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Abrimos a porta ao Gabinete de Guerra, o programa em que destacamos os principais conflitos e pontos de tensão na geopolítica mundial. Hoje conto com a análise de Bernardo Valente, especialista e professor de Relações Internacionais na Universidade de Lisboa. Boa noite, Bernardo. Obrigado por aceitar o nosso convite.
Olá, boa noite, Martim. Obrigado pelo convite.
Começamos com a situação na Ucrânia, isto porque Vladimir Putin recusa-se a falar com Volodymyr Zelensky presencialmente, mas não descarta uma conversa por telefone. A informação avançada por várias fontes ao The Kyiv Independent, que afirmam que uma chamada telefônica iria alcançar pouco e que seria preferível os dois líderes encontrarem-se pessoalmente. Ora, a Ucrânia diz também já há algum tempo que Vladimir Putin está escondido no seu bunker e que tem de sair de lá pra que as negociações sejam justas. A minha pergunta é bastante simples: parece-lhe que Putin tem medo de sair do bunker?
Não sei se Putin terá medo de sair do bunker, mas certamente que a Ucrânia tem andado lá próximo. Ou pelo menos sabemos que algumas casas de verão, as chamadas dachas, ou pelo menos as redondezas dessas dachas têm sido atacadas pelos ucranianos ao longo dos últimos meses. Putin pode ter medo de sair pela questão securitária, e aí acredito que até é plausível, porque sabemos que Vladimir Putin tem um longo historial de algum receio ou de uma desconfiança extra sempre que vai em viagens diplomáticas. Não só exige, por vezes, que se façam rotas mais longas, também devido ao mandado que tem do TPI, mas por vezes exige que os voos façam rotas mais longas. Sabe-se que muitas vezes leva os seus próprios artigos de higiene porque não quer usar nada que possa estar possivelmente envenenado ou que tenha tido influência de qualquer outro agente diplomático dos países que visita. E portanto, sabemos que isto vem da personalidade de Putin. Não é defeito, é feitio, é assim desde sempre. Por outro lado, os ucranianos, como dizia, têm mostrado essa capacidade de atacar bem dentro do território russo e devido à sua inteligência, e quando digo inteligência, estou a falar do intelligence, dos movimentos que a Ucrânia tem executado, principalmente a nível de geolocalização, tem conseguido perceber onde é que são essas tais dachas de Putin e atacado lá próximo, o que também certamente que assusta, mas a mim parece-me que o terceiro fator, que é o que vou trazer aqui, é realmente o que pesa mais nesta rejeição de Putin relativamente a um encontro presencial. Esta rejeição de Putin relativa ao encontro presencial com Zelensky, creio que se prende com a ideia de Vladimir Putin acreditar ainda que uma vitória no conflito é possível. E essa vitória no conflito é possível, ou pelo menos a Europa ainda não conseguiu fazer com que Vladimir Putin desistisse dessa ideia, porque os partidos que começam a ganhar força na Europa são quase todos eles, mesmo que não sejam pró-Putin, alguns são pró-Putin ou pró-Kremlin, mas são quase todos eles anti apoio à Ucrânia. Por isso, a partir do momento que Vladimir Putin olha pra um horizonte de cinco anos e consegue perceber que, tendo em conta o panorama eleitoral europeu, neste momento, dentro da União Europeia, há a possibilidade de ter uma série de forças, as chamadas democracias iliberais, que se podem juntar a Vladimir Putin a criar pressão nos sistemas democráticos europeus. E para além de se poderem juntar a Vladimir Putin ao criar pressão na democracia europeia, podem ainda, por mais, fazer cessar aquele que tem sido um apoio contínuo ou continuado dos países europeus da União Europeia à Ucrânia, tanto do ponto de vista financeiro como do ponto de vista armamentista. E a Europa, a verdade é que tem se mostrado dividida em muitas ocasiões. Portanto, perante este cenário, Vladimir Putin, e depois também de ao longo das últimas semanas haver uma série de escaramuças entre Donald Trump e Zelensky, que fazem com que neste momento Donald Trump esteja muito mais próximo do Kremlin do que Kiev, faz com que Vladimir Putin não tenha qualquer incentivo neste momento, e mesmo perante o inverno que se avizinha e que será penoso para os dois Estados, tanto para a Federação Russa como para a Ucrânia, mas não tem qualquer incentivo de terminar a guerra agora, porque já se percebeu que a mortalidade em massa, que é o que tem acontecido principalmente nas forças russas, não é uma preocupação ou uma prioridade de Vladimir Putin.
