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"Gabinete de Guerra" na Rádio Observador. Esta noite vamos analisar os principais focos de conflito com o tenente-general Marcos Serronha. Bem-vindo, obrigada por ter aceitado o convite.

Olá, boa noite.

E começávamos por um dos temas do dia, a visita de Donald Trump à China. Os comunicados de Pequim e Washington sobre esta reunião desta quinta-feira pintam duas imagens opostas do diálogo sobre geopolítica. O comunicado chinês salienta a questão de Taiwan e não utiliza nenhuma vez a palavra Irão, enquanto o comunicado norte-americano destaca a discussão sobre a guerra no Irão e não faz qualquer referência a Taiwan. Começava por lhe perguntar se é Taiwan que cria aqui o maior ponto de fricção entre as duas partes.

Olá, boa noite, muito obrigado pelo convite. Sim, o Irão também cria um ponto de fricção, porque do lado da China não deverá haver muito interesse em fazer pressão sobre o Irão, no sentido de que o Irão abdique daquilo que são os seus objetivos, nomeadamente manter o controle sobre o estreito de Ormuz e de algum modo estar preparada para uma reação militar caso os Estados Unidos abram novas hostilidades. E do lado de Taiwan, porque de facto os Estados Unidos, e com a administração Trump também, têm constituído um dos objetivos das suas políticas externas e da sua estratégia, que é de algum modo manter o apoio a Taiwan. E essa questão é fundamental. Não quer dizer que as duas coisas não tenham sido faladas e discutidas, mas cada um manifesta publicamente aquilo que tem mais impacto estratégico para o seu lado. Os Estados Unidos falam do Irão e naturalmente a China fala de Taiwan. Aliás, construiu a narrativa nos últimos dias pondo a questão de Taiwan em cima da mesa, no sentido de que não deverá ser um ponto de contenção entre os dois países, o que é um alerta aos Estados Unidos para não se intrometerem e não apoiarem Taiwan, em especial com equipamentos militares.

Já depois do encontro, Trump disse que Xi Jinping se ofereceu para ajudar os Estados Unidos a chegar a um acordo com o Irão. Isto é o que diz Donald Trump, mas pergunto-lhe de que forma é que a China pode intervir neste conflito e se o petróleo iraniano pode-

Exato. Não quer dizer que a China não possa, de algum modo, fazer, porque as duas ou três viagens que Wang Yi fez à China, o ministro dos Negócios Estrangeiros, é um indicador de que a China poderá ser eventualmente um mediador não será, mas será um conselheiro do Irão relativamente àquilo que é as posições ou minimizar algumas das posições do Irão. Não estamos a ver a China a insistir com o Irão para deixar o seu programa nuclear para fins pacíficos, que é o que o Irão diz que quer, nem abdicar do controle do estreito de Ormuz, porque a China aí também não tem grande problema, porque a China sabe que os seus navios, sejam os do petróleo, sejam os da exportação para os países do Golfo Pérsico, não irão pagar nenhuma taxa. Portanto, será difícil que a China faça alguma pressão no sentido daquilo que os Estados Unidos querem. Isso será difícil. Por aí não vamos contar com a China. Não quer dizer que a China não possa tentar arranjar alguma ponte entre os Estados Unidos e o Irão, o que será difícil. E também se o fizer, julgo eu, será sempre através do Paquistão, que é um mediador oficial.

Entretanto, no Irão, o ministro dos Negócios Estrangeiros disse hoje que não há uma solução militar para a guerra. Avisa também que os Estados Unidos e Israel não vão conseguir o que querem, se continuarem com as constantes ameaças. E o ministro diz também que o Irão não se vai curvar. Continuamos aqui num impasse, já há muito tempo. O que é que acha que seria preciso para que o Irão aceitasse finalmente uma negociação de paz, visto que tem recusado todas as propostas norte-americanas?

Eu julgo que a estratégia norte-americana não é tanto a opção militar. Vemos Donald Trump com alguma resistência para iniciar as operações militares outra vez, conforme foi no primeiro mês de guerra. Julgo que continua a apostar tudo no estrangulamento econômico do Irão. Agora, se isso chega a bom porto ou não, não sabemos, mas as informações que existem é que dentro do Irão a situação sob o ponto de vista econômico e sob o ponto de vista da carência de coisas e dos preços elevadíssimos, estão a provocar algum grau de distúrbio da própria população. E essa é uma questão sensível para o Irão, mais do que as ações militares, que já se percebeu que não será fácil curvarem o Irão com ações militares, somente só com bombardeamentos aéreos, naturalmente. Portanto, a parte econômica poderá fazer o Irão pelo menos abdicar de algumas das suas linhas vermelhas e sentar-se à mesa das negociações, por assim dizer. Agora, vai durar um mês, dois meses, três meses, quatro meses? Ninguém consegue prever isso. Mas eu percebo que eventualmente Donald Trump estará disponível para manter isso o máximo de tempo possível, muito mais isso do que continuar com operações militares. Porque já percebeu que dentro de casa é uma solução que lhe pode trazer menos impactos negativos do que voltar para casa com uma derrota, que isso seria um descalabro para o presidente americanoOu com uma meia vitória que sabe a pouco. Aliás, ele já deu a entender que pode aguentar o bloqueio durante meses. Agora, isso prejudica de fato a comunidade internacional, nós europeus, naturalmente, e indiretamente os Estados Unidos também, embora eu esteja convencido que os americanos possam ser mais suscetíveis de aceitar essa modalidade do que propriamente continuar com as operações militares, que muito provavelmente não levarão à grande solução sob o ponto de vista da possibilidade de haver um acordo de paz ou um acordo de cessar-fogo.

