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Boa tarde. Estamos no Gabinete de Crise, o programa que analisa o estado da pandemia do coronavirus. Olhamos para Portugal e para os exemplos que chegam do resto do mundo. Nesta parceria do Observador com a Universidade Nova de Lisboa, temos todas as semanas os professores Alexandre Abrantes, da Escola Nacional de Saúde Pública. Boa tarde, Alexandre.
Boa tarde, Carla.
Cumprimento também o Pedro Pita Barros, professor de Economia da Universidade Nova de Lisboa. Pedro, bem-vindo.
Obrigado, Carla. Boa tarde.
Vamos já conversar, mas antes lembro que na segunda parte do programa há sempre um convidado. Esta semana, o subdiretor da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, Rui Santana. Ele é o autor de um estudo que se debruçou sobre a diminuição a que temos assistido do recurso às urgências, mesmo em casos clínicos de média ou de elevada gravidade. Mas, para já, arrancamos com a ordem de trabalhos desta semana. O Gabinete de Crise começa sempre com um número, um número que nos ajuda a perceber melhor estes tempos. E o número do Pedro Pita Barros, qual é?
O meu número desta semana é 90%. Mais de 90% das pessoas que responderam ao inquérito da Faculdade de Economia da Nova, que foi realizado nas duas primeiras semanas de abril, indicaram um grau de preocupação com a economia elevado ou muito elevado, até mais elevado que a preocupação com a própria doença. Isto foi uma mudança importante relativamente ao que acontecia na segunda metade de março, em que foi muito mais importante a preocupação com a doença do que com a economia. O que significa que neste momento estamos a ver as pessoas a ficarem mais preocupadas com a economia do que antes. E, no concreto, até 76% das pessoas que responderam mostraram-se mais preocupadas agora com a economia do que estavam há duas semanas. O que significa que toda esta discussão que está a ser feita sobre o retomar gradual da atividade económica vai ser uma discussão que vai responder a algumas ansiedades que estão a crescer na sociedade portuguesa.
E que esses números bem mostram. Alexandre Abrantes, qual é o seu número?
Olhe, são dois números bons. Primeiro, que hoje só houve 181 novos infetados e que o número de infetados, portanto, vem a descer há 10 dias consecutivos. Houve também só 28 óbitos e quer dizer que há seis dias que vem descendo sucessivamente o número de óbitos por Covid. Isto quer dizer que são boas notícias e daqui a pouquinho já vos direi porque é que estes números têm tanta importância.
Se calhar, porque têm importância com estes do Pedro Pita Barros, não é? O país entrou pela terceira vez em estado de emergência, mas de facto a discussão nesta altura já é quando e de que forma é que se devem começar a aliviar as medidas de contenção. Pedro, estes números já nos permitem apontar algum caminho?
Já nos permitem começar a tomar uma discussão sobre o retomar da atividade económica. Vai ser uma decisão política, que tem que ser informada inevitavelmente pela evolução das componentes de saúde pública, mas também por esta ansiedade com a componente económica que se começa a gerar. E nós já vimos isso ontem com o anúncio do Presidente da República sobre o que vai acontecer nos próximos tempos, porque ele próprio disse que esperava que esta fosse a última renovação do estado de emergência, ia ser até 2 de maio, e cobriu três aspectos na sua decisão. Primeiro, temos ainda que ter tempo para proteger as pessoas em lares. A segunda é a necessidade de estabilizar os internamentos para que se possa responder a algum aumento de casos, que é o ponto do Alexandre com o seu número. E aliás, ele usou uma expressão engraçada que foi: "atividade precavidamente aberta", portanto, fazer isto com calma. E o terceiro argumento era dar espaço ao governo para preparar esta abertura. O que significa que não está em causa começar-se a abrir, está em causa como é que vamos fazer isso. E isso vai nos obrigar também a acompanhar o que é a experiência de outros países que começaram este processo e sabermos, em Portugal, como é que vamos fazer essa transição também com alguns indicadores e algumas métricas, para encontrarmos o nosso ritmo nesse caminho.
E o fato, Pedro, de já termos esses exemplos, alguns exemplos de alguns países da Europa, ajuda-nos também a tomar medidas mais seguras?
