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Abrimos o Gabinete de Guerra para falar da forma como as imagens da guerra na Ucrânia podem estar a afetar os mais jovens. Professores e psicólogos estão a apoiar os alunos de escolas portuguesas por causa desta guerra. Para falarmos sobre este assunto, convidamos Sofia Ramalho, da Ordem dos Psicólogos Portugueses, e também Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Agrupamentos de Escolas Públicas. Muito obrigado a ambos por se juntarem a nós.
Obrigada.
Sofia Ramalho, que tipo de impacto é que esta guerra na Ucrânia pode ter nas crianças?
O impacto varia muito das idades das crianças, por um lado, varia também em função da sua experiência anterior, ou seja, se temos crianças com algum tipo de vulnerabilidade que tenha resultado, por exemplo, de uma vivência menos positiva da pandemia ou de outras vivências de perdas anteriores e que possam ficar mais afetadas e mais chocadas com esta informação sobre a guerra, com as imagens, com a vinda de colegas ucranianos e a entrada desses colegas na escola. E depende também do fator exposição das crianças a todas as imagens e a tudo que é dito nos meios de comunicação social e nas redes sociais. Daí que temos vindo a aconselhar, de facto, uma certa dieta de notícias e que, para além dessa dieta de notícias, haja aqui um diálogo com os pais e que os próprios pais também façam essa dieta para não expor mais do que uma vez as crianças e os jovens às notícias e possam conversar com eles sobre este assunto para poder esclarecer tópicos, esclarecer dúvidas, porque as crianças fantasiam e, às tantas, aquilo que está a acontecer na Ucrânia pode-lhes parecer que está a acontecer mesmo e que pode acontecer a qualquer momento dentro da sua própria casa.
Portanto, sugere um acesso, não direi condicionado, mas pelo menos regrado ao consumo de imagens que chegam da Ucrânia.
Sim.
Filinto Lima, quando falamos de crianças, falamos também obrigatoriamente da escola. Que papel é que também a escola pode ter neste processo, nesta dieta de informação que a Sofia Ramalho estava aqui a sugerir?
Sim, as escolas públicas também estão bastante preocupadas com as imagens que repetidamente passam nos ecrãs e a que todos nós temos acesso ou pela televisão ou pela internet. E aqui o que se recomenda também é o maior controle parental em relação àquilo que os nossos jovens estão a visualizar, sobretudo aquelas imagens horrorosas, que todos os dias, a toda hora, a todo momento, nos aparecem nos ecrãs. Estes alunos muitas vezes veem as notícias sozinhos, sem qualquer apoio ou acompanhamento parental e, portanto, não conseguem filtrar a veracidade ou o conteúdo das mesmas notícias. É preciso que os pais estejam muito atentos. Nós, escola pública, estamos atentos a este fenômeno, estamos atentos a indícios que dele possam surgir em relação aos nossos alunos. Sensibilizamos nas diversas disciplinas para as imagens que são transmitidas de uma forma profunda e há que estar atento também, neste caso particular, àquilo que é visionado pelos nossos jovens, quer pelas televisões, quer num acesso mais fácil e mais global, que é através da internet.
Sendo que agora há um desafio maior, porque todas as crianças, ou pelo menos muitas crianças, receberam nas últimas semanas e nos últimos meses computador, dado pelo governo português. Portanto, há um maior risco ou pelo menos há uma maior exposição a todo um universo de falsas notícias, redes sociais, mentiras, imagens manipuladas. Filinto Lima, isso obriga as escolas a um trabalho suplementar.
É verdade. Ainda há dois anos, no nosso país, estávamos a falar uns com os outros que não havia material digital, não havia nada. Agora há tudo. Agora, quer dizer que nós temos até nas escolas o excesso ou quase excesso de material digital, até porque alguns pais, por motivo que só eles saberão explicar, não querem o material digital, os computadores com internet que o Ministério da Educação facultou. Mas é um pau de dois gumes, é um bico de dois gumes, realmente. Também temos que ensinar os alunos a saber usar os instrumentos de trabalho que, neste caso concreto, a tutela dispõe para que as aulas sejam mais motivadoras. Portanto, eu acho que a entrega de computadores aos alunos é positivo. Eles também devem saber usar. Nós, escola pública, fazemos o nosso trabalho. Aquilo que se pede também é o maior controle parental. Os pais lá em casa também se debrucem sobre o modo como os filhos usam o material digital que as escolas colocaram ao seu dispor.
