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O nosso próximo convidado, Victor Angelo, antigo Secretário-Geral Adjunto das Nações Unidas.

Muito obrigada por se juntar também, Victor Angelo, a esta emissão especial. Temos de lhe perguntar inevitavelmente, até posso começar já por aí, o papel da ONU nesta situação, tendo em conta este ataque que pode durar, numa fase inicial, quatro dias, pelo que vamos percebendo, mas pode durar várias semanas.

Bom dia e muito obrigado pelo convite. Provavelmente, penso que terão lido o meu texto de ontem no "Diário de Notícias", em que eu previa que nas próximas horas este ataque teria lugar. E na realidade, o ataque começou esta madrugada e a minha previsão estava correta. Isto por quê? Porque, na realidade, estava tudo em preparação, quer do lado dos Estados Unidos, quer do lado de Israel, para que se procedesse a esta operação militar que hoje aconteceu.

Percebemos que o porta-aviões norte-americano chegou ontem à costa israelita, havia vários sinais de que isto podia, de facto, acontecer, mas também estavam negociações em curso.

Exatamente, mas as negociações, como eu disse no meu texto de ontem, as negociações e o próprio discurso do Estado da União eram apenas manobras de diversão para chamar a atenção para outras coisas e desviar as atenções daquilo que, de facto, estava a ser preparado para as próximas horas e não para os próximos dias ou para as próximas semanas, mas para as próximas horas no que diz respeito à situação no Irão. E foi isso que veio a acontecer. E curiosamente, o presidente dos Estados Unidos fala pela primeira vez numa questão de mudança de regime. Ou seja, há aqui uma intenção bastante clara de alterar completamente a ordem política no Irão. E é essa a intenção, quer dos Estados Unidos, quer de Israel.

E pode ser bem-sucedida essa intenção?

É muito difícil dizer. Nós estamos a falar de um país que é um país enorme, é um país que tem uma capacidade militar, apesar de tudo, relativamente importante e os Estados Unidos entraram numa operação que pode ser muito complicada. Isto não é a Venezuela, isto não é um ataque contra uma das pequenas ilhas do Mar das Caraíbas. Isto é um ataque contra um país que tem uma capacidade em termos de mísseis, uma capacidade em termos de Forças Armadas e em termos de outros meios, nomeadamente drones, que fazem com que o Irão seja um osso duro de roer. Agora, a sua questão sobre as Nações Unidas, perguntou-me sobre as Nações Unidas. As Nações Unidas não vão poder fazer qualquer tipo de intervenção ou promover qualquer tipo de negociação entre os Estados Unidos e as autoridades do Irão nesta fase. É evidente que mais tarde, quando a operação militar chegar ao seu termo, é evidente que haverá um processo negocial. Há sempre um processo negocial e provavelmente esse processo negocial será um processo bilateral entre os Estados Unidos e as novas autoridades iranianas e novamente as Nações Unidas serão excluídas desse processo. As Nações Unidas na próxima semana, na segunda-feira, vão discutir no Conselho de Segurança das Nações Unidas a questão das crianças-soldado. A sessão será presidida pela esposa do presidente norte-americano, Melania Trump. E como vê, estamos a falar nas Nações Unidas de questões completamente diferentes, muito distintas de uma situação gravíssima, que é aquela que existe neste momento no Médio Oriente e em toda aquela parte da Ásia.

Victor Angelo, uma questão que também tem sido muito aprofundada ao longo dos últimos dias é a questão da Base das Lajes. O acordo é público e é claro, se a missão não estiver ligada à NATO ou a uma organização internacional apoiada por Portugal, só pode ser utilizada com autorização prévia. Caso se confirme, é mais uma violação clara dos Estados Unidos.

Isso é um problema que o governo português terá que resolver. Eu não me quero meter nas questões do governo português. Como sabe, eu faço comentário internacional. Estive muitos anos, muitas décadas fora da política portuguesa e por isso não tenho capacidade para criticar ou para analisar a política portuguesa. E por isso deixarei isso a quem sabe o que se passa em Portugal, como é que funcionam as relações entre os políticos portugueses e nomeadamente quem faz análises sobre a força ou fraqueza do nosso governo. Eu não me quero de modo algum meter nisso.

Deixe-me então aproveitar, Victor Ângelo, só para dizer que houve explosões na Arábia Saudita, em Riade. Estamos a dar conta disso no site do Observador. Terão sido atacadas bases militares dos Estados Unidos no Qatar, no Bahrein, nos Emirados Árabes Unidos e também no Kuwait, sendo que é uma informação que não foi confirmada oficialmente por nenhuma das partes, mas é o que está a dar conta a agência noticiosa iraniana Mehr. Temos aqui, Victor Ângelo, indicação de que vários países podem envolver-se neste conflito mais directa ou indirectamente.

Estes ataques estavam previstos. Os iranianos tinham várias vezes falado neles. Eu próprio, nas minhas análises, tinha confirmado o facto de que aquilo que os iranianos estavam a dizer era para levar a sério e a verdade é que esses ataques estão a acontecer. E isso leva-me a um outro ponto, que eu também já mencionei várias vezes, que é o seguinte: isto não é apenas um conflito entre os Estados Unidos e Israel de um lado e o Irão do outro. Isto é um conflito que diz respeito a toda a região, uma das regiões mais importantes na geopolítica internacional, sobretudo tendo em conta a produção de petróleo e de gás que vem daquela parte do mundo. Ou seja, esses ataques de que está a falar, na Arábia Saudita, nos outros países vizinhos do Irão, são ataques que eram previsíveis e que estavam a ser preparados pelo Irão, e que os Estados Unidos, e não só os Estados Unidos, os próprios países da região, tinham perfeita consciência que iriam acontecer. Aliás, eu várias vezes disse e repeti aquilo que os dirigentes desses países disseram. Eles não queriam, de modo algum, que houvesse uma confrontação entre os Estados Unidos e o Irão, porque sabiam que mais tarde ou mais cedo essa confrontação se alargaria a toda a região.

Também ia chegar a eles. O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Irão fala, entretanto, Victor Ângelo, num grande teste da história. É de facto perante isso que estamos?

É um teste importante em 2026. Já houve grandes testes da história nos anos passados e no passado relativamente recente. Este é, de facto, um teste importante, até porque nós esquecemos de que ao lado do Irão há um outro conflito que também está em curso, que é o conflito entre o Afeganistão e o Paquistão. Esquecemo-nos do facto de o Paquistão ser um país com armamento nuclear, ou seja, há toda uma região que vai muito para lá da Península Arábica, vai muito para lá do Golfo Pérsico e que abrange também países importantíssimos da vizinhança, nomeadamente o Paquistão, que é um dos países, e nós muitas vezes esquecemo-nos disso, que tem uma força armada extremamente poderosa, numerosa e muito bem equipada.