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Começa agora mais um Gabinete de Guerra das manhãs 360, esta terça-feira com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis, a partir de Washington. Olá, Bruno, bem-vindo.

Olá, obrigado.

Zelensky confirmou que não vai participar na reunião entre os Estados Unidos e a Rússia, que acontece hoje na Arábia Saudita. Disse que a Ucrânia não foi sequer consultada e que nunca vai aceitar decisões sobre o futuro do país sem estar na mesa das negociações. Bruno, conseguimos perceber qual é a estratégia de Trump?

Isto começa a parecer perigosamente com aquilo que foi a estratégia, se lhe podemos chamar assim, de Trump em relação ao Afeganistão e ao Talibã. Ou seja, aí ele teve a sorte, entre aspas, de ser Biden, depois teve de acabar de lidar com as implicações disso, mas basicamente foi fazer um acordo com os inimigos dos Estados Unidos nas costas dos aliados dos Estados Unidos, ou seja, nas costas do governo de Cabul. Confrontar o governo de Cabul com o facto consumado, ignorando também as críticas e as sugestões dos aliados europeus e o resultado foi o completo colapso do governo de Cabul e a tomada do poder pelo Talibã.

E por isso Zelensky diz que o que pode acontecer é um Afeganistão 2.0.

Sim, acho que percebe-se isso. Aqui, obviamente, a questão é muito mais grave, porque apesar de tudo, os americanos eram a potência liderante no Afeganistão. Tinha sido por causa do 11 de setembro, dos ataques do 11 de setembro, que a intervenção tinha sido iniciada, aliás, com amplo acordo, apoio a nível global da China, da Rússia, etc. Unanimidade no Conselho de Segurança. O envolvimento dos europeus foi, sobretudo, por exemplo, Portugal, inclusive. Enfim, agora ouve-se os americanos a falar como se a Europa não tivesse armamento e não tivesse tropas e nunca tivesse ajudado os Estados Unidos em nada. Ora, havia tropas portuguesas a proteger o aeroporto de Cabul até ao fim, junto com as tropas americanas e muitas outras contingentes ainda muito mais significativos de outros países europeus, do Canadá, etc. Mas aqui o que torna a questão mais grave, obviamente, é que neste caso estamos a falar de um conflito que envolve não só a Rússia, mas envolve a segurança da Europa, e portanto, desse ponto de vista, e obviamente temos na Ucrânia um governo que tem, apesar de tudo, outra legitimidade e outro apoio entre a população, que não era o caso do governo de Cabul. Mas realmente isto, mais uma vez, não é propriamente inesperado vindo de Donald Trump. É inesperado em termos do que tem sido habitual da parte dos Estados Unidos em muitas décadas e do que seria desejável para se conseguir um acordo de paz com mínimas condições para ser um acordo viável e que pudesse funcionar a prazo, e não simplesmente levar cedências unilaterais à Rússia, que para mais, convém também recordar isso, não só é um inimigo declarado da Europa livre, da Europa Ocidental, mas é um inimigo declarado, tem como um dos seus principais objetivos, Vladimir Putin, combater a influência e o poder dos Estados Unidos a nível global e a nível regional. Esse é que é o paradoxo de tudo isto, é ver o presidente dos Estados Unidos, aparentemente a ter mais preocupações de falar e de se aproximar de uma potência declaradamente inimiga dos interesses americanos do que com os seus aliados tradicionais na Europa.

Bruno, esta segunda-feira, alguns dos principais líderes europeus estiveram reunidos em Paris a convite de Emmanuel Macron. O tema foi o futuro da Ucrânia. O que destacas deste encontro e também da Cúpula de Munique, que aliás levou depois a esta reunião em França?

