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Assim é, Nelson. Começamos com a possibilidade de os Estados Unidos virem a atacar o Irão. É uma possibilidade que tem pairado nos últimos dias e com mais insistência à medida que chegam ao Médio Oriente cada vez mais militares norte-americanos. Hoje, os funcionários da Embaixada dos Estados Unidos em Tel Aviv receberam um e-mail com uma recomendação para que deixassem o território. Bruno Cardoso Reis, boa tarde. Bem-vindo, mais uma vez, ao Observador. O que significa esta diligência? O que é que indicia, partindo do pressuposto que há essa possibilidade da intervenção militar norte-americana no Irão?
Esta questão da retirada do pessoal diplomático é tradicional quando há este risco de uma ação militar que possa pôr em perigo precisamente essas pessoas. No fundo, a expectativa é que, havendo um ataque americano, possa haver algum envolvimento israelita. Um ataque americano ao Irão, tal como aconteceu nos ataques em junho, que começaram pela iniciativa israelita, mas mesmo que neste caso a iniciativa seja sobretudo americana, que haveria algum envolvimento israelita, ou que mesmo que não haja, o Irão não deixará de retaliar contra Israel, porque sinalizou que uma das formas de responder a um ataque seria atacar os aliados dos Estados Unidos, que seriam vistos como cúmplices nessa agressão. Ora, o número um nessa lista de alvos entre os aliados dos Estados Unidos para o regime iraniano é certamente Israel. Basta lembrar que, desde 1979, na propaganda do regime, os Estados Unidos são o grande Satã, mas Israel é o pequeno Satã, ou melhor, a entidade sionista, uma vez que eles não reconhecem sequer o direito de Israel existir.
Não deixa de ser estranho, tendo em conta que ontem tivemos uma nova ronda negocial entre os Estados Unidos e o Irão. Há uma nova ronda negocial agendada pra próxima segunda-feira e o que ecoou da reunião de ontem é que até teria havido alguns avanços e alguma abertura por parte das duas partes nesta negociação.
Sim, isso mostra que realmente temos que ser muito prudentes e que não me parece que alguém que esteja a fazer uma análise séria possa dar garantias sobre o que é que vai acontecer, até porque, em última análise, da forma que estão as coisas nos Estados Unidos, muito mais do que no passado, nós não temos propriamente um processo institucional de tomada de decisão em relação a estas questões, muito menos com consulta ao Congresso, mas mesmo consultas internas, está tudo muito dependente claramente da pessoa Donald Trump e daquilo que são as suas intuições, as suas preferências, que podem mudar também de forma muito rápida. Portanto, parece-me que isto é um sinal de que realmente o risco de conflito armado continua a existir. A verdade é que não houve um acordo. É verdade que os mediadores, o Omã e o Irão fizeram declarações bastante positivas, mas também é do seu interesse fazer esse género de declarações, mas não ouvimos exatamente a mesma coisa do lado americano. E a verdade é que se tivermos em conta aquilo que eram as exigências, pelo menos as iniciais do Donald Trump, o próprio Irão já sinalizou que há uma série de áreas em que não vai ceder, ou pelo menos não vai ceder tanto como Donald Trump está a exigir. Portanto, a questão crucial é perceber se, no final, os dois lados conseguem declarar algum tipo de vitória que lhes permita também salvar a face e evitar o conflito armado. Também me parece que nenhum dos dois lados está muito desejoso de um conflito armado, sobretudo em grande escala. Mas é preciso recordar que, por exemplo, a Primeira Guerra Mundial também começou assim, com ninguém a querer um conflito armado em grande escala e depois acabou-se com uma das maiores guerras da história. Portanto, vamos ver se, tendo em conta que me parece que, de fato, os dois lados não querem um conflito em grande escala, se conseguem chegar aqui a algum tipo de compromisso, como eu digo, que permita declarar vitória a Donald Trump, mesmo que com um acordo que seja menos ambicioso que aquilo que ele está a exigir e que também permita ao regime salvar minimamente a face.
Temos, entretanto, um novo foco de instabilidade. O Paquistão declarou ter entrado numa guerra aberta com o Afeganistão. O que motiva esta intervenção das Forças Armadas paquistanesas?