Ajuda-nos, até porque a própria Comissão Europeia disponibilizou um conjunto de sugestões com base no aconselhamento que teve do Centro Europeu de Controle de Doenças e daí dos próprios países. Primeiro, o critério que querem usar é uma redução sustentada dos internamentos ou dos novos casos de Covid-19. E isso liga-se diretamente com o que o Alexandre irá falar a seguir, julgo eu. Aliás, é também um elemento comum, por exemplo, ao que os Estados Unidos divulgaram ontem, que a Casa Branca divulgou ontem, sobre o que são as linhas de orientação para a abertura da economia nos Estados Unidos. O segundo grande ponto é que o sistema de saúde, no nosso caso o Serviço Nacional de Saúde, vai ter que ter a capacidade de tratar novos casos que eventualmente surjam, em particular os que requeiram internamento e cuidados intensivos. Terceiro, provavelmente o mais importante neste momento, e que nós precisamos de saber bem como é que vamos montar, é a capacidade de testar, detetar rapidamente casos, isolar esses casos e os seus contactos. E, portanto, tem que se fazer todo este processo de testes mais extenso do que tem sido feito durante este processo de abertura da economia, mas também podemos pensar em fazer de forma mais eficiente. Por exemplo, tem havido propostas de fazer testes de despistagem com testes de grupo. Isso é, por exemplo, juntar 30 ou 40 pessoas de uma empresa e fazer um único teste com eles todos. Por quê? Se o teste der negativo, são todos negativos. E isto pode aumentar a eficiência dos testes. Portanto, vamos ter que também ser inteligentes a perceber como é que os outros países vão organizar estes processos de testes. Depois, há alguns pontos operacionais do plano da Comissão Europeia, como haver capacidade de recolher dados e tê-los de forma fiável a nível local, e que é uma coisa que também tem estado cá em discussão. Saber como é que vamos ter apps Para telemóveis, para seguir as pessoas e os seus contactos e como é que resolvemos as questões de privacidade. E há alguns outros pontos que podemos voltar a eles daqui a bocado, se acharem de interesse.
Já temos aqui uma lista muito interessante de critérios e de requisitos. Alexandre Brandes...
Esses números que eu vos apresentei, a queda do número de óbitos durante seis dias e a queda de número de casos novos durante 10 dias, puxa-nos para o assunto dos critérios. Os critérios são dois: há o critério para começar a fazer a recuperação da nossa vida social e da vida económica, que é para começar, e depois são os critérios que se devem aplicar para escolher quais são as atividades econômicas que se vão abrir, quais são as atividades sociais que se vão abrir primeiro e não fazer isso de uma forma ad hoc, mas sim de uma forma racional. Queria já agora chamar a atenção que nós até aqui há uma semana, sempre nos comparávamos com a Espanha, com a Itália, com a França, o Reino Unido, etc, em relação à gravidade da doença. Porque no fundo, eles tiveram a doença 15 dias antes de nós e nós pudemos aprender com eles. Neste momento, estamos todos a olhar para outros países. É a Áustria, é a Dinamarca, a Noruega, a República Checa. Por quê? Porque eles estão a começar a fazer a recuperação faseada das suas economias e da sua vida social e, portanto, nós temos também aqui um intervalo de 15 dias para ir vendo como é que eles são feitos. Em relação aos critérios que eu estava a falar, eu tenho visto dois tipos de critérios para começar a recuperar, o que eu chamo a recuperação faseada da vida social e da vida econômica. Uns países usam 14 dias de queda consecutiva do número de casos. Ora, nós já temos 10 dias consecutivos, portanto, julgo que até o fim do mês teremos os 15 dias e esse critério estará cumprido. O segundo é queda consecutiva de cinco dias no número de óbitos. Ora, nós já temos seis dias. Isto quer dizer que nós estamos quase lá para poder tomar uma decisão de recuperar a nossa vida social e a nossa vida econômica de uma forma faseada.
E essa forma faseada tem a ver com o tal país a duas velocidades que o primeiro-ministro admitiu até na entrevista desta semana à Rádio Observador.
Exatamente. Uma vez que já expliquei mais ou menos como é que se pode tomar a decisão de começar, a segunda é como é que o governo vai decidir se se abrem os cabeleireiros primeiro, se se abrem as lojas de ferragens depois. Tem que haver um critério para decidir.
Alexandre, mas esse critério será técnico ou já será um critério político?
