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Rádio Observador, Gabinete de Guerra. Vamos falar dos conflitos em curso. Eu sou o Miguel Cordeiro e comigo está Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Muito boa tarde. Bem-vindo à Rádio Observador. Vamos, neste período de tantos conflitos, falar hoje de uma relação comercial que pode ajudar a evitar futuros conflitos, até porque é uma relação que tem também incluído uma parceria de segurança. A União Europeia assinou um acordo com a Índia, um acordo que estava a ser negociado há 18 anos. Já hoje Ursula von der Leyen elogiou bastante este acordo. Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros português, também. Trata-se de um mercado sem barreiras para 2000 milhões de consumidores entre Europa e Índia. Vai funcionar sem taxas alfandegárias, à semelhança de um mercado único. Que análise podemos fazer deste acordo e que importância tem, Jorge Rodrigues?
Boa tarde, Miguel. Em primeiro lugar, é que o mundo mudou. A ordem internacional definitivamente está diferente. Esta é sempre uma tendência que temos em exagerar um pouco o momento, mas parece-me que assumidamente e ao longo deste período, de uma forma paulatina, tem havido alterações que já são substanciais, em que para a Europa assumir os Estados Unidos como amigo, começa a ser um pouco complexo, principalmente identificando o movimento MAGA com continuidade e não apenas dependente do Trump. Portanto, há aqui uma definição de um espaço temporal que permite levar a considerar que Washington, neste momento, defende mais os seus interesses do que propriamente as relações de proximidade. Portanto, a Europa está a reagir, como já reagiu com o Mercosul, no acordo com o Mercosul, está a exercer as suas melhores capacidades, que é a área econômica, dentro de uma autonomia estratégica, que eu diria até que utiliza a multilateralidade como contraponto à ação unipolar dos Estados Unidos, e que verdadeiramente, em alguns momentos, identificamos já os interesses comuns da União a ultrapassar um pouco algumas visões mais redutoras. Portanto, apesar de não ser federal, a Europa precisa mesmo de uma política externa comum. Neste caso concreto e as várias dimensões do acordo, foram 20 capítulos já assinados, estamos a falar 99% dos bens exportados pela União Europeia e 96% por parte da Índia, portanto, já é de uma dimensão extraordinária, acrescento a esses números que já foram apontados na pergunta. A verdade é que com isto a Europa abre caminhos não só dentro do comércio e da política externa econômica, mas também dentro da segurança nas suas várias dimensões. Essas bases que foram lançadas numa parceria de segurança permite, de alguma forma, identificar aqui uma via aberta para uma visão completamente diferente daquela que tínhamos na arquitetura de segurança euro-atlântica e, portanto, uma visão que permite identificar o futuro de uma forma mais favorável para a União Europeia, não dependente e não pondo os ovos todos no mesmo cesto. Até este propósito acabaria por juntar um pouco também a questão com outro ator da Ásia-Pacífico, competidor da Índia, que é a China, com as várias visitas que estão a ser desenvolvidas neste momento, da Finlândia, do Reino Unido, que a CES está agora a chegar, de Merkel que irá na segunda-feira. Há aqui uma procura de diversificar, de facto, parceiros comerciais, áreas de contacto e também a nível de relações externas políticas. A China, nessa perspectiva, até está a assistir de cadeira. Há cinco anos nós falávamos de um decoupling do relacionamento comercial com a China e agora neste momento estamos a identificá-lo também como parceiro. Em boa verdade, está a retirar ganhos sem grande esforço e naturalmente que o relacionamento da União Europeia com estes dois atores demonstra uma visão estratégica que vamos agora perceber se é para manter ou se, como sempre, vai acabar por se perder em assuntos menores, mal sinta que a pressão não está a ser exercida de forma tão intensa. Seja como for, é relevante, é uma ação importantíssima, vem de acordo com o que o relatório Draghi já tinha identificado há dois anos e, de alguma forma, é a concretização de algumas ações de autonomia estratégica que eram essenciais para o desenvolvimento de uma nova Europa independente, como lhe chamou von der Leyen.
Vamos falar aqui do conflito na Ucrânia, até porque aconteceu esse encontro a três em Abu Dhabi entre Ucrânia, Rússia e o mediador Estados Unidos da América. Discute-se o processo de paz. Gostaria de perceber se acha que este processo está a seguir, de facto, um bom caminho. Parece que estamos agora mais perto de um cessar-fogo do que já estivemos, já teremos passado a pior fase. É possível apontar para uma resolução a curto prazo? E pergunto isto até porque já hoje Zelensky falava numa possível adesão à União Europeia já em 2027, ou seja, no próximo ano.