Isto é o resultado do choque produzido pela Conferência de Segurança de Munique, em que temos o representante máximo dos Estados Unidos nessa conferência, o vice-presidente. É algo que aliás acontece, muitas vezes não ir o presidente, ir o vice-presidente à Conferência de Segurança, mas o J.D. Vance basicamente passou o seu discurso inteiro a atacar os países europeus, os seus aliados europeus, representar um governo nacionalista que não tolera qualquer tipo de crítica às suas ações no interior dos Estados Unidos, a dar lições sobre como é que os países europeus se devem governar, como é que os europeus devem votar, como é que os líderes europeus devem tratar os votantes europeus. Aparentemente a dizer que a maioria, inclusive referindo expressamente um país que está em pleno período eleitoral, portanto, é uma interferência descarada, nomeadamente na campanha eleitoral alemã, apoiando um partido que até agora, pelo menos, nunca teve mais do que 20% de apoio. É claramente um partido não majoritário, mas bastante minoritário entre a população alemã. Apesar de mais de 80% dos alemães nunca votaram na AFD, pelo menos até agora. Vamos ver agora o que é que acontece, inclusive se esta interferência, se este apoio declarado à nova administração Trump será algo positivo para as hipóteses eleitorais desse partido. Mas em todo caso, enfim, não é suposto isso acontecer, obviamente, numa conferência de segurança em que temos uma guerra às portas da Europa há vários anos. Sobre isso, J.D. Vance basicamente não disse nada, dizendo que confiava que ia haver um bom acordo de paz e basicamente ignorou as grandes questões de segurança global para se focar em questões de política interna europeia. Obviamente, isso levou a críticas Bastante fortes para aquilo que é habitual, nomeadamente no estilo de fazer política, nomeadamente os líderes alemães, que eram os anfitriões, ainda por cima. Depois disto decorreu Munique, que era o chanceler Scholz, que era o ministro de Negócios Estrangeiros, que era o ministro da Defesa Pistorius, vieram dizer que isto era absolutamente inaceitável, mas sobretudo surgiu também esta preocupação, que é aparentemente os Estados Unidos estão preocupados em dividir para reinar no seio da Europa, em atacar os governos que estão em funções nos seus aliados europeus e em ignorar completamente e dar prioridade a ter boas relações, ignorar completamente a questão russa na Ucrânia e ignorar essa guerra em curso. E portanto, daí surgiu esta ideia de uma cimeira de urgência dos países europeus mais envolvidos no apoio à Ucrânia. Basicamente é isso que explica a lista, com alguma necessidade geral.

Sim, e a ausência de outros.

E a ausência de outros, com também um formato que é habitual neste tipo de cimeiras ad hoc, porque isto não é obviamente uma cimeira da União Europeia, mas apesar é convidar o presidente do Conselho, António Costa, a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, para no fundo representar o conjunto da União Europeia e também para informar os outros líderes que não estão diretamente presentes. Agora, a questão é, aparentemente, a conversa não terá tido resultados espetaculares, não saiu daqui um grande consenso, tirando nesta questão, em duas questões que apesar de tudo são fundamentais, que é tendo de aumentar o investimento em defesa e isso vai implicar flexibilizar as regras orçamentais. É algo que os países, nomeadamente do Sul, insistem basicamente desde que esta discussão das regras orçamentais começou. E a outra questão é que obviamente os europeus e a Ucrânia têm de estar envolvidos numa negociação que diz respeito ao futuro da segurança europeia, ao futuro da Ucrânia. Enfim, à partida será uma questão até por bom senso, porque ao mesmo tempo que os Estados Unidos não envolvem os europeus, fazem questão de não envolver os europeus nesta fase das negociações, pelo menos com a Rússia, vão dizendo que querem saber que tropas é que os europeus estão dispostos a colocar na Ucrânia. Portanto, como disse, aliás, o chanceler alemão, isto não é forma de discutir esse tema. Quer dizer, mas tropas para aqui, no contexto de que acordo, para fazer o quê? Com que garantias nesse acordo, com garantias da parte dos Estados Unidos. Portanto, obviamente, desde logo isso mostra que a presença dos europeus é indispensável. Eu, aliás, até imagino que sejam os russos a começar a fazer pressão para haver algum envolvimento europeu a certa altura, porque imagino que eles estejam interessados na questão das sanções, do património russo congelado na Europa, no acesso ao mercado europeu.

Quanto ao Médio Oriente, o ministro da Defesa israelita estabeleceu um organismo para preparar o deslocamento dos palestinianos da faixa de Gaza. Diz o gabinete do ministro que isto seria feito de forma voluntária. Bruno, acreditas que avançando a ideia de Donald Trump e de Netanyahu, algum dia a população de Gaza vá sair de forma ordeira, espontânea?

