Depois de uma longa e difícil viagem de cerca de 19 horas, os habitantes de Oleshky que quiseram deixar a cidade ucraniana sob controlo da Rússia chegaram ao início da tarde deste sábado a território controlado pela Ucrânia. A missão incluiu o transporte por avião, comboio e dezenas de autocarros, e cruzou a Rússia e a Bielorrússia antes de chegar a solo ucraniano em segurança, numa operação que contou com a mediação dos Estados Unidos, em especial da primeira dama, Melania Trump.

Embora os números oficiais de cidadãos retirados de Oleshky (na região de Kherson) não tenham sido divulgados, estima-se que cerca de 750 pessoas tenham deixado a cidade que se encontrava há meses num contexto de muitas dificuldades e sem assistência. Segundo os organizadores, a recusa na divulgação dos números visa proteger aqueles que optaram por permanecer em Oleshky, bem como salvaguardar futuras missões humanitárias. A retirada só se tornou possível mediante um cessar-fogo local que deverá estender-se até domingo à noite.

O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, já saudou nas redes sociais a conclusão com sucesso desta operação humanitária. “Esperamos que o acesso humanitário a Oleshky se mantenha aberto. Além disso, as pessoas que precisavam de ser retiradas foram retiradas da cidade e da comunidade circundante. Até ao momento, os cidadãos ucranianos de Oleshky atravessaram a fronteira ucraniana na região de Chernihiv. Todos receberão a assistência de que necessitam”, escreveu Zelensky na rede social X.

Deixando um agradecimento direto a Melania Trump e aos EUA, o Presidente ucraniano realçou também o trabalho do Provedor de Justiça para os Direitos Humanos da Ucrânia, Dmytro Lubinets, denunciando simultaneamente a “catástrofe humanitária” no território sob ocupação russa. “Quando o mundo presta atenção, as pessoas são resgatadas. São também necessárias novas medidas no sentido da desescalada e de um progresso real rumo à paz”, finalizou.

Com bandeiras ucranianas sobre os ombros, os moradores desta cidade ocupada pela Rússia chegaram a território controlado pela Ucrânia e foram recebidos por familiares num local mantido em sigilo por motivos de segurança.

Aos cerca de 2.000 residentes que ainda permaneciam em Oleshky, na região de Kherson, foi dada a opção de seguir para território controlado pela Ucrânia ou pela Rússia, ou de permanecer na cidade, que recebeu um novo fornecimento de alimentos e artigos médicos. Os que optaram por regressar à Ucrânia foram levados para a cidade russa de Anapa e, daí, seguiram de avião para Homel, na Bielorrússia, de onde partiram em direção ao seu destino final.

No sábado, familiares aguardavam na fronteira entre a Ucrânia e a Bielorrússia, onde foram montadas tendas de assistência, pontos de distribuição de café e até mantimentos para alimentar os animais de estimação que as pessoas retiradas traziam consigo.

Liza Paliy, de 19 anos, estava entre as pessoas que aguardavam. Não via o pai há mais de dois anos e meio, desde que ela, a mãe e a irmã fugiram do território ocupado, enquanto ele permaneceu no local. “Nessa altura, pensávamos que demoraria um mês, no máximo dois, e que voltaríamos; mas, infelizmente, já passaram dois anos”, disse a jovem ucraniana.

Já Dmytro Lubinets descreveu a sexta-feira, que marcou o arranque da viagem, como o “dia pelo qual estas pessoas esperavam há tanto tempo”, ao notar a incerteza sobre a segurança e as condições climatéricas.

“Estas pessoas encontram-se agora em território controlado pela Ucrânia. À sua frente esperam-lhes o reencontro com os entes queridos, o apoio de que necessitam e a oportunidade de voltar a viver numa Ucrânia livre”, frisou, também numa publicação na rede social X, revelando que o cidadão mais velho a ser retirado tinha 94 anos, enquanto o mais novo tinha apenas um ano.