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"Fora do Baralho", episódio extra ao domingo, totalmente dedicado aos ouvintes e às dúvidas que os inquietam. Eu sou a Sara Antunes de Oliveira e esta semana temos nas respostas o Luís Aguiar Conraria. Luís, Manuela Carvalho pergunta: "Como mulher de esquerda, preocupa-me a debilidade eleitoral dos partidos à esquerda do PS, mesmo depois da eleição de António José Seguro para Belém. Como se muda isso? Ou será que vamos ter um ciclo longo de esquerda minoritária?"
Eu acho que tem razões para se preocupar, mas não sei responder nem como é que se muda isso, nem quão longo vai ser o ciclo de esquerda minoritária.
Mas é expectável que haja ciclo?
Mas mesmo a esperança que ela vê na eleição de António José Seguro, parece-me uma esperança vã, porque ela está especificamente preocupada com os partidos à esquerda do PS. É o que ela pergunta. Ora, os partidos à esquerda do PS apoiaram os seus candidatos, o Jorge Pinto, a Catarina Martins e o António Filipe. Eu penso que somando as votações dos três candidatos, isso corresponde a um valor inferior à margem de erro de uma sondagem. Se essas eleições nos dizem alguma coisa, é que os partidos à esquerda do PS estão muito fracos, não conseguiram de forma alguma fixar o seu eleitorado, ou se fixaram, quer dizer que o seu eleitorado é diminuto. Isso é a primeira conclusão a retirar. E o que também se retira da eleição de António José Seguro, desta primeira volta, é que ele objetivamente reuniu toda a votação à esquerda. Poderá ter havido alguma que tenha votado no almirante, mas tirando algum voto residual da esquerda no almirante, o eleitorado de esquerda concentrou-se em António José Seguro, que teve 31% dos votos ou coisa assim do gênero. Portanto, a esquerda é mesmo muito minoritária neste país, não há volta a dar. Os 70% de votação que António José Seguro teve é o resultado de ainda termos uma direita democrática que prefere votar em alguém de centro-esquerda, a votar numa pessoa radical de direita, como era André Ventura. Portanto, sim, eu diria que tem todas as razões para se preocupar. Olhando para o que se passa na Europa, não há grandes sinais de a esquerda estar a recuperar. Nós, os democratas, ou pelo menos as pessoas que não são radicais de direita, celebraram outro dia a queda de Orbán na Hungria, mas isto foi à custa de uma mobilização da esquerda para votar num candidato de direita. Quem ganhou foi um candidato de direita e portanto, olhando para as eleições da Hungria, quase 100% dos votos foram em candidatos de direita. Portanto, sim, acho que tem razões para se preocupar. Neste momento, não há nada que indique que a direita deixe de ser maioritária. Isso é diferente de ser uma direita com capacidade para governar. E é até perfeitamente possível que o Partido Socialista seja o partido mais votado nas próximas eleições, mas aí também implicará o mesmo, que é um Partido Socialista sem capacidade para governar.
Temos uma outra pergunta de Jorge Castelo Viana para os ases do programa. Ele pergunta: "Por que os portugueses não ligam ao nível de inglês e aos livros lidos pelos políticos? Ou será que Ventura teve terreno fértil porque fala inglês e além de ler, até escreveu livros?" Já te estás a rir.
Sim. Está um ouvinte aqui a gozar com o nosso ás Jorge, que está sempre a falar nisso.
Tens uma visão sobre esta matéria?
Tenho, e neste caso é até mais simpática para com o eleitorado português do que é para com esta visão elitista do Jorge. Acho que tem piada, obviamente, o Jorge, as coisas que ele vai dizendo, mas acho que ele centra demasiado nisso. E a verdade é que um político eleito fala ao eleitorado do seu país, ponto final. E é o eleitorado do seu país que tem de convencer. Obviamente que é preferível, tudo o resto igual, é preferível alguém ter uma cultura mais elevada do que ter uma cultura mais fraca. É preferível alguém falar melhor, eu até começava por dizer em português, do que falar pior. E claro, é preferível falar melhor inglês e francês do que não falar.
Certo.
Mas eu diria que se alguma coisa, se os portugueses aqui se tivessem a preocupar com as capacidades linguísticas dos primeiros-ministros, acho que se deviam preocupar especialmente com o português, que os nossos primeiros-ministros, regra geral, não é regra geral, mas muitos deles falam muito mal português. E já agora vou dar uma de Jorge, é o caso aqui do nosso atual primeiro-ministro, que está constantemente a dar pontapés na gramática.
Não come sílabas como o anterior, que tinha aquele problema de comer algumas sílabas.
O anterior não era pontapés na gramática, era comer sílabas. Este aqui dá muitos pontapés na gramática, diz "será-lhe dito" em vez de "ser-lhe-á dito" e coisa assim do gênero. Mas elitismos de parte, acho bem que os portugueses votem por outros motivos que não esses. E gosto de saber que em Portugal é possível alguém nascer de classes sociais e não estou a falar aqui econômicas, estou mesmo a falar aqui de questões sociais e culturais, portanto classes sociais e culturalmente não as mais elevadas e que mesmo assim consiga ascender a altos cargos da nação. Acho que isto é bom. Claro que preferia que esses políticos depois tivessem um bocadinho mais de brio e uma vez lá chegados, que se esforçassem por melhorar as suas capacidades, mas pronto, é o que é. Mas agradeço ao ouvinte a pergunta, que assim já me vou meter com o Jorge.
Obrigada, Luís. Se quiseres ouvir respostas para as suas perguntas nos episódios extra do "Fora do Baralho", basta escrever-nos para foradobaralho@observador.pt. Os ases aqui estarão todos os domingos na rádio e em podcast. Bom fim de semana.