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E já cá estamos para a primeira reunião do Gabinete de Guerra esta semana, na tarde, em direto, com o historiador Bruno Cardoso Reis, também comentador no programa "Café Europa". Está por cá também a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz. Esta segunda-feira está a ser marcada pelo périplo do presidente ucraniano, que passou já pelo Reino Unido, e também por um anúncio de que o secretário-geral da ONU, Vanessa, vem a Portugal.

Da NATO. Vem já esta quinta-feira, Jens Stoltenberg vai encontrar-se com António Costa. Ainda são conhecidos poucos detalhes. Bruno Cardoso Reis, bem-vindo. Só sabemos que vai haver conferência de imprensa. Será que vem aí algum anúncio importante, se tivesses de apostar?

Eu penso que faz parte deste tour que o secretário-geral anda a fazer, de preparação da Cimeira de Vilnius, a grande cimeira anual da NATO, em que se tomam as grandes decisões. No ano passado, inclusive, serviu, em Madrid, para aprovar um novo documento orientador, um novo documento estratégico, o chamado conceito estratégico. Desta vez, há a questão também do convite à presença da Ucrânia. Há muito esta ideia de que se vai tomar alguma decisão sobre qual o tipo de relação que a NATO terá com a Ucrânia, eventualmente voltar-se a colocar até a questão da adesão e isso será no início de julho. Faz parte da função do secretário-geral ir visitando os 31 países-membros, neste momento já são 31, para auscultar opiniões, fazer também algum trabalho de preparação. Ao mesmo tempo, há sempre esta questão recorrente, imagino que isso também venha ao de cima da questão do chamado Compromisso de Gales, ou seja, um resultado exatamente da primeira fase da agressão da Rússia contra a Ucrânia, da operação da Crimeia em 2014, foi depois decidido que de facto os países da NATO precisavam de reforçar muito significativamente o seu investimento em defesa e isso devia ser feito como parte de um esforço compartilhado. O palavrão que se utiliza na diplomacia da NATO é "burden sharing", que está, aliás, consagrado também no próprio tratado da NATO, não é só o artigo quinto, também é o artigo sexto, que obriga os Estados-membros a distribuir de forma equitativa, em função, obviamente, dos seus recursos, da sua dimensão, do seu nível de riqueza, o esforço de defesa coletiva. E foi assumido este compromisso dos 2% do PIB de investimento em defesa e desses, 20% ser investido em novas capacidades. E Portugal não cumpre esses objetivos. Para já, está no terço mais baixo ao nível da questão da percentagem do PIB. O cumprimento até reduziu de um ano para outro, passou de 1.5 para 1.4, mas isso teve a ver com nós termos tido um crescimento do PIB muito acima do que era esperado no ano passado. Às vezes há estas oscilações, não teve a ver com uma redução do investimento em defesa, mas em todo o caso não estamos lá. O objetivo este ano seria 1.6, não sei se chegaremos lá. E também não cumprimos o objetivo dos 20%, estamos à volta dos 17% de investimento em capacidades e também temos agora uma nova lei de investimento, chamada Lei de Programação Militar, uma revisão dessa Lei de Programação Militar, e também é importante haver um sinal de reforço, pelo menos de que a trajetória vai no sentido certo. Imagino que isso também seja uma questão que seja colocada pelo secretário-geral, porque uma das funções que ele tem é precisamente fazer cumprir e garantir a implementação dos compromissos que os próprios aliados assumem no seio da Aliança Atlântica, que ele é o secretário-geral.

Bruno, neste encontro com Rishi Sunak também houve espaço para reivindicações. Zelenskyy pediu caças F-16 ao Reino Unido, sempre o problema do céu. Além daquilo que já era o envio dos mísseis prometidos, Sunak não fechou nenhum acordo, não falou em nenhum acordo fechado, pelo menos. O que é que podemos perspetivar deste pacote de apoio britânico?

