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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Vamos falar de conflitos em curso. Miguel Cordeiro, vou estar à conversa com Daniel Nunes, especialista em relações internacionais, e vamos começar pelo Médio Oriente. Vamos começar com o que diz o Irã hoje: diz que não procura escalada regional no conflito, diz que sim, que quer punir Israel. Daniel, o que podemos esperar da retaliação iraniana? Quando é que pode acontecer? Sendo que temos já algumas declarações, como por exemplo, do secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, a dizer que pode ser já hoje.
Olá, Miguel, boa tarde. Boa tarde a todos. A verdade é que o Irão tem estado algo silencioso, sem permitir fazer grandes previsões acerca do que vai acontecer e da magnitude do que pode estar, como diz o secretário de Estado Blinken, a meras horas de acontecer. Eu julgo que sob o ponto de vista das expectativas, Israel estará à espera do pior, como de resto estamos todos nós, e sobretudo porque esta resposta iraniana, parece-me a mim, não será uma ação isolada, não será um exercício isolado do Irão, mas uma ação concertada entre o Irão e os seus grupos proxies, designadamente o Hezbollah, com quem os iranianos têm laços estreitos de terrorismo. Recordo também que no passado dia 14 de abril, quando tivemos uma escalada especial de tensão entre o Irão e Israel, já assistimos a uma resposta feroz dentro da esfera da importância do que tinha acontecido, mas uma resposta feroz por parte do Irão relativamente ao ataque israelita e portanto, se essa resposta já tinha sido dura, ela foi certamente muito inferior àquilo que poderá estar para acontecer nas próximas horas. Agora, este silêncio que eu também mencionava, da parte do Irão, isto fomenta a nossa ansiedade, não é? Sobretudo, fomentará certamente a ansiedade dos israelitas. Isso, aliás, é alvo de alguma análise mais profunda num artigo especialmente bom do "Telegraph", onde alguns diplomatas entrevistados, diplomatas de várias partes do mundo, confessam estar um bocadinho aborrecidos e cansados acerca deste silêncio, que não permite fazer grandes previsões acerca de como é que Israel se pode defender e o que é que pode esperar. Sabemos perfeitamente que o ataque vai acontecer e vai acontecer numa zona muito provavelmente nevrálgica, quer do ponto de vista político, quer também do ponto de vista humanitário para Israel. Resta saber se este ataque incidirá sobre território israelita propriamente dito, cidades como Tel Aviv e Haifa, que são alvos mais ou menos flagrantes, mas o ataque direto também pode querer dizer ou pode incidir ou dirigir-se a outros alvos, como por exemplo, embaixadas israelitas, sinagogas espalhadas pelo mundo inteiro e portanto, é também nesse sentido que os embaixadores de todo o mundo se sentem preocupados e que revelam o seu receio, porque no fundo, estamos todos aqui na iminência de que alguma coisa aconteça perto de nós, não é? E em Portugal, inclusivamente, não estamos completamente livres disso. Para já, estamos a trabalhar obviamente na esfera da especulação, mas certamente o Irão vai responder com bastante mais dureza do que aquilo que já fez há uns meses e obviamente Israel quererá, depois dessa resposta, responder e portanto retaliar e nesse sentido, acho que a regionalização deste conflito é qualquer coisa que já não podemos negar, é qualquer coisa de muito real e efetiva, para não falar na possibilidade de os Estados Unidos sentirem a necessidade de intervir, depois desta resposta iraniana e de uma eventual resposta a essa resposta por parte de Israel. Vamos ver se isto tudo não culmina mesmo na internacionalização, portanto, na globalização deste conflito.
Sabendo que esse ataque de parte do Irão vai acontecer, quando ao certo ainda não sabemos, mas temos essa garantia, pelo menos por parte dos responsáveis do Irão. Israel, certo é que continua a atacar a liderança do Hamas e terão sido esses ataques durante as últimas semanas que aconteceram em Teerão a motivar também essa resposta por parte do Irão. Mas ainda hoje temos a notícia de que o exército israelita confirma a morte do ministro da Economia do Hamas. Israel continua a avançar com ataques, continua com a ofensiva no terreno e continua também com estes ataques cirúrgicos à liderança do Hamas.
