e que estão a boicotar e que criaram esses problemas todos ao ministro. A verdade é que o principal, além de estar lá há dois anos, é que as falhas técnicas são de uma empresa que foi da órbita do PSD e contratada por serviço do PSD, do governo já com o PSD. Portanto, não podemos dizer que isto é a escardalha infiltrada e os professores que estão a criar este problema. Isso de facto não cola com a realidade de maneira nenhuma. A segunda é esta frase de que isto é reformismo, tentativa e erro, estas coisas acontecem, só não erra quem não decide. Estou a citar o nosso famoso José Sócrates, porque é o argumento há 20 anos, só não erra quem não decide. Evidentemente que isso tem algum conteúdo verdadeiro, mas isso não iliba, quanto muito relativiza, mas não iliba responsabilidades políticas e não iliba perceber exatamente o que aqui foi feito em termos dessa tentativa e erro. Então agora vemos tentativas e erros todos os dias, portanto, é preciso apurar o que aqui aconteceu.

O primeiro-ministro disse esta semana que mesmo com erros é para avançar. Ou seja, aqui a dúvida é se mesmo perante erros crassos é para avançar ou se são pequenos erros que são corrigíveis.

Claro, Ricardo, mas aí vem com aquela questão que o Luís estava a dizer que me parece importante, que é: o primeiro-ministro usa a palavra reformismo num sentido muito lato. Quando eu acho, tal como o Luís, nós estamos a falar de digitalização, eu até vou mais longe que o Luís, já tenho feito isso na área da Justiça e do Ministério da Reforma do Estado, eu acho que simplifica tudo que é simplificação processual, não são reformas, são simplesmente alteração de processos. E portanto, se estamos a falar de alterações de processos, é uma coisa, então podemos ver, o processo não correu bem, deve correr melhor, o que é que é o erro, o que é que é nativa. Agora, se estamos a falar de agendas de reforma, eu também não acho que isto ponha em causa a agenda de reforma no Ministério da Educação no seu todo. Acho que isto é, de facto, um problema pontual, espero eu, e que se possa corrigir já no próximo ano com outra plataforma.

Vamos ouvir a mensagem que a Susana Peralta nos deixou, não pode estar conosco, mas enviou um áudio.

Nós aqui no Fora do Baralho não só conseguimos dar notas, como lemos o exame todo, temos acesso ao exame todo. É também digital, por acaso, porque nós fazemos este Fora do Baralho à distância, somos uma equipa de corretores que estamos também espalhados geograficamente e damos as notas a horas. E a minha nota para o Ministro da Educação é cinco, e estou até a tentar ser simpática. Não tanto, mas também obviamente por isto ter corrido tão mal, mas depois também pela sua atitude ao longo do tempo. Começou por ir ao Parlamento a fingir que estava tudo bem, que os professores é que eram mentirosos e que ia cumprir prazos, depois teve que adiar os prazos, depois teve que pedir desculpa aos professores, inclusive mais tarde, até esta semana veio pedir ajuda aos professores quase em desespero, porque enquanto tanto também o primeiro-ministro tinha entrado na retórica de criticar os professores. Agora diz que afinal é a Junta Nacional de Exames que é responsável por meter as notas a tempo e horas nas escolas, quando isto já resvalou de todas as maneiras que podia. Mas depois também, sobretudo, a mim o que mais me irrita é aquela frase que não quer dizer nada, foi quando ele disse que isto não era uma decisão técnica, era uma decisão política, ou seja, que o adiamento da entrega das notas e da afixação das notas não era uma decisão técnica, que no fundo os prazos até poderiam ter sido cumpridos, porém, era uma decisão política para dar mais tempo e para o processo decorrer com tranquilidade e serenidade. E eu acho que então essa parece mesmo atirar areia para os nossos olhos, porque é óbvio que não havia nenhuma maneira de dar as notas antes de sexta-feira à tarde. Isto se elas forem dadas sexta-feira à tarde em todas as escolas. E eu acho que essa falta de humildade e este desplante do ministro Fernando Alexandre, e digo isto com muita pena, é o que merece esta nota de cinco valores.