Bem, não vimos até agora sinal disso, ou seja, todas as declarações que vêm do lado dos palestinianos, seja dos líderes, seja da população que vai sendo entrevistada, é que querem manter-se na sua terra, querem regressar, aliás, aos locais onde viviam, mesmo que eles saibam que eles estão destruídos e, portanto, à partida não temos sinais disso. Agora vamos ver se não há aqui pressão, se não há restrições à ajuda humanitária como forma de fazer essa pressão. Em todo o caso, simplesmente esta questão ser colocada ou ser levantada já é um fato de perturbação, já cria problemas aos países árabes moderados, como o Egito, a Arábia Saudita ou a Jordânia, que têm sido cruciais para, apesar de tudo, garantir alguma segurança nalgumas fronteiras de Israel e para permitir continuar a haver algum tipo de processo negocial e, portanto, não haver um compatibilamento de Israel no contexto do Médio Oriente. Certamente para haver uma paz durável, duradoura no conjunto da região, ela teria sempre que passar por um acordo com esses países. Ora, eles deixaram claro, sobretudo aqueles que têm também possibilidades de o fazer sem correr riscos demasiados em relação aos Estados Unidos, nomeadamente o Egito e a Arábia Saudita, deixaram muito claro que não só não estão de acordo com essa proposta, como acham que ela é absolutamente inaceitável, é contraproducente do ponto de vista do avanço de algum tipo de processo de paz no Médio Oriente. Aquilo que se deveria estar a discutir era a reconstrução de Gaza e, no fundo, recuperar um processo negocial que permitisse o surgimento de algum tipo de Estado palestiniano, permitindo depois aos Estados árabes moderados realmente fazer um acordo mais amplo com Israel.

Entretanto, as Forças de Defesa de Israel vão iniciar a retirada do Líbano esta terça-feira, mas vão manter tropas em cinco posições estratégicas, isto com o aval dos Estados Unidos. Bruno, por que agora esta retirada e por que parece que há interferência de Trump em cada passo de Netanyahu?

No fundo, Israel procura aqui sempre o apoio dos Estados Unidos e tal como as coisas estão, parece que conseguirá sempre esse apoio, ou seja, não há aqui nenhum tipo de preocupação também mais ampla, nenhuma estratégia regional que faça algum sentido. Aparentemente, Trump quer avançar com o acordo, por exemplo, quer ver um acordo entre a Arábia Saudita e Israel, mas depois faz este tipo de declarações que são altamente contraproducentes, de acordo com os próprios sauditas, em relação a esse objetivo. Portanto, no fundo, aqui é Israel a procurar, lá está, essa cobertura americana para algo que à partida é uma violação daquilo que estava acordado no Cesar Fo. Enfim, isso alimenta sempre a desconfiança da parte dos países árabes, que no fundo, e nomeadamente com o atual governo israelita, a preocupação maior não é algum tipo de processo político, é sempre ganhos militares. E assim para esta preocupação com manter ou aumentar o território árabe sob controle de Israel. O problema dessa estratégia é que tem sido seguida há muitas décadas e enfim, o resultado está à vista. Ou seja, períodos de conflito mais congelado e depois períodos de conflito mais intenso, mas no fundo o eternizar do conflito. Israel ocupa mais território, depois tem que defender esse território de ações de guerrilha, ou ações terroristas de grupos que reclamam recuperação desse território e conseguem mobilizar a população com base nesse argumento. E, portanto, enfim, desse ponto de vista, não parece ser uma saída brilhante, digamos, para um período de intensificação de extrema violência no conflito entre os palestinianos e Israel, ou neste caso também entre Israel e o Líbano. Israel poderia aproveitar o grande enfraquecimento do Hezbollah para tentar criar pontes com os libaneses e, no fundo, reduzir o espaço de manobra e influência do Hezbollah no contexto do Líbano. Mas aparentemente não será essa a prioridade, porque obviamente esta ideia não é aceitável, não é popular entre a maioria dos libaneses, que haja uma parte do seu território que volte a estar sob ocupação israelita.

Bruno Cardoso Reis, obrigada pela análise. Uma boa semana, Bruno.

Obrigado. Boa semana.

Até amanhã. Obrigada.

Até amanhã.