Sim, claro. E vamos lá ver, se há uma coisa que Israel tem mantido ao longo destes 10 meses é a coerência e a consistência associadas aos seus desígnios originais, desde 7 de outubro, que passam em grande medida pelo desmoronamento desta estrutura hierárquica do Hamas. E em parte é isso que temos visto acontecer, e em particular nos últimos dias e com essa notícia que acabas de mencionar, Miguel, com algum sucesso, diga-se de passagem. É claro que este comportamento e que esta postura, desde logo por aquilo que vemos e ouvimos da parte do executivo israelita, não vão cessar, pelo menos até que este governo, por via de algum Um golpe de Estado ou algum golpe civil possa miraculosamente sair de cena, que eu acredito que isso não vai acontecer. Agora, é claro que o preço desta cegueira israelita e desta busca incessante pela concretização destes objetivos tem feito e faz, obviamente, aumentar a tensão, não só naquela pequena circunscrição da Faixa de Gaza, como também, e sobretudo de há umas semanas a esta parte, com o Hezbollah, portanto, na zona norte de Israel, onde entretanto também há muitos exercícios de ação e reação, e que confirmam, a meu ver, uma guerra dual, uma guerra aberta a duas frentes e uma guerra que obriga Israel precisamente à fragmentação dos seus esforços no terreno, com tudo o que isso implica ou que pode implicar do ponto de vista da eficácia das suas operações, que até ver não está a ser colocado em causa. Agora, também se calhar seria de frisar, este executivo israelita e em particular a figura de Netanyahu, parece-me a mim, são os agentes menos preocupados com a disseminação do ódio e com a disseminação do sentimento antissemita, que agora mais do que nunca estes dois grupos, porque pra mim a guerra já está a ser travada com dois grupos terroristas, que estes dois grupos terroristas nutrem acerca da ação e da ocupação israelita durante décadas naquelas terras, com a agravante obviamente que acerca do patrocínio intelectual e logístico, militar do Irão sobre estes grupos. Não nos podemos esquecer que o que estes grupos estão a fazer não é defender, ou pelo menos não é defender justamente a causa palestiniana, que é, de resto, uma causa perfeitamente legítima. O que eles estão a fazer é terrorismo e, em última análise, é isso que também, de algum modo, ajuda que o enterro de Netanyahu e o enterro deste governo ainda não tenha sido absoluto, porque no fundo a ameaça terrorista é uma ameaça comum e global, e nesse aspecto ninguém acha que Israel está a lutar uma luta de igual para igual, porque obviamente os terroristas não têm nada a perder e porque a violência do terrorismo é qualquer coisa de muito banal e gratuita para estes grupos. Temos vindo a comentar isto muito aqui, ao nível da desproporcionalidade da atuação, quer em Gaza, quer agora também com o envolvimento provavelmente desnecessário do Irão. Fala-se aqui em um sentido de oportunidade, mas talvez isto pudesse ter sido evitado precisamente para que o Irão não fosse agora um novo agente, que de certeza absoluta a partir da resposta que todos esperamos, da retaliação que todos esperamos, vai ser um agente novo, um ator novo envolvido neste conflito e dificilmente vamos conseguir afastá-lo da nossa narrativa analítica e dos nossos debates a partir de agora.
Claro, estamos a falar do conflito no Médio Oriente, mas falemos também da Rússia, que como sabemos está envolvida no conflito na Ucrânia, mas principalmente a nível diplomático, participa também neste conflito no Médio Oriente e hoje Sergei Shoigu, ex-ministro da Defesa russo, atual presidente do Conselho de Segurança da Rússia, chegou a Teerão. Isto foi relatado pela Agência Interfax e é dito que vai reunir com vários líderes e vai discutir temas de segurança regional e internacional. Que papel tem a Rússia neste conflito e que impacto pode ter a influência russa junto destes países?
