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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e connosco temos hoje Luís Tomé, professor catedrático, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa e investigador sénior do Instituto Português de Relações Internacionais. Bem-vindo, Luís Tomé. E começamos com uma notícia das últimas horas, o ataque israelita à única igreja católica na Faixa de Gaza. O governo israelita manifesta profundo pesar, mas também não assume qualquer culpa neste ataque. Ainda falta perceber aqui bem exatamente os contornos daquilo que se passou. Mas o que lhe perguntava é se o fato de haver um ataque contra um edifício católico pode ser significativo em todo este contexto deste conflito no Médio Oriente.

Boa tarde. Sim, é significativo, mas na verdade, Israel mantém a narrativa de sempre, porque o que diz é que está a investigar, que as circunstâncias não são claras, mas várias fontes, inclusivamente o próprio patriarca desta igreja em Gaza, responsabilizou de imediato as forças israelitas e um tanque israelita em concreto, o próprio Papa João XIV já se manifestou profundamente triste. E há inclusivamente até quem diga que o ataque pode ter sido um erro, mas também pode não ter sido um erro, porque de facto já não é o primeiro alvo cristão e menos ainda católico. Nós percebemos que, aliás, ainda no tempo de Papa Francisco, houve um contacto permanente com os católicos que ainda estão em Gaza. Há um crescendo de insatisfação dos cristãos e católicos com a situação trágica humanitária e com a forma como Israel tem estado a lidar com esta situação e, portanto, a tragédia continua sob várias formas ou é junto a um centro humanitário para entrega de comida ou escolas ou igrejas e infelizmente não vemos um fim próximo para isto.

Certo é que olhando mais para o terreno e para as frentes do conflito, Israel abriu uma nova frente com os ataques dos últimos dias na Síria, que entretanto também já pararam. Quer explicar-nos um pouco qual é que poderá ser o objetivo de Israel com esta operação e explicar-nos o que é que está também na génese desta decisão de Israel de atacar Damasco e a Síria?

Eu acho que há dois objetivos israelitas. O motivo próximo é o desencadear de conflitos. Nós temos assistido dentro da nova Síria a múltiplos conflitos em várias áreas do país entre as forças governamentais do novo líder al-Sharaa e vários tipos de grupos e milícias espalhadas pelo país. E recentemente houve conflitos designadamente na área de Sueza, maioritariamente ocupada por drusos e beduínos. E em socorro dos beduínos, as forças sírias de al-Sharaa atacaram drusos, que por seu lado pediram o apoio de Israel, e Israel atacou inclusivamente, como sabemos, a capital Damasco, não só o palácio presidencial, mas o quartel-general, instalações do Ministério da Defesa, dizendo que o está a fazer em defesa dos drusos e inclusivamente a exigir que as forças sírias retirem de toda a zona de Sueza. Sueza está ali mesmo ao pé dos montes Golã e por isso um dos objetivos manifestos de Israel, para além da tal zona tampão e defesa dos drusos, é expandir a área dentro da Síria que tem sob seu controle. Já tem os montes Golã, que aliás até os Estados Unidos de Trump reconheceram como parte da soberania israelita de forma ilegal, e agora Israel está a procurar criar uma nova zona tampão desmilitarizada por sírios em Sueza em defesa dos drusos. Os drusos são uma comunidade importante, não apenas nos montes Golã, mas dentro de Israel, em particular no norte de Israel. E são uma comunidade bem integrada e em particular dentro das forças de defesa israelitas. Há uma série de oficiais de alta patente que são drusos e, portanto, quer em defesa dos drusos, quer haver um objetivo de expansão do domínio territorial em território de outro Estado como é a Síria, estes são os objetivos estratégicos de Netanyahu associado a um objetivo interno, porque por causa deste escalado conflito na Síria, mais uma vez Netanyahu conseguiu a suspensão do seu julgamento ontem mesmo. Portanto, há razões de ordem interna sempre ligadas a objetivos de ordem externa de Netanyahu.

Podemos pensar que também é uma tentativa de desviar atenções, não é?