São as duas coisas. A Escola de Saúde Pública propôs para aquela reunião em que esteve o primeiro-ministro e o presidente lá na Infarmed, propusemos dois critérios: um critério de saúde e um critério econômico. Do lado do critério de saúde, são duas coisas. A primeira é abrir primeiro as atividades em que as pessoas não se vão encontrar com muitas outras pessoas. É muito diferente uma pessoa ir a uma loja em que se cruza ou que fala com duas ou três pessoas durante essa saída, ou ir para um campo de futebol em que está com 40 mil pessoas. Portanto, começar-se a abrir as atividades econômicas e sociais em que o número de pessoas com as quais contactamos é relativamente limitado. O segundo critério é acautelar as mortes, portanto, focar toda a estratégia de saúde pública, que eu digo de precisão, a evitar que as pessoas mais velhas e as pessoas que têm doenças concomitantes possam adoecer e morrer. Portanto, estes seriam os dois critérios: evitar a transmissão e evitar os óbitos. Do lado econômico, nós propusemos que usassem dois critérios, um que era o impacto no desemprego e o segundo fosse o impacto no PIB. Seriam os dois critérios. E basicamente, com esses critérios de saúde e econômicos, acho que os políticos poderão tomar as decisões mais adaptadas ao país, que não serão as mesmas que se usam na Dinamarca, certamente.
Pedro, vai ser preciso esse equilíbrio. Sim.
Deixa-me só acentuar aí ao que o Alexandre disse, um aspecto que eu chamaria de flexibilidade ou necessidades da economia em cima destes critérios. Isto por quê? Porque nós sabemos que com o desaparecimento do turismo internacional nos próximos meses, se calhar anos, as pessoas que trabalham em atividades relacionadas com esse turismo, seja na parte formal, seja em muita parte informal, vão ter que se direcionar para outras atividades. Vão ser atividades que necessitem de mão de obra humana. E portanto, essas atividades vão ter capacidade também de ter que dar segurança relacionada com a saúde e vão ter que ser trabalhadores que vêm de outras áreas para essas áreas.
Está a pensar em que áreas, concretamente? Pode dar exemplos.
Não tenho neste momento nenhuma ideia concreta do que é que possa ser, mas, por exemplo, questões de segurança dos estabelecimentos, que agora passa a ter uma componente sanitária. Nós vemos nalguns países surgir pessoas que estão à porta dos estabelecimentos comerciais a verificar a temperatura. Poderá haver aspetos desses. Poderá ter que haver também reforços de pessoal de apoio em lares ou em zonas que precisem de mais pessoas a cuidar de outras. O que nós sabemos é: quem estiver a sair neste momento das áreas de turismo, porque estava muito envolvido numa atividade que vai baixar muito nos próximos meses, vai ter que encontrar ocupação profissional do outro lado. E portanto, nós podemos não conseguir saber exatamente onde é que elas se vão encaixar. E nós não conseguimos dizer 30 pessoas saem de um hotel que vai reduzir a atividade pra entrar no outro lado, mas vamos ter que ter os mecanismos que façam com que essa transposição de pessoas de umas áreas profissionais pra outras Seja feita em segurança relativamente à saúde, para evitar contágios, seja entre trabalhadores, seja contágios no contacto com clientes ou público. Como nós não sabemos onde é que vamos ter essas transições laborais, vamos ter que criar mecanismos suficientemente flexíveis para que tudo seja feito de forma segura para todos. Porque é essencial pensarmos que, apesar de haver a abertura da economia, o vírus não deixou de estar em circulação. Portanto, todas as necessidades da reorientação profissional vão ter que ser conjugadas com a parte da saúde. E os critérios que vamos ter que usar têm que ser complementados com estes outros mecanismos de flexibilidade.
É outro desafio que aí vai. E agora, na ordem de trabalhos do gabinete de crise, desfazemos mitos. Podem parecer mesmo verdade, mas devem passar pelo crivo da ciência. Alexandre Brandes, vamos voltar à vida normal no dia quatro de maio?
Esse é o mito que eu acho que nós não devemos alimentar. Vamos fazer uma recuperação faseada da nossa vida social e nossa vida económica.
É isso que vamos ter que fazer, faseado. Pedro Pita Barros, existe um medicamento que permite curar a Covid-19?
