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E vamos a mais uma reunião do gabinete de guerra aqui na tarde em direto. Hoje com o professor catedrático de História na Academia Militar, António José Telo. Junta-se ao painel residente, Judite França, Bruno Vieira Amaral e Vanessa Cruz. E Vanessa, temos governo ucraniano a baixar expectativas quanto a uma contraofensiva.

Será a estratégia para enganar o inimigo ou o reconhecimento de que desta vez pode não ter os resultados esperados, como por exemplo, os sucessos de Kherson e Kharkiv? Pergunta, a primeira dúvida aqui, professor António José Telo.

Boa tarde. É uma dúvida pertinente e é muito difícil dar uma resposta com certeza a 100%. Tudo indica que não iremos ter de imediato a grande contraofensiva que foi anunciada e expôs ser anunciada por algumas autoridades ucranianas no passado recente. Há, de facto, um atraso significativo em termos da entrega de material pelos países ocidentais que apoiam a Ucrânia. Esse atraso traduz-se também em termos de treino e há algumas deficiências em termos de munições, que aliás, são parcialmente reveladas nos famosos documentos americanos que foram divulgados. Por outro lado, a Ucrânia, quer pelas afirmações anteriores, quer pelas movimentações que se desenham no sentido de procurar algum tipo de entendimento negociado, sente a necessidade de apresentar resultados no terreno. Um terceiro fator é a situação particular no Donbass, principalmente em Bakhmut. Tudo indica que a Ucrânia, justamente pensando numa solução negociada, apostou há coisa de dois meses atrás, na defesa de Bakhmut, em particular, mas de todas as várias pequenas cidades ameaçadas pela Rússia no Donbass. E conseguiu êxitos notáveis, embora não se traduzindo em avanços no terreno. Eu recordo que desde outubro do ano passado, que o presidente Putin deu uma ordem direta ao exército russo, que era conquistarem todo o Donbass. Bom, desde outubro do ano passado até agora, o terreno conquistado pela Rússia no Donbass anda pelas volta dos 30 km², ou seja, é minúsculo em relação ao que é a dimensão da Ucrânia. Isso tem sido resultado de uma resistência tenaz, de uma resistência muito forte e muito eficaz da Ucrânia, mas há um preço a pagar. E esse preço a pagar, tudo indica, foi o desvio de forças ucranianas da zona de Zaporizhzhia para a zona do Donbass Norte, e nomeadamente Bakhmut. Bakhmut, essa não é desde outubro do ano passado, mas é desde junho do ano passado, que é quando começou a ofensiva russa sobre Bakhmut. Os ataques de Bakhmut continuaram a resistir, embora reduzida eventualmente a menos de metade da zona urbana, mas continuaram a resistir, o que é incrível. O grupo de Wagner que se tem empenhado nesta batalha de uma maneira numericamente muito importante, empenhou 40, 50 mil homens ao longo destes meses, sofreu baixas terríveis e agora apressa a dizer que é uma traição do governo russo, que o governo russo não dá as munições que precisam, que o governo russo não está a apoiar este ataque no terreno. Ou seja, em resumo, há aqui um conjunto de condições que são capazes, mas isto não é certeza a 100%, de levar a Ucrânia a rever os seus planos de guerra em termos dos próximos meses.

Professor António José Telo, e é nesta altura em que a Rússia se prepara para enfrentar a contraofensiva que Vladimir Putin decide demitir o vice-ministro da Defesa, conhecido como o carniceiro de Mariupol, e essa decisão foi conhecida hoje. Isto pode também significar uma mudança de estratégia por parte de Moscovo?

As mudanças na hierarquia militar russa desde o começo da guerra têm sido numerosas, o que não é para admirar, porque tal como numa equipa de futebol que está a perder, uma das primeiras coisas que se faz é tirar o treinador. Em termos militares acontece o mesmo quando o exército no terreno sistematicamente não cumpre os seus planos. E no caso russo, não há dúvidas que não cumpre os seus planos. As ordens formais de ocupar todo o Donbass não foram realizadas, não foram concretizadas. A tendência é também para mudar a hierarquia militar, o topo da hierarquia militar, e tentar uma nova aproximação. A Rússia, aliás, se alguma coisa mostrou nesta guerra, é alguma flexibilidade. Ela já vai no quinto plano que está a ensaiar, o que significa que para trás houve quatro que falharam e falharam com baixas significativas e importantes também do lado ucraniano, mas falharam.

Professor, mas isso é uma flexibilidade obrigada?

É uma flexibilidade obrigada, é claro. Flexibilidade de mudas de plano quando o plano anterior não funciona. E normalmente não funciona porque o inimigo não deixa. Neste caso, o inimigo É a Ucrânia. O que é incrível nisto é que desde o começo da guerra até hoje, a Ucrânia está a lutar no terreno numa relação que é mais ou menos de um para três a favor da Rússia. E, no entanto, não só faz falhar sistematicamente os planos russos, como faz com que nos últimos meses a Rússia tenha ganho 30 km², o que é muitíssimo pouco, sobretudo em relação ao que foi prometido.

Professor António José Tello, como é que isso se explica? Apenas pela bravura e pelo empenho dos ucranianos?

Explica-se por várias razões. A Rússia está a fazer um erro militar significativo, como aliás tem feito vários desde o começo da guerra, que está a atacar no Donbass. Ora, o Donbass é uma zona que a Ucrânia vem fortificando desde 2014. Portanto, há oito anos que a Ucrânia anda a fortificar aquela zona, porque é a zona de guerra com a Rússia. A guerra com a Rússia não começou em fevereiro do ano passado, começou para a Ucrânia em 2014, e justamente na zona do Donbass, onde a Rússia está agora a atacar. Portanto, estes terrenos a Ucrânia conhece-os muito bem e a Ucrânia teve muitos anos, desde 2014 até hoje, para fortificar essa região. Isso é uma primeira explicação. Outra explicação é a diferença moral e de empenhamento entre os dois exércitos, que é patente desde o começo desta guerra, em que as forças russas não mostram de modo nenhum o empenhamento, a determinação e a coragem das forças ucranianas. Isso é desde o primeiro princípio da guerra que isso acontece, portanto, há uma diferença significativa na moral. Ora, a moral é algo básico para o desempenho de uma força militar em campanha e no terreno. E uma terceira explicação tem a ver com as armas inteligentes relativamente baratas que, de facto, a Ucrânia tem recebido e que alteram muito em termos da sua maneira de fazer a guerra, sobretudo quando é uma guerra defensiva, porque para atacar, a Rússia tem que expor os seus elementos, sobretudo em termos do Donbass, que são ataques sobretudo de infantaria, o que significa que uma artilharia bem posicionada, que está bem informada a partir de drones e a partir de satélites, que está apoiada por mísseis anticarro de quatro a seis quilómetros de alcance, consegue provocar muitas baixas numa força atacante. É o conjunto destes factores que faz com que a Ucrânia, sofrendo baixas, mas todos dizem que baixas muito inferiores às que a Rússia está a sofrer, tenha conseguido resistir no Donbass. A falta de avanço russo é um fracasso tremendo do exército russo ou, se prefere o contrário, é uma tremenda vitória para o exército ucraniano.

E terminamos com essa conclusão, professor António José Tello. Muito obrigada pela sua análise aqui no Gabinete de Guerra. Boa tarde. Obrigada.

Boa tarde.