Vamos falar também da guerra na Ucrânia. No último dia, a Rússia lançou violentos ataques à Ucrânia que provocaram a morte de vários civis, incluindo crianças, e não tardaram a surgir críticas da comunidade internacional. O presidente francês Emmanuel Macron, por exemplo, a dizer que os ataques russos mostram que Moscovo está a ficar sem soluções. Por que a Rússia está agora a voltar a estes ataques tão violentos contra alvos civis? Até chegou a fazer um raro ataque de ordum na quarta-feira.

Eu julgo que o presidente Macron tem razão. Aliás, há muitos analistas, inclusivamente russos, bloggers russos e alguns meios de comunicação social russos começam a apontar ou a criticar o reticenciamento do Kremlin de não conseguir uma solução nem militar, nem uma solução política pro conflito. E, portanto, há sérias preocupações que o conflito se possa eternizar mais um ano ou mais dois anos, com sérios impactos na economia russa, que não está a conseguir, contrariamente àquilo que os próprios alguns russos pensavam, com este levantamento das sanções e o aumento dos preços do petróleo, poderia dar um balão de oxigênio à economia russa. Pois visto isso não está a passar. As empresas russas continuam na falência técnica, os bancos russos a ameaçar não terem divisas para fazer pagamentos, e poder haver um colapso do sistema bancário russo e, portanto, há uma passagem dessa situação econômica difícil já à população e algumas das elites russas que começam, de algum modo, a exercer alguma pressão sobre Vladimir Putin, no sentido de ter que arranjar uma solução política pra guerra. É evidente que Vladimir Putin ontem ou anteontem, julgo eu, veio outra vez a terreiro, através do Peskov, o porta-voz, dizer que "Ok, a gente para a guerra e vocês entregam o Donbass". Isso não é novo, naturalmente, mas começa a haver a percepção que a Ucrânia pode ter, mais neste momento, mais condições pra manter uma guerra por mais tempo do que propriamente a Rússia. E aí, eventualmente também, não falamos nem há pouco, mas a China pode ter um papel a desempenhar. Mais aí do que propriamente do Irão, julgo eu. No sentido de tentar convencer a Rússia que, de fato, tem que haver algum grau de cedência sobre as pretensões territoriais, no sentido, no mínimo, de fazer congelar a guerra no sítio onde está. E depois iniciar um processo de negociações que poderá demorar anos, mas pelo menos com o conflito congelado. Um conflito congelado. Muita gente diz: "Ah, mas isso não é a solução do problema". Não é, mas é a solução da guerra, por exemplo, no curto prazo. Naturalmente, pra guerra parar. E depois, no futuro, logo se vê. Temos o caso de alguns conflitos que estão congelados há muitos anos e nunca mais houve a reativação das hostilidades, nomeadamente a questão de Chipre e das duas Coreias. Portanto, eu julgo que há muitas dificuldades pra Putin neste momento, em termos internos e no toso. Esta parada da vitória foi mais uma parada da derrota do que propriamente da vitória. E depois todo o criticismo, muito criticismo interno dentro da Rússia, dentro de Moscovo, relativamente à postura de Vladimir Putin, que neste momento está numa posição completamente defensiva, quer dizer, ninguém o vê quase em público e está permanentemente resguardado. E a Ucrânia continua a aumentar a sua capacidade de fazer ataques na profundidade russa, especialmente sobre as infraestruturas energéticas ligadas ao petróleo e bases militares e aviões e coisas dessas. Portanto, que provoca também algum desgaste na opinião pública russa. Ver que aquilo que inicialmente se previa que poderia esta guerra potencial resolver em dias, já vai a caminho dos cinco anos, e a Rússia não consegue, sob o ponto de vista militar, ter opções que possam alterar a situação no terreno. Aliás, neste momento, nos últimos dias, mais em prol da Ucrânia, que está a recuperar muito território que previamente era de Zaporizhzhia, que inicialmente era Zaporizhzhia.

Muito bem, tenente general Marcos Serronho, muito obrigada por esta análise no Gabinete de Guerra.

Tá, muito obrigado. Boa noite pra vocês.

Boa noite.