No dia 27, Israel – o único estado democrático do Médio Oriente e com judeus e árabes no Parlamento nacional – irá a votos pela primeira vez desde o 7 de outubro de 2023. Uma encruzilhada? Benjamin (Bibi) Netanyahu, do Likud, é o primeiro-ministro há 19 anos, o mais longevo no cargo – e pode cair do cavalo.

No copo meio cheio, Bibi esgrimiu com a teocracia do Irão e alinhavou os Acordos Abraâmicos, para uma normalização nas relações com os países árabes. Mas a outra metade quântica tornou o copo 99% vazio. O “Mr. Economy” engonhou quer o seu julgamento por corrupção (que já dura 7 anos) quer um inquérito sobre a azelhice da inteligência israelita no pogrom do Hamas. Pisca um olho aos colonos violentos na Cisjordânia, e politizou até o luto: visitou só as famílias de soldados mortos ou reféns que o apoiavam, marimbando-se para as cidades com autarcas da oposição.

Netanyahu fez trinta por uma linha para minar o Judiciário, e tentou cravar um indulto ao presidente Herzog. No mês passado, gramou com um carolo na cabeça: soube-se que dez dias antes do 7/10, Mohammed bin Zayed, presidente dos Emirados Árabes Unidos (EAU), ligou-lhe e alertou-o de que Yahya Sinwar, líder do Hamas, urdia “um terremoto” iminente. O aviso entrou por um ouvido e saiu pelo outro: Bibi não deu um pio à segurança israelita. O interlocutor ficou tão mortificado que contou tudo ao diretor da CIA, William J. Burns. Netanyahu negou a ligação, mas o Ministério dos Negócios Estrangeiros dos EAU confirmou-a.

O adversário de Bibi é Gadi Eisenkot. As pesquisas preveem um ombro-a-ombro decidido só no photo-finish (ou no VAR). Entre os dois, estão as listas árabes,  alérgicas a Bibi, e com projeção de 11 a 15 cadeiras, que podem ser decisivas. Eisenkot foi chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (IDF). O trunfo dele é a sua persona. Ao contrário de Netanyahu, cuja imagem está mais suja do que poleiro de periquito, Eisenkot emana probidade, espelhada no nome do partido que fundou: Yashar (“Honesto”). Descendente de judeus marroquinos (se vencer, será o primeiro sefardita a chefiar o governo), Eisenkot perdeu um filho e dois sobrinhos soldados na luta contra o Hamas. O filho de Bibi passou a guerra num hotel de luxo em Miami.

Em 1948, o moderno Israel, que engoliu as condições draconianas da ONU, já nasceu sob ataque, invadido horas depois da independência por 5 países árabes, que se lixaram para os “dois Estados”. Não há israelitas sem cicatrizes. Mas, pela sua repugnante torpeza, o 7/9 foi um trauma dantesco, que evocou o Holocausto. Às 6h29 da manhã, 6 mil terroristas do Hamas esquartejaram, queimaram e decapitaram 1.200 judeus – muitos do movimento pacifista de Israel, e mulheres, crianças e idosos. Feriram 3.400 e fizeram 251 reféns. Os fanáticos filmaram a chacina nos seus tlm – mas também nos das vítimas, em cujas redes sociais postaram as imagens vis, para que as famílias delas vissem o sofrimento dos seus entes queridos. Numerosas judias foram violadas com tanta violência que seus ossos pélvicos acabaram partidos. Algumas foram encontradas com as vaginas cortadas com facas, outras tiveram os seios amputados antes de morrer.

Entre os reféns havia octogenários, sobreviventes do Holocausto e 20 crianças e bebés. Muitos deles, incluindo dois bebés, Kr e Ariel Bibas – foram assassinados em Gaza, depois de desfilados pelas ruas para uma população exultante. Outros foram mantidos por anos em buracos escuros e húmidos, metros abaixo da terra, com parca comida, água ou luz do sol.

Antes de Israel sequer contra-atacar, multidões saíram às praças de capitais do Ocidente para celebrar o pogrom, e exigir que o estado judeu fosse aniquilado do rio (que a maioria não fazia ideia de qual era, como o rio da aldeia de Alberto Caieiro) até ao mar (quem lhes dera que fosse o Mar Morto).

Uma guerra em que Israel está a ser goleado é a da propaganda. Em 1975 a ONU votou que o sionismo era uma forma de racismo, votação revogada em 1991- mas a ideia prospera. Ou seja: ao contrário da de qualquer outro povo, a autodeterminação judaica é intrinsecamente racista. O antissionismo é o antissemitismo justificado, ao alcance de todos. E se os judeus fossem eles próprios nazis? Seria maravilhoso. Não seria mais necessário lamentá­‑los: terão merecido a sua sorte.

E daí que os israelitas já viviam (e muitas vezes governavam) na Terra de Israel milhares de anos antes do Islão, centenas de anos antes de o imperador romano Adriano inventar a palavra Palestina como castigo dos judeus insubmissos, e muito antes de os árabes muçulmanos invadirem a região pela primeira vez em 636 d.C.? E que, portanto, os judeus não são “colonizadores” na Terra de Israel, mas os indígenas daquele rincão?

