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Abrimos mais um espaço do Gabinete de Guerra, precisamente uma semana depois da Rússia ter invadido a Ucrânia e fazemos um ponto de situação às operações militares no terreno. Está agora conosco a jornalista do Observador, Beatriz Ferreira. Olá, Beatriz, bom dia. Obrigado por te juntares a nós. Beatriz, no meio de tanta informação e contrainformação, consegue-se saber o que a Rússia já conquistou realmente?

A Rússia parece estar a intensificar, neste momento, bombardeamentos em várias cidades ucranianas e nas últimas horas surgiu a notícia de que as tropas russas conseguiram controlar a cidade de Kherson, que é uma importante cidade portuária junto ao Mar Negro, a noroeste da Crimeia, tem cerca de 300 mil habitantes, isto antes da guerra. Já na manhã de ontem, o Ministério Russo tinha anunciado ter tomado controle da cidade. A Ucrânia depois vai desmentir esta informação, mas hoje de manhã e nas últimas horas, têm surgido notícias de que a cidade cedeu e que estará sob controle russo. Outro alvo das tropas russas é Kiev, a capital. Nas últimas horas foram ouvidas pelo menos quatro explosões, mas tem sido aqui um ponto da resistência ucraniana. Apesar desta noite terem sido ouvidas várias sirenes, mantém-se efetivamente nas mãos ucranianas. É para ali que se dirige uma coluna militar russa que se estende por cerca de 65 km.

Beatriz, desculpa interromper, porque nós estamos a falar dessa coluna militar já há pelo menos dois dias e que se aproximava. Está a demorar tempo a chegar à capital ucraniana. O que está a acontecer? É a estratégia russa ou há dificuldades no terreno? Consegue-se perceber?

As últimas informações que surgiram dos serviços de inteligência do Reino Unido davam conta de que esta coluna estava a 30 km de Kiev. Mas também, como dizias, nas últimas horas há relatos de que há aqui alguns problemas e que não está a avançar como estava até aqui. Há relatos de que está parada esta coluna há várias horas, fala-se em problemas de abastecimento, por exemplo, falta de combustível, falta de alimentos, e portanto estará a avançar agora apenas muito lentamente em direção a Kiev. Este contingente de caminhões partiu de Ivankiv, que está a mais de 60 km a noroeste de Kiev, estará perto, segundo as últimas informações, da zona do aeroporto de Hostomel, que está há dias a ser bombardeado pelas tropas russas, mas que permanece em mãos ucranianas e é outro ponto de resistência. Aliás, logo na quinta-feira, no primeiro dia do conflito, as tropas russas chegaram a controlar o aeroporto, mas depois o exército ucraniano conseguiu recuperá-lo. Segundo o "El País", que cita um think tank norte-americano que se dedica a estudos na área da defesa, as tropas russas poderão estar a preparar um cerco a Kiev em três direções. Tanto a norte ou a oeste, precisamente a partir desta coluna militar, ou então a partir do leste, caso partam as tropas dos territórios já conquistados perto de Chernihiv, que fica mais na zona norte, que podem encontrar-se depois com as forças que avançam desde Sumy, que está junto à fronteira nordeste com a Rússia.

Portanto, quando se fala num cerco à cidade, não é uma tomada imediata da capital ucraniana, mas é um desgaste que se pretende fazer à resistência que está ainda em Kiev.

Sim, este think tank fala nisso, dessa possibilidade de ser feito esse cerco também como uma forma de pressão. Depois há aqui uma outra cidade também de destaque, que é Kharkiv, que tem sido também um dos focos de confronto. É a segunda maior cidade da Ucrânia. Antes da guerra, por exemplo, tinha cerca de 1,4 milhões de habitantes, está muito próxima da fronteira com a Rússia. A informação que estava a ser veiculada ontem era de que as tropas russas conseguiram entrar na cidade, depois de vários dias de cerco e de ataques com bombardeamentos, mas que Kharkiv é, nesta altura, um alvo de uma luta pelo poder. Foi aliás noticiado que um prédio foi atingido na região e que provocou a morte de oito pessoas, duas delas são crianças. Na noite anterior, por exemplo, outro ataque tinha levado à morte 21 pessoas. Estes ataques até visaram a praça central e também o edifício da Câmara Municipal. Aqui mantém-se este confronto e também a resistência das tropas ucranianas. Depois há Mariupol, outra cidade que está na mira das tropas russas.