Então, só pra ver se entendo. Tendo em conta esta ótica que está a dar de que Putin acredita que ainda pode vencer a guerra, acha que estas novas reuniões trilaterais que estão a ser desenhadas em Abu Dhabi, não vai de lá sair alguma coisa?
Eu tenho muito receio que aquilo que possa sair eventualmente de Abu Dhabi, de uma negociação trilateral, que é sempre de valor, porque a verdade é que temos tido uma dificuldade enorme do ponto de vista da diplomacia, ter encontros entre os dois Estados, a Rússia e a Ucrânia, se bem que também não parece que os Estados Unidos sejam um mediador fiável. Por isso é que eu tenho muito receio que o que sairá de Abu Dhabi será muito parecido com aquele acordo que foi desenhado já há quase um ano entre Dmitriev e Witkoff. Ou seja, será um acordo que constará, primeiro que tudo, numa tentativa de afastar a Ucrânia de todas as organizações internacionais ocidentais e de tornar muito dúbia aquilo que seriam as garantias de segurança pós-guerra garantidas, passo o pleonasmo, à Ucrânia, e que essas garantias têm que ser oferecidas, obviamente, pelos europeus, mas também, claro, pelos Estados Unidos. E depois tem aqui ainda um pormenor mais perverso, que é vai voltar aquela ideia, quase certeza, nesta reunião trilateral, da zona livre que se começa a falar e a noticiar. Era algo que já não se falava há cerca de dois anos, talvez, e agora começa-se a falar novamente desta zona econômica livre em que russos e ucranianos vão viver de mãos dadas depois de um conflito tremendo como o que temos assistido e em que os Estados Unidos terão uma espécie de concessão ou terão algum domínio temporário sobre essa zona que se situará ali no Donbass Isso traz vários problemas. Primeiro, abre o precedente no direito internacional que é o agressor percebe mais uma vez, tal e qual como percebeu a Rússia também no caso da Ossétia do Sul e da Abecásia, na Geórgia, em situações muito semelhantes de uma fronteira do conflito, uma linha de conflito que não andava nem para um lado nem para o outro e acabou por ser congelada, beneficiando o agressor e que tem uma ocupação de facto, tanto da Ossétia como da Abecásia. A Rússia fez isso na Geórgia no início deste século, voltou a fazê-lo na Crimeia com sucesso e agora vai fazer outra vez provavelmente a mesma coisa, segundo aquilo que se prevê que possa sair das negociações de Abu Dhabi, tendo em conta a base do plano de Dmitriev e Witkoff. Isso abre esse precedente no direito internacional e para além de abrir o precedente no direito internacional, mais uma vez de beneficiar o agressor, traz também aqui consequências graves para a própria Ucrânia, porque fica muito mais difícil para a Ucrânia juntar-se à União Europeia se no meio do território ucraniano estiver uma zona económica livre com forte presença não só russa, mas também de Donald Trump e da administração de Trump e dos Estados Unidos. E claro que vão também tirar benefícios e dividendos daí, principalmente se for na zona do Donbass, vão tirar os dividendos relativos às terras raras. E por isso não se afigura, creio eu, nada de positivo para o lado ucraniano desta reunião em Abu Dhabi.
