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Um drone caiu a poucos metros da Embaixada Portuguesa na capital da Ucrânia, um dos assuntos em destaque neste gabinete de guerra com Azeredo Lopes. Muito boa tarde.

Boa tarde.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros português fala de um drone que caiu a cerca de 300 metros, provocou uma explosão, danos em edifícios junto a esse local, mas que o corpo diplomático está todo bem, em segurança. Como é que vê esta situação? O Ministério dos Negócios Estrangeiros português fala em mais um caso que demonstra a brutalidade deste conflito.

O conflito é brutal e acho que isso é indiscutível. Não vale a pena sequer estar agora a acrescentar muito a isso. É um conflito que ainda por cima está francamente mais aberto, mais violento do que nos últimos meses, considerando a campanha da Ucrânia na profundidade da Rússia e considerando agora também aquilo que a Rússia diz ser uma resposta à campanha da Ucrânia. Portanto, neste momento há um alargamento muito claro das ações ofensivas e dos alvos que são escolhidos por cada uma das partes. E aquilo que já tinha acontecido no passado com um projétil, que caiu perto da Embaixada Portuguesa, que partiu os vidros e causou, felizmente, danos pouco significativos, voltou a acontecer. E portanto, acho que aqui o Ministério dos Negócios Estrangeiros não acusa a Rússia deliberadamente de estar a escolher como alvo instalações diplomáticas, que como é sabido, goziam de imunidade completa, mesmo em tempo de guerra, mas está a chamar a atenção para a circunstância de que estas situações vão se multiplicar. Vão se multiplicar porque com bombardeamentos em meio urbano, na capital, isto infelizmente vai começar a aumentar, quer de grau e espera-se não, felizmente, com vítimas mortais.

Falemos do conflito no Irão, mais da situação econômica na região do Estreito de Ormuz. Houve consultações importantes nos últimos dias e noticia-se um acordo entre Omã e o Irão para Ormuz, para o Estreito de Ormuz e a criação de um corredor na região. Qual a importância deste acordo também para ajudar a estabilizar o comércio na região?

É uma excelente questão, e é uma questão que eu não tenho grande facilidade em responder, considerando a circunstância de que, manifestamente, os Estados Unidos, neste momento, não aceitam qualquer tipo de negociação que não passe pela sujeição iraniana. A intenção deste acordo é óbvia. O que o Irão pretende transmitir como mensagem é que está disposto a reabrir negociações, que está disposto, sobretudo, a que se alcance o resultado que muitos Estados anseiam, que é a abertura definitiva e completa do Estreito de Ormuz. Mas para isso, o Irão também lança a mensagem, não quer que isso seja apenas um ato unilateral dele e quer que seja algo que tenha uma resposta mais ou menos simétrica do ponto de vista dos Estados Unidos. E estou a falar de quê? Estou a falar do bloqueio da costa iraniana por parte da Marinha norte-americana. Estou a falar das sanções econômicas, de que aliás, foi agora anunciado mais um pacote bastante impressionante, embora pouco efetivo, parece-me. E sobretudo, o Irão quer dizer que está disposto a administrar com Omã o estreito e a colocar assim em algumas dificuldades políticas os Estados Unidos perante aqueles Estados que o que querem realmente é que este pesadelo, como se sabe, há seis meses acabe e que possam retomar a própria atividade econômica. Permitam-me recordar, aliás, que o custo econômico não é só na região, o custo econômico é para o mundo inteiro. E não é com certeza coincidência a circunstância da União Europeia ter, pela primeira vez, um saldo negativo do ponto de vista das exportações para fora deste espaço da União Europeia. E isto acontece pela primeira vez desde 2023. É claro que há aqui também consequências da guerra e da coerção econômica exercida pelos Estados Unidos, nomeadamente aquilo que tem sido resumido ao conceito das tarifas, mas é também evidente que a perturbação grave do comércio mundial, o aumento da inflação devido ao aumento do custo de vida, devido ao aumento do preço dos combustíveis, tudo isso está com certeza associado. No fim do dia, temos a questão, que é sempre a questão mais aborrecida, que é o seguinte: a 27 de fevereiro, o malfadado estreito estava aberto, o Irão não reivindicava jurisdição soberana sobre aquele estreito e hoje em dia estamos a discutir se sim e quando aquela via de comunicação tão importante pode ser reaberta, independentemente de que, é preciso reconhecê-lo, os Estados da região, particularmente a Arábia Saudita, já estão à procura de vias alternativas tanto ao Estreito de Ormuz como, imagine-se, do próprio Mar Vermelho. Soubemos agora há dois dias que a Arábia Saudita está a procurar escoar o seu crude através do Canal de Suez.

