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Este é o Gabinete Guerra das Manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões. À segunda, a análise é do Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Olá, Miguel, bom dia, bem-vindo.

Olá, Maria João, bom dia.

Olá, Miguel. Começamos com Donald Trump, que anunciou um cessar-fogo energético entre a Ucrânia e a Rússia, uma trégua que apanhou Zelensky de surpresa, embora já tenha dito que aceita se Moscou também cumprir, o que parece não acontecer depois de mais um ataque russo. Mas, Miguel, este acordo surge depois da decisão chocante de Washington suspender as sanções à Rússia para importar diesel e travar a subida dos combustíveis. Como se não bastasse, também no fim de semana, Trump disse que é hora da Ucrânia ter um novo presidente para negociar a paz com Putin. Miguel, o que dizer de tudo isto?

Começamos sempre à segunda-feira por Donald Trump, é sempre a mesma coisa. Bom, vamos por partes. Em primeiro lugar, nós temos que ver um ponto que é essencial em toda esta questão: Donald Trump está a pôr no centro da diplomacia os seus interesses políticos e seus interesses econômicos. Nós estamos próximos das eleições intercalares. Nós vemos e sabemos que as sondagens não são positivas para o Partido Republicano. Nós sabemos o que é que politicamente pode advir dessa situação. Se efetivamente Donald Trump perder a Casa dos Representantes e também o Senado, isto poderá levar à questão do impeachment e ele não tendo, efetivamente, a maioria republicana no Congresso, pode efetivamente sofrer um impeachment e pode efetivamente termos aqui a queda de Donald Trump. E, portanto, ele está a pôr no centro da diplomacia os seus interesses econômicos, por razão dos aumentos dos preços de combustíveis e, portanto, é uma ideia inundar o mercado com aquilo que é mais fácil, que é efetivamente o diesel e o combustível russo. Por outro lado, curiosamente, quando fala da questão do levantamento das sanções, e este negócio agora, que inclusive alguns senadores americanos acabam por vir dizer que é ilegal, é efetivamente permitir que o esforço de guerra russo receba aqui um balão de oxigênio enorme, com o aumento de receitas e economicamente ajudando aquilo que é o esforço de guerra russo. Portanto, ao mesmo tempo que temos aqui uma ideia de que, neste momento em que a Rússia está efetivamente num patamar acima nesta guerra, que vemos a fragilidade da Ucrânia econômica, política, mas essencialmente militar, com a incapacidade de ter os interceptores, que curiosamente são norte-americanos, mas que os norte-americanos dizem que não podem entregar. A Ucrânia acredita que sim, mas os Estados Unidos continuam a dizer que não, por razão daquilo que foi a utilização maciça desses interceptores no Médio Oriente, na guerra com o Irão. E, portanto, o que é que acontece? Acontece que nesta medida, aparece esta ideia de criar duas coisas, que são dois pontos importantes, ou três, que fragilizam completamente a posição de Zelensky. Primeiro, diz: "Vamos fazer um acordo energético com a Rússia, permitindo assim refinanciar a economia russa. Vamos ter aqui um ponto de um cessar-fogo energético, porque nós não queremos que a Ucrânia continue a atingir as refinarias russas", permitindo assim que eles continuem a utilizar as refinarias para depois exportar então o tal diesel que fizeram na oficina americana, e depois dizem aquilo que não é nada de novo e que efetivamente é uma questão até sine qua non por parte dos Estados Unidos e da própria Rússia, que é: "Zelensky não é o nosso parceiro ideal e nós não queremos que Zelensky seja o interlocutor num processo de paz". Até porque saiu na semana passada uma sondagem que diz que mais de 52% dos ucranianos não querem Zelensky como um futuro presidente. Dito isto, Zelensky obviamente que sai fragilizado e vê-se obrigado a dizer que: "Bom, efetivamente, nós podemos aceitar este cessar-fogo energético, apesar de ninguém nos ter perguntado."

Negociado às suas costas, não é?

Exatamente, e ninguém nos perguntou nada. E no mesmo dia em que ouvimos falar desse cessar-fogo energético, nós sabemos de um ataque enorme russo às instalações energéticas da Ucrânia. Portanto, Zelensky está aqui um pouco nesta posição que é o seguinte: Zelensky já conta para muito pouco. E no momento que Donald Trump se apercebe que é com a Rússia que tem que negociar, porque precisa daquilo que é o combustível da Rússia para tentar baixar os valores daquilo que são o preço dos combustíveis nos postos de gasolina, que afetam o bolso do americano.