Eu queria agora fazer uma questão sobre o novo acordo. A União Europeia e o Canadá anunciaram hoje o lançamento da Aliança para o Futuro, esta junção da União Europeia e do Canadá. Sabemos que houve alguns dilemas relativamente à participação do Canadá dentro da União Europeia, como Ursula von der Leyen disse, que poderia ser um país que integraria a União Europeia, que foi mal visto pela comissão alemã. Portanto, essa parte foi um pouquinho mal vista, mas este acordo vai permitir que o Canadá participe no empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia. Portanto, temos aqui um país a adicionar uma ajuda à Europa em termos também de ajudar a Ucrânia nesse fardo financeiro. Também neste acordo há a parte económica de reduzir as barreiras comerciais mútuas, tentar também limitar consequências negativas e trabalhar em conjunto para diminuir as necessidades que existam a nível de cadeias, seja de matérias-primas ou mesmo a níveis energéticos. Isto é um acordo que as duas partes salientam ser muito importante a nível económico, mas isto também tendo em conta as recentes pressões tarifárias dos Estados Unidos, as taxas que andam a pôr. Este acordo pode, de certa forma, chatear Donald Trump, tendo em conta que os Estados Unidos são um grande fator para a Ucrânia e um grande apoiante da NATO. Isto pode chatear Donald Trump.
Chateia certamente, porque Donald Trump começa a perceber que até no seu próprio quintal, a União Europeia começa a ter algum tipo de ingerência. Não quer dizer que a União Europeia seja uma potência sequer próxima de ter a capacidade que os Estados Unidos têm. No entanto, é bom ver a União Europeia a ter agência no sistema internacional e a procurar novas parcerias. Aliás, esse é um dos pontos positivos da União Europeia do último ano. Procurou parcerias com o Mercosul e é verdade que não agradam a todos. Basta lembrar os protestos depois dos agricultores em França relativos àquilo que seria a importação de carne proveniente do Mercosul e que, segundo o que os agricultores diziam, não só lhes retirava a cota de mercado como também não cumpria os standards de higiene e segurança alimentar que a Europa impõe. Para além disso, tivemos também um acordo com a Índia, por isso mais um grande polo em desenvolvimento que é o subcontinente indiano e que faz parte até para a União Europeia poder escoar alguns dos seus produtos para novos mercados. Por isso, do ponto de vista económico, a União Europeia tem operado agora com novas parcerias fora da Europa, não só o Mercosul, também a Índia. Agora temos a questão do Canadá, se bem que me parece a mim que a questão do Canadá é mais até normativa e cultural do que outra coisa. Por quê? Porque olhando para esta nova parceria, eu diria que temos aqui uma dimensão bastante positiva e uma dimensão não tão positiva. A primeira dimensão, a dimensão mais positiva, é precisamente isso que estava a dizer, ou seja, a União Europeia finalmente a procurar proteger aquilo que são as democracias liberais e perceber que o mundo está a dividir entre democracias iliberais e democracias liberais. O Canadá há muitos anos que é, apesar de alguma tensão interna vinda das diferentes regiões, um polo reconhecido de defesa dessa democracia liberal. Mark Carney, aliás, tem um dos discursos mais brilhantes que eu me lembro de um líder político na última década, em que começa a falar da importância das médias potências no momento de transição do sistema internacional, em que se percebe que mesmo que os Estados Unidos continuem a ser uma potência ao longo do próximo século ou meio século, mesmo que a China se torne a grande potência do sistema internacional, nunca terão a força que a paz americana em tempos teve. E por isso é importante que a Europa, que o Canadá, que as democracias liberais e as democracias liberais que estão nas potências médias ou que operam nas potências médias, cheguem à frente para preservar os direitos do sistema internacional como o conhecemos, os direitos e as dinâmicas do sistema internacional como o conhecemos. Esta é a parte boa. A parte má é que ainda não sabemos bem o que é que queremos como modelo europeu Se alargamos ao Cáucaso, à Geórgia, à Arménia, não sabemos até que ponto queremos ingerir também e procurar essa associação com países que foram parte da União Soviética.