É um facto. Só para complementar, este acesso também acontece nos intervalos, com o uso de telemóveis, e as crianças cada vez mais novas começam a ter acesso a telemóveis, e acontece também em casa. É um facto que a escola deve ter aqui um papel educativo, mas também as famílias têm que ter este papel educativo, controlando aquilo que é o acesso, sobretudo quando estamos a falar de crianças pequenas, mas também dos jovens, porque assistir de forma frequente a este tipo de imagens tem o mesmo efeito que assistir frequentemente a videojogos com situações de violência ou a filmes onde a violência é permanente, porque isto depois pode conduzir a comportamentos de maior agressividade e violência.
Sofia Ramalho, todos nós sabemos que uma dieta não implica necessariamente passar fome, é preciso ir comendo também qualquer coisa de vez em quando. Acha que também é importante que os mais novos vejam algumas destas notícias, tenham consciência do que está a acontecer e, acima de tudo, que os pais tenham esse papel e que se sentem com eles a ver o telejornal na televisão e a explicar-lhes exatamente quais é que são os contornos desta guerra, dar algum contexto?
Depende do que nós queremos dizer quando falamos em mais novos. Estamos a falar de crianças em idade pré-escolar, por exemplo, de quatro a cinco anos.
Podemos fazer essa distinção também, a partir de que idade é que isso pode começar a acontecer?
Portanto, quatro, cinco anos, é importante que haja conversa, um diálogo sobre este tema, sobre a guerra, porque eles vão ouvir falar e têm necessidade de perceber o que está a acontecer. Mas depois, a partir dos seis anos e mais ou menos até ao terceiro ano de escolaridade, estamos a falar de oito anos, mais ou menos, convém que haja aqui uma regra maior. Talvez o diálogo pais e filhos aqui é mais importante. Assistir à informação da televisão, se for sem a presença de imagens, o que é muito difícil de acontecer, seria aceitável. Depois dos oito anos, sim, podem os pais acompanhar os seus filhos a visualizar uma vez e notícias minimamente controladas, ou seja, sabemos que há alguns canais que transmitem imagens de forma sucessiva, e imagens das mais dramáticas. Aí convém que os pais tentem restringir o acesso a essas imagens. Agora, de todo excluir essa possibilidade não é também uma boa opção, porque de algum modo as crianças depois dos oito anos, nove anos, já vão ter acesso, seja por via do YouTube, seja por via da televisão, que ligam sem os pais perceberem, da internet. Enfim, é muito difícil fazer a gestão. Mais vale ver acompanhado e com uma atitude educativa do diálogo, do que não ver e depois criar construções à volta do assunto.
É o eterno desafio, não é? Explicar, é isso que se pede a todos os pais e a todas as mães deste país. Filinto Lima, temos uma particularidade, Portugal está na condição de país que vai acolher refugiados. Muitos desses refugiados são crianças que obviamente têm que ser integradas no sistema educativo português. O que é que as escolas públicas estão a fazer ou que indicações receberam as escolas públicas para tornar o acolhimento de crianças ucranianas o mais harmonioso possível?
Sim, eu respondo já à sua questão. Deixe-me só dizer que eu concordo com a dieta em relação ao acesso dos nossos jovens a imagens violentas, concordo perfeitamente, mas também acho que os órgãos de informação, sobretudo os audiovisuais, também deveriam colaborar nessa dieta, ou seja, não porem sempre à nossa frente um prato avantajado, sempre da mesma coisa, sempre com a imagem repetida dezenas de vezes, que perturba muitas vezes as nossas crianças, os nossos adultos. Em relação ao acolhimento dos alunos ucranianos, nós estamos a fazê-lo. Neste momento, terão chegado a Portugal 300 crianças que já estão integradas no sistema público de ensino. Nós estamos numa primeira fase, acionamos o português língua não materna. Estes jovens têm que aprender a língua portuguesa, para que depois possam ter um currículo normal. Contudo, eles já estão inseridos em dada turma, numa turma, onde podem assistir às aulas de matemática, com certeza, onde podem estar a fazer atividade física, a realizar expressões, mas por exemplo, numa aula de português normal, esses alunos não estarão lá a fazer nada, terão que ter o português língua não materna e é isso que está a acontecer nas escolas. Também quero dizer que a estes alunos vamos atribuir um computador, um material digital, como atribuímos nos últimos meses aos nossos alunos, e se preciso, se necessário, facultar também o apoio psicológico a estes jovens, que alguns poderão estar traumatizados e poderão ter que ser encaminhados, nomeadamente para os serviços de psicologia e orientação que as escolas dispõem. As escolas dispõem já de alguns psicólogos, educadores sociais, assistentes sociais ou eventualmente sendo encaminhados para os centros de saúde.
