Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que analisamos os conflitos que marcam a atualidade. Hoje recebemos Miguel Baumgartner, especialista em Relações Internacionais. Muito boa noite, Miguel, seja bem-vindo.

Olá, Diana, boa noite. Muito obrigado.

E obrigada por ter aceitado o nosso convite. Hoje começamos pelo Médio Oriente. Netanyahu tinha conhecimento detalhado do ataque do Hamas já em 2018, é uma notícia que saiu hoje. O primeiro-ministro israelita terá tido acesso a relatórios dos serviços secretos que davam conta das intenções do Hamas entre 2018 e 2022, em que o Hamas montou esse plano, que acabou por executar em outubro de 2023. Se Netanyahu já tinha conhecimento há tanto tempo, por que terá ignorado estes avisos?

Há aqui informações algumas contraditórias. Há esta informação que até agora o governo israelita não desmentiu e essa informação deixa os israelitas ainda numa situação de maior constrangimento, ainda maior do que o próprio ataque em si. É ter a ideia de que Netanyahu teria as informações passadas pela Mossad, mas também por outra agência de informações, de que naquele período de tempo poderia haver um ataque com aquelas circunstâncias. O relatório não vai até à mortandade, nem vai ao ponto de nos dar uma ideia de que o ataque poderia ser feito à escala que foi e depois ter a brutalidade e a violência que teve. Isso não tem, mas é certo que falava naquele espaço de tempo. Não é a primeira vez que nesse período deste feriado religioso do Yom Kippur, Israel se deixa atacar. Por quê? Porque nessa altura, é sempre momento de extrema fragilidade israelita, por ser o feriado mais importante para Israel, existe efetivamente uma baixa da guarda total. E não é a primeira vez, já da outra vez aconteceu um ataque em Israel nesse período de tempo. Eu não sei até que ponto, e este é que é o grande problema de Netanyahu, e eu não misturo Netanyahu com o povo israelita, mas parece-me a mim que Netanyahu poderá ter feito aquilo que outros líderes, em outros momentos da história do mundo já fizeram, que é permitir que haja um ataque ou ignorar de alguma forma essa forte possibilidade para justificar a ação que gostaria de depois tomar. Obviamente que isto é tudo ainda muito em cima do acontecimento, mas nós podemos estar aqui de o governo israelita ter, de alguma forma, ignorado, porque queria ter uma razão para o avanço militar que teve e para a invasão que fez da Faixa de Gaza.

Um álibi, no fundo.

Um álibi. Obviamente que isto é de uma loucura enorme, e obviamente que isto é de alguém que tem efetivamente uma séria dificuldade de entender aquilo que é a normalidade da vida. Mas nós vimos o ataque brutal que Gaza sofreu. Nós vimos os 70 mil mortos, que hoje o próprio regime israelita reconhece que a grande maioria são civis, entre mulheres e crianças. Nós vamos precisar de mais informação para ter a certeza, mas dizendo que não é a primeira vez que no feriado do Yom Kippur que acontece este tipo de ataque a Israel, porque Israel baixa a sua guarda e também não é novo que um líder se permita ignorar a possibilidade de um ataque premente ao seu território e ao seu povo, como forma depois de utilizar isto como arma de arremesso e como justificação e como álibi, como muito bem disse.

Miguel, sendo que Netanyahu planeia voltar até aos Estados Unidos na próxima semana para participar no Conselho de Paz, que explicações ou que resposta deveria pedir à comunidade internacional presente nessa cimeira a esta informação hoje conhecida?

Se fosse à ONU, eu até entenderia que a ONU poderia fazer algumas perguntas, nomeadamente até o próprio Conselho de Segurança levantar algumas questões, nomeadamente a Palestina, levantar estas questões. Quando eu digo a Palestina, a Autoridade Palestiniana. O Conselho da Paz é uma fantochada, permita-me a expressão, criada por Donald Trump para tentar esvaziar aquilo que é a ação da ONU ou a posição da ONU no mundo, em termos daquilo que foi a ideia primária da Liga das Nações. E ele quis criar uma ONU particular, em que ele é o rei senhor, em que ele é a pessoa que decide onde é que se faz a paz, com que meios se faz a paz, mas mediante um pagamento. Não só as nações têm que pagar para efetivamente pertencerem, mas depois, quando ele faz ou quando ele tenta fazer a paz, seja no Irão, seja na Venezuela, ou seja onde for que ele entenda que tem que intervir e que depois tem que fazer o processo de paz, ele vai pedir um soldo, um pagamento por essa paz. Quem está nesta comunidade, e se nós formos ver o líder da Bielorrússia E outros como demais. Nós vamos chegar à conclusão de que dali não sai grande preocupação com aquilo que são os direitos, as liberdades e as garantias, ou até a autonomia de um povo. Portanto, não estou a ver ali que haja ninguém que esteja interessado a confrontar Netanyahu e a perguntar: "Mas afinal, esta notícia confirma-se?" Porque se esta notícia se confirmar, então é um problema sério. Aliás, eu não dou credibilidade absolutamente nenhuma a esta coisa, vou utilizar essa expressão, "uma coisa".