Para também chatear Putin, não é?
Exatamente, para não chatear Putin. E ao mesmo tempo estamos a criar uma espécie de novos corpos jurídicos que não sabemos bem como funcionam. E creio que por aí a Ursula von der Leyen precipitou-se um pouco, porque criou este estatuto na altura do discurso do Estado da União, criou este estatuto de membro associado, mas agora resta saber o que é realmente um membro associado. Faz sentido do ponto de vista da parceria, também para mostrar a Donald Trump que a Europa está cá para ficar e que tem outros meios para apoiar a Ucrânia, que não apenas o financiamento norte-americano, também devíamos ter o financiamento, neste caso também do norte da América, mas do vizinho Canadá. Mas, por outro lado, nós ainda não percebemos se esta Europa vai ser uma Europa de procurar a coesão dos países do centro da Europa, mais ricos, dos frugais, para dessa forma conseguir ter não só uma união monetária, mas também uma união política, uma união com regras migratórias muito semelhantes, uma união com regras fiscais também muito semelhantes, que é isso que também Bruxelas tem trabalhado ao longo dos últimos anos. E isto seria uma Europa muito mais reduzida, que em princípio, tudo correndo bem, ainda contaria com Portugal, acreditando que somos o país que está ali na média da União Europeia, apesar de termos vindo a cair muito ao longo dos últimos tempos. Mas não sabemos se esse é o caminho ou se queremos fazer o caminho inverso, que parece que é este o caminho que a Ursula von der Leyen está a traçar quando fala do estatuto de membro associado, que é criar uma Europa a duas ou três velocidades diferentes, em que há uma Europa central, que era esta que eu estava a explicar agora, que tem realmente o poderio económico e também político, e depois uma espécie de segundo estatuto de equipa B da União Europeia, que tem uma série de membros associados, não só fora da Europa, como é o caso do Canadá, como também estes novos países que querem entrar, ou estes novos Estados que muitas vezes estão à procura de entrar na União Europeia há décadas, incluindo a própria Turquia, os países do Cáucaso, como disse, que têm uma discussão permanente sobre se podem entrar ou não na União Europeia e que têm visto essa possibilidade sempre vetada pelos interesses europeus, porque ora têm denúncias de corrupção e uma corrupção endémica, como se vê no caso ucraniano, ou então por problemas de mercado, porque relembro também que qualquer entrada de um destes países, seja como membro associado ou como membro efetivo, vai retirar uma cota de mercado a algum setor da economia europeia. Foi o que aconteceu, por exemplo, no setor agrícola português, quando a República Checa, hoje Chéquia, entrou e acabou por estragar uma série de planos que os jovens agricultores portugueses tinham do ponto de vista infraestrutural para retirar a chamada beterraba sacarina, portanto, o açúcar da beterraba. E isso é algo que vai acontecendo paulatinamente com a criação destes membros associados. Agora é interessante perceber que temos uma Europa realmente a duas ou três velocidades diferentes e que para além de ser uma Europa a duas ou três velocidades diferentes, estamos a trazer outros continentes para essa Europa. Que por um lado é bom, porque é mais mão de obra, é mais capacidade financeira, mais capacidade produtiva, por outro lado é mau, que é mais dificuldade em estabelecer a coesão social, que é aquilo com que a Europa realmente tem gladiado principalmente ao longo do pós-Covid.