Já fica a nota dada pela Susana Peralta. Já vou ouvir e pedir as notas ao Luís Aguiar Correria e ao Nuno Garoupa. Jorge Fernandes, também não sei se queres começar pelo ministro Estrela ou se queres ir direto aos exames.

Eu tenho muita pena, Ricardo, de facto, e tenho muita pena porque gosto genuinamente do Fernando Alexandre, mas acho que ele chegou politicamente ao fim da linha. Não tem nenhuma saída disto senão a demissão para sair de forma minimamente airosa. E eu digo isto por quê? Porque tanto o Nuno como o Luís aventaram aqui hipóteses de, por exemplo, Fernando Alexandre ter sido mal informado pelos serviços, alguém do ministério não lhe ter fornecido a informação de forma detalhada ou de forma absolutamente correta sobre o estado verdadeiro do processo. Mas quer dizer, hoje é sexta-feira, mas ao longo deste processo dos exames, nós estamos a caminhar para o abismo político, repito, há vários dias. Fernando Alexandre teve vários dias para vir falar ao país, foi inclusive ao Parlamento, teve vários dias para vir falar ao país. Se num primeiro momento, imaginemos, eventualmente os serviços lhe deram uma informação incorreta ou que não lhe permitia, por exemplo, fazer uma previsão certa, ele teve tempo e mais do que tempo para vir a público dizer: "Reparem, pedi desculpa, houve aqui um erro ou problemas, estamos a ter problemas e é preciso mais X tempo para os exames saírem." Pronto, isto é um ponto. O segundo ponto que eu acho que é importante sublinhar é que neste momento, e eu posso dar um exemplo muito concreto, hoje à tarde a SIC Notícias estava a fazer um especial, um debate em que estavam vários professores a intervir, pessoas que participaram no processo de correção, outras pessoas do sindicato de pais, enfim, várias pessoas ligadas ao setor da educação. E o grande debate era não sobre o momento da saída das notas, mas sobre a qualidade do processo de correção. Houve várias notícias que foram saindo ao longo desta semana em que, no mínimo, qualquer pessoa que leia aquelas notícias fica muito preocupado com a qualidade do processo de avaliação.

Essa é a outra parte do problema, não é?

Não, quer dizer, Ricardo, vamos ver uma coisa. Para a esmagadora maioria dos alunos que vão concorrer ao sistema público do ensino universitário em Portugal, e eu admito perfeitamente, há a questão das férias. Fernando Alexandre foi infeliz nessa matéria. Há a questão das férias, de atrasar mais dia, menos dia, enfim, tudo isso perdoar-se-ia, mas neste momento, o que estamos a falar verdadeiramente é que as notas que irão ser afixadas muito provavelmente segunda-feira, porque eu acho também que devemos acabar com esta charada. É sexta-feira, são quase oito da noite e de facto as notas não saíram. Não vale a pena continuarmos com a charada. Eventualmente haverá meia dúzia de escolas pelo país que ainda lançarão as notas à noite, quer dizer, um ridículo. As notas não saíram. O ponto aqui é: quando essas notas saírem, quão confiantes estarão os alunos, os pais, de que aquelas notas de facto refletem o esforço que os alunos fizeram ao longo do último ano, dois, três anos. E isto para mim enferma completamente o processo, porque vamos ver uma coisa, há alunos para quem uma diferença de duas ou três décimas pode fazer a diferença entre entrar num curso para o qual trabalharam muito e não entrarem. Portanto, isto não é uma brincadeira. Não estamos primeiramente a falar de um atraso. E depois há aqui outro terceiro problema que é: vamos supor o seguinte, se porventura muita gente de facto desconfiar que o processo teve problemas técnicos, que nem sequer são da responsabilidade do ministro, digamos assim, e se pedirem a revisão, o sistema entra em colapso, porque o sistema, inclusive de férias, de professores, da segunda fase de exames, etc. O sistema não está preparado para agora 60 ou 70% dos alunos pedirem uma reapreciação da prova. Não existe.

