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Gabinete de Guerra, Rádio Observador. Vamos falar de conflitos em curso, com destaque para a Ucrânia e para a Faixa de Gaza. Conosco hoje está o Major-General Isidro Morais Pereira. Eu sou o Miguel Cordeiro e vamos começar por decisões a nível europeu. Major-General Isidro Morais Pereira, os ministros dos negócios estrangeiros europeus desbloquearam um novo apoio à Ucrânia, apoiam o uso de receitas de ativos congelados russos para ajudar militarmente a Ucrânia. Isto já tinha sido discutido há algumas semanas, agora teve luz verde.
Sim, já há umas semanas que se discutiu esta questão em conjunto com um envelope mais substantivo de apoio à Ucrânia. Nós sabemos que a União Europeia tem um orçamento próximo dos 200 mil milhões globalmente e aprovou pra Ucrânia um pouco mais do que 10 mil milhões no global. E neste caso, essa situação da utilização do resultado líquido dos lucros dos bens congelados da Rússia, era uma questão que vinha sendo discutida há largos meses, há mais de um ano, quer na Europa, no quadro da União Europeia, mas no quadro europeu, quer também nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, neste aspecto, acabou por andar mais rápido, tomar decisões mais rápidas e acabou por influenciar também a União Europeia. Portanto, tudo indica que em sede de reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia, foi finalmente decidido que cerca de 1,4 mil milhões de euros, exatamente daquilo que eu referi, de lucros provenientes dos ativos congelados da Rússia, serão utilizados para ajudar a Ucrânia, fundamentalmente na obtenção das armas que necessita para se defender, porque eu aqui gostaria de citar, inclusivamente, o ministro Kuleba, o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, que ainda há bem pouco tempo proferiu: "Faz todo sentido começarmos a conversar na reconstrução da Ucrânia, mas a melhor forma de reconstruirmos a Ucrânia, embora isto pareça um paradoxo, é evitar que ela seja destruída". E para evitar que ela seja destruída, aquilo que o Kuleba diz é que é preciso fornecer, tanto quanto possível, mais meios de defesa antiaérea e mais meios militares para que a Ucrânia possa continuar a defender aquilo que é seu e reconquistar o seu território.
Sim, e agora essa luz verde.
Isto há luz verde, muito embora tenha havido uma objeção clara por parte do ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria.
Sim.
No entanto, em sede da União Europeia, estão a ser encontrados, naturalmente, os mecanismos legais para que esta objeção da Hungria não tenha qualquer efeito e para que este descongelar destes 1,4 mil milhões de euros, resultado dos lucros dos juros dos ativos congelados da Rússia, possa de fato ser disponibilizado. Aliás, a ideia é disponibilizar estes montantes o quanto antes. Falava-se numa meta até setembro, quer nos Estados Unidos, quer na União Europeia, para que à Ucrânia não faltem os meios necessários para poder continuar essa sua defesa contra esta agressão ilegítima de que foi alvo.
Entretanto, tivemos bombardeamentos na Crimeia, com a utilização de mísseis norte-americanos. A Rússia convocou o embaixador dos Estados Unidos da América para discutir esta situação. Cria aqui um conflito diplomático, este ataque na Crimeia?
Isto até me parece algo ridículo. Quer dizer, como é que o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia convoca a Lynne Tracy, que é até uma senhora, que é a embaixadora dos Estados Unidos em Moscovo, e a mensagem que lhe transmite, tanto quanto consegui apurar, é que a responsabilidade é bipartida. Quer dizer, este ataque, que é um ataque real, que foi efetuado em instalações e objetivos militares localizados na Crimeia ocupada pela Federação Russa. No fundo, foram seis mísseis táticos do exército, vulgarmente conhecidos por ATACMS, que foram utilizados para destruir objetivos militares de vários tipos. Curiosamente, há um dos mísseis que é interceptado pelos sistemas que ainda remanescentes da defesa antiaérea russa na Crimeia e curiosamente há um deles que tinha uma ogiva cluster e foram algumas das munições cluster, que são centenas delas, acabaram por distribuir-se numa praia onde havia veraneantes russos e causou algumas mortes. Agora, a verdade é que, à luz do direito internacional, se alguém pode ser acusado deste ataque ou responsabilizado por este ataque, é quem dispara. Não é quem fornece. Porque à luz do direito internacional é exatamente assim. Quer dizer, isto é ridículo quando a Rússia efetuou ataques já sem conta, incontáveis ataques utilizando drones fornecidos pelo Irã, mísseis fornecidos pela Coreia do Norte, munições de artilharia fornecidas pela Coreia do Norte, algum material russo que foi fabricado com material chinês. Quer dizer, isto parece não fazer sentido. Isto é mais uma tentativa desesperada de Moscovo De quebrar esta onda a que estamos a assistir, finalmente uma onda feliz para a Ucrânia, em que vemos a grande maioria dos responsáveis pelos países ocidentais a eliminarem as restrições de emprego às armas que fornecem à Ucrânia. A seu turno, os Estados Unidos ainda não eliminaram por completo essas mesmas restrições, mas estão a caminho de o fazer. Parece não fazer sentido. Isto é algo que naturalmente a embaixadora norte-americana em Moscovo vai ouvir com muita atenção, mas isso não vai ter qualquer influência em futuros ataques que a Ucrânia vá efetuar sobre a Crimeia ocupada utilizando este tipo de armamento. Não vejo que isto faça qualquer tipo de sentido.