Queria agora tocar na guerra do Médio Oriente, muito rapidamente. De acordo com o Jerusalem Post, J.D. Vance ofereceu reunir-se com um ex-comandante das forças iranianas, da Guarda Revolucionária Iraniana, Mohsen Rezaee, para se encontrar com este antigo líder da Guarda Revolucionária Iraniana. A Casa Branca acha que seria por aí que as negociações com o Irão poderiam tomar um melhor caminho, tendo em conta que Mohsen Rezaee é um líder ainda conservador relativamente a esta guerra no Irão, tem pré-condições para a paz, não quer concessões nucleares, também já fez várias vezes ameaças de que esta guerra vai ser total. Portanto, temos alguém que não parece alinhar-se bem com os moldes da Casa Branca. No entanto, J.D. Vance ofereceu, de acordo com o Jerusalem Post e também com o Washington Post, enviou uma carta a querer negociar com Rezaee. Perguntar-lhe se acha que esta negociação e este molde proposto por Vance para negociar diretamente com Mohsen Rezaee e diretamente com alguém que esteve ligado e que está ligado com a Guarda Revolucionária Iraniana, se seria o caminho a tomar por parte dos Estados Unidos, tendo em conta que Rezaee não tem bem a visão que os Estados Unidos têm e que é alguém ainda bastante conservador relativamente a esta guerra.
Sendo muito sucinto em relação a isso. O Irão tem uma série de expectativas em relação a este conflito ou ao fim deste conflito, que passam pela manutenção do seu programa nuclear e a capacidade de continuar a enriquecer urânio, bem como a permanência dos mísseis balísticos em território iraniano. Tem também a ideia não só teocrática, mas muito pouco flexível daquilo que é o regime iraniano e do que deve ser o regime iraniano, e não se vão mexer nem um centímetro daquilo que eram antes, e é um regime bastante repressivo, como sabemos. O Estreito de Ormuz, perceberam que Se não desbloquearem o Estreito de Hormuz, têm sempre os Estados Unidos na mão. E uns Estados Unidos que até fazem bastantes concessões, porque o último plano para a paz que saiu e que foi elaborado pelos Estados Unidos dava quase tudo aos iranianos, incluindo até os ativos que estão bloqueados, não só nos Estados Unidos, também no Qatar, também na Europa, por exemplo, no Luxemburgo. Se tudo isto for oferecido, certamente que os iranianos aceitarão de bom grado. Não parece que Donald Trump queira oferecer tudo isto. E é aqui que está o chamado plot twist, é aqui que o guião muda. Por quê? Porque isto é uma jogada, parece-me a mim, e claro que nunca é fácil dizer, porque Donald Trump é muito volátil, mas parece-me a mim uma jogada bastante inteligente por parte de Donald Trump. Por quê? Donald Trump tem, ao longo principalmente dos últimos dois, três meses, danificado ao máximo a imagem de J.D. Vance. O objetivo é garantir que J.D. Vance não será o sucessor, humilha-o quase em público, dá-lhe as missões mais difíceis e esta missão não é uma das mais difíceis, esta missão é impossível. Por isso, a partir do momento que este encontro entre J.D. Vance e os representantes da guarda revolucionária iraniana cair por terra, que é o que vai acontecer, porque é o que tem acontecido também até agora e não se prevê que seja nada de diferente, Donald Trump vai culpar a incompetência de J.D. Vance e J.D. Vance vai novamente ser humilhado em praça pública, como tem sido nos últimos tempos. E por isso, ficará exatamente na mesma o conflito, exatamente na mesma o preço dos combustíveis e o bloqueio do Estreito de Hormuz, mas J.D. Vance vai colocar-se aqui na boca do lobo, e é difícil não sair com a sua imagem magoada.
E por falar em humilhações, falava da humilhação de J.D. Vance, passo para Pete Hegseth, o secretário da Defesa dos Estados Unidos, está sob fogo depois de várias polémicas dentro do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Agora teve um dos generais a ser despedido do Pentágono. Também tinha tido o Dan Driscoll há pouco tempo, há uns meses, Dan Driscoll também saiu do Pentágono com divergências sobre esta guerra no Irão. Há várias divergências sobre esta guerra no Irão, especificamente com a atuação de Pete Hegseth. Também tem outro caso de divergências mesmo bipartidárias relativamente à pena de morte que quer aplicar a um terrorista, de fazer um fuzilamento em público, em direto. Donald Trump já disse que não vai permitir esse fuzilamento em direto, mas Hegseth assim o queria e gerou muita contestação. Agora há quase um consenso bipartidário, segundo a Bloomberg, para retirar Hegseth do cargo depois das intercalares. Eu pergunto-lhe, e falávamos de humilhação, se a gestão de Hegseth no Departamento de Defesa tem sido assim tão danosa.
