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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Sou Luís Soares e hoje temos conosco a Madalena Meyer Resende, especialista em Relações Internacionais. Seja bem-vinda, Madalena. Madalena, tivemos nesta semana mais uma aproximação entre Donald Trump e Vladimir Putin. Ainda nos últimos dias, Donald Trump adiou novamente as sanções contra a Rússia, também numa semana marcada pelo Conselho Europeu e com a Europa a reafirmar o apoio à Ucrânia. Podemos considerar que, neste momento, a Ucrânia só conta com a Europa?
Seria bom que a Europa conseguisse substituir inteiramente os Estados Unidos, mas isso é precisamente a vulnerabilidade da Europa. Sabemos que capacidades militares dos Estados Unidos, da intelligence, defesa antiaérea, só os Estados Unidos é que podem ajudar a Ucrânia. E por isso é que é tão dramática a situação que vivemos hoje e tão difícil para a Europa responder à altura.
Isso significa que depois do Conselho Europeu, com mais sanções à Rússia e, por outro lado, com Donald Trump a dar mais a mão à Rússia do que à Ucrânia, vai ser mais difícil, por exemplo, a Ucrânia ter mais armamento de defesa, por exemplo. Houve esta semana a informação de escassez de mísseis Patriot na Ucrânia. Vai ser mais difícil a Ucrânia ter formas de defesa, nomeadamente nesta altura do inverno que se aproxima e que é sempre uma altura muito crítica para a Ucrânia e para a defesa da Ucrânia?
Sim, infelizmente, este outono e este inverno estão a ser já dramáticos para a Ucrânia, porque as defesas antiaéreas estão num histórico baixo, os recursos são claramente insuficientes e a Rússia está a explorar esta vulnerabilidade com ataques sucessivos e a obrigar a Ucrânia a consumir meios defensivos que não consegue repor. Portanto, para a Europa, este é também um momento de grande aflição, no sentido em que está demonstrado como a Europa não consegue rapidamente ultrapassar as suas deficiências, que foram criadas por investimento insuficiente durante muitos anos, e não é possível produzir imediatamente aquilo que é necessário. E, portanto, esta posição do presidente americano, que tem obviamente a ver com as intercalares, está a ter consequências nefastas para os nossos aliados ucranianos.
E como é que se explica, Madalena, que por um lado, há estas decisões de Donald Trump de adiar sanções à Rússia, por outro lado, há informações de que há uma possibilidade de um encontro entre as equipes de negociação dos Estados Unidos e da Ucrânia na próxima semana. Como é que os Estados Unidos conseguem jogar, digamos assim, nos dois tabuleiros? Por um lado, parecendo que se aproximam de Vladimir Putin, mas depois também participando em momentos de negociação e de certa mediação, também, de alguma forma.
Sim, por um lado, é o que nós já estamos habituados da diplomacia americana na era Trump, uma diplomacia com bastantes inconsistências, e é imprevisível, de fato, como é que os Estados Unidos vão responder exatamente neste momento aos pedidos de apoio militar que a Ucrânia insistentemente lhes faz. Sabemos que no Congresso há ainda bastante apoio para manter o apoio militar à Ucrânia e, portanto, isto também pode refletir estes dois centros de poder em Washington. Por um lado, o presidente Trump a querer dar sinais de que está a fazer alguma coisa para melhorar a crise energética causada pelo fechamento do Estreito de Hormuz, por outro, os órgãos mais responsáveis a querer manter alguma estabilidade no acesso ao armamento e à inteligência norte-americana.
O certo é que a Europa continua a viver momentos de algum alerta. Por exemplo, a Lituânia esta manhã emitiu um alerta após ter sido detectado um objeto não identificado, possivelmente um drone, no espaço aéreo do país. Inclusive, foram mobilizados caças da NATO. A Europa vai continuar a viver estas ameaças, possivelmente vindas da Rússia. Que soluções ou que resposta a Europa poderá dar também perante estas situações que acontecem, sobretudo, no leste do continente?
Eu penso que há uma resolução muito maior nos países europeus de responder de forma conjunta a estes ataques. Esta situação não afeta apenas os países que têm fronteira com a Rússia, mas também países como a Alemanha. E eu penso que em Berlim se nota uma Uma decisão já bastante firme de responder de forma firme a estas provocações, a esta guerra híbrida que a Rússia está a fazer à Europa no seu conjunto, mas também à Alemanha em particular, e encontrar instrumentos que permitam, de forma mais automática, aos países europeus encontrar soluções e encontrar respostas que sejam também apropriadas ao nível de ataque.