Sim. Vamos falar do diretor da CIA, que fez uma viagem a Moscovo. Primeiro, este fator estranho. Nem o próprio diretor da CIA consegue fazer uma viagem em secretismo a Moscovo. A notícia acabou por sair e há vários pontos de interrogação sobre esta visita. O mais recente indica que a viagem estará relacionada com avisos dos Estados Unidos à Rússia para não escalar o conflito em território europeu para países bálticos e para zonas em que há envolvimento da NATO, mas Casa Branca e Kremlin já desmentiram essa situação. São muitos pontos de interrogação que surgem depois desta visita do diretor da CIA a Moscovo

São. Eu, por acaso, tenho uma opinião um pouco própria. Eu acho que o diretor da CIA, os Estados Unidos, queriam mesmo que se soubesse que o responsável máximo dos serviços de inteligência norte-americanos estava a ir a Moscou, porque senão não tinham escolhido aquele mastodonte voador que, como se viu, era tão gigantesco que era difícil não acompanhar o seu percurso, até pela lentidão com que ele efetuou a viagem de Riga para Moscou. O que os Estados Unidos quiseram deixar foi a ambiguidade quanto àquilo que ele foi fazer a Moscou. A Guerra Fria é, aliás, exemplo frequente disso. É normal que ao mais alto nível, Estados Unidos e agora Rússia, na altura a União Soviética, falassem através dos seus respectivos chefes das agências de inteligência ou informação. Isso não é nada de muito revolucionário, embora, no seguimento da sua pergunta, seja importante assinalar que há cinco anos que isso não acontecia. Portanto, isso é praticamente há cinco anos que isso não acontecia. Isso sim, é notícia importante. E depois também é plausível aquilo que consta. Ou seja, eu sempre defendi que não era propriamente o diretor da CIA que com uma hora, duas ou três horas, ia resolver a guerra da Ucrânia. Parece-me que isso pura e simplesmente não faz sentido, até fáctico que isso possa ter acontecido, mas faz todo o sentido que o diretor da CIA tenha ido a Moscou para dizer: "Nós sabemos que você sabe que nós sabemos que você sabe que está a recrudescer o conjunto de atividades ditas de guerra híbrida em países da NATO". Recordo que é a segunda vez que engenhos explosivos são descobertos em aeroportos da Alemanha. A frequência dessas atuações de drones que se perdem, que não se perdem, está a aumentar de forma muito preocupante e a própria lógica discursiva de Moscou está a ficar cada vez mais agressiva, com ameaças cada vez mais diretas, principalmente para os grandes europeus, para a França, para o Reino Unido. E depois, naturalmente, nós temos sempre o cenário de pesadelo, que é a da famosa hipótese de uma intervenção localizada em um país da NATO. Recordo, aliás, foram os serviços de informação americanos que advertiram que podia estar a ser preparada alguma coisa deste tipo para o último trimestre do ano. Estamos a chegar ao último trimestre do ano. Faz todo o sentido, não só a sua pergunta, como a interpretação daquilo que o diretor da CIA pode lá ter ido fazer. Sim, faça lá as coisas na guerra, nós não nos estamos a meter, mas não faça, com certeza, uma escalada que seria muito grave e que saberíamos como é que começava, mas ninguém saberia como é que podia acabar.

Azeredo Lopes, muito obrigado pela sua participação neste "Diário de Guerra". Obrigado, boa tarde.

A você agradeço. Boa tarde.