Em termos concretos, realmente houve esse anúncio, que se antecipou até à visita destes novos mísseis de mais longo alcance, que vão até aos 200 km, que realmente são muito importantes e que aparentemente já estão a ser utilizados com resultados bastante positivos pela própria Ucrânia. Também houve o anúncio de drones de ataque, embora não tenha sido concretizado o tipo de drones de ataque também de mais longo alcance, que iriam até aos 200 km. Tudo isso claramente tem a ver com a Grã-Bretanha querer dar aqui um contributo para reforçar as hipóteses de sucesso da Ucrânia nesta fase mais ofensiva, de estabilizar os centros de comando, as estruturas logísticas, os paióis, os locais de armazenamento ou concentração de tropas que até agora estavam fora do alcance dos mísseis que a Ucrânia tinha e que agora passam a estar. Depois, o presidente Zelenskyy procura sempre agradecer o que já recebeu, e eu acho que apesar de tudo, o tom desta visita é bastante mais positivo do que visitas anteriores, mas procura sempre não deixar cair pedidos para a fase seguinte. E é nesse sentido que eu interpreto a insistência na questão dos aviões de combate. Eu creio que os ucranianos percebem que não é realista, por várias razões, em termos práticos, até do tempo de treino, das implicações em termos do orçamento de ajuda à Ucrânia, porque não se pode dar apenas um avião, estes aviões são muito caros, é preciso dar uma esquadrilha, é preciso dar munições, isso implicaria logo uma fatia muito grande da ajuda que está a ser dada e que é precisa para fornecer munições, para fornecer estes mísseis, estes drones, artilharia, tanques, tudo isso que são do uso mais imediato Mas em todo caso, os britânicos não têm realmente F-16, têm o seu próprio sistema, e em menores quantidades. Os ucranianos, tal como em relação aos tanques, têm optado por sinalizar interesse em sistemas que são relativamente comportáveis em termos de preço, que têm uma boa relação qualidade/preço. Obviamente há jatos muito mais avançados, por exemplo, os F-16 são de fabrica americana, e os F-35, mas são muitíssimo mais caros e difíceis de manter, e também que existem em relativa abundância e em diferentes versões na Europa e nos Estados Unidos, e portanto os F-16 têm essa vantagem, são também dos aviões de combate que existem em maior número. Os britânicos não têm a possibilidade de os fornecer, mas já disseram que apoiam politicamente esta ideia, que são favoráveis, não veem aqui nenhum problema, nenhuma linha vermelha, e também garantiram que estavam dispostos a começar já a treinar pilotos ucranianos para utilizar este tipo de avião. O treino será o treino standard para usar aviões de combate com o standard Nato. Embora os britânicos não tenham os F-16, podem fazer isso, e podem eventualmente, não creio que tenha ficado já definido, mas parece-me que ficou um pouco no ar esta ideia de que poderiam também ajudar, por exemplo, até em termos financeiros, porque obviamente os aviões também depois terão de ser pagos. Acho que Zelensky tem continuado a fazer esse caminho, não me parece que seja uma questão para ser resolvida já e não creio que tenha sido um resultado negativo da visita, não ter havido aí uma resposta positiva já em nenhum dos países que ele visitou.

Bruno, neste encontro entre Volodymyr Zelensky e o primeiro-ministro britânico, Rishi Sunak, o presidente ucraniano até foi comparado a Winston Churchill. Já ouvimos ao longo deste ano algumas comparações que vão nesse sentido, mas surpreendeu-te desta vez?

Não, eu acho que o próprio Zelensky procura muito esses pontos de contacto com os países que vai visitando. Vimos essas referências também à luta pela liberdade quando veio virtualmente a Portugal, quando fez aquela intervenção virtual na Assembleia da República. Já quando ele visitou a Grã-Bretanha, na anterior visita, quando falou perante o Parlamento, também citou Churchill. E de fato, o sítio é propício a isso, ou seja, Checkers. A visita não decorreu em Londres, foi nos arredores de uma zona que é Checkers, que fica a norte de Londres, a umas dezenas de quilómetros, onde o Primeiro-Ministro tem uma casa, uma espécie de retiro no campo, e que foi muito usada por Churchill. Sabe-se inclusive que muitos dos seus discursos de guerra, do período da Segunda Guerra Mundial, foram preparados nesses retiros que ele geralmente fazia ao fim de semana para também pensar e inspirar-se, porque era realmente ele que escrevia os seus discursos, não tinha uma equipa para fazer isso. Tinha uma equipa para o apoiar, mas obviamente era essencialmente ele que os escrevia e portanto acho que foi exatamente isso que o Rishi Sunak referiu, que era um local muito propício porque tal como Churchill tinha defendido, tinha lutado pela liberdade na Europa, no contexto da Segunda Guerra Mundial, a partir daquele local, ele estava lá a receber alguém que hoje também estava a fazer isso, estava a lutar pela liberdade na Europa e não apenas do seu próprio país, contra uma potência agressiva, imperialista, que não respeitava nenhum tipo de tratado, nem compromisso. Acho que obviamente o cenário foi propício a essa comparação, mas ela não deixa de ser muito significativa e obviamente não é apenas pelo cenário. Acredito que isso seja sincero da parte de Rishi Sunak, mas também é evidente que se não houvesse essa perceção a nível da Grã-Bretanha, o Rishi Sunak seria mais cuidadoso em utilizar aqui a memória de Churchill, que obviamente é muito importante na memória coletiva, na memória pública britânica.

Bruno, e olhando aqui para outra notícia que está a marcar o dia de hoje, o líder do grupo Wagner ofereceu-se para revelar posições russas à Ucrânia em troca da retirada de Bakhmut. Isto terá sido ainda em janeiro, há alguns meses, mas sabemos agora, temos aqui mais um sinal do confronto quase aberto entre o grupo de mercenários e as Forças Armadas de Putin.