Sempre. Mas o fato é que quando Netanyahu tem dificuldades em manter a coesão do seu governo e em particular junto daqueles que ainda são mais radicais do que ele, os extremistas no seu próprio governo, ou quando está a braços com o julgamento de que é alvo, nós temos a intensificar ou escalar ou uma abertura de nova frente externamente, sejam os acontecimentos e a tragédia a que todos assistimos em Gaza, que já não tem nada que ver com legítima defesa, seja no Líbano, seja contra o Iémen, contra o Irão, agora contra a Síria. E, portanto, um rol compressor sempre a favor de Netanyahu, que vai tendo em conluio com a administração Trump, que na prática lhe dá carta branca e às vezes até parece atuar Donald Trump como uma espécie de proxy, como aconteceu no Irão, do próprio Netanyahu, e infelizmente isto perante a quase passividade da comunidade internacional.

Mas neste caso, no caso destes ataques à Síria, a resposta da comunidade internacional até foi relativamente rápida e estes ataques acabaram de forma célere. Houve aqui logo uma decisão célere de haver um cessar-fogo. Como é que isto também se explica?

Não, explica-se por duas razões: porque, por um lado, houve desde logo a compreensão de al-Shara, o líder sírio, de que não poderia estar a dar pretexto para Israel intensificar os seus ataques, e não eram só na região de Suweida, eram no próprio Damasco. Ele foi sensibilizado desde logo pelos turcos, mas pelos próprios Estados Unidos e alguns países árabes a não escalar para não dar esse pretexto ao primeiro-ministro Netanyahu. E há aqui uma intervenção de imediato da Turquia, que corria o risco de se envolver de uma forma mais direta em confronto com Israel, mas que assumiu aqui um papel de mediação e, portanto, como os próprios turcos disseram publicamente, dialogando com serviços de informações de vários países, com os próprios líderes da comunidade drusa na Síria e depois com americanos, israelitas e o governo sírio em funções, conseguiu este aparente cessar-fogo. Agora, nós sabemos que é um cessar-fogo muito tênue e que há várias partes interessadas em criar pretexto para de novo instigar um conflito armado.

Luís Menezes, vamos olhar também agora para o conflito entre a Rússia e a Ucrânia. O Parlamento ucraniano confirmou a nomeação de Yulia Svyrydenko como nova primeira-ministra. Qual a importância desta remodelação, desta mudança a nível da chefia de governo e não só, ao fim de penso que cinco anos que esteve no cargo o anterior primeiro-ministro?

Sim, é relevante porque, de facto, o primeiro-ministro anterior esteve bastante tempo e portanto poderá haver algum desgaste. Agora, aquilo que muitas fontes ucranianas vêm justificando nesta remodelação é uma jogada política de Zelensky colocando à frente do governo alguém que tem muito boas relações nos Estados Unidos, até porque participou nas negociações que resultaram naquele acordo sobre os recursos e os minerais ucranianos com a administração Trump. Ela é relativamente conhecida no exterior e pelo papel de ter sido também não apenas ministra da Economia, mas vice-primeira-ministra também conhecida internamente. Pelos vistos teve bastante acolhimento no próprio Parlamento, mas entra num período bastante exigente, quer como objetivo elevar para pelo menos 50%, como aliás Zelensky lhe pediu, produção de armas na Ucrânia para utilizar no campo de batalha. Neste momento são cerca de 40%, e portanto isto em seis meses é uma fasquia bastante elevada e acelerar, sobretudo, a cooperação económica com o aliado, sendo que como economista e hábil negociadora que já provou ser, provavelmente ela tem aqui algo que não é anunciado publicamente, mas o encargo de acelerar o processo de adesão da Ucrânia na União Europeia e, portanto, desenvolver todo o pacote de negociação, tendo em vista essa adesão e a reconstrução da Ucrânia. Estamos à espera de perceber exatamente qual é que vai ser a reconfiguração do resto do governo, por onde é que vai o Shmyhal, há quem diga que inclusivamente pode ir para embaixador ele ou o ministro da Defesa Umerov para Washington ou junto da NATO, mas é uma reconfiguração política num contexto delicado e exigente para a nova primeira-ministra.

Entra então uma declaração importante do ex-presidente russo Dmitry Medvedev. Disse que o Ocidente está a travar uma guerra total contra a Rússia e que Moscovo deve responder na totalidade e, se necessário, com ataques preventivos. Isto é uma ameaça ao Ocidente, Luís Menezes?