Claro. Major-General Isidro Morais Pereira, falemos de Gaza, até porque há declarações recentes de Netanyahu, uma entrevista na televisão em que diz que a guerra vai continuar mesmo com o acordo de cessar-fogo. O que tiramos dessas palavras de Netanyahu?
Não tiramos nada de novo. Nós sabíamos qual era a posição israelita ou do governo israelita. Aquilo que podemos concluir, desde já, é que a garantia de um cessar-fogo definitivo não está minimamente no horizonte de trabalho dos negociadores israelitas, como nós sabíamos. Aliás, uma primeira tentativa de alterar a minuta israelita foi feita pelo Egito, como nós sabemos, com o resultado que também conhecemos, ou seja, não serviu rigorosamente nada, porque houve alterações inaceitáveis pelo Egito naquilo que eram as pretensões de Israel. Israel, um dos aspetos que não quer negociar é um cessar-fogo definitivo. Aliás, nós sabemos essa posição. Portanto, nada que a gente já não soubesse. E até mais. A eliminação da capacidade bélica do Hamas ou das suas Brigadas al-Qassam é um dos objetivos desta guerra. Netanyahu tem sido absolutamente claro. Aliás, a própria sobrevivência do seu executivo depende do cumprimento deste objetivo. Portanto, penso que aqui não há nada de novo quanto à posição israelita. Nós sabemos, e ela é conhecida, é que Israel concorda com um cessar-fogo naturalmente limitado, que pode ir até às seis semanas, ao fim de seis semanas discute-se novamente, pode ser prorrogado por mais dois períodos alargados, mas em nenhuma situação, até hoje, foi dito por qualquer alto dignitário do governo israelita que concordaria com um cessar-fogo definitivo.
Sim.
Julgo que não há aqui grandes novidades, penso eu.
E continuam os ataques cirúrgicos também. As forças de Israel anunciam que conseguiram matar um membro sênior do Hamas em Gaza.
Exatamente.
Mohammad Salah. E portanto, são operações que Israel vai continuar a fazer, a tentar abater as principais lideranças do Hamas.
Mohammad Salah é uma figura proeminente do braço armado do Hamas na Faixa de Gaza, como nós sabemos, assim como é Yahya Sinwar e o seu filho. Neste tipo de organizações de caráter terrorista, as lideranças têm um aspecto com muito mais importância do que propriamente exércitos convencionais. Mas veja-se o caso de Osama bin Laden. A Al-Qaeda e a forma como os Estados Unidos levaram a cabo operações na tentativa, durante anos, de encontrar Osama bin Laden e decapitá-lo. E de facto, decapitar as lideranças deste tipo de movimentos tem sempre um efeito negativo sobre as mesmas. Mas isto significa o fim desse tipo de organização? Não me parece.
Sim.
Até porque essas organizações têm sempre uma cadeia de comando definida, exatamente como têm os exércitos regulares. Portanto, há um líder de alto nível ou mais importante, o homem que vem a seguir acaba por o substituir. Mas dito isto, penso que sempre que-- aliás, eu julgo que se a notícia tivesse sido "conseguimos atingir Yahya Sinwar", o impacto que teria sobre a capacidade de combate das Brigadas al-Qassam ainda era muito maior do que este líder.
Mohammad Salah. Major-General Isidro Morais Pereira, muito obrigado por ter estado conosco nesta edição do Gabinete de Guerra.
É um gosto, é sempre um gosto.