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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de tensão geopolítica. Na edição desta noite contamos com a análise de João Albuquerque, especialista em relações internacionais. Boa noite, obrigada por ter aceitado o nosso convite. E vamos começar pela garantia do ministro dos negócios estrangeiros russo, Sergei Lavrov, disse hoje que a liderança da NATO prometeu a Moscovo que não vai atacar a Rússia, no entanto, garante que o país vai manter-se com os olhos bem abertos. Este tipo de declarações tem vindo a aumentar nos últimos tempos. A Rússia ameaça os países da NATO, depois, de certa forma, volta atrás, diz que só fará alguma coisa se a Aliança Atlântica ou os países europeus fizerem algo que não seja do agrado de Moscovo. Este tipo de retórica do Kremlin surte algum efeito na forma como a NATO ou como os países europeus agem em relação ao conflito?
Olá, Lara, muito boa noite e boa noite também aos ouvintes da Rádio Observador. É particularmente contrastante com a realidade ouvir as declarações de Lavrov depois do dia de hoje. Nós começámos a manhã com ataques de drones a dois navios búlgaros, dois navios civis de mercadorias. Ainda não se sabe ou ainda não se identificou exatamente qual é a origem destes drones, mas eles surgem numa altura em que tem havido, de uma forma mais ou menos consistente, alguns ataques híbridos a infraestruturas ou equipamentos europeus, marcadamente europeus, ou a circular em território marítimo ou aéreo europeu, que muito provavelmente têm ou poderão ter proveniência da Rússia. E, portanto, este tipo de retórica contrasta muito com aquilo que depois tem vindo a ser a ação, não dizendo abertamente ou declaradamente que há ataques diretos da Rússia, mas há, de certa maneira, a ameaça de que esses ataques possam acontecer e eu acho que o Kremlin tem jogado sistematicamente com essa possibilidade, numa lógica de tentar não só fazer demonstração de força do seu poderio, daquilo que é a sua capacidade de intervenção, mas também, e eu tenho insistido um pouco nesta ideia, eu acho que tem sido uma atitude um pouco provocatória, até dos países europeus, tentando que haja algum tipo de reação ou alguma atitude por parte dos Estados europeus que sejam de contra-ataque ou de precipitar algum tipo de reação a estes ataques híbridos. E, portanto, eu acho que mais do que tudo, os líderes europeus têm que fazer uma demonstração clara de grande frieza e de grande força na defesa da identidade territorial europeia, assegurando que aconteça o que acontecer, a Europa estará sempre preparada para se defender e que isso será sempre a sua prioridade. Não escalando a retórica, não entrando no mesmo diálogo que acaba por ser um colete de forças que o Kremlin tenta impor, mas não deixando de afirmar de uma forma muito assertiva o direito da Europa à sua defesa e eventualmente responder a estes ataques que se têm verificado de uma forma cada vez mais frequente.
Entretanto, hoje Volodymyr Zelensky avisou também que a Rússia estará a preparar um ataque em grande escala e diz que a Ucrânia já está a agir para neutralizar este ataque. Pergunto-lhe que tipo de ataque é que pode ser este, algo diferente do que temos visto ou simplesmente um ataque a maior escala ainda?