Isto é bastante paradoxal, mas no podcast, nos cinco continentes que nós tentamos falar regularmente de conflitos realmente esquecidos, já várias vezes falamos destas tensões e de conflitos fronteiriços vários entre o Afeganistão e o Paquistão, nomeadamente em outubro passado. Depois houve um esforço de mediação, mas realmente é muito paradoxal neste sentido, que é os talibãs afegãos são muito vistos como uma criação do Paquistão. Eu acho que isto, mais uma vez, demonstra que esta ideia de que há marionetas, portanto, que estes grupos armados são simplesmente instrumentos de Estados mais poderosos, muitas vezes não é correta. É, por regra, sempre um exagero, mas é verdade que houve aqui uma aliança de décadas entre os militares paquistaneses e os talibãs, que foi entre os milhões de refugiados afegãos, entre os estudantes nas madraças, nas escolas islâmicas paquistanesas que foram recrutados os talibãs, muito como um grupo próximo do Paquistão no contexto da guerra civil que segue a retirada soviética do Afeganistão em 1979 Em 1989 e a partir de 1989, há este paradoxo. O que aqui parece bastante claro é que realmente o Paquistão alimentou um monstro e está agora a provar do seu próprio veneno. O Paquistão foi crucial, nomeadamente nos 20 anos da guerra entre os Talibã e os Estados Unidos e os seus aliados, foram cruciais a continuar a apoiar clandestinamente os Talibã. Foi esse santuário paquistanês que explica que os Talibã nunca tivessem sido rotados. Mas agora é o Paquistão que se queixa de que os Talibãs estão a apoiar o terrorismo no interior do Paquistão. Ou seja, basicamente, há um grupo dos Talibã paquistaneses que são etnicamente e em termos religiosos, muito alinhados com os Talibãs afegãos, também são por regra pastuns, e que estão a combater o regime de Islamabad. De facto, o Paquistão acabou por criar, como eu digo aqui, um monstro que achava que controlava, mas que claramente escapou ao seu controle. Ainda por cima, e para terminar, nos últimos meses, houve uma aproximação até pública, entre os Talibã e a Índia, ou seja, o grande inimigo histórico do Paquistão. Tivemos também há meses atrás, um conflito inclusive aberto, mais um, entre a Índia e o Paquistão e portanto, isso é mais uma razão que leva aqui o Paquistão a estar muito preocupado com o que se está a passar no Afeganistão e portanto a fazer ataques numa escala que ainda não se tinham vista, bombardeamentos a Cabul, a Kandahar. Isto em resposta também a ações dos Talibã, também declaradas publicamente, dos Talibãs afegãos contra postos fronteiriços paquistaneses.
Relativamente ao poderio militar, tem o regime afegão capacidade para responder e defender-se destes ataques do Paquistão?
À partida, temos a mesma situação que em relação aos Estados Unidos, ou seja, as Forças Armadas paquistanesas são muito mais fortes em termos de capacidades militares, por exemplo, aéreas, em termos de tecnologia militar avançada. Agora, a questão, o problema é que há uma fronteira de quase 2500 km em zonas montanhosas, muitas vezes de acesso muito difícil com qualquer tipo de meio convencional. E é exatamente nessas zonas de fronteira que os Talibã paquistaneses estão ativos. Quando fazem ataques, depois refugiam-se do outro lado da fronteira, no Afeganistão, e portanto, isso é muito difícil de eliminar com bombardeamentos a Cabul ou com esses meios militares mais convencionais. Portanto, é exatamente o mesmo problema que, no fundo, os Estados Unidos e os seus aliados acabaram por ter, que agora, como eu dizia, o Paquistão acaba por estar, de alguma forma, a provar o seu próprio veneno. Vamos ver, obviamente, a ideia do Paquistão é fazer pressão sobre os líderes talibãs afegãos e tentar ver se com essa pressão, se realmente consegue que eles controlem um pouco estas infiltrações. Mas se a história nos serve aqui de guia, isso muitas vezes não funciona.
Há o risco de termos aqui uma guerra de grandes proporções entre estes dois países?
Eu penso que é significativo que o ministro da Defesa tenha dito. Acho que é a primeira vez que se declara guerra por via do Twitter. Geralmente, eram os parlamentos e uma coisa mais formal, mas temos o ministro da Defesa paquistanês a dizer: "Estamos abertamente em guerra". Aparentemente, há aqui assumida esta ideia de que vai haver uma escalada no intensificar do conflito. Temos de acreditar nisso, até porque, como eu digo, os dados apontam nesse sentido. Tivemos ataques, zonas que não tinham sido atingidas até aqui, com uma intensidade que não tínhamos visto, também conflitos na fronteira com uma intensidade, com números de baixas, dezenas e dezenas de baixas que não tínhamos visto até aqui. Agora, daí haver uma espécie de invasão do Afeganistão pelo Paquistão, isso já me parece menos provável, até porque os paquistaneses também saberão que teriam, mais uma vez, o mesmo problema que os Estados Unidos e os seus aliados. Ou seja, uma coisa é ocupar Cabul, outra coisa é conseguir depois controlar o Afeganistão contra uma força de guerrilha muito experiente, com décadas e décadas de experiência nesse tipo de conflito irregular. Portanto, parece-me mais provável que, apesar de tudo, com mais intensidade, mas que seja mais esta questão de conflito na zona de fronteiras, eventualmente mais ataques aéreos. Também vamos ver se há aqui algum tipo de iniciativa de paz, de atores regionais, por exemplo, atores como a China, a quem não agrada também a destabilização desta vizinhança próxima. Isto são dois países que fazem fronteira, por exemplo, diretamente com o extremo Ocidente chinês, com a zona do Xinjiang, em relação à qual a China, por exemplo, tem particulares preocupações.
Bruno Cartaxo Soares, obrigado pela tua análise a estes factos mais recentes relacionados com esta possível intervenção militar dos Estados Unidos em território iraniano, com a informação de que os funcionários diplomáticos da Embaixada de Israel receberam uma recomendação para deixarem o território e também pelo ataque desta madrugada com recurso a mísseis por parte do Paquistão ao Afeganistão. Vários edifícios foram destruídos. Há também a indicação de combates na zona de fronteira entre os dois países. Amanhã voltamos a abordar os temas da atualidade internacional em Cinco Continentes.