Deixa-me dar aqui uma nota. Estamos a fazer o programa em direto, isto para quem ouvir na repetição pode soar um pouco esquisito, mas é o que é. Estamos em direto e é sexta-feira à tarde e o ministro acaba de chegar à SIC, onde dará uma entrevista nesta sexta-feira à noite e disse à entrada que os prazos estão a ser cumpridos e que as escolas têm a obrigação de fazer chegar as notas aos alunos ainda hoje. Por falar em notas, Luís, que nota é que tu tens para Fernando Alexandre?

Não há como dar boa nota ao Fernando Alexandre, eu não consigo dar nota a um amigo. Portanto, eu queria aqui ficar se calhar por outro ponto, que era dar nota ao Luís Montenegro, que numa altura em que estávamos todos dependentes da boa vontade dos professores para estarem a corrigir exames à noite, a fazer madrugadas, a fazer noitadas para corrigir os exames, se sai com aquele discurso, acho que foi na quarta, a criticar os professores. Quer dizer, neste momento já é mais do que óbvio que não foi nenhum problema dos professores e gerar a má vontade de quem podia salvar o problema com o esforço descomunal que estava a ser pedido. Eu sei de um caso de alguém que na mesma noite do discurso de Montenegro, que recebeu a informação de que tinha mais 268 perguntas para corrigir, sem ter conseguido aceder a elas e que conseguiu aceder às provas às cinco da manhã do dia a seguir, portanto começou às cinco da manhã a corrigir. E depois à hora de almoço ouviu as declarações de Montenegro. Quer dizer, ela não boicotou nada, foi até ao fim, mas obviamente não ficou feliz.

Jorge?

E portanto, eu não sei que nota é que dei, mas acho que um cinco ou um seis está adequado.

Pois, eu tenho que reprovar Fernando Alexandre também, porque não há maneira. E deixa-me reiterar, Ricardo, aquilo que tu disseste sobre as afirmações que ele fez à chegada aos estúdios da SIC, reitera novamente que ele ainda não percebeu, acho eu, ou se percebeu, não sei muito bem o que é que está a pensar. Ele não percebeu o momento político em que está a viver. Portanto, é sexta-feira, são oito da noite e agora ele diz que a culpa não é dele, a culpa é de uma junta de exames. Ele é o ministro da Educação, ele representa a estrutura desde o homem mais importante na antiga 5 de Outubro, até à senhora mais humilde que limpa casas de banho ou ao senhor mais humilde que limpa casas de banho numa escola. Ele é ministro da Educação, portanto, não pode chutar a bola para ninguém e dizer que se as notas não saíram, a responsabilidade é de uma junta de exames. Isso não existe. Portanto, ele mais uma vez, aparentemente não percebeu o problema político em que está. E tem um cinco, claro.

Cinco. E o Nuno, Nuno Garoupa, que nota é que tens para o ministro ou para este caso?

Já sabes que eu sou descarado. Se a conversão fosse anônima, era um cinco. Mas como é ao Fernando Alexandre, lá como dizia a ouvinte, dou-lhe um nove, que é para ver se vai à oral, mas é para o Fernando Alexandre, é especial para ele, porque se fosse anônimo, isto é um cinco, não tinha muita hipótese.

E fica por aqui este "Fora do Baralho", feito em direto numa altura em que as notas ainda não estão nas vitrines. Quem nos está a ouvir nas repetições de fim de semana já vai saber mais do que nós sabemos a esta hora em que falámos sobre o caso de Luís Neves e também do caso dos exames nacionais. Fica ainda uma última nota para o nosso episódio extra dos domingos, em que respondemos às perguntas dos ouvintes. O endereço de e-mail é o foradobaralho@observador.pt. No domingo será o Nuno Garoupa a responder às perguntas dos ouvintes. Eu sou o Ricardo Conceição. Para a semana há mais "Fora do Baralho".