Eu então estive a ver com mais cuidado a notícia do Washington Post, que é quem viu os documentos e quem faz uma notícia bastante detalhada. E o que eles dizem é: terá havido contactos telefónicos entre os serviços de informações militares ucranianos e o senhor Prigozhin. Isso em si mesmo não é assim tão invulgar. Os serviços de informações, estes grupos irregulares como o grupo Wagner, servem muitas vezes um pouco também para isto, para fazer pontes, contactos entre potências inimigas, mesmo numa situação de conflito. Agora, essa oferta já é bastante sem precedentes, basicamente. Aqui há duas possibilidades. Também na reportagem do Washington Post é destacado que os ucranianos obviamente não aceitaram essa oferta, que seria retirarem de Bakhmut, darem uma vitória ao grupo Wagner em Bakhmut, em troca de informações sobre outros pontos da frente onde as forças russas estariam vulneráveis e que aí poderiam ser atacadas, as forças russas aqui, as forças regulares, o exército russo, as Forças Armadas russas. Eles terão desconfiado, ou seja, terão achado que poderia ser uma manobra de desinformação, e pode ser isso. Isso já seria mais normal num contexto de guerra, tentar enganar o outro lado, e nesse caso seria o senhor Prigozhin concertado com os serviços de informações russos, com o próprio Kremlin a fazer isso. Agora, é possível suspeitar que fosse mesmo uma oferta para levar a sério, porque realmente o nível de críticas públicas de Prigozhin ao Ministério da Defesa, às Forças Armadas regulares russas, ao chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas russas, ao general Gerasimov, tem sido a tal ponto que permite alimentar a suspeita que seria realmente uma oferta séria do lado Prigozhin, e obviamente isso seria uma confirmação do ponto extremo a que chegamos desta rivalidade entre o grupo Wagner e o Ministério da Defesa russa, as Forças Armadas russas. O que é claro, que nós sabemos, é que realmente essa rivalidade existe e é claramente uma das fragilidades Das forças russas. A Rússia, Putin não podem dispensar o grupo Wagner porque não conseguem mobilizar tropas suficientes de outra maneira. Portanto, precisam destes grupos, da sua presença, das tropas que eles recrutam nas prisões, em vários meios escusos para ter tropas na linha da frente. Por outro lado, a verdade é que isso torna muito mais difícil haver aqui um comando unificado, torna muito mais difícil a coordenação de esforços entre as diferentes unidades. A verdade é que isso até já é difícil entre as unidades regulares. Isso tem a ver também com as próprias deficiências de uma estrutura de comando muito hierárquica, muito pouco meritocrática, deficiências em termos da própria doutrina russa, em termos da ideia de comando integrado, de comando delegado, etc. Mas a verdade é que estes grupos irregulares ainda pioram muito as coisas e portanto, no fundo, temos aqui um sintoma disso. Mas lá está, se é verdade ou não, isso eu não consigo saber. Acho que os próprios ucranianos tiveram dúvidas, mas pelo menos é crível, o que diz muito sobre o estado de divisão, tensões, dificuldade de coordenação entre as forças da Wagner e as forças regulares russas.

E só para terminarmos agora, Bruno, gostava que olhasse aqui conosco para o que explica a resistência da economia ucraniana, que até pode crescer no ano que vem. Isto de acordo com as previsões que foram reveladas hoje pela Comissão Europeia.

A economia ucraniana foi muito atingida pela guerra, muito mais do que a russa. Isso tem a ver com o facto de o território ucraniano estar sistematicamente a ser atacado. Portanto, há uma destruição física, material. Houve toda aquela fase de apagões, portanto falta de eletricidade. Imaginamos o efeito que isso tem no funcionamento da economia, de uma fábrica, etc. Houve milhões de pessoas que foram forçadas ou a refugiar-se noutros países ou a deslocar-se no interior da Ucrânia, portanto, abandonando os seus locais de trabalho habituais. Isso significa que houve, de facto, uma grande quebra no PIB. Estima-se que pode ter chegado 35, 40%, portanto, quase para metade. Agora, a verdade é que a economia não ficou completamente paralisada. Há aqui realmente uma enorme resiliência num contexto de guerra. Provavelmente, isso também foi ajudado pelo facto de que a União Europeia abriu as suas portas à Ucrânia. Ou seja, obviamente, a adesão formal está longe de estar concluída ou garantida. Há um estatuto de país candidato, portanto, a partir de sim, mas ainda será uma coisa a prazo e o que terá as suas dificuldades. Mas temporariamente e durante o período da guerra, a União Europeia permitiu às empresas ucranianas exportar sem pagar taxas alfandegárias, portanto, exportar livremente para os países europeus. Isso já criou até problemas, por exemplo, na questão do mercado agrícola em países vizinhos da Ucrânia, por exemplo, na Polónia, e portanto, já houve que criar aí uma exceção para alguns produtos agrícolas. Mas a verdade é que isso, obviamente, permitiu à Ucrânia um acesso facilitado, digamos, sem barreiras, sem custos acrescidos, a um mercado enorme, próximo e muito rico. Isso certamente será um fator fundamental para explicar porque é que eventualmente a Ucrânia pode voltar a crescer para o próximo ano. Mas obviamente a partir de uma base já muito mais baixa, muito degradada por esta enorme destruição causada pela guerra.

Apesar da guerra, a Ucrânia a crescer. Terminamos assim o Gabinete de Guerra com o Bruno Cardoso Reis. O Gabinete de Guerra está de volta amanhã. Até lá.