Muito estratégica também.

Exatamente, está no sul da Ucrânia. É estratégica, como dizias, no sentido em que une duas zonas que já estão sob domínio russo, Donbass e a Crimeia. Os bombardeamentos já causaram pelo menos 120 feridos. Os serviços de inteligência do Reino Unido dizem que além de Kharkiv, de Kiev e de Mariupol, há um outro alvo principal, que é Chernihiv, que está localizada a cerca de 150 km a norte de Kiev, e onde nas últimas horas o exército da Rússia também tem intensificado os bombardeamentos. Sob controle russo estará já, além de Kherson, como falávamos, também Berdyansk, que é uma cidade portuária que tem cerca de 100 mil habitantes, ou que tinha antes do início da guerra, e que está perto de Mariupol, e também Makariv, que está a cerca de 60 km de Kiev. E ontem ficou a saber-se que as forças russas também já controlam a central nuclear de Zaporizhzhia, que é a maior da Europa, é também uma das maiores do mundo, isto já depois de terem chegado a Chernobyl, é a segunda central nuclear conquistada pela Rússia na Ucrânia.

Percebemos que há aqui uma estratégia russa. Onde é que fica, e foste falando, Beatriz, disso mesmo, mas onde é que está a resistência ucraniana, onde é que ela está a resistir e a provocar mais embaraços às tropas russas?

Eu diria que o aeroporto de Hostomel, porque está muito próximo de Kiev e poderá ser um ponto de passagem destas tropas. Também, como eu dizia, Kharkiv também está a resistir. Kherson resistiu muito tempo.

Até esta madrugada.

Até esta madrugada em que foi realmente confirmada essa tomada pelas tropas russas. Mas neste momento, também Kharkiv, Mariupol, onde também há muitos confrontos. Diria que estes são os principais locais onde há essa resistência. Falava-se também de Odessa, onde têm existido também vários bombardeamentos. Tem-se falado muito do aeroporto de Gostomel, que tem sido um dos pontos que já foi tomado pelas tropas russas e que agora voltou a ser controlado pelos ucranianos.

Estamos a falar de um período muito curto quando olhamos para um conflito militar, é uma semana exactamente hoje. Já se percebe se a estratégia militar russa foi sendo alterada. A ideia é conquistar pontos estratégicos do país e não propriamente tomar o território todo. Há alguma certeza sobre o que pretende exatamente Moscovo neste momento?

Daquilo que eu vejo e daquilo que está também a ser veiculado, um dos alvos principais será, nesta altura, Kiev, onde há vários bombardeamentos. Ao longo da noite foram noticiadas as sirenes a tocarem em Kiev e portanto é para aí que se dirige essa coluna militar, é um local onde também as tropas ucranianas já estão preparadas para receber esta coluna militar russa e eu diria que nos próximos dias, obviamente, se esta coluna evoluir como estava a evoluir até aqui, se estes problemas de abastecimento não a impedirem, será um dos principais focos da estratégia russa com esta coluna de cerca de 60 km, se bem que alguns especialistas dizem que não são bem 60 km, porque há um grande espaçamento entre as viaturas segundo as imagens de satélite, mas que será para aí que está virada a estratégia russa.

A jornalista do Observador, Beatriz Ferreira, com o ponto de situação às operações militares na Ucrânia, uma semana depois do início do conflito. Beatriz, muito obrigada por este ponto de situação.

Obrigada. Até já.