Sim, Zelensky tem obviamente alertado e não é só um alerta vazio. Zelensky foi o primeiro a atribuir à Rússia a origem dos ataques desta manhã. A União Europeia não confirmou, nenhum líder europeu confirmou na mesma cena daquilo que Zelensky afirmou. Mas de facto, aquilo que a Rússia tem feito nos últimos tempos tem sido uma intensificação brutal, não há outra palavra, sobre várias cidades ucranianas e, acima de tudo, intensificando as suas forças militares em Kiev. E isto tem sido uma estratégia russa de contrabalançar aquilo que foi, durante o verão, alguns ganhos militares que a Ucrânia tinha conseguido obter e, de certa maneira, tinha conseguido fazer o mesmo, ou seja, tinha conseguido levar até Moscovo ou que pairasse sobre Moscovo a ameaça ucraniana e a demonstração de força ucraniana em pleno território russo. As forças russas retaliaram com uma brutalidade tremenda e têm atacado e desferido vários ataques sobre a cidade de Kiev e isso obviamente tem, não só do ponto de vista militar, das vidas humanas que se perdem, têm sido várias dezenas ao longo dos últimos dias, tem também um efeito psicológico muito significativo, porque volta a trazer terror à capital ucraniana, volta a colocar pressão em Volodymyr Zelensky para intensificar os esforços defensivos e obviamente faz soar alarmes da parte da administração ucraniana de qual é que será a real capacidade de reagir e de responder se a Rússia de facto concretizar um ataque com outra dimensão ou com recurso a outras forças, porque tem sido um pouco essa a retórica que a Rússia tem tentado impor nestas últimas semanas.
Vamos também mudar aqui um pouco agora para o lado norte-americano. O secretário de Estado, Marco Rubio, reiterou hoje que os Estados Unidos estão focados no fim do conflito da Ucrânia e disponíveis para desempenhar um papel construtivo nesse processo, embora reconheça também que a dinâmica no terreno não tem seguido propriamente essa direção. Que papel é que podem assumir os Estados Unidos ou o que é que podem fazer mais ou diferente para de facto pôr um fim ao conflito na Ucrânia?
Eu acho que as intenções podem eventualmente até ser boas. Começo a deixar de ter dúvidas que, do ponto de vista da administração americana, este conflito já ultrapassou tudo aquilo que são os limites do razoável, até do ponto de vista das consequências que ele traz, não isoladamente, não por si só, em conjunto com outros conflitos abertos, em particular no Irão, que traz uma pressão muito significativa ao empenho de forças militares americanas, à indústria militar americana e à forma como a diplomacia americana também se multiplica em diferentes esforços. Agora, o que fica por demonstrar é de que forma é que os Estados Unidos estão dispostos a servir de mediador, sobretudo de mediador imparcial, porque até hoje, acabamos de entrar no outono, estamos a aproximar de quase cinco anos de invasão russa, e durante este período, sobretudo desde que Donald Trump voltou a assumir as rédeas da Casa Branca, os Estados Unidos tiveram já vários avanços e recuos e sempre que houve uma tomada de posição no sentido de mediar o conflito com propostas concretas, essas propostas foram sempre muito mais próximas daquilo que eram as linhas vermelhas do Kremlin e daquilo que foram as exigências e as reivindicações de Vladimir Putin para colocar fim ao conflito, em particular a manutenção da Crimeia, o controle sobre Donbass e, portanto, aquilo que são, de facto, as razões primordiais para a invasão russa da Ucrânia. E os Estados Unidos sempre almearam por essa bitola, quase utilizando a Ucrânia ou forçando a Ucrânia a um espírito sacrificial que não deveria ser imposto a um país que foi o invadido desde o início. Eu acho que falta aqui, se os Estados Unidos, de facto, tiverem esta intenção real de serem um mediador, têm o capital para o fazer, quer do ponto de vista político e militar, terão efetivamente que assumir uma postura que possa ser reconhecida por ambas as partes como imparcial e capaz de apresentar soluções que não vinculem uma das partes à aceitação de coisas que não podem aceitar. E em particular para a Ucrânia, a perda de territórios conquistados por via da força e da ação militar é obviamente uma linha vermelha que, independentemente daquilo que possa acontecer numa negociação futura, não pode constar nunca de um ponto de partida de imposição à Zelensky e à Ucrânia.
Marco Rubio, o secretário de Estado norte-americano vem esta semana a Portugal. O que é que podemos esperar desta visita ou qual é o intuito desta visita?