Não, é uma ameaça, isso é evidente. Agora, o que nós vemos é mais uma vez o jogo que há muito se faz, que eu diria que é praticamente desde o início da invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022, em que Medvedev é sempre aquela espécie de porta-voz ou de polícia mau, aliás, revelando uma faceta daquilo que é uma vertente de homens do Kremlin mais duros, que querem ir mais longe e mais depressa do que o próprio presidente Putin, mas faz parte da narrativa habitual. O essencial aqui é que nós estamos perante uma tragédia que se acumula sobre a Ucrânia, porque este aparente, como muitos chamam, volte face do presidente Trump, finalmente percebeu que Putin andava a ludibriá-lo ou a torreá-lo com alegado interesse no processo de paz. Há um falhanço inicial na estratégia de Trump, que deu quase tudo a Vladimir Putin, tentava afastar a Rússia da China, tudo isso falhou, mas na verdade, este aparente volte face coloca uma pressão ainda maior sobre a Ucrânia, porque ao reservar para ele, o presidente Trump, uma entrega indireta de armas através de compras por países europeus, significa que em qualquer momento Donald Trump pode dizer aos países europeus que afinal de contas são armas americanas que não podem já ser desviadas ou entregues ao governo de Kiev. E depois dá 50 dias para estas taxas secundárias de 100%, obviamente, sabendo que é um período em que a Rússia já estava e previa-se intensificar a ofensiva de verão. Portanto, isto significa dar para já a oportunidade à Rússia continuar a bombardear, a tentar avançar e a destruir a Ucrânia para depois, daqui a algum tempo, dizer que finalmente está novamente disposta a negociar, agora de boa fé, o tal cessar-fogo. E eu estou a crer que Donald Trump o que está à espera é de um qualquer sinal vindo de Vladimir Putin para que se encontrem, falem novamente e Donald Trump possa dizer que conseguiu o cessar-fogo, mas eu acho que ele espera um encontro pessoal. Recordemos que ele em maio disse que a questão da Ucrânia só se resolveria quando ele e Putin se encontrassem para o resolver. Portanto, é tudo uma jogada Para salvar a face de Donald Trump perante os seus MAGA, internamente e externamente, mas não há uma mudança de fundo nos objetivos estratégicos de Donald Trump para a Ucrânia.

Apesar de parecer que é isso. Parece que Donald Trump está a mudar um pouco o discurso em relação à Ucrânia, mas é só uma aparência, não sei entender.

O discurso muda, mas é um discurso que muda adaptando-se a um contexto que serve os objetivos estratégicos de Donald Trump, porque repare, ele com esta jogada anulou aquele compromisso bipartidário que havia das tarifas secundárias de 500% sobre os países que importem petróleo e gás natural ou urânio da Rússia. E anulou, porque ele em qualquer momento pode usar isso ou não. Ele ficou de decidir quando entender, pode estender o período para lá dos 50 dias, utilizar as tais tarifas secundárias a 100%. Ele condiciona os europeus, não só faz grandes negócios a vender armas, mas como são armas americanas, ele quando entender, obriga os europeus a não entregarem essas armas. Ainda vai demorar algum tempo até estar no terreno. Hoje mesmo a Alemanha disse que não tem noção daquilo que Trump disse ontem da entrega dos Patriots à Alemanha, ainda não tem conhecimento. Também isto não se anuncia assim publicamente. Mas seja como for, em qualquer momento, ele também pode dizer aos europeus, se de facto estiverem a ser canalizadas para a Ucrânia mais sistemas americanos, ele dizer: "Agora não permitimos, vamos dar uma oportunidade à paz". E isso acaba sempre por favorecer o jogo da Rússia e prejudicar a Ucrânia. Na verdade, o objetivo estratégico de Trump é um cessar-fogo, é poder cantar uma vitória, alcançar um cessar-fogo, uma qualquer paz, reivindicando que o fez com sucesso. Mas na verdade, vai sempre construindo um jogo e servindo uma narrativa que obrigará os ucranianos a cederem. E nesta fase, com este modelo, nós percebemos que a Rússia, até chegar às negociações, vai intensificar os seus ataques, vai procurar avançar ainda mais no terreno. E é esta a situação dramática em que os ucranianos se encontram.

Luís Tomé, muito obrigado pela sua análise. Eu sou o Luís Soares e este foi mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Obrigado, Luís Tomé.

Obrigado.