Esse é outro mito que às vezes circula, que é que existe esse medicamento. Não é verdade. Sabemos que neste momento há várias tentativas e ensaios com medicamentos diversos, mas não há ainda evidência que seja conclusiva sobre nenhum deles. Aliás, aqui particularmente importante é de assinalar que o medicamento que tem sido indicado por Donald Trump foi abandonado num ensaio clínico no Brasil por estar a provocar problemas cardíacos nos doentes. E o caso francês que deu origem a este medicamento ter sido tão discutido, tem sido muito criticado por não poder ser retirado dele, em termos técnicos, que o medicamento é seguro e que produz os efeitos desejados. Aliás, ele tem sido usado, às vezes, até em Portugal tem sido usado, apenas como último recurso, dados os efeitos adversos que pode produzir.
Estamos a falar daquele medicamento que é utilizado para a malária.
Exatamente. E esse medicamento, na forma como está a ser usado neste momento, é apenas como último recurso, quando já não há esperança de mais nada. E sabemos que tem, eu não sei, mas os clínicos sabem que tem efeitos adversos importantes, tanto que esse ensaio clínico foi interrompido no Brasil por estar a provocar problemas cardíacos. O que significa que não existe um medicamento que as pessoas possam tomar hoje para resolver a Covid-19 ou possam tomá-lo como prevenção. E portanto, é deixar que o que está a ser usado como medicamento, seja no ambiente hospitalar, nos casos mais críticos, e não podemos pensar que já existe um medicamento. Vai existir um.
Mas nem medicamento, nem vacina, estamos ao mesmo nível.
Estamos, embora seja de esperar que o medicamento, se existir, seja descoberto mais rapidamente do que a vacina, que nós sabemos que tem um processo longo de descoberta e depois, sobretudo, de ensaios de segurança e de garantir que a vacina produz os efeitos que é suposto produzir em termos de imunidade, sem criar complicações às pessoas em termos de saúde.
Ficamos então com estas verdades. Alexandre?
Deixe-me ficar aqui um bocadinho mais sobre este assunto, como é que vai ser esta recuperação e por que não podemos abrir no dia quatro de maio. Nós estamos a comparar com a Áustria, com a Dinamarca, Noruega, etc. E os nossos indicadores da epidemia são um pouquinho piores que os deles, mas não muito. Aquilo que ainda me preocupa um pouco é o que se chama a taxa de transmissibilidade, a taxa da capacidade que uma pessoa tem de infectar outras. Considera-se, ou pelo menos aceita-se, mais ou menos, que a epidemia, a circulação do vírus está mais ou menos controlada, quando cada 10 pessoas só contaminam sete pessoas, que é o caso da Noruega. Eles usaram isso como critério para começar a fazer a sua recuperação da vida social e económica. Ora, nós ainda estamos em que cada 10 pessoas só infectam nove. Isto quer dizer que estamos no bom caminho. Quer dizer, cada um doente já não transmite a doença nem a outra pessoa. Transmite a menos que uma pessoa. Isso é bom, mas ainda estamos um pouquinho longe, enfim, de uns 70, 80% de transmissibilidade que seria o desejável para estarmos mais à vontade nesta recuperação da vida social e económica.
Essa explicação é importante. Portanto, aqui ficamos com isto: ainda não há evidência de que algum medicamento esteja a curar a Covid-19 e não vamos voltar à vida normal no dia quatro de maio. Regressamos já a seguir com as notas de esperança desta semana e também com o professor Rui Santana. Até já.
Olá, eu sou a Inês Ameixa e sou jornalista da Rádio Observador. A todas as horas, na rádio e no jornal, trabalhamos para transmitir a melhor e a mais atualizada informação sobre a Covid-19. Queremos ser a voz dos factos, da realidade e da isenção. A minha carreira está a começar agora. Jornalismo é o que eu quero fazer e este é, sem dúvida, o momento mais desafiante para mim, mas enfrentamo-lo juntos. Se quer juntar-se à nossa missão de serviço público, torne-se assinante do Observador.
Segunda parte do gabinete de crise. Alexandre Brandes e Pedro Pita Barros analisam o estado do combate à Covid-19. Vamos daqui a pouco perceber como é que os doentes não Covid estão a ser acompanhados pelos serviços de saúde. Vai ser com a análise do subdiretor da Escola de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa, Rui Santana. Mas antes disso, temos notas de esperança. Já se sabe que o caminho é longo, é difícil, mas no gabinete de crise estamos também atentos aos sinais mais positivos. Qual é, Pedro Pita Barros, a nota que quer destacar?
