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Gabinete de Guerra da Rádio Observador, o programa em que analisamos alguns dos conflitos ou temas da atualidade internacional que estão na ordem do dia. Gabinete de Guerra que acontece horas depois de ter sido formalmente criado o Conselho de Paz. A cerimónia foi presidida por Donald Trump e decorreu em Davos, na Suíça, onde decorre também o Fórum Económico Mundial. É nossa convidada para este Gabinete de Guerra, Madalena Mayer Resende, especialista em Relações Internacionais. Boa tarde, bem-vinda mais uma vez à antena do Observador. O que é isto do Conselho de Paz?
Parece-me que este Conselho de Paz é um pouco uma paródia de tentativas mais sérias de criar fóruns multilaterais para promover a paz, uma vez que conta com Putin, com Lukashenko, com Orbán, com todos os líderes internacionais que estão tudo menos preocupados com a paz internacional. É um projeto que é oposto pelos europeus como sendo um projeto de poder de Donald Trump e penso que a solenidade com que ele tentou estabelecer este órgão contrasta com a sua falta de credibilidade.
Esta é uma organização que compete de forma direta com as Nações Unidas?
Eu não penso que as Nações Unidas estejam na sua melhor forma, obviamente, com esta retirada dos Estados Unidos da cooperação internacional, de vários órgãos ligados às Nações Unidas nos últimos meses. Contudo, as Nações Unidas ainda são uma organização global com alguma credibilidade. Este Conselho de Paz tem tudo menos isso.
Como é que vai atuar? Já deu para perceber qual é que vai ser o tipo de atuação deste Conselho de Paz? Que instrumentos tem para promover este objetivo anunciado de pôr termo a conflitos um pouco por todo o globo?
Eu penso que é um órgão do tipo consultivo, que se reunirá para considerar eventuais medidas a tomar em momentos de conflito mundial ou localizado, mas penso que ainda está tudo muito no ar em relação à sua finalidade e modo de atuação e, portanto, estamos ainda aqui num momento um pouco incerto para fazer muitas previsões.
Falemos agora sobre a Gronelândia. Donald Trump anunciou ontem que chegou àquilo que define como um acordo, uma proposta para gerir aquelas que são as intenções dos Estados Unidos relativamente a este território autónomo da Dinamarca. Não se conhecem muitos pormenores. A imprensa internacional avança, no entanto, que o acordo prevê a instalação de uma base militar dos Estados Unidos no território da Gronelândia e que esse território também seja integrado no projeto militar de criação da Cúpula Dourada, o sistema de defesa antimíssil semelhante àquele que Israel tem. Este projeto, esta proposta deve deixar a Europa descansada?
Eu penso que este acordo que se começa a adivinhar não começou agora, é exactamente um resultado de negociações, aparentemente entre o chanceler alemão Merz, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, e Trump e os seus conselheiros. O que parece estar em cima da mesa é, de facto, uma expansão do acesso americano às bases da Dinamarca, um acordo que será obviamente entre os Estados Unidos e a Dinamarca, maior acesso aos recursos naturais e há aqui uma questão que é obviamente mais central, que é o direito de primeira recusa dos americanos a eventuais investimentos chineses e russos na Gronelândia, ou seja, uma espécie de veto americano ao acesso chinês e russo, o que é obviamente muito importante no sentido em que há esta competição crescente pelo acesso não só aos vários recursos naturais que existem na Gronelândia, mas a toda a questão da segurança do Ártico e é uma competição entre os Estados Unidos, a Rússia e a China. Aqui os europeus parecem, de facto, comprometer-se com esta segurança do Ártico. Obviamente que a NATO terá um papel importante nessa segurança Mas parece ser um acordo que, no meio destas duas semanas de alguma loucura, ganha um contorno mais racional e em que se percebe quais são as intenções dos Estados Unidos nesta defesa dos seus interesses no Ártico e também, obviamente, no que consideram ser o hemisfério ocidental no qual predominam. Portanto, penso que é a conclusão de duas semanas bastante perigosas, no sentido em que as consequências para a relação transatlântica foram e continuam a ser graves, mas que se percebe mais ou menos o que é que Trump quis com estas ameaças de uso militar.
Esta proposta não põe em causa a soberania da Gronelândia.
Exato, foi isso que Donald Trump veio dizer, veio anunciar em Davos e depois também no Truth Social, que respeita a integridade territorial da Gronelândia e que avança para a fase seguinte, que é a construção de um compromisso com os europeus acerca do acesso norte-americano, que, diga-se à parte, é já muitíssimo alargado. Portanto, este é apenas um reforço, em particular nesta questão do veto em relação à China e à Rússia, um resultado um pouco mais forte do controle dos Estados Unidos sobre esta área do globo, mas que no seu conjunto já estavam bastante assegurados desde a Segunda Guerra Mundial.
Viremos agora o nosso olhar para a Ucrânia. Donald Trump vai reunir esta tarde com o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky. O que espera que saia deste encontro e aquilo que imagina Zelensky queira, seja um reforço do apoio por parte dos Estados Unidos. Que expectativas em torno deste encontro?
Eu penso que esta é mais uma das reuniões que estão a ser realizadas em torno da ideia da paz na Ucrânia. Eu penso que nesta altura já percebemos que isto se tornou agora quase um ritual e que esta relação de Trump com Zelensky tomou quase uma dinâmica própria, e que penso que só por si não indicam que estejamos mais próximos da paz. Zlitko vai a Moscovo depois do encontro de Trump com Zelensky. Mas a verdade é que percebemos muito claramente que a Rússia continua a não querer aceitar as condições acordadas entre os Estados Unidos e Zelensky, e que não há propriamente um avanço concreto que possamos apontar a estas negociações. O melhor que podemos esperar desta relação direta de Trump com Zelensky é exatamente que os Estados Unidos se tornem mais previsíveis, pelo menos, no seu apoio à Ucrânia, e que Zelensky consiga impedir, desta maneira, um acordo direto entre Washington e Moscovo sobre a sorte da Ucrânia. Este é já um dado que nos parece mais ou menos assente nos últimos meses, desde que os europeus se tornaram, de certa maneira, o garante último da defesa e do apoio à Ucrânia e, portanto, não espero muito deste encontro.
Ontem, Donald Trump dizia que tanto a Ucrânia como a Rússia querem a paz. É uma interpretação desfasada da realidade?
Totalmente. Já percebemos muito bem que Vladimir Putin não quer a paz. É demasiado custoso para ele acabar esta guerra sem uma vitória, ou algo que ele possa apresentar como uma vitória ao povo russo, e portanto, estas negociações, que continuam incessantemente nos últimos meses, não têm propriamente um significado muito concreto em termos de resultados do que poderia ser um cessar-fogo, e depois um acordo territorial e um acordo em relação às garantias de segurança que a Ucrânia pede e que os Estados Unidos já aceitou. Portanto, não me parece que tenham muito significado.
Professora Madalena Mayer Resende, obrigado pela sua presença neste "Gabinete de Guerra" e pela ajuda que aqui nos deu a analisar estes diferentes tópicos, o Conselho de Paz, que hoje foi formalmente criado, também os desenvolvimentos relativamente às intenções dos Estados Unidos quanto ao território da Gronelândia e ainda este encontro que vai decorrer esta tarde, que vai juntar Donald Trump e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky. Fica por aqui este "Gabinete de Guerra".