Eu acho que a Rússia observa atentamente todas as oportunidades à volta do globo para enfraquecer moral ou territorialmente uma construção de décadas que tem vindo a ser liderada pelos Estados Unidos, que é a ordem mundial vigente, aquela em que vivemos hoje e que está a ser altamente ameaçada por um conjunto de potências revisionistas, autocráticas, com pretensões de regressar a uma lógica antiga, uma lógica anterior ao pioneirismo norte-americano na exportação deste modelo liberal e democrático no mundo. O cenário no Médio Oriente não escapa a este exercício estratégico da Rússia, que obviamente percebe como a guerra em Gaza e como a guerra no Médio Oriente, desconcentra o mundo da guerra na Ucrânia e permite à Rússia avançar paulatinamente e com maior tranquilidade, como de resto as tropas russas têm conseguido nos últimos tempos, e isso é em Gaza, por mais otimistas que queiramos ser. Não estando aqui a querer desviar muito a agulha, mas o mesmo se passa na Venezuela. Quem é que são os Estados que apoiam a alegada reeleição de Nicolás Maduro? São aqueles cuja leitura das relações internacionais não privilegia uma ordem mundial baseada nas regras e no sistema onusiano, que obviamente não tolera o que se está a passar na Venezuela, a saber, um processo eleitoral opaco e altamente duvidoso. Esses Estados são claramente a Rússia, mas também a China e Cuba, por exemplo, países que não têm nada a perder com o reconhecimento de mais um governo autocrático ou então que conseguem ver nesse reconhecimento um mecanismo de esvaziamento da moral ocidental ligado aos valores da liberdade e da democracia. Para responder concretamente à pergunta, que influência é que a Rússia pode ter neste cenário do Médio Oriente? A meu ver, pode ser um agente instigador de uma resposta musculada por parte do seu aliado iraniano, logo em primeiro lugar, e depois pode ser um agente igualmente instigador no respeitante à manutenção desta tensão, que é, como eu dizia, uma colaboração quase involuntária de um conjunto de outras vesílias geopolíticas que servem na perfeição os propósitos do putinismo noutras zonas do planisfério. Só para terminar, nada disto significa, mesmo tendo eu esta opinião, que a Rússia apareça amanhã ou depois publicamente com uma postura deste tipo, com uma postura diretamente e publicamente Enfim, hostil relativamente a esta ordem mundial que eu citava. Aliás, neste contexto e noutros contextos, como por exemplo o das eleições norte-americanas e com a corrida entre democratas e republicanos, que também temos vindo a debater muito, nós já vimos que o Kremlin adota um discurso, ou pelo menos finge que adota um discurso, de uma certa neutralidade e até de alguma teatralidade que pode disfarçar as suas verdadeiras intenções, porque na verdade, para a Rússia, e aqui refiro-me especificamente ao conflito no Médio Oriente, não é preciso fazer grandes declarações de apoio a uma das partes beligerantes, nem também é preciso fazer grandes declarações de hostilidade relativamente à outra parte beligerante. Sabemos que a Rússia, neste contexto, pode colher os seus dividendos na qualidade de atriz diplomática que aparece em momentos-chave, como por exemplo é o deste encontro desta viagem de Shoigu, pode aparecer elegantemente para dizer umas palavras bonitas e quiçá até umas palavras de acalmia, quando na realidade a sua aliança com uma destas faces beligerantes, que é obviamente a face terrorista, é bem conhecida de todos nós. Portanto, o que Shoigu vem fazer a Teerão é um exercício conhecido de todos nós e é obviamente alimentar, por via de alguns corredores que possivelmente nunca vamos poder ver nem ouvir o que é que se lá passa, que visam estreitar estes laços e que, como eu digo, não vamos necessariamente assistir, ou pelo menos publicamente, ao estreitamento desses laços. Vamos sim, e muito provavelmente, ver uma Rússia fazer o seu papel de diplomata, como de resto também faz a China e fazem outros Estados que têm outras intenções por detrás destes teatros.
Daniela Nunes, especialista em Relações Internacionais, muito obrigado por mais esta participação no "Gabinete de Guerra". Por hoje não há tempo para mais. O "Gabinete de Guerra" está de regresso amanhã.