Apartheid? Israel tem 10 milhões de habitantes – 20% dos quais são árabes muçulmanos que compartilham os mesmos direitos sociais, civis e políticos dos judeus. Ao contrário de Israel – que respeita seus soldados muçulmanos, partidos políticos muçulmanos, advogados muçulmanos, médicos muçulmanos, empresários muçulmanos e juízes muçulmanos do Supremo Tribunal -, a ideia de um soldado, político ou juiz judeu, digamos, em Gaza ou Ramallah, será uma anedota.

Durante a peste negra medieval, inúmeros europeus “sabiam” que os judeus eram imunes ao flagelo e envenenavam poços para infectar os vizinhos. Milhares de judeus foram  assassinados como represália por aqueles crimes inventados. Propagava-se também a calúnia do “libelo de sangue”: os judeus matavam bebés gentios para fazer o pão ázimo da Pascoa. E zás: mais uns quantos milhares de usurários narigudos linchados. O  facto de a maioria acreditar em algo não o torna verdade (mesmo que seja instagramável).

Genocídio (termo aliás cunhado por um advogado judeu, Raphael Lempkin)? Como, se a população de Gaza (e de toda a Palestina) é maior hoje do que era há três anos – e sempre aumentou, ao passo que a polução judaica ainda não recuperou os índices pré-Holocausto)?

Dois audiovisuais recentes são instrutivos. No Festival de Cinema de Veneza, o documentário “Naza”  recebeu uma ovação retumbante. “Naza” é um acrónimo em hebraico de um sistema desenvolvido pelas IDF para prever os danos colaterais de qualquer ataque antes da sua aprovação. Mas por que raio Israel precisa de um tal sistema? Três hipóteses: 1) Assim as IDF podem reduzir as baixas civis. 2) Assim as IDF podem aumentar as baixas civis. Esta premissa é que os israelitas são psicopatas que só efetuarão um ataque se os danos colaterais superarem um belo nível de carnificina. 3) Sem motivo algum. Neste caso, para as IDF não aquece nem arrefece o número de baixas num ataque. Tomaram a iniciativa de torrar uma fortuna numa tecnologia de ponta para prever danos colaterais… porque sim.  Pessoalmente – mas isto sou eu! – voto no 1. “Naza” votou no 2.

Depois de ser invadido pelos terroristas, Israel entrou em Gaza (do qual saíra há 10 anos) para libertar os reféns e desmantelar o controlo totalitário do Hamas sobre o enclave. Israel alertou rotineiramente os civis para se afastarem do perigo, estabeleceu zonas humanitárias para que a população evitasse áreas em conflito e forneceu uma ajuda humanitária inédita na história da guerra moderna. Cancelou ataques quando o risco de danos a civis era desproporcional, e viabilizou uma ampla operação de vacinação para as crianças de Gaza contra a poliomielite. Israel enviou um naipe de advogados militares que aconselhavam em todas as grandes operações, e disponibilizou um sistema judiciário independente que julgava alegações de violações do direito da guerra entre os seus soldados.

O sofrimento atroz da população de Gaza foi maximizado pela estratégia do Hamas (que não usa fardas militares) de se enraizar entre os civis: sob mesquitas, hospitais e escolas, donde disparam os seus mísseis. E em túneis fortificados (com a extensão do metro de Londres), nos quais a população não pode entrar, pois é usada como escudo humano e carne para canhão. Compare-se com Israel, onde em cada canto há um abrigo para os civis.

O Hamas impediu, muitas vezes sob a mira de armas, que a população de Gaza seguisse as instruções de Israel para deixar as áreas conflagradas, e se apropriou da ajuda humanitária (água e comida) que as IDF e grupos internacionais forneciam. Ainda assim, embora as guerras – sobretudo as travadas em áreas urbanas densas – sejam letais, a presença das IDF em Gaza resultou na menor taxa de baixas entre militares e civis na história bélica moderna.

Ó, Nogueira, calma aí, meu! O realizador de “Naza” não é (em vez de uma Leni Riefenstahl, a talentosa cineasta de Hitler) um… judeu? Sim. Ao contrário dos países islâmicos, em que nunca se ouviu um pio de condenação ao 7/10, em Israel há oposição implacável: até 2025, dezenas de milhares de israelitas protestavam contra o Governo todos os sábados à noite na Kaplan Street, em Telavive. E se hoje tantos jovens ocidentais odeiam o Ocidente (a sociedade mais inclusiva que já existiu), não admira que um judeu (de ascendência árabe e professor de árabe) reconfigure uma guerra defensiva para salvar reféns numa incursão vampiresca de ficção científica. É como a caça-fantasmas Greta Thunberg, que não acredita nos vídeos filmados e postados pelo próprio Hamas no 7/10 – mas acredita que as IDF usam cães libertinos para violar terroristas presos.