A minha nota é simples: nós sabemos que a capacidade de realizar testes para despistar o vírus vai ser muito importante num futuro próximo. E aqui a nota de esperança é que estão em curso várias linhas de investigação, incluindo algumas linhas de investigação em laboratórios nacionais, para melhorar estes testes, seja na rapidez com que dão resultados, seja na sua precisão, seja na facilidade da sua aplicação, inclusive a possibilidade de cada um de nós poder fazer o teste em casa. Isto será um elemento crucial para se poder recuperar alguma normalidade de vida até se ter uma vacina. Portanto, aqui a nota de esperança é: vamos ter capacidade de fazer testes de forma confortável, com resultados rápidos e fiáveis dentro de pouco tempo.
E por isso diminuímos riscos. Alexandre Abrantes, qual é o seu sinal de otimismo?
O sinal de otimismo é que os portugueses aceitem as orientações do governo em relação às medidas que têm de tomar para evitar a propagação da epidemia. E se continuarmos neste caminho, acho que será bastante rápida a nossa passagem para uma recuperação da nossa vida social e económica.
É mesmo o que queríamos ouvir. Estas duas notas de esperança a arrancar a segunda parte do gabinete de crise. Apresento agora o convidado desta semana, já falámos dele, Rui Santana, subdiretor da Escola Nacional de Saúde Pública, integrado na Universidade Nova de Lisboa. Ele liderou um trabalho sobre a quebra nas idas às urgências no primeiro mês de pandemia. Muito bem-vindo, Rui.
Olá, boa tarde.
Essa quebra nas urgências foi muito expressiva neste primeiro mês, 48%, e não só nos casos menos graves. E se inicialmente chegamos a ouvir até algum contentamento com estes números, porque davam a entender que se estavam a eliminar as chamadas falsas urgências, podemos dizer que afinal não foi só isso que aconteceu, Rui Santana.
Sim. Aquilo que nós fizemos foi efetivamente tentar verificar qual foi o comportamento neste primeiro mês de pandemia, da utilização das urgências hospitalares no nosso país. E portanto, aquilo que verificámos foi uma queda muito significativa, tal como já referiu, dessas idas às urgências. Sabemos também de antemão que Portugal é o país no espaço da OCDE que tem a maior utilização per capita das urgências e, portanto, a redução destes mesmos episódios tem aqui uma componente que é efetivamente até uma boa notícia, sobretudo naquelas que tradicionalmente se identificam como urgências verdes, por exemplo. Portanto, a redução dessas urgências verdes permite libertar recursos, por exemplo, para o combate à Covid e também naturalmente fazer aqui uma correção face à trajetória natural e histórica que a urgência hospitalar tem no nosso país, de eliminar essas urgências que não são adequadas. O que é má notícia ou algum motivo de preocupação pode surgir efetivamente dentro daquela componente das urgências que tradicionalmente também têm a atribuição de cores mais fortes, digamos assim, que necessitam de cuidados mais urgentes e emergentes, como as amarelas e as vermelhas. É preciso ter aqui algum cuidado e alguma prudência na análise destes dados, porque eles são apenas do primeiro mês e portanto são de uma forma genérica para todas as urgências. É preciso perceber um pouco melhor quais os fatores que explicam este mesmo fenômeno e é preciso, depois, também entrar dentro, por exemplo, da casuística propriamente dita que está dentro destas cores. Nós aqui só temos como proxy, como fator de aproximação, as cores da triagem da urgência. Essa é a informação que está disponível, pública, que nós conseguimos trabalhar. Vai ser necessário, naturalmente, um aprofundamento e temos que ter alguma cautela nas conclusões que conseguimos tirar. Agora, uma coisa é certa, e isso é evidente: a quebra muito brusca, brutal, digamos assim, desta procura face às urgências hospitalares.
Porque estamos a falar em quase de metade dessas urgências que não se realizaram neste mês. Eu gostava de explorar, e já percebemos que ainda não temos esses dados todos, mas de perceber que motivações explicam o afastamento dos utentes dos serviços de saúde. Falamos de medo em primeiro lugar?