Filinto Lima, mas nesse processo de ajuda psicológica dos psicólogos da escola aos alunos ucranianos, vai ser necessário um serviço de tradução, ou não?
Sim.
Ele existe ou vai existir?
Poderá não ser necessário um serviço de tradução ou então esse serviço de tradução terá que ser usando os recursos humanos que as escolas dispõem. As escolas dispõem de professores Portanto, dominam com certeza a língua inglesa, que é uma língua que os ucranianos, de uma forma global, também já dispõem. Ou seja, é uma língua universal e, nesse sentido, penso que esse não será o problema de assistência em termos emocionais, em termos psicológicos aos jovens ucranianos.
Mas há muitas crianças que não falam inglês também, não é?
Sim, com certeza, mas essas crianças vieram para o nosso país com as mães. Eu ia dizer com os pais, mas é mentira, é com as mães, porque os pais ficaram num campo de batalha. Eu quero dizer que ontem recebemos no meu agrupamento dois jovens ucranianos, um que está no terceiro, o outro está no quarto ano, que estão devidamente enquadrados, estão acompanhados da mãe e também tiveram um acolhimento fantástico. Eu perguntei à mãe se era necessário, na opinião dela, apoio na área emocional, na área psicológica. A mãe, para já, disse que não é necessário, mas claro, ficou de sobreaviso, porque a escola dispõe de recursos nessa área, que eu penso que é muito importante. Devemos estar preocupados com a aprendizagem destes jovens, isso é fundamental, mas mais fundamental é, de facto, neste momento, a parte emocional e a parte psicológica destes jovens e também dos adultos ucranianos.
Sofia Ramalho, vai ser preciso um grande trabalho de integração. Como é que ele pode acontecer para que as crianças que chegam sejam integradas devidamente, como merecem, e para que as que estão cá também não se sintam desconfortáveis, de certa forma?
Sim, de facto, está-se a preparar aqui um conjunto de programas em consulência com o Ministério da Educação e com o Ministério da Saúde também, para poder responder de forma eficaz ao acolhimento, neste caso em particular dentro das escolas, das crianças refugiadas ou requerentes de asilo, e também das crianças ucranianas que já viviam em Portugal e das restantes que possam sentir-se, as crianças portuguesas que se possam sentir afetadas por esta crise. A dimensão do acolhimento deve ser pensada de forma preventiva, porque é importante que hajam programas específicos de acolhimento que possam estar centrados precisamente na integração, na adaptação e no bem-estar dessas crianças. O que significa, por exemplo, que a atenção ao currículo não é agora uma prioridade, mas sim a atenção para os primeiros contactos iniciais e as primeiras relações que se estabelecem com a escola e com os pares e com os professores sejam bem-sucedidas, porque isto, sim, é um fator fundamental para quem tem vindo a experienciar eventualmente perdas reais ou perdas por via do desenraizamento relativamente às suas casas.
Claro, Sofia Ramalho, estamos já aqui a queimar o nosso tempo, como se costuma dizer, mas tenho aqui uma pergunta: o facto de a maioria das crianças ou a esmagadora maioria, senão a totalidade das crianças vir sem tempo determinado, isto é, não sabem se vêm para seis meses, para seis semanas ou para a vida inteira, muda alguma coisa? Muda.
Estamos a falar de indefinição em relação ao futuro, portanto, isso traz um pouco mais de ansiedade. Mas o primeiro foco que estas crianças vão estar a ter é certamente o regresso dos pais junto da família e poderem estar todos juntos, o maior número de pessoas de família e amigos possíveis. Esse vai ser o primeiro foco. Se isso vai acontecer em Portugal ou se vai acontecer na Ucrânia, se calhar não é tão prioritário neste momento, mas de facto a incerteza em relação ao futuro, a incerteza sobre se vão reunir-se, ter a reunião familiar ou não, é de facto provavelmente o que mais afetará as crianças neste momento.
Muito bem, Sofia Ramalho e Filinto Lima, agradeço aos dois a vossa presença na Rádio Observador. Muito obrigado.
Obrigada.
Muito obrigado.