Como carpiu o poeta inglês John Donne, do século XVII: “A morte de cada homem diminui-me”. Acrescento eu: seja de um judeu, cristão, muçulmano ou ateu. Em todas as guerras, grandes ou pequenas, há perdas trágicas de vidas inocentes (como na Ucrânia). Mas convém distinguir entre aqueles que tentam evitá-las e aqueles (como o Hamas) para os quais o sangue de inocentes (os seus e os dos outros) é o próprio objetivo. Essas mortes são ouro puro para fins de propaganda, pois a responsabilidade delas será apenas do inimigo: Israel. Não foi o Hamas que apertou o gatilho sobre os civis de Gaza: o Hamas apenas pintou alvos em todos eles.

Estreou-se  na Netflix a quinta temporada de “Fauda” (Caos, em árabe), série israelita sobre uma unidade antiterrorista, desta vez dois anos após o 7/10. Nos primeiros episódios, a violência é quase elíptica. Doron Kavillio, o comandante, refugiou-se no seu vinhedo com a esposa e os filhos, depois de quase todo seu grupo ter sido dizimado. Não é um James Bond que bebe Bollinger em flutes com o dedo mindinho empinado, mas um gajo comum: careca, atarracado, uma barba que parece cotão.

Não há crueza em “Fauda” que já não tenhamos lido ou visto nalgum dos vídeos dos terroristas – aliás, há muito menos. Com esse minimalismo, em setembro a 5º temporada atraiu 4,1 milhões de espectadores em todo o planeta. Foi top 1 da Netflix em Israel, mas também no top 10 em 41 países, incluindo muçulmanos, como Jordânia, Turquia e Marrocos. No Líbano, desde 1955 é crime para os libaneses interagirem com israelitas, mesmo nas redes sociais ou em encontros casuais em férias no estrangeiro. Pois “Fauda” empoleirou-se no 1º lugar entre os canais libaneses de streaming.

Desconcertante que uma série de ficção impacte mais a opinião pública do que depoimentos, relatórios, imagens de câmeras corporais e vídeos de iPhone que proliferaram desde o 7/10? Vivemos numa era em que factos são meras opiniões, e a verdade esmorece perante “narrativas” rivais, e aquilo em que acreditamos é aquilo em que queremos acreditar, que confirma a nossa visão de mundo, nossos confortos e mitologias. Daí que o “documentário” “Naza” seja realmente muitos menos documental do que a ficcional “Fauda”.

Os judeus da série sofreram perdas dilacerantes, mas a ideia de trauma os incomoda, em vez de se aninharem nela. Como diz Cavillio, não se ralam com a “alta política”. Tão-pouco são Anne Frank, cujo diário professava a convicção na bondade humana, e que morreu de tifo em Auschwitz aos 15 anos – nua, esquelética, faminta e infestada de piolhos. Os agentes de “Fauda” fixam-se no concreto: rotas de entrada e de saída, salvar uma vida, escapar da morte – e vamos em frente porque atrás vem gente.

Enquanto isso, nos novos revolucionários em Paris, o adereço fetiche não é o barrete frígio dos jacobinos, mas o keffyeh. Que é feito do pecado da apropriação cultural? Foi emancipado pelo antissemitismo. Chapéus há muitos, mas o lenço dos beduínos projetou-se na década de 1960 com Yasser Arafat. Em 1969, a terrorista palestiniana Leila Khaled foi a primeira mulher a sequestrar um avião, o voo 840 da TWA, de Roma para Telavive. Numa foto emblemática, ela brandia um fuzil AK-47 e usava um keffyeh.

O estilista belga Raf Simons promoveu uma passagem de modelos com keffiyehs e calças skinny pretas. O lenço engalanou desfiles de John Galliano e Louis Vuitton. Um keffiyeh suntuoso da Balenciaga custa 4 mil euros (a ostentação de virtude não olha a despesas). Até Carrie Bradshaw, personagem da série “Sex and the City “ e então a solteira mais badalada da cultura ocidental, num episódio usou um keffiyeh como top.

Como sempre, quem paga a fava das luxury beliefs da esquerda cortesã são os outros – e não apenas os judeus. O histrionismo ideológico ocidental prejudica a economia da Palestina, onde resta apenas uma tecelagem que produz o lenço. Os keffiyehs que vemos em restaurantes, universidades e galerias de arte do Ocidente são em geral made in China. Como lamenta o último  fabricante de keffiyehs na Cisjordânia: “É impossível competir com os baixos preços das falsificações importadas”. Nada desvenda melhor o novo velhíssimo antissemitismo: o seu símbolo é uma contrafação produzida por trabalhadores hiper-explorados no maior Estado autoritário do mundo.

Por séculos, os judeus da diáspora tentaram laboriosamente integrar-se (ao contrário dos imigrantes islamitas de hoje) nas sociedades de destino, às vezes apostasiando a sua religião como cristãos ou seculares. E com toda aquela exasperante capacidade: 0,2% da população mundial, 220 judeus receberam o Nobel nas diversas áreas – 22% de todos os laureados entre 1901 e 2025, proporcionalmente 110 vezes mais do que qualquer outra nacionalidade. Mas o Holocausto provou o óbvio: imperfeitos como Bibi (e como cada um de nós, seres humanos) ou geniais como Einstein, os judeus só têm uma hipótese de segurança – o seu próprio Estado soberano. E isso é inadmissível.