Madalena, olhando também para o Médio Oriente, e já falou também, de alguma forma, do que se continua a passar no estreito de Ormuz, com nomeadamente o Irão a repetir que o estreito está fechado e também com vários ataques que continuam a acontecer. Esta é uma situação que se mantém sem resolução. Como é que se pode ler esta ameaça por parte dos Estados Unidos, a utilização da Mãe de Todas as Bombas no Irão, o que isso significa exatamente no contexto do conflito nesta zona do globo?
Primeiro é preciso distinguir o que é que se quer dizer com esta expressão, "A Mãe de Todas as Bombas". Normalmente, isto é usado para uma bomba convencional de grande potência, não é para uma arma nuclear. Portanto, não deve ser confundida com as bombas que foram usadas para atingir as instalações enterradas com toda a indústria nuclear. Essa distinção é importante porque usam uma designação impressionante para intimidar e demonstrar disponibilidade para escalar o conflito, mas obviamente também pode criar uma armadilha, ou seja, depois de elevar tanto o tom, o presidente pode ter realmente pressão suficiente para ter que agir, mesmo quando estas consequências desta ação sejam difíceis de controlar. Sabemos que Trump tem dificuldade em gerir esta relação entre retórica e estratégica e demonstrar força. Obviamente, sabemos que não se faz fazendo declarações muito bombásticas, sem que essas tenham, de facto, uma consequência depois prática. Estamos ainda na mesma zona de diplomacia trumpiana.
Até porque o Irão mantém a ideia de que tudo isto está nas mãos dos Estados Unidos, mas o que é facto é que os Estados Unidos e o Irão continuam a não se encontrar a meio do caminho para tentar encontrar uma formulação ou uma forma de reabrir, nomeadamente, a passagem no estreito de Ormuz.
Exato. Não há aqui um caminho que seja nada claro. Este bloqueio do estreito de Ormuz parece ser já também computado nos cálculos do Ocidente e começam-se a construir oleodutos para diversificar a forma de saída do petróleo da região e, portanto, penso que está-se a calcular que este bloqueio seja muito longo.
E tudo isto acontece já há pouquíssimas semanas das intercalares nos Estados Unidos, com as sondagens a revelar um forte descontentamento com Donald Trump, até porque nestes conflitos, nomeadamente o Médio Oriente, tem impacto no preço dos combustíveis. Isso também se sente nos Estados Unidos, apesar das tentativas de Donald Trump de tentar encontrar fórmulas para que isso não aconteça. Aquilo que eu lhe queria perguntar, Madalena, a poucas semanas das intercalares, qual é o ponto de situação que podemos fazer nesta altura? Será que Donald Trump conseguirá retirar algum coelho da cartola até ao dia das intercalares?
Parece pouco provável. É claro que no centro destas intercalares está, obviamente, o julgamento dos americanos em relação ao seu presidente, embora os candidatos, as condições de cada estado também sejam determinantes. E parece haver, de facto, um conjunto de condições que nos apontam para uma derrota significativa de Trump. Isso explica, de facto, os seus anúncios na Ucrânia, no Irão, em relação à Rússia, portanto, a prioridade para evitar um choque energético antes das eleições. Mas o calendário eleitoral americano e a proximidade deste, neste momento, fazem prever realmente uma derrota maior do que as tradicionais para os partidos que estão na presidência, para Donald Trump e o Partido Republicano.
Não é de esperar, por isso, que os Estados Unidos possam realizar alguma intervenção mais musculada no Irão antes das intercalares. Ficará provavelmente para depois, como Donald Trump tem dito que a guerra acaba depois das intercalares?
Estamos um bocadinho pé atrás para fazer algumas previsões em relação às ações de Donald Trump. Ele é, de facto, o presidente mais imprevisível que conhecemos, mas não parece que fizesse sentido eleitoral, de facto, que essa intervenção viesse agora.
Madalena Maia Resende, muito obrigado por ter vindo a este Gabinete de Guerra. Um bom fim de semana, estamos de regresso amanhã.
Obrigada.