Königsberg saiu da cartola dos despojos da II Guerra Mundial por insistência de Estaline junto dos aliados americano e inglês em Teerão. Sete séculos de história europeia cabem no enclave agora russo de Kaliningrado, com pouco mais de 15 mil quilómetros quadrados.
Por causa disso, o rufar dos tambores da guerra soa quase tão alto como o que soava em Sarajevo há 112 anos.
Dir-se-ia que os políticos europeus estão com saudades de uma Guerra Mundial, pois todas elas começaram deste lado do Oceano Atlântico…
Königsberg nasceu em 1255, fundada pela Ordem dos Cavaleiros Teutónicos em terra dos antigos prussianos, um povo báltico aparentado com lituanos e letões, que a Ordem converteu à força e acabou por absorver. O nome, monte (berg) do rei (König), homenageava Otacar II da Boémia, o Rei de Ferro e de Ouro, tal era o seu poderio e a sua riqueza, que comandara a cruzada e conquistara a região.
Em 1525 o último grão-mestre, Alberto de Hohenzollern, fez-se luterano e transformou o Estado monástico num ducado laico, vassalo da coroa polaca. Assim ficou até 1657, quando o Tratado de Wehlau entregou aos Hohenzollern a soberania plena. Foi em Königsberg que, em 1701, Frederico I se coroou rei na Prússia.
A cidade falou alemão durante quase 700 anos, mas nunca foi só alemã.
Das suas tipografias saiu, em 1547, o primeiro livro impresso em língua lituana. Foi aí que Immanuel Kant nasceu, ensinou e morreu, quase sem de lá sair, incluindo nos quatro anos, de 1758 a 1762, em que a cidade esteve ocupada pelas tropas da czarina Isabel, que quase aniquilou a Prússia, salva pela sua morte após doença prolongada e pela sucessão do sobrinho Pedro III, neto de Pedro I e alemão de gema por influência paterna e que mal falava russo.
Admirador confesso de Frederico II, acabou por retirar as tropas russas da Prússia sem contrapartidas. Tudo conhecido como o “Milagre da Casa de Brandemburgo”, e que ao mesmo tempo se somou aos motivos do golpe de Estado que destituiu Pedro III, perpetrado por sua esposa Sofia Frederica Augusta, prussiana de nascimento, russófila dos quatro costados, levada ao colo pelo seu amante, o capitão Grigori Orlov, que a ajudou a tornar a Rússia grande outra vez, o que lhe valeu o cognome de Catarina, a Grande.
A História dá cada volta…
Saltando quase dois séculos, volvemos aos assuntos que foram tratados em Teerão, em dezembro de 1943.
Estaline reclamou Königsberg, para ele e para a URSS, com o argumento de que a Rússia precisava de um porto livre de gelos no Báltico. Roosevelt e Churchill não levantaram objeções. Não há registo de um “Sure, you can keep it”, mas o efeito foi claramente esse para a velha raposa. Em Potsdam, em 1945, já com Truman, os Aliados confirmaram a cedência “em princípio”, à espera de um tratado de paz que nunca chegou.
O argumento era mais pretexto do que necessidade: com a anexação dos Estados bálticos, Moscovo ficava com portos de sobra, o que torna compreensível toda a animosidade de Kaja Kallas para com o antigo ocupante russo, ela que se apresenta como Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros. Eram despojos, e foram tratados como tal.
A cidade foi arrasada duas vezes: pela Royal Air Force de Sua Majestade, em agosto de 1944, e pelo cerco soviético, que a reduziu a escombros até à rendição, em abril de 1945. Pelo meio, em janeiro, o exército soviético avançou de forma avassaladora pela Prússia Oriental, forçando perto de dois milhões de alemães a fugir em pleno inverno. Centenas de milhares fizeram-no a pé e em carroças, sobre as águas geladas da laguna do Vístula, com 20 graus negativos e sob constantes ataques da aviação soviética, na esperança de alcançar os portos de Pillau, hoje a base russa de Baltiysk dentro do enclave, e de Danzig, hoje Gdańsk na Polónia.
Um cenário dantesco, em que milhares pereceram engolidos pelo gelo, que cedia sob os bombardeamentos.
Todos estes horrores a II Guerra Mundial nos trouxe. E, para cúmulo, em 1946 a cidade foi rebatizada em “honra” de Mikhail Kalinin, um dos que aprovaram a ordem do massacre de Katyn, que para quem se recorda dispensa comentários, e que os nossos aliados polacos nunca esquecerão.