Sim, vamos ver. É clara a associação, nem é necessário muito trabalho de associação estatística para perceber aqui uma causa-efeito entre o início da pandemia e esta quebra ao nível da utilização das urgências. As causas, como eu referi há pouco, eu acho que tem que haver aqui um aprofundamento para percebermos exatamente qual é que é a causa que leva as pessoas a não ir à urgência, mas efetivamente não podemos, desde logo, excluir à partida esse medo, porque as pessoas identificam naturalmente o hospital como o local onde são tratados também os doentes com Covid-19. E portanto, há uma tendência natural, há uma perceção natural, um comportamento natural para evitar o deslocar a esses mesmos sítios e evitar naturalmente esse mesmo contágio. Depois há aqui alguns efeitos também paralelos que são interessantes, penso eu, que podem ser interessantes de ser estudados, que têm a ver também até com outro trabalho, por exemplo, que o Alexandre desenvolveu, relativamente à mobilidade dos portugueses. E que esta redução da mobilidade também pode trazer aqui alguns efeitos, por exemplo, ao nível da redução dos acidentes rodoviários, ou pode haver também aqui redução, por exemplo, ao nível dos traumatismos desportivos, simplesmente porque deixaram de existir a possibilidade de realizar esses mesmos.
Objetivamente, algumas das situações clínicas a que estávamos habituados ver nas urgências deixam de existir ou existem com muito menor dimensão.
Exatamente. Pode haver aqui um efeito natural A essa hipótese que colocou do medo de contágio das pessoas em ir aos serviços de urgência, mas pode haver também alguns efeitos que pela própria situação e esta nova organização social que nós vivemos dentro do último mês, pode também ter provocado e, portanto, pode também ter aqui algum efeito. É preciso no futuro perceber um pouquinho melhor qual é a componente de cada uma destas causas que contribui para este efeito. Por outro lado, deixe-me só concluir, também pode haver aqui um efeito positivo, por exemplo, em acidentes domésticos. Como as pessoas estão todas em casa, pode haver aqui um aumento significativo ao nível de outro tipo de explicações ou até através de episódios de violência doméstica, por exemplo. Portanto, pode haver aqui também um contributo positivo e literalmente negativo. Toda esta nova ordem social que vivemos vai trazer efeitos diferentes daqueles que nós estamos à espera. E isso vai provocar efeitos neste sinalizador, que é muito bom, que é a urgência. Quando alguma coisa corre diferente no sistema de saúde, tradicionalmente, a urgência funciona como um bom sinalizador, uma boa campainha. Portanto, todos estes fatores vão contribuir, de alguma forma, para explicar os movimentos positivos e negativos, mas fortemente negativos da utilização e da procura da urgência hospitalar.
Porque há depois um outro fator, e era aí que estava a convocar o Alexandre Abrantes, e que tem a ver com um discurso de saúde pública que conhecemos, de prevenção, de diagnóstico precoce. E isso, Alexandre, perdeu-se mesmo neste último mês?
Não, de maneira nenhuma. Até o contrário. O aparecimento desta epidemia reforçou extraordinariamente os serviços de saúde pública, que saíram das suas rotinas de fazerem educação para a saúde, vacinações, etc, para uma resposta em controle de uma epidemia. Eu tenho a certeza que depois deste surto, os serviços de saúde pública estarão muito mais fortes do que estavam antes, até para se prepararem para um possível surto de Covid no ano que vem. Portanto, de uma forma geral, acho que os serviços de saúde pública vão estar mais capacitados. Agora, aquelas atividades de rotina da saúde pública, é possível que durante estes dias tenham sido postas em segundo plano e que será uma das coisas que terá que fazer parte daquilo que acabei de falar há pouco, que é a recuperação faseada da vida social e económica. Mas, de uma forma geral, eu acho que os serviços de saúde pública vão sair reforçados desta crise.
Vão sair reforçados, não vão sair mais esgotados?
As duas coisas. Mas temos que os cumprimentar, porque tantas vezes ouvimos falar no burnout dos médicos, burnout dos professores, etc. E eles agora que trabalham 10 vezes mais do que trabalhavam antes, ninguém fala no burnout, há uma dedicação extrema, ninguém está a pensar se vai ficar infectado, se não vai ficar infectado. Todos os profissionais de saúde se juntaram para responder de uma forma exemplar e acudir aos necessitados.
Pedro Pita Barros, ia intervir, vamos ter mesmo um serviço de saúde mais forte depois desta pandemia?
