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Está no ar mais um Gabinete de Guerra na Rádio Observador, com os membros residentes deste painel, o Bruno Cardoso Reis, a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz. Vanessa, este é um dia forte no que toca à diplomacia e à guerra na Ucrânia.
Em várias frentes. Depois de ontem o secretário-geral da NATO ter estado em São Bento com António Costa, daqui a pouco é o ministro dos Negócios Estrangeiros, João Gomes Cravinho, e a ministra da Defesa, Helena Carreiras, que se reúnem com Dmytro Kuleba, o ministro com a pasta da diplomacia na Ucrânia. Um encontro, esse, também em Lisboa. Bruno Cardoso Reis, olá, começamos precisamente por aqui, a importância destes encontros.
Acho que são encontros importantes, estão um pouco no contexto desta reunião do Grupo de Bilderberg aqui em Lisboa e portanto, quer o Stoltenberg, quer o ministro Kuleba também estão cá por causa disso e obviamente aproveitaram para conversar com os seus homólogos portugueses. No caso do secretário-geral da NATO há também a preparação da Cimeira de Vilnius, que será agora em julho e que é uma cimeira importante, nomeadamente para se perceber qual será o futuro da relação entre a Ucrânia e a NATO e também qual é o nível de apoio e eventualmente se volta ou colocar ou não a questão da adesão ou algum tipo de garantia de segurança ainda numa fórmula a definir, portanto, isso será certamente um ponto na agenda. E depois há a questão da continuação do apoio à Ucrânia e esse certamente é o ponto fundamental do ministro Kuleba. Desde logo apoio político e diplomático. É importante também destacar que eu acho que Portugal marcou alguns pontos com a visita de Lula a Lisboa, apesar de todas as controvérsias. Foi muito noticiada na imprensa internacional e foi muito noticiada no sentido que tinha havido uma correção do posicionamento do Brasil, que o Brasil tinha procurado assumir uma posição mais equilibrada, com maior compreensão também daquilo que eram as preocupações do lado dos países europeus e da própria Ucrânia. Foi nesse contexto que foi, aliás, anunciada também a visita do Celso Amorim, aquele enviado especial do presidente Lula a Kiev. Portanto, acho que provavelmente será um ângulo também que Kuleba quererá explorar, ou seja, enfim, dimensões de apoio mais concretos em termos militares, nomeadamente a questão das munições, que é uma grande prioridade para a Ucrânia no contexto da ofensiva, de meios aéreos, e depois esta dimensão de apoio diplomático, ou seja, de procurar estabelecer aqui pontes, perceber melhor as preocupações e quais as melhores estratégias para lidar também com países no Sul global, países como o Brasil ou como Angola, que têm tradicionalmente relações relativamente fortes com a Rússia, que têm algumas reservas em relação também às posições do Ocidente e em particular dos Estados Unidos, mas também não fecham completamente as portas ao diálogo e países com os quais obviamente Portugal tem relações históricas próximas.
Por falar em diálogo, o presidente ucraniano na Arábia Saudita. O príncipe herdeiro diz que o país está pronto para mediar uma solução para o conflito. Zelensky convidou-o a visitar a Ucrânia. Pode a Arábia Saudita servir aqui de intermediária?
No fundo, temos aqui uma espécie de inflação de intermediários para umas negociações de paz que não existem. Temos o Brasil, temos a China, temos agora também a Arábia Saudita. É verdade que a Arábia Saudita, por exemplo, a Turquia tem mediado na questão dos ceares, mas por exemplo, a Arábia Saudita e os países do Golfo têm dado alguma ajuda na questão das trocas de prisioneiros. Inclusive, muitas vezes têm sido realmente o local onde se fazem essas trocas de prisioneiros e portanto, não é uma coisa completamente esfaratada. E a verdade é que a Arábia Saudita tem procurado assumir aqui uma postura mais autónoma, de maior independência no campo externo, de reação um pouco a uma certa perceção saudita de desinteresse, desinvestimento dos Estados Unidos em relação ao Médio Oriente e em relação à própria Arábia Saudita. Houve uma série de ataques, por exemplo, com mísseis de aliados do Irão, que não tiveram resposta, pelo menos não a resposta que os sauditas queriam por parte dos Estados Unidos e portanto isso criou aqui um certo capital de queixa. Ao mesmo tempo, a Rússia voltou a estar muito mais presente no Médio Oriente, nomeadamente a partir da intervenção na Síria em 2015. Isso de início criou algumas tensões, mas de forma muito pragmática, os líderes no Médio Oriente tendem a ser muito pragmáticos, e portanto isso levou também a um reforço das relações, a par de haver aqui um interesse convergente entre a Rússia e a Arábia Saudita, que é a questão do preço do petróleo. São grandes produtores e exportadores de petróleo, portanto, têm interesse em manter o preço elevado e portanto, no âmbito da chamada OPEP+, a Rússia, a par da Arábia Saudita, são os dois atores fundamentais. Isso dá à Arábia Saudita alguma capacidade de diálogo, eventualmente com os dois lados. Do meu ponto de vista, é sobretudo da parte saudita, uma tentativa de afirmar o seu protagonismo, deixar claro que está longe de estar isolada. Houve sobretudo aquele escândalo do jornalista Jamal Khashoggi, que foi assassinado, há suspeitas sólidas de que terá havido aqui envolvimento do próprio Estado saudita. Isso levou a um esfriamento de relações com os Estados Unidos e portanto, a Arábia Saudita também tem aqui interesse em mostrar que continua a ser ou é cada vez mais até um protagonista muito importante, inclusive neste campo da Ucrânia e portanto, que os Estados Unidos têm interesse também em não fechar completamente as portas, em não esfriar completamente a relação.
Bruno, há acordo no G7 para novas sanções contra o empreendimento bélico russo. No teu entendimento, parece que vão surtir efeito estas novas sanções?
Eu acho que há limites para aquilo que as sanções conseguem atingir e também há limites para o volume de sanções que depois conseguem implementar, inclusive há áreas em que é importante que elas não existam, por exemplo, na dimensão alimentar, até por causa do acordo de cereais e pelo impacto negativo que isso teria. Portanto, acho que aquilo que seria aqui fundamental era aumentar a eficácia das sanções que já existem, aumentar os mecanismos de controle, de evitar rotas de contrabando, de países terceiros que sirvam de intermediários, portanto, criarem mecanismos de controle. Isso parece mais importante do que anunciar novas áreas. Para já, não estou muito convencido que aquilo que foi anunciado venha a ter um impacto muito significativo e mesmo que tenha algum impacto, há também a questão da discussão dos diamantes, se isso terá ou não impacto, mas eu acho que não será mais um setor que vai fazer a diferença. E o grande problema das sanções é realmente este, que são sempre coisas que demoram tempo a produzir efeito, são vulneráveis a processos de adaptação, nomeadamente por via destas rotas de contrabando, mesmo que isso crie problemas, ou seja, demore mais tempo, seja mais difícil, seja mais custoso e, portanto, não é irrelevante para o esforço de guerra russo, não é irrelevante para as contas do Estado russo e há sinais claros de que estas sanções começam a pesar no orçamento de Estado. Por exemplo, houve quebras no setor da energia, nos lucros com a energia de quase 50% no primeiro trimestre deste ano e há aí claramente um impacto. Agora, ele nunca é absolutamente decisivo, nunca obriga um Estado que está empenhado a continuar a combater por um objetivo que considera que é vital, deixar de o fazer apenas por causa do custo económico, sobretudo quando estamos a falar de regimes autoritários, como é o caso cada vez mais da Rússia de Putin, em que é o líder que decide, é uma pequena elite que decide. Essa elite tem muitos recursos e pode perfeitamente aguentar estas sanções. A população, que é quem mais sofre, está muito limitada na sua capacidade de influenciar as decisões.
Para a semana vamos ter também uma visita do primeiro-ministro russo à China e havemos de falar disso também na próxima semana, fica prometido, Bruno Cardoso Reis. O Gabinete de Guerra termina os trabalhos por hoje. Estás de volta noutro espaço aqui na Rádio Observador amanhã, depois das 11h, com os Cinco Continentes. Bom fim de semana, Bruno.
Obrigado.