Poderá ser um wishful thinking de Zelensky. De qualquer maneira, uma coisa é clara e respondendo diretamente à pergunta, há uma evolução. Os três sentados à mesma mesa, as três partes sentadas à mesma mesa, é muito relevante, é um passo extraordinário e isso não pode ser colocado em segundo plano Mas há demasiados assuntos ainda em aberto, na minha perspectiva. E de uma forma reduzida, porque não vale a pena abrangê-los todos neste comentário, mas a questão do território, a segurança, a soberania, ainda estão com dados que me parecem em aberto. Falava-se nos 10%, a LSD há renovado a ideia dos 10%. Dez por cento é quase tudo que estaria em discussão. Os 90% são os pontos facilmente acordáveis. Temos a questão do território não ocupado pela Rússia, se poderá ser ou não cedido pela Ucrânia. Temos a forma como pode ser cedida uma ocupação reconhecida internacionalmente, o que abriria um precedente extraordinário dentro da sociedade política internacional. E depois as questões de segurança muito ligadas à soberania, mas a segurança nas suas várias dimensões. Repare que nas capacidades, por exemplo, de um exército ucraniano ou de uma indústria de defesa, a manutenção, os números, os meios, o tipo de equipamentos que lhes vai ser permitido utilizar poderá servir de dissuasão para as tropas russas para uma nova ação no futuro. Por outro lado, há a questão óbvia do apoio militar que os Estados Unidos venham a assumir, o chamado artigo quinto ou não, algo parecido, ou mesmo da União Europeia, que é essencial, visto que estamos aqui a falar da arquitetura de segurança europeia. E por fim, o ponto que foi levantado, a questão da adesão à União Europeia em 2027. Parece-nos ousado, porque é uma posição muito direta de pelo menos um país, a Hungria, mas também há algumas reticências fortes da Eslováquia e da República Checa. A União Europeia foi essencial para conseguir manter a jogo a Ucrânia e não tenha havido uma capitulação anterior, mas agora neste momento, é também essencial para a criação das condições de segurança econômica que permita o desenvolvimento para um nation building da Ucrânia, essencial para as próximas décadas. Seria realmente muito importante. Penso que, no entanto, 2027 é completamente inadequado, não há as condições para desenvolver este processo. Poderá ser desenvolvida uma ação de pré-adesão, que permita ir mantendo algum tipo de apoios e aproximação das referências europeias. No entanto, e a este propósito, eu queria só fazer dois comentários muito rápidos. Um, que ainda não há estabilidade estratégica no terreno, portanto eu ainda acredito que a Rússia, neste momento, continua a tentar trocar tempo por algumas concessões e que vai procurando maiores ganhos no terreno, uma pressão para uma melhor posição negocial, seja no campo de batalha, seja nas infraestruturas, ainda tem a iniciativa, ainda acredita que pode ir mais longe, portanto ainda não está preparada para uma paz imediata. E por outro, o amigo americano que exerce uma pressão sobre a Ucrânia para aceitar o acordo antes das garantias de segurança. Isso quase configura a obrigação de uma capitulação, porque a pressão é desigual sobre a Ucrânia em relação à Rússia, visto que os Estados Unidos só identificam a Rússia como adversário em território nacional dos Estados Unidos, mas não na Europa. E portanto, exerce uma pressão que me parece demasiado simbólica no sentido de favorecer a posição de Moscovo. A Ucrânia naturalmente sabe identificar isso e vai aproveitar para explorar se houver sucesso, sem dúvida.
Entretanto, a Europa discute cada vez mais a possibilidade de criar um exército europeu, algo que poderia afetar certamente a NATO, poderia funcionar dentro ou fora da NATO, mas é uma discussão que surge cada vez mais, até porque há uma tentativa de independência dos Estados Unidos da América perante aquilo que foram as posições de Donald Trump mais recentes, principalmente em relação à Gronelândia. Mark Rutte falou sobre esta questão e de certa forma disse aos países europeus para esquecerem esse cenário. Há futuro na NATO? Há problemas que têm de ser resolvidos para a NATO continuar a ter futuro?