Não olha a mais.

E que ao afetar o bolso americano, afeta também o voto, não olha a mais.

Isto também prova que a Ucrânia já não tem qualquer margem de manobra para resistir a esta pressão de Washington.

Zelensky já tinha muito pouca. E depois daquilo que aconteceu politicamente com Federov, e quando nós vimos efetivamente Federov a vir desafiar para eleições, sabendo nós que nessa altura Federov já contava com o apoio muito próximo de Musk, que inclusive veio agora dizer, depois de Donald Trump, dizer efetivamente: "Sim, nós precisamos de um novo presidente ucraniano e temos que ir para eleições". Já se sabia nessa altura que Federov contava com o apoio dos norte-americanos. E, portanto, há muito tempo que Zelensky tem muito pouca margem de manobra. Conta com os europeus, mas conta com os europeus para aquilo que os europeus conseguem fazer, que é ir injetando dinheiro. Mas ao mesmo tempo que nós vemos a Europa a ferro e fogo, politicamente extremamente instável, aproximando-se de uma extrema direita que não quer continuar a alimentar financeiramente a Ucrânia. Instabilidade na rua, problemas econômicos, problemas habitacionais Os miúdos, eu vou chamar miúdos porque já não estão nessa idade. Os miúdos que não querem ir fazer o serviço militar obrigatório porque não se querem ver envolvidos numa guerra. Tudo isso também fragiliza a posição da Europa relativamente à Ucrânia.

Entretanto, a tensão no Médio Oriente voltou a atingir um ponto crítico com o ataque dos houthis contra o aeroporto internacional de Riade, na Arábia Saudita. Isto surge depois da coligação saudita ter lançado a operação Amanhecer no Iémen e destruído 82 alvos rebeldes. Miguel, esta tentativa de sufocar os rebeldes no terreno acabou por transformar toda a Península Arábica numa zona de guerra aberta?

Pois, lá está. Temos aqui dois problemas sérios. Primeiro, temos aqui um escalar da guerra, que começou efectivamente com a guerra do Irão e que passou para o Iémen. Os houthis efectivamente veem aqui uma oportunidade de fragilizar aquilo que é o projecto de Mohammed bin Salman, mais conhecido por MBS, que é o príncipe herdeiro da Arábia Saudita e que sempre quis fazer da Arábia Saudita, digamos assim, um projecto económico em termos de tecnologia, de turismo, de um hub, também de transporte marítimo, de logística e distribuição. E portanto, cria uma Arábia Saudita muito para além do petróleo e que agora se vê envolvido numa guerra regional, que se pode efectivamente prolongar e é uma guerra regional que vai trazer complicações também àquilo que é o transporte marítimo, através do Estreito de Mandeb, mas também a sua relação com o Irão. O Irão, neste sentido, obriga a que os Estados Unidos não se afastem da região, por mais que queiram se afastar da região e fingir que a questão do Irão nunca existiu. Razão pela qual vão pedir a Putin a compra do diesel para tentar baixar os preços, esperando que depois dos midterms pudessem intervir militarmente. Agora, quando nós olhamos para este processo todo, os Estados Unidos já estão a intervir. Nós sabemos que em termos de inteligência militar e logística militar, os norte-americanos já estão a intervir. Se vamos ver, por exemplo, caças norte-americanos a intervir bombardeando o Iémen, parece-me para já não, por razão das midterms.

Exatamente, por causa das intercalares.

Por razão das intercalares. Mas agora, já estão envolvidos, até porque a proximidade, digamos assim, económica e de uma certa amizade pessoal entre o príncipe herdeiro da Arábia Saudita e Donald Trump é bastante. Até porque não nos podemos esquecer, já para aproveitar a polémica das últimas semanas, que Cristiano Ronaldo foi utilizado como, digamos assim, um embaixador deste regime saudita na visita a Washington, naquele célebre jantar na Casa Branca, em que é apresentado como um embaixador daquilo que é um dos projectos também desportivos da própria Arábia Saudita.

Miguel Baumgartner, muito obrigada pela tua análise no Gabinete de Guerra.

Muito obrigado, bom dia, boa semana. Obrigado.