De acordo com as palavras do secretário de Estado americano, a intenção é visitar alguns, como fez agora recentemente na Grécia, julgo que ainda se encontra na Grécia no momento em que estamos a falar, visitar alguns países que se têm, de certa maneira, no seio da União Europeia, mostrado mais alinhados ou com maior proximidade ao eixo Atlântico, na sua vertente de relação cordial com os Estados Unidos. Nós vimos um cumprimento caloroso de Marco Rubio ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, na Assembleia Geral das Nações Unidas. Vimos também palavras bastante simpáticas na saída do território americano, fazendo referência explícita a Portugal e às boas relações que mantêm com Portugal. E essas relações surgem porque, eu diria até com algum ar crítico ao facto de Portugal ter tido uma participação diferente daquele que foi de outros países da NATO, de permissão de utilização da sua base, em particular da base das Lajes, para operações militares americanas que tinham como objetivo atacar o Irão no início daquela que foi a operação militar americana conjunta com Israel. E eu acho que os Estados Unidos reconheceram esse papel que Portugal tomou e veem em Portugal e na ação externa diplomática portuguesa essa proximidade e esta visita insere-se nesse reconhecimento e na tentativa da parte da administração americana de procurar aliados e sinergias com aliados no seio da União Europeia, o que claramente não é, neste momento, o sentimento maioritário ou dominante entre os líderes europeus. Essa relação de grande amizade e proximidade está num ponto muito frio e de grande afastamento, quase até de alguma animosidade e, portanto, eu acho que se insere muito nesta lógica de diplomacia de procura de aliados e encontrou no governo português e nas suas relações externas esse ponto de entrada e de apoio numa relação com a União Europeia que é cada vez mais difícil.
Vamos olhar também para o conflito no Medio Oriente. O Qatar diz que as negociações entre os Estados Unidos e o Irão continuam, apesar do impasse. Numa altura em que ainda há registro de ataques, podemos dizer que qualquer tipo de entendimento está ainda longe?
Não houve nenhuma inversão significativa da situação nos últimos tempos. Pelo contrário, aquilo que nós verificamos foi o Irão a fazer utilização dos proxies para assumir o controle de uma rota adicional de navegação marítima no Mar Vermelho e a manter sob o Estreito de Ormuz o controle que tem vindo a manter desde o início do conflito. E, portanto, tem que haver alguma alteração profunda da relação entre as duas partes. Eu acho que até às eleições israelitas isso será difícil, porque eu acho que esse fator de incerteza dificulta uma estratégia de futuro para aquela região sem que se perceba efetivamente quem é que será o interlocutor e o interveniente da parte de Israel Porque se Netanyahu ganhar as eleições e se mantiver no poder, a situação permanecerá inalterada e até potencialmente com um reforço de legitimidade do primeiro-ministro israelita, uma intensificação das operações israelitas, porque obviamente vê confirmada nas urnas aquela que foi a sua estratégia. Se as eleições trouxerem um novo protagonista que possa eventualmente, diria que será difícil alterar radicalmente a política externa israelita, mas pelo menos ter uma visão mais conciliadora ou não tão abertamente ofensiva como aquela que o governo israelita tem tido, isso pode também trazer alguns benefícios a uma situação de entendimento. Mas eu julgo que é difícil antever que possa haver uma mudança radical nas relações entre os Estados Unidos e o Irã, sem que haja uma definição clara daquilo que é o futuro político em Israel e de que modo é que isso pode determinar a própria ação política dos Estados Unidos na região, em particular, a chegada de um entendimento com o Irão, que obviamente também, e não podia deixar também de assinalar este fator, que é as próprias eleições americanas em novembro que também têm um peso na forma como o presidente americano se tem comportado e como isso altera ou influencia a sua capacidade de chegar a uma resolução deste conflito até lá.
Chegamos ao final do nosso tempo, fica por aqui o Gabinete de Guerra, hoje com análise de João Albuquerque, especialista em Relações Internacionais. Muito obrigada pela sua análise.
Muito obrigado, Lara. Boa noite.
Muito obrigada. Boa noite. Este e todos os episódios do Gabinete de Guerra ficam também disponíveis em podcast.