Volvidos uns anitos do inferno, nem os vizinhos a quiseram. Nos anos 50, Nikita Khrushchov, que fizera boa parte da carreira no Partido Comunista da Ucrânia, andava entretido a redesenhar o mapa interno da URSS: entregou a Crimeia à Ucrânia e propôs integrar Kaliningrado na Lituânia soviética. O líder comunista local, Antanas Sniečkus, recusou, para não alterar a composição étnica da sua república.
As voltas que a vida dá…
Em julho de 1990, em plena negociação da reunificação alemã, o general soviético Geli Batenin disse a um diplomata da embaixada da RFA em Moscovo que “a questão da Prússia Oriental existe” e que, mais cedo ou mais tarde, se colocaria entre os dois países. O telegrama só foi conhecido em 2010, pelo Der Spiegel. O pobre coitado do russo devia pensar que ainda estava na Guerra Fria, embrenhado num romance de John le Carré onde as mensagens eram passadas en passant.
Que oportunidade perdida…
Bona não deu seguimento. A prioridade de Helmut Kohl era a reunificação, e o Tratado Dois Mais Quatro, assinado em 12 de setembro de 1990 em Moscovo, fixou as fronteiras alemãs como definitivas. Gorbachov negou mais tarde que a devolução do enclave tivesse sido alguma vez ponderada e chamou à história uma “falsa sensação”. Foi, portanto, uma sondagem e não uma oferta, e Kohl nunca teve uma proposta em cima da mesa. Mas a janela existiu, e fechou-se. Com a independência da Lituânia, em 1991, Kaliningrado ficou a ser o que é hoje: um pedaço de Rússia que acabou rodeado de NATO por todos os lados.
Em julho de 2025, em Wiesbaden, o general Christopher Donahue, comandante do Exército dos EUA na Europa e África, afirmou que a NATO consegue neutralizar Kaliningrado a partir de terra “num prazo inaudito e mais depressa do que alguma vez fomos capazes”. Falava de um cenário “defensivo” de dissuasão, para o caso de a Rússia atacar um aliado, mas com sinais claramente ofensivos para os russos.
E a frase assentou, e em Moscovo todos a leram nas entrelinhas. Mais de 25 milhões de russos, ucranianos, bielorrussos entre tantos outros povos soviéticos pereceram às mãos do exército nazi, e eles nunca o vão esquecer.
Em agosto deste ano, dezenas de aviões militares de países da NATO fizeram exercícios em redor do enclave, simulando a supressão das defesas aéreas.
Tipo os chineses a testar os habitantes da ilha Formosa…
E a 30 de setembro, Moscovo enviou uma nota para a Aliança escutar a sério: usará todo o seu arsenal, incluindo o nuclear, se algum país tentar isolar Kaliningrado do resto da Rússia. No dia seguinte, em Valdai, Putin repetiu que defenderá o enclave com “todas as forças e meios”.
Mark Rutte, no seu estilo pretensioso de macho alfa, respondeu que a NATO é uma aliança defensiva, pediu o fim das ameaças nucleares e acrescentou: “Putin sabe que nunca conseguirá derrotar a NATO, por isso não levo isto demasiado a sério”. Fingiu esquecer-se da doutrina nuclear russa, que não deixa dúvidas.
Que saudades da Guerra Fria, em que o cuidado com as palavras tinha significado e havia um telefone vermelho. Será que ainda há? Há, mas será que ainda é utilizado? Pelo Trump, seguramente, que fala sempre que pode com Putin, nem que seja para lhe desejar um bom aniversário… e arranjar pelo caminho umas 300 mil toneladas de gasóleo russo para tentar forçar a baixa do preço dos combustíveis, pois as intercalares de 3 de novembro estão mesmo aí à porta.
O certo é que mais de 500 mil americanos pereceram a salvar o Mundo nas duas Guerras Mundiais do século XX começadas… pelos europeus.
Em 1914 ninguém queria uma guerra mundial. Cada chancelaria estava apenas convencida de que o outro lado acabaria por recuar, e um tiro numa esquina de Sarajevo fez o resto em seis semanas.
Uma cidade fundada por cruzados, entregue em Teerão sem discussão, rebatizada com o nome de um carrasco e recusada por quem a podia ter recuperado, é agora o lugar onde dois blocos nucleares testam até onde vai a paciência um do outro, num concurso de testosterona do mais primário que há.
Até onde pode ir a estupidez humana?
Em 1914 foi até ao fim.