Qualquer possível extração ou retirada de Pete Hegseth por parte dos dois partidos só peca por uma coisa, só peca por tardia, porque Pete Hegseth tem tido, de facto, uma gestão não é danosa, é muito danosa e que corre aqui o risco de ser um dos grandes arautos do fim da hegemonia norte-americana, muito por ter colocado os Estados Unidos, claro que com a conivência de Donald Trump, num conflito que é interminável, porque o Irão tem esta doutrina anti-imperialista desde sempre, e principalmente desde 1979, desde a revolução islâmica.
Podemos aplicar este descontentamento dos americanos, tudo o que está a passar relativamente a essas intercalares, se Donald Trump perder essas intercalares para os democratas, podemos aplicar esta derrota e a culpa a Pete Hegseth, porque Pete Hegseth não deixou de ser um dos maiores apoiantes desta guerra do Irão e supostamente, de acordo com os jornais norte-americanos, juntamente com Netanyahu, um dos que convenceu Donald Trump a atacar o Irão.
É um dos culpados. Claro que o maior culpado é sempre Donald Trump, porque isto não é apenas uma questão de política externa, também é uma questão de política interna e cada vez mais até no sul profundo as pessoas se estão a revoltar contra Donald Trump, porque a cada quarteirão aparece um data center que retira água, causa ruído e tudo isto são problemas que acabam por se acumular e que vêm, claro, de um longo historial de Donald Trump, da luta contra os imigrantes ilegais, que foi claramente extremado ao máximo e que acabou também por danificar a imagem de Donald Trump, por um ICE muito musculado, em que muita gente já não se revê naquela postura do ICE. Por isso, há toda aqui uma série de fatores, além dos milhões que tem recebido em processos e que a sua família tem conseguido amealhar quando o povo sente que não só devido à guerra tarifária, mas também devido a este conflito no Irão, cada vez mais não só faltam produtos nos supermercados, como os preços são cada vez maiores. Ora bem, perante isto, perante um cenário em que Donald Trump é o maior culpado, mas um cenário em que Pete Hegseth não deixa de ter culpa, e basta só olharmos para o que Pete Hegseth tentou fazer. Pete Hegseth quando faz aquele discurso relativo à cruzada norte-americana ou cristã, o que Pete Hegseth estava a fazer era precisamente a lançar uma candidatura à presidência, agora se calhar lançou cedo demais, mas lançar uma candidatura à presidência com base nesses valores cristãos. E com isso tudo, veio um pacote de medidas que Pete Hegseth foi extremando e que incluem, como o Martin já tinha dito, o afastamento do Driscoll, o afastamento do Brett Silvia durante o dia de hoje, que é alguém muito bem connotado no aparelho militar e no aparelho do intelligence norte-americano e muitos generais já se viraram contra o próprio Pete Hegseth devido a esta demissão, que fala de testes à testosterona dos recrutas e que fala de execuções em praça pública com direito a streaming. Tudo isto são traços ditatoriais. Por isso Trump é o maior culpado, sem dúvida que é, mas Pete Hegseth muitas vezes parece que está a querer quase jogar um jogo da PlayStation com o conflito no Médio Oriente, por isso é muito incauto na forma como lida com o Irão, como também, mesmo para dentro das Forças Armadas, não sei se terá capacidade para continuar até ao fim do mandato durante mais dois anos.
É quase um showman, já como era também na Fox News. Chegamos ao final do nosso tempo. Contámos com a análise do especialista em Relações Internacionais, Bernardo Valente. Agradeço-lhe imenso por esta participação no Gabinete de Guerra.
Obrigado, Martin. Boa noite.
O Gabinete de Guerra está disponível em podcast.