É uma extraordinária questão que confesso não ter uma resposta direta para dar. Há aqui dois vetores que são particularmente relevantes. Claro que a mensagem de Mark Rutte é vista como vilão, nós adoramos identificar vilões pela coragem que de certo modo teve em dizer que realmente há dificuldades na Europa como um todo, e que ter um exército europeu iria obrigar a um investimento, ele falou do dobro, 10%. "Continuem a sonhar", foi a expressão que ele utilizou. Mas há outras visões, há as visões europeias de um primeiro-ministro sueco, por exemplo, que diz que o exército europeu é completamente viável. Portanto, nós temos aqui dois extremos que me parecem que nem um nem outro estão corretos. Há capacidades únicas nos Estados Unidos que os países europeus muito precisam, como integração a nível de capacidades NATO. O armamento estratégico de longo alcance, sem dúvida, uma capacidade de defesa aérea, as informações, o ISTAR, o armamento nuclear, a projeção de forças. Há realmente demasiadas capacidades em que a Europa se foi baseando nos Estados Unidos e que portanto, em qualquer momento sabia que tinha aquele apoio extraordinário e portanto foi esquecendo um pouco essa necessidade Os Estados Unidos têm, por outro lado, interesse em manter a sua relação com a União Europeia e com a Inglaterra, porque as bases na Europa são essenciais para projeção de forças, para terem capacidade estratégica de intervir em várias zonas do globo. Portanto, naturalmente que o interesse não é apenas de um lado. Por outro lado, o equipamento militar norte-americano vendido aos europeus é do interesse norte-americano manter essa relação, que eu até lhe chamaria quase mais econômica do que até militar do ponto de vista transacional. Mas a verdade é que também a arquitetura de segurança era o segundo vetor, a segunda arquitetura de segurança euro-atlântica está definitivamente alterada. É preciso desenvolver um pilar europeu dentro da NATO. Eu ainda acredito que é dentro da NATO, eu ainda acredito que há capacidade de explorar um pouco mais esta relação, que ainda não estamos numa fase de completa disrupção e que, portanto, há links, há ligações de tal forma intensas que mesmo que sejam um pouco aliviadas, manter-se-ão por bastantes mais anos por vários motivos, mas porque a segurança dos dois atores assim o exigem. Portanto, não será para amanhã, não será idealmente independente, mas uma coisa é certa, a Europa tem que desenvolver esse pilar europeu e tem que criar capacidades mínimas para se defender, mesmo que não seja, como eu disse há pouco, numa perspectiva de enfrentar um adversário de forma isolada, mas com capacidade para ter uma autonomia estratégica e intervir quando necessário e quando estiver em causa a segurança, seja ela direta, seja existencial para a Europa.
Jorge Rodrigues, temos espaço ainda para mais um tema. Peço-lhe capacidade de síntese, um minuto e meio para falarmos ainda desta questão em Israel, porque o exército israelita encontrou o corpo do último refém. Já podemos considerar que é o final da primeira fase do acordo de paz e que tudo se encontra bem encaminhado neste processo para partirmos para a próxima fase?
Miguel, houve uma evolução, mas também era a fase mais fácil. Realmente, com a recuperação do corpo do Ran Arbil, foi aberta a passagem de Rafah, é muito importante, terminou a primeira fase que era suposto terminar em outubro. Mas de alguma forma houve aqui uma capitulação, não houve uma negociação, portanto, ficaram muitos problemas ainda em aberto, tanto na dimensão interna como externa. Este sucesso de Israel leva Israel a pensar um pouco na exploração do sucesso e que é uma oportunidade para alcançar outra capacidade territorial, inclusivamente dentro de um formato de uma segurança mais alargada. E depois temos a questão dos atores que ficaram derrotados, seja internamente o Hamas e as outras forças que terão que ser desarmadas, seja uma autoridade palestiniana não derrotada, mas que tem que ser reformulada para poder assumir a administração do futuro de Gaza, se chegarmos. Mas depois a nível global há ainda muitas áreas em aberto, seja pela tentativa de recuperação dos derrotados do evoluir deste conflito, como o Irão, como a própria Rússia que perdeu algo, seja a intervenção hipotética ou eventual dos Estados Unidos no Irão, que se intervir e se houver uma mudança de regime, poderá criar uma instabilidade regional que nós não sabemos as consequências. Nesse sentido, e sabendo também que é necessário uma força de interposição e de estabilização, que não conhecemos o mandato, nem as regras de empenhamento, nem a eventual capacidade de garantir a segurança a Israel, há ainda muitas incertezas e que me parecem que não serão respondidas amanhã. No entanto, vão avançar e nesse sentido é muito positivo que esta primeira fase seja considerada pelas diversas partes como terminada.
Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Muito obrigado por ter estado conosco aqui na Rádio Observador.