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Muito boa tarde, Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Eu sou o Miguel Cordeiro, vou estar à conversa nos próximos minutos com Pedro Nascimento, investigador de história militar. Muito boa tarde, bem-vindo à Rádio Observador. Para começar, vamos falar de declarações de Zelensky, que pediu à Europa apoio financeiro para dois ou três anos. O presidente da Ucrânia disse que a Ucrânia precisa de apoio financeiro europeu durante mais dois ou três anos para conter a invasão da Rússia. Que leitura podemos fazer destas palavras de Zelensky, deste pedido?

Olá, Miguel, boa tarde a todos os ouvintes e agradeço mais uma vez à Rádio Observador o convite. Eu diria, na sequência dessas declarações, que o momento que vivemos é paradigmático de um ponto que a história acaba sempre por sublinhar, que é: este tipo de guerras, quando se prolongam, as frentes financeira e política começam a ter uma importância tão decisiva quanto a frente de combate. E é exatamente isso que nós estamos a ver acontecer na Ucrânia. Reparemos nisto: Zelensky, ao pedir este apoio financeiro por dois ou três anos, não está apenas a falar de dinheiro, está a admitir, com todas as letras, que esta guerra vai continuar e vai prolongar-se, ou seja, é uma leitura de longo prazo. E isso tem um peso estratégico inerente. Como eu estava a dizer, quando os conflitos entram nesta fase, e pensemos num exemplo que eu já trouxe várias vezes, a Primeira Guerra Mundial a partir de 1916, ou a Guerra do Vietname em meados dos anos 60, o esforço financeiro começou a medir-se não apenas em meses, mas em anos. Já se projetou noutra dimensão. E o que Zelensky está a fazer aqui é preparar o terreno.

Certo.

Eu creio que o líder ucraniano quer assegurar que o apoio europeu não esmorece quando a fadiga política se começa a instalar de forma bastante consolidada. Porque esta fadiga sente-se. A Europa não está completamente, mas está bem dividida, e há quem veja na ajuda à Ucrânia uma espécie de cheque sem prazo.

Nesse sentido, um dos temas que também queria abordar consigo é o facto de a Hungria estar à procura de uma união com a Chéquia e com a Eslováquia para formar uma aliança dentro da União Europeia que contrarie as posições para a Ucrânia dos restantes Estados-membros. Isto foi dito por um conselheiro de Viktor Orbán. Isto teria certamente um impacto para aquilo que é o seio da União Europeia.

Claro. Reparemos nisto, Miguel. Este é um movimento que se nós olharmos de um ponto de vista mais superficial, percebemos que são três países, que não são os três países que têm mais força ou que fazem parte daquele grupo que tem mais força dentro da Europa. Mas a verdade é que se esta aliança avançar, nós poderemos assistir ao nascimento expresso e aberto de um bloco interno dentro da União Europeia, que procura todos os dias limitar o apoio à Ucrânia e normalizar relações com a Rússia. Não é apenas estarem a ser prudentes e estarem a ser mais cautelosos, é que nós temos aqui esses dois pontos: por um lado, limitar esse apoio e, por outro, normalizar as relações com Moscovo. E reparemos que isto não é inédito, porque no passado, sempre que surgiram impasses militares prolongados, como está agora a acontecer na Ucrânia, começaram a emergir blocos políticos internos. No Vietname, por exemplo, os falcões e os pombos, que defendiam a intensificação dos bombardeamentos e os pombos defendiam a retirada. E também assistimos hoje em Israel aos que querem acabar com o trabalho e aos que querem acabar com o conflito. Mas este impacto desta tripla aliança, na minha ótica, será duplo. Por um lado, internamente, mina a coesão da União Europeia e enfraquece o discurso de unidade estratégica que está sempre presente, pelo menos nas palavras dos representantes europeus. E externamente, dá à Rússia precisamente aquilo que quer, que é a perceção de que o tempo joga a seu favor. Nós já abordámos isto várias vezes. A Rússia sempre jogou o jogo longo. E Orbán tem sido o canal mais visível dessa lógica de erosão interna do consenso europeu. Ou seja, esta aliança entre Praga, Bratislava, daria a Budapeste um novo centro de decisão dentro do Conselho Europeu e, acima de tudo, muito mais força ao argumento de que a Europa está cansada.

Sim. Vamos falar um pouco do Médio Oriente, até porque hoje Israel confirmou que os restos mortais de um refém entregues pelo Hamas pertencem, na verdade, a um outro corpo, que já tinha sido recuperado em dezembro de 2023. Este incidente foi considerado uma clara violação do acordo por parte da organização terrorista e levou o primeiro-ministro de Israel, Netanyahu, a convocar uma reunião de emergência para discutir possíveis represálias. Que represálias é que podem sair daqui?

Olha, Miguel, eu acho que é importante nós fazermos aqui um pequeníssimo intróito relativamente a este ponto, que é o fato desta entrega errada, certamente manipulada, de restos mortais de um refém, é muito mais do que um erro. É uma violação simbólica que tem muito peso, porque em Israel a questão dos reféns tem uma carga emocional e política enorme. Desde 1948, que nós temos a doutrina israelita do chamado Espírito de Entebbe, que se baseia na ideia de que nenhum cidadão é deixado para trás. E quando o Hamas falha deliberadamente ou finge cooperar num acordo, isso mina completamente a confiança que sustenta qualquer cessar-fogo. Por isso, as represálias, como o Miguel estava a apontar, podem não ser apenas militares, mas também políticas e psicológicas, porque Netanyahu não pode deixar passar isto em silêncio, sob pena de depois vir a ser acusado internamente de fraqueza. Mas o cenário mais provável, na minha ótica, será uma retaliação calibrada, mas em três dimensões diferentes. Por um lado, no terreno, quando possa ocorrer uma intensificação de operações de reconhecimento e ataques seletivos, sobretudo a estruturas de comando do Hamas, no norte de Gaza, mas não um regresso à guerra total. É apenas uma demonstração de força e resposta. Do ponto de vista diplomático, eu penso que Israel poderá suspender, porque tem justificação para isso, temporariamente partes do acordo que está estabelecido e condicionar novas negociações a verificações independentes. E depois, na opinião pública interna, eu creio que Netanyahu pode usar este episódio para reforçar a narrativa de que não há um interlocutor fiável em Gaza, porque, na verdade, não há. E isto pode fazê-lo recuperar terreno junto do eleitorado mais à direita, que considera o cessar-fogo uma cedência perigosa.

Muito bem. Pedro Nascimento, muito obrigado por ter estado conosco na Rádio Observador para mais uma edição do Gabinete de Guerra. Um abraço.