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Folgado, Donald Trump sai vencedor das eleições norte-americanas, regressa à Casa Branca quatro anos depois. Kamala Harris ainda está a digerir a derrota, fala à nação só esta quarta-feira à noite. Quem costuma ouvir o "Fora do Baralho", sabe que não perdemos a oportunidade de encontros extra para jogar as cartas. Três dos quatro ases já estão aqui apostos: a Susana Peralta, Jorge Fernandes e o Luís Aguiar Conraria. O João Marques de Almeida junta-se na sexta-feira, no programa habitual. Luís, vamos começar por ti, a primeira carta é para ti. Que carta é que atribuirias ao candidato republicano, próximo presidente dos Estados Unidos? Surpreendeu-te esta vitória?
Vamos começar pela carta. Acho que tenho de dar copas. Ele ganhou democraticamente. Tanto quanto sabemos, não houve nenhuma manigância e, portanto, tem de ser copas, porque é o vencedor e é o grande vencedor da noite.
Embora os republicanos acenassem com uma fraude eleitoral massiva.
Mas era só se perdesse. Como ganhou, essa questão já está fora de campo. Ele ganhou bem, ganhou com o voto popular, nem se questiona o sistema eleitoral americano, que eu acho que também não faria de qualquer forma, mas há sempre pessoas que se queixam disso. Neste caso, também não há motivo para se queixar. Se surpreendeu a vitória? Não, não surpreendeu. As sondagens apontavam o favoritismo a Trump. Quem ia seguindo aqueles sites em que se calculava a probabilidade de vitória com base nas sondagens, via que o Trump esteve quase sempre acima de 50%.
Mas parecia ser mais taco a taco e acabou por ser uma vitória mais folgada.
Sim, mas as sondagens necessariamente têm uma margem de erro. Essa é a parte que surpreende, é ele ganhar o voto popular. Não é propriamente ganhar a eleição, isso não é surpreendente. Ganhar o voto popular talvez seja a surpresa, mas é só isso. Diria que não, que ninguém aqui está muito surpreendido. Gostávamos era de acreditar que assim fosse. Não queríamos acreditar e íamos agarrando às outras coisas, mas acho que todos nós, em consciência, sabíamos que ele, em princípio, ia ganhar. E também vale a pena dizer que antes de qualquer sondagem, aqui no "Fora do Baralho", logo a seguir à nomeação de Kamala, eu disse, e penso que todos nós dissemos, não fui só eu, que o claro favorito para essa eleição era Trump. Nós deixámos claro que Kamala era sempre melhor do que Biden, mas também deixámos sempre claro que a achávamos uma má candidata. A única surpresa será a vitória ser tão grande, o incluir a Casa dos Representantes e o Senado, mas isso é o que indica que há algo de mais profundo do que uma mera questão de eleger Trump ou não.
E já que tocas nesse ponto.
Exatamente. Passo para o Jorge.
Exatamente. Jorge Fernandes, como estava a referir o Luís, vamos ter os republicanos, o trumpismo a dominar o Senado, vantagem na Câmara dos Representantes e Supremo Tribunal. A democracia na maior economia do mundo pode, no limite, ficar em causa?
Que pergunta tão difícil. Eu acho que a democracia não está em causa, nem remotamente neste momento. Agora, há uma ilusão claríssima dos controlos que Trump pode ter. O sistema americano, eu acho que o sistema presidencialismo, no fundamental, é um sistema bastante mau e acho que é uma opinião bastante partilhada por muitos cientistas políticos. Há uma longa discussão na ciência política sobre essa matéria. E o presidencialismo é mau em si mesmo, por vários motivos que agora não interessam referir, mas um presidencialismo sem controle, em que a ideia de checks and balances, em que haveria o ramo legislativo a controlar o ramo executivo ou o ramo judicial a controlar os outros dois, está posta em causa só na medida em que os ovos estão todos no mesmo saco. Para além disso, Donald Trump, no seu último mandato como presidente, por um conjunto de circunstâncias, nalguns casos, sorte, coincidência, como por exemplo, a morte de Ruth Bader Ginsburg, ou noutros casos, alguma sorte, mortes inesperadas do Scalia, conseguiu meter três pessoas, três novos juízes, e criar uma supermaioria no Supremo Tribunal. Sob esse ponto de vista, sendo Trump quem é, uma pessoa que tem uma relação com a verdade no mínimo estranha. Hoje já ficámos mais ou menos a saber, embora sem certezas absolutas, que uma pessoa como o Robert Kennedy Jr. pode vir a tomar conta da CDC e do FDA, que são basicamente as agências que regulam coisas como a saúde ou vacinas, etc., sendo que ele é uma pessoa antivacinação. Não estou a falar sequer de Covid, é um negacionista de vacinas em geral. Quer dizer, estamos a falar de um cenário em que pode haver pessoas que não são minimamente qualificadas, não estou a falar do ponto de vista técnico, mas qualificadas do ponto de vista político, moral. E basicamente não há controlos horizontais. As outras instituições que deveriam fazer esse controle, estão todas controladas pelo mesmo partido e sob esse ponto de vista, é uma situação muito delicada.
E encontraste alguma pista digna de registo no discurso de vitória de Donald Trump?
Não, acho o discurso de vitória de Donald Trump, aquilo nem é bem um discurso. Eu estava a ver, eu vi o discurso todo em direto. Durante o discurso, foi chamando várias pessoas ao palco, o que já em si é um pouco estranho, porque para todos os efeitos, há ali uma certa solenidade no momento. Ele, no fundo, está a receber um mandato popular para ser presidente do país mais poderoso do mundo. Aquilo não é propriamente um reality show ou nem sequer um comício. Mas vamos tirar essa, podemos chamar de excentricidade, de lado. Mas qualquer pessoa que tenha visto o discurso e visse, no fundo, o que Trump dizia e todas as pessoas que foram passando pelo palco, a coerência, a capacidade de elencar frases. Não estou a falar de ideias, não estou a falar de ideologia, porque todas as pessoas que vieram ao palco partilham mais ou menos, em maior ou menor grau, da ideologia Trump. Estou a falar de capacidade de falar de forma coerente, perceptível, com discurso fluido. Quer dizer, é absolutamente perceptível que Trump está num patamar muito pior que 2016. Eu outro dia vi uma brincadeira no Twitter, em que uma pessoa fez uma transcrição de um discurso de Trump e a leitura do discurso denota completamente que eventualmente ele até pode estar com as faculdades mentais afetadas. Não estou a falar de ideologia, estou a falar puramente do ponto de vista cognitivo do discurso. Portanto, eu acho que o discurso não nos deu rigorosamente pista nenhuma sobre o que se vai passar. Acho que podemos aprender muito mais, no fundo, olhando para aquilo que ele foi dizendo ao longo dos últimos meses, prometendo, por exemplo, vingar-se de todas as pessoas que estiveram contra ele estes anos todos, por exemplo, deportar milhões de imigrantes. Miller está ao lado dele. Miller, para todos os efeitos, é uma personagem sinistra, que tem traços neonazis e que prometeu que logo nos primeiros dias que Trump o elegeu como encarregado da questão da imigração e que seria ele próprio a traçar um plano para deportar milhões de pessoas em muito pouco tempo. Portanto, é deste calibre que estamos a falar.
Susana Peralta, pode Donald Trump, que de resto já apregoa o Make America Great Again 2.0, ser mais previsível neste mandato, tendo em conta que já foi presidente uma vez, ou ainda mais imprevisível, seja lá o que este 2.0 queira dizer?
Eu acho que ele vai, sobretudo, ser mais eficaz. Ou seja, ele é mais previsível no sentido seguinte: em 2016, nós não acreditávamos que ele era capaz de fazer aquilo que ele tinha dito que ia fazer. E depois ele mostrou que era capaz de fazer quase tudo aquilo que ele dizia. E, portanto, deste ponto de vista, eu acho que está mais previsível para nós. Porque nós estamos preparados para quase tudo com Donald Trump desta vez. Por outro lado, parece-me evidente que ele está mais eficaz, ou seja, há uma série de condições de 2024 que não estavam verificadas em 2016. Ele tem o partido muito mais moldado à imagem da sua personalidade e das suas ideias radicais. Ele já teve poder executivo, já percebeu o que correu mal na primeira encarnação, porque ele na altura rodeou-se de várias pessoas que depois não faziam o que ele dizia ou não faziam tudo e que de alguma forma o contrariavam. Não me parece que ele vá cair no mesmo erro, da perspectiva dele, claro. E sabe como é que funciona a máquina.
Está aqui um problema, o mundo está mais imprevisível, ainda.
O mundo está mais imprevisível.
E ele está senil, de acordo com o Jorge. Portanto, também tem essa capacidade de controle.
Sim, isso aumenta a probabilidade. Mas eu não sei se ele está assim tão senil.
Eu não sei se ele está senil, atenção.
Jorge, é verdade que o discurso foi uma patética espegada, foi uma coisa longa, sem estrutura.
Desculpe interromper, Susana. Basta pensar, Luís, aquela situação em que ele na altura diz: "Não vou responder a mais perguntas", e está 39 minutos a dançar no meio de um comício.
Com a playlist do próprio. Atenção, ficámos a saber isso hoje.
Aquilo está próximo do Julho de Matos.
Jorge, aí estás a falar da campanha eleitoral. E o sucesso de uma campanha eleitoral mede-se pelos resultados.
Isso com certeza.
Então não foi nada senil, foi certíssimo.
Pois, eu não tenho isso tão claro. Agora, eu acho que neste momento, temos em todo o caso em cima da mesa um Donald Trump muito mais eficaz do que ele foi em 2016 e também mais legitimado, quer dizer, apesar de toda esta vitória no voto popular, dá-lhe uma legitimidade democrática. Não sei se o Trump está preocupado com a legitimidade democrática ou não, mas dá-lhe uma legitimidade democrática. Atenção, eu não sou das pessoas, eu não dou para o peditório de que o Colégio Eleitoral é uma instituição antidemocrática. Atenção, queria deixar isso bastante claro, mas de facto, há periodicamente este debate de quem ganhou o voto popular, quem é que deixou de ganhar. Neste caso, ele ganhou claramente e isso dá-lhe uma legitimidade acrescida, parece-me evidente.
E um Donald Trump mais eficaz, que carta do baralho é que para ti encaixa na descrição do que pode acontecer?
É o rei de espadas. É um rei que vem aí a cavalgar no seu cavalo alado e com uma espada vingativa, como é óbvio, como o Jorge já disse, ele anunciou vinganças contra várias pessoas e, portanto, temos um rei de espadas e não vai ser bonito de ver.
E olhando aqui para a nossa chafarica Europa, em sentido lato, tem razões para estar aflita, Luís, pela parte económica, as altas tarifas protecionistas que Donald Trump promete impor, também a questão da guerra na Ucrânia, já agora da guerra no Medio Oriente, e pelo eventual insuflar do populismo, o efeito contágio?
Deixa-me só recuar aqui um pouco pra dizer uma coisa. Quando estamos a falar do lado vingativo do Trump, de fato, se os checks and balances funcionarem, o lado vingativo dele não terá impacto. Vamos ver se a democracia americana resiste a isso. Agora, uma coisa onde não há checks and balances é na parte dos indultos que ele pode atribuir. Portanto, ele pode basicamente perdoar toda a gente que esteve envolvida na invasão ao Capitólio e por aí fora. Essa gente agora, à partida, deve estar toda muito alegre, e serão quase todos indultados, imagino eu, quando o Trump tomar posse.
E olhando pra Europa.
Em relação à questão europeia, aqui há um certo conflito, que é: eu faço parte de uma esquerda europeia que andou décadas a criticar os Estados Unidos por terem mania que são os polícias do mundo. Participei em manifestações contra intervenções dos Estados Unidos. Mas, de fato, agora que a guerra nos bate à porta, nós queremos que os Estados Unidos atuem como um polícia. Portanto, há aqui uma certa ambivalência da nossa parte, que é que os Estados Unidos, quando não intervêm, nós queixamos que não intervêm, e quando vão deixar de intervir ou quando queremos que intervenham, depois queixamo-nos. Portanto, é um bocado complicado isto. Agora, eu acho que a bola passa pra nós, que é nós, europeus, é que não podemos falhar. Se a Europa falhar, nós estamos a falhar. Que autoridade moral é que nós temos para nos queixarmos dos americanos não apoiarem a Ucrânia, se nós, portugueses, não estamos dispostos a gastar mais do que 1,5% na defesa? E se o governo quisesse aumentar pra 3% as despesas na defesa, se isso estivesse no orçamento de Estado do próximo ano, era aí uma revolução contra essa ideia. E ao mesmo tempo que nós nos recusamos a fazer esse esforço, queremos que os americanos façam. Portanto, isto parece-me complicado. Agora, claro, dito isto tudo, sim, lamento muito pela Ucrânia. Dói pensar na quantidade de mortes de ucranianos que existiram nestes anos por estarem a enfrentar a Rússia e ter consciência que o mais provável é mesmo que a Ucrânia tenha de abdicar de parte do seu território. Portanto, custa muito, mas acho que aqui a culpa também é da Europa, também nós não apoiámos como devíamos. Na parte das tarifas protecionistas, eu duvido um bocado que elas disparem da forma como se teme, por uma razão simples, que o impacto imediato disso será um aumento dos preços nos Estados Unidos. E dado que grande parte da campanha do Trump foi feita a prometer baixar a inflação e baixar os preços, logo que isso aconteça, ele terá de refrear os seus ânimos. Portanto, aí vamos ver, esperar pra ver.
Já agora-
Deixa-me só dizer uma coisa em relação ao populismo de direita, que o Trump representa. Nós na Europa também gostamos de culpar o Trump por tudo e mais alguma coisa. E agora parece que a culpa do populismo europeu, dos Andrés Venturas e coisa assim no gênero, que é Trump. Mas não é. Antes de Trump, já havia Le Pen em França. E já houve Berlusconi em Itália, que foi primeiro-ministro e foi reeleito. E neste momento temos uma primeira-ministra italiana cujas simpatias por movimentos fascistas na sua juventude são conhecidos, e mesmo a relação que agora tem com essa ideologia é ambígua, e não há nenhuma ambiguidade no discurso dela em relação à imigração. É exatamente o discurso que Trump teria se fosse italiano. Portanto, nós na Europa estamos bem servidos de populistas e populistas direitolas e fascizantes, com ou sem Trump.
Jorge Fernandes, já agora, tens este entendimento também que tem o Luís sobre esta questão do populismo?
Sim, completamente. Há muitas carreiras acadêmicas, muitos livros, muitas conferências pra serem feitas agora, porque como sempre, quando essas coisas se intensificam em determinado tipo de sítios, aparentemente isto nunca tinha acontecido. Quer dizer, Berlusconi, que era no fundo um homem dos mídia, da televisão, etc, foi eleito pela primeira vez primeiro-ministro de Itália em 94. Passaram 30 anos. A ideia de que isto é alguma coisa de novo, nunca visto, é a mesma coisa que agora, imensa gente tá chocada porque descobriram que na Alemanha a EFD pode ter 15% e nunca se ouviu falar na história da Alemanha de qualquer movimento racista ou xenófobo. Isso é evidente, o Luís tem toda a razão, e vamos passar isso à frente. Relativamente à Europa, eu acho que a Europa tá metida num belo sarilho, se querem que vos diga, porque a Europa precisa desesperadamente. A integração europeia, o desenvolvimento econômico e do modelo social que a Europa tem no pós-guerra, deveu-se, no fundamental, a um acordo não tácito, na verdade, mesmo genuíno, entre as elites europeias e americanas, em que, no fundo, a América pagava a segurança, a Europa servia como um dos mercados dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, também pagava o preço quase físico de estar próximo de um conjunto de ameaças territoriais, que os Estados Unidos, devido à sua geografia, não estão. E portanto, havia aqui um acordo tácito desta troca entre os Estados Unidos e a Europa. Por outro lado, também importa perceber que os Estados Unidos pagam grande parte da conta da NATO e grande parte da conta de manter o conjunto de normas internacionais que permitem, por exemplo, o comércio internacional fluir, instituições capitalistas funcionarem. Aliás, há um livro, até de antes do Trump, do Robert Kagan, que ele faz esse argumento de forma muito engraçada. A ideia de que a China quereria desmantelar a ordem americana é um bocadinho um contrassenso, porque só na ordem americana é que a China pôde crescer o suficiente pra se tornar a potência que é. E, portanto, há aqui esta contradição inerente. Eu não tenho a certeza sobre o que vai acontecer agora. Acho que a Europa pode estar metida num belo sarilho, porque se Trump realmente entrar numa deriva protecionista, nacionalista e sair completamente daquilo que foi o consenso económico, político, militar que foi montado no pós-guerra, no fundamental, que já vem sendo erodido ao longo dos últimos anos, Trump pode dar agora a machadada final nisto e pode pôr muita coisa em causa. A Ucrânia será apenas a primeira vítima de tudo isto e acho que certamente houve muita gente contente no Kremlin nesta noite, ao contrário do que Putin veio dizer, que não ia celebrar a eleição de nenhum presidente de um país inimigo. Certamente muita gente estará contente lá, o que de alguma maneira também nos diz de que lado é que nós devemos estar. Se Putin está contente com uma coisa, se calhar, nós não devemos estar.
Susana, temos estas ondas de choque para a Europa a vários níveis, económico e também neste plano dos conflitos.
Parece-me evidente e parece-me mais, eu fico preocupada como é que a Europa não se preparou para isto, porque de facto este desfecho era bastante provável. Vamos supor que a probabilidade do Trump ganhar era mais ou menos metade e a probabilidade da Kamala Harris ganhar era mais ou menos metade. Ora, 55% de probabilidade é enorme. E não é que os sinais não estivessem lá, e parece realmente extraordinário, quase dois anos depois do início da guerra na Ucrânia, que a Europa ainda não se tenha conseguido organizar para ter uma política externa comum, para ter uma política de defesa comum, para fazer um investimento a sério na sua defesa e que continuasse à espera que este irmão americano fizesse esse trabalho por nós. É um sinal de uma verdadeira falta de qualidade dos nossos líderes europeus, da falta de visão. E agora pode ser até que esta eleição de Donald Trump acabe por criar aqui alguma necessidade, e a necessidade é a mãe do engenho, sendo que, obviamente, as condições políticas na União Europeia, com as últimas eleições europeias, sendo que isto seria sempre uma lógica intergovernamental, não seria uma lógica do Parlamento Europeu. No entanto, estas últimas eleições europeias denotam uma Europa na qual o peso dos partidos políticos que têm uma visão mais nacionalista e menos, desculpem, vou usar a F-word, federalista da Europa, é predominante e portanto isso parece-me tudo muito problemático nesta altura. Eu acho mesmo que a Europa está em maus lençóis, desse ponto de vista geopolítico, da sua posição no mundo, tendo em conta que nós é que temos a guerra aqui à porta, não são os americanos, e são vários membros da União Europeia que têm a guerra nas suas fronteiras, desde logo a Polónia, e portanto temos aqui de facto um problema. E depois, eu acho que também do ponto de vista económico, eu sou sensível à argumentação do Luís, de que por muito louco que o Donald Trump seja, não vai impor tarifas de 60% à China e de 40% ao resto do mundo, mas ainda assim, para já não sei, porque lá está, tenho realmente muito pouca confiança no homem. Mas de todo o modo, parece-me evidente que vai haver um aumento das tarifas e que vai haver uma disrupção ainda maior no comércio internacional, que já está de resto de pantanas pela mão de Trump, mas não só, porque a administração Biden foi uma administração bastante protecionista e isto não vem só de tarifas, vem também dos subsídios, das ajudas que são dadas às empresas americanas, às indústrias, aos setores de produção americanos, e que são também uma distorção ao comércio internacional. E portanto, eu acho que a Europa está claramente numa situação difícil a partir de hoje, mas que na verdade devia ter planeado. Portanto, desse ponto de vista, mais uma vez, é triste para todos nós, mas está na altura de acordar e mesmo em face desta evidente probabilidade elevada de Donald Trump ganhar, não termos feito nada para nos prepararmos, mostra que há uma infantilidade, na verdade, neste projeto europeu, e está na hora do projeto europeu se tornar adulto ou então isto vai correr mal. Infelizmente, para nós que estamos aqui, para os nossos filhos.
Vamos olhar agora para o outro lado da moeda, para a derrota dos democratas. Jorge Fernandes, a esta hora, Kamala Harris ainda não falou de viva-voz, deve fazê-lo daqui a cerca de hora e meia, às 9:00 p.m. desta quarta-feira. Em mais de 3 mil condados, não conseguiu ter uma performance melhor do que Joe Biden há quatro anos, mesmo em estados ganhos pelos democratas, e não conseguiu vencer nos estados-chave, os chamados swing states. Quem é que falhou mais, a candidata ou o problema aqui é mais amplo do Partido Democrata?
Acho que não foi a candidata, sinceramente. Acho que a candidata fez, dentro das condições que lhe ofereceram, ela foi nomeada, vamos lembrar-nos, no início de agosto. Portanto, na verdade, eu acho que ela poderia ter feito, mas era uma coisa muito marginal. Houve uma ou outra gafe em pequenas entrevistas, falhou duas ou três entrevistas às quais provavelmente deveria ter ido, mas no fundamental, não penso que tenha sido uma falha dela. Vamos ver uma coisa. Olhando para todos os números, os grandes números dos fundamentals, digamos assim, que estavam em cima da mesa, da economia, da aprovação do incumbente, das percepções que as pessoas tinham sobre o caminho que o país estava a levar, se era bom ou mau, toda a história, não há um único caso na história dos Estados Unidos em que O incumbente ou alguém diretamente relacionado, como é este caso, o vice-presidente, tenha conseguido ganhar as eleições quando estes grandes números sobre a economia, a inflação, a perspectiva em relação ao país estivessem tão negativos, tal como estavam agora. Portanto, na verdade, a extensão da vitória de Trump é só uma surpresa na medida em que se fosse qualquer outro candidato republicano, nós ontem tínhamos podido todos dormir às 10 da noite com a certeza absoluta que os republicanos iriam ganhar, porque os grandes números estavam a indicar que o incumbente não tinha qualquer hipótese. Na verdade, Kamala e o Partido Democrata só estiveram, agora sabemos que não, mas nas sondagens muito quase taco a taco até ao fim, porque o candidato do outro lado se chamava Donald Trump, um candidato mais centrista, tipo Mitt Romney ou alguém menos assustador, digamos assim, e sem a bagagem de Trump. Acho que a eleição de ontem, com toda a incerteza que existe, mas seria mais ou menos um dado adquirido que os democratas iriam perder.
Jorge, eu acho que está na altura de deixarmos de afirmar isso como se fosse autoevidente a ideia de que o outro candidato republicano era melhor que o Trump. A verdade é que foi este que venceu a Hillary Clinton, que era a candidata preferidíssima dos democratas e que esteve anos e anos, mais de uma década, a preparar-se para ser candidata a presidente. Aliás, até foi ela a principal opositora de Obama dentro do Partido Democrata. Quer dizer, foi ele que ganhou. Depois ganhou as primárias. E há quatro anos, quando perdeu, perdeu depois de uma gestão desastrosa da altura de Covid. E perdeu por pouco, não foi por muito. E é assim tão óbvio? E depois limpa esta eleição e limpa o campo republicano, quase que nem houve nada. Quer dizer que limpou aquilo tudo, é como uma equipa a dar goleadas sucessivas. E depois ganhou esta eleição, pelos vistos, com cinco milhões de votos de margem. É assim tão óbvio que outro candidato republicano faria melhor?
Eu não disse que era óbvio. Eu disse que era mais óbvio o desfecho da corrida. O que eu disse foi que, se fosse outro candidato, provavelmente saberíamos há mais tempo com alguma segurança.
Eu acho que está na altura de nós aceitarmos que o Trump é mesmo um candidato carismático e que move massas e que tem votos.
Isso é evidente.
Aliás, falámos sobre isso.
E que outro republicano é que vês com estas características? O Mitt Romney? Sério, não achas de forma alguma que seja verdade que não seja o Trump o melhor candidato do Partido Republicano?
Não, o partido de Mitt Romney, de 2002, e este partido de agora são dois partidos radicalmente diferentes. É o mesmo partido em name only, digamos assim. É só mesmo o nome. Não há grandes continuidades sob o ponto de vista das elites, houve uma grande rotação das elites, muitas elites clássicas, o establishment clássico do Partido Republicano, muitas delas saíram. Basta pensar que a ideia que Dick Cheney iria apelar ao voto democrata, enfim, se nos lembrarmos do que ele foi durante a presidência de Bush, estaríamos a falar praticamente de uma alucinação.
Eu posso dizer uma coisa? Eu acho que as vossas duas visões se reconciliam com a definição do que é que querem dizer por melhor. O Luís está a falar de melhor de uma perspectiva que é perfeitamente válida e aceitável, que é a do sucesso eleitoral. E o Jorge está a falar de melhor de uma perspectiva normativa, dos valores, desde logo, que representou a União Europeia, que aparentemente, os dados de inquérito mostram que a generalidade dos cidadãos europeus, embora com uma assimetria Este-Leste, tinham uma preferência clara por Kamala Harris. Ou seja, anti-Trump, neste caso, que é do que estamos a falar aqui.
Sim. Vamos ter ainda de esperar por ouvir, viva voz, Kamala Harris. Aquilo que sabemos até agora é que há CNN, há democratas que estão a responsabilizar Joe Biden pela pesada derrota e essa é a narrativa, pelos vistos, que está a ser criada. Susana, tens um minutinho, mas gostava de te ouvir sobre isto. Até as mulheres Kamala Harris não conseguiu convencer. Temos aqui um novo retrocesso com a administração Trump, por exemplo, no que toca ao aborto, também no que toca aos imigrantes e efeitos depois para lá das fronteiras norte-americanas.
Apesar de tudo, segundo as sondagens de boca de urna, houve mais mulheres a votarem em Kamala Harris do que em Trump. Portanto, ela atrai 54% do voto feminino, o que não deixa de ser muito aquém do que se pensava, desde logo por ela ter, de facto, usado a questão do aborto e dos direitos reprodutivos das mulheres como uma das bandeiras da sua campanha eleitoral. Eu acho que parece evidente a questão do aborto, é uma questão que é muito importante e que vai, de facto, custar vidas a mulheres, porque não tenhamos ilusões. O aborto clandestino é sobretudo uma máquina de doença, de incapacidades muitas vezes definitivas para as mulheres e também de morte. E mais, acidentes muitas vezes de abortos, por exemplo, espontâneos, que não são necessariamente induzidos pela vontade da mulher. Que depois chegas ao hospital e com problemas de ameaça de litigância, tal como acontecia em Portugal quando o aborto era ilegal, as mulheres chegam ao hospital numa situação de aborto espontâneo e podem ser-lhes recusados os cuidados médicos, porque na verdade é muito difícil distinguir assim no imediato, e muitas vezes sem ser no imediato, se aquele aborto resulta de facto da ação da natureza ou da ação humana sobre aquela gravidez. E, portanto, nós temos inclusivamente mulheres que vão arriscar a vida mesmo sem terem querido necessariamente abortar. Portanto, esta questão do ataque aos direitos reprodutivos das mulheres e à saúde reprodutiva da mulher vai ser um retrocesso civilizacional enorme, embora tenha havido, como é sabido, iniciativas e houve estados que aprovaram, na verdade, algumas regras a favor do aborto e, portanto, não está tudo perdido, continua nas mãos dos estados.
Embora seja uma preocupação que paira aqui no ar. Esta foi uma edição extra do Fora do Baralho, mas já sabe, o nosso encontro sagrado é sempre à sexta-feira, depois das 19h, certamente ainda com ecos das eleições nos Estados Unidos. Eu sou a Vanessa Cruz, até sexta.