Numa primeira fase, vai ser um serviço de saúde mais cansado, certamente, porque isto vai esgotar as pessoas, vai esgotar os equipamentos, mas podemos ter um serviço mais forte se conseguíssemos aprender o que é que funcionou bem nesta resposta que estamos a dar. E alguma coisa esteve a funcionar bem, certamente, porque nós não tivemos nenhuma das imagens dramáticas que vimos nos outros países, como a Espanha e a Itália. E uma das coisas que eu acho que funcionou bem foi, desde logo, a estratégia de pôr um número considerável de pessoas, em vez de estar no hospital, estar a ser acompanhada em casa. Já num programa anterior, o Alexandre falou isto, na hospitalização domiciliária, mas eu continuo a pensar que é um tema que não vale a pena irmos reduzindo tanto, porque manter 80%, 85% das pessoas que têm a Covid em casa, não só é bom para elas, como é bom para o sistema, e isso é uma aprendizagem que nos pode depois ter um SNS mais forte, também à saída desta pandemia e para outras pandemias. Um dos aspectos que eu acho mais interessantes aqui é a flexibilidade de resposta que isto permite, porque no fundo permite como que aumentar a capacidade da resposta de um hospital de forma muito flexível conforme a necessidade que tem. E isso é um elemento que nós devemos aprender a utilizar com regularidade no sistema de saúde e na articulação com os cuidados de saúde primários, a articulação com as autarquias, a casa do doente, o hospital. Tudo isto pode agora ter uma aprendizagem de funcionamento comum que fará um SNS mais forte, certamente, se nós soubermos aprender a lição.
Deixem-me reforçar o outro lado, os aspetos que são mais preocupantes e que têm com base o estudo do Rui Santana, que é a ideia de que muitas pessoas podem ter deixado de recorrer aos serviços perante uma situação clínica que até pode ser grave. E o risco de estarmos perante uma espécie de bomba-relógio, de um dia podermos ser confrontados com agravamentos de situações clínicas que poderiam ter sido mais facilmente evitáveis. Rui Santana, há esse risco também?
Vamos ver. E até fazendo um pouco a ligação com o tema que estava aqui a ser discutido na primeira parte do programa, eu também penso que os hospitais e as estruturas do Serviço Nacional de Saúde, que neste momento estão a funcionar de uma forma dualista, isto é, há um circuito Covid que é muito intenso e onde existe um direcionamento de recursos muito significativo. Mas, por outro lado, há também este abrandamento da utilização nas diferentes linhas de produção dos hospitais. Nós ainda não temos números concretos para apresentar Temos ouvido várias manifestações de diferentes profissionais que, não só na urgência, mas também noutras linhas de produção hospitalar, como as cirurgias, o internamento, etc., há um abrandamento da atividade. E, portanto, este adiamento do consumo de recursos de saúde, tudo aquilo que foi desmarcado na altura do Covid, o próprio impacto que o Covid vai ter também em termos de necessidade em saúde futuras, vai trazer um acumular de procura que possivelmente será interessante nós pensarmos também que é necessário um planeamento faseado de resolução deste tipo de procura. Eu acredito que os hospitais, neste momento, também estão a tentar aprender como lidar com esta situação e ela vai ser gradual ao longo do tempo. Não sei se tiveram a oportunidade de ler o artigo, mas há situações anteriores, por exemplo, da SARS asiática, em 2003, 2004, em que houve também uma recuperação gradual, mas que durou cerca de dois, três anos. Portanto, isto foi um acumular de procura que vai aparecer agora em agosto, setembro, outubro e que de repente o sistema de saúde vai ter que responder também, mas muito possivelmente, esta situação vai demorar mais tempo e os próprios hospitais e o próprio sistema de saúde, tal como a sociedade, tal como a economia, como estavam a discutir na primeira fase do programa, os próprios hospitais também vão ter que gradualmente saber responder de forma conjunta a toda a procura que anteriormente satisfazia e, por outro lado, tem também tido esta nova complexidade.
Vai ser preciso aprender. Rui Santana, muito obrigada por ter vindo ao Gabinete de Crise. Agradeço muito a sua participação. O Alexandre Abrantes e o Pedro Pita Barros vão, como sempre, voltar para a semana à mesma hora. Até lá. A terminar, já sabemos que o ócio pode estimular a criatividade e já temos visto muito disso ultimamente, sobretudo nas redes sociais, onde por estes dias tudo parece acontecer. Deixo-vos com uma versão atualizada de um clássico de cinema. Judy Garland já não está à procura do arco-íris no filme "O Feiticeiro de Oz", está antes à espera que a tempestade passe. Boa tarde e até para a semana.