Uma organização.

Essa organização, entre aspas, que Donald Trump criou, porque é uma organização que está para Donald Trump como outras estão. É uma questão de ego. Portanto, ele quer ser o grande controlador do planeta. Ele quer ser o homem mais importante do planeta, o mais poderoso, com o maior exército, com a maior capacidade de fazer o que lhe apetecer. E para isso ele precisava de criar uma instituição internacional, que não fosse as Nações Unidas, que lhe permitisse fazer tudo. Veja que ele cria, não sei baseado em que lei, não sei baseado em que legislação, ele criou um conselho para a paz baseado em quê? Em que acordos internacionais em que ele assinou um documento qualquer que nós não sabemos muito bem e depois também não sabemos como é que vai ser aplicado. Portanto, eu acho que Netanyahu, que vai estar amanhã com Donald Trump, está descansado sobre isso e Netanyahu vai receber a bênção mais uma vez, por parte de Donald Trump, em vários pontos daquilo que tem sido. Por exemplo, nós não ouvimos ainda Donald Trump a falar sobre como se vai impor esta segunda fase, uma vez que a própria primeira fase não está concluída. O Hamas continua armado, continuamos a ter grande dificuldade em implementar a paz em Gaza e existem ataques ainda do próprio exército israelita. Sabemos que a questão dos colonatos continua a aumentar. Portanto, tudo isto não parece que Donald Trump, nem esta comunidade para a paz, esteja preocupada.

Importante essa explicação também que acaba de dar sobre o Conselho de Paz e falou também do Irão, acabou por tocar nesse tema. E vamos a esse tema. As forças militares norte-americanas em Al Udeid, no Qatar, foram vistas a carregar caminhões com mísseis e lançadores, de acordo com imagens de satélite a que a Reuters teve acesso. Há sempre um passo à frente, um passo atrás nestas negociações com o Irão, acaba por não se ver concretamente nenhum avanço, às vezes nem nenhum retrocesso, acaba por ficar mais ou menos tudo na mesma. Mas estas movimentações, o que é que podem querer dizer na sua perspectiva?

Essas movimentações são a continuação dos Estados Unidos a mostrar não só ao Irão, mas à comunidade internacional, que tem a força militar que precisa, quando precisa, para fazer o que bem entende. Veja se ele fez a mesma dinâmica militar e geoestratégica na Venezuela. Só temos aqui um ponto que é extremamente importante. Da mesma forma que nós vemos os caminhões a serem carregados com esses mísseis e depois plataformas de lançamento, que efetivamente nós não sabemos onde é que eles as vão utilizar, porque nós sabemos neste momento é que os países do Golfo, que na sua maior parte têm bases militares americanas, já disseram que não aceitariam que essas bases, no seu território, fossem utilizadas para hostilizar e atacar o Irão. Mas sabemos que o Chipre fica ali ao lado e sabemos que de Rammstein na Alemanha é, permita-me a expressão, um pulinho até ali. E sabemos que, efetivamente, a partir de Israel isso poderia acontecer. Agora, ele fez a mesma tática na Venezuela, só que a Venezuela não tinha capacidade militar de resistir. E houve, efetivamente, também sabemos hoje nós, uma corrupção ao mais alto nível, quer com o vice-presidente, quer com as chefias militares, para, de alguma forma, olharem para o outro lado enquanto faziam a extração de Nicolás Maduro. Isto não se aplica ao Irão. Não só o Irão, em termos militares, tem uma importância muito forte porque tem capacidade militar, obviamente que não tem a mesma capacidade militar de derrotar os Estados Unidos numa batalha longa, mas tem de ripostar não só para os ataques dos Estados Unidos, mas também para Israel, que será sempre o alvo de retorno de qualquer ataque que os Estados Unidos possam fazer. Mas depois tem outro paralelo que é importante não ignorar. É que o Irão tem uma importância muito maior que a Venezuela tinha, e talvez se calhar nem comparável, para a China e para a Rússia. E estas negociações, como disse e muito bem, que parece que não andam para frente e nem para trás, basicamente estão a funcionar aqui em três pilares, que é o pilar da questão atômica e, portanto, de tudo que é a pretensão atômica que o Irão tem e que os Estados Unidos não querem que o Irão tenha, e Israel não quer que o Irão tenha, nem as monarquias do Golfo querem que o Irão tenha essa capacidade nuclear, e é por isso que há estas negociações. E depois, os Estados Unidos estão a negociar a questão econômica, ou seja, o facto de o Irão continuar a vender hidrocarbonetos à China e a China depender bastante desses hidrocarbonetos e o Irão continuar a fornecer armamento, nomeadamente os drones E também os mísseis balísticos à Rússia, com quem assinou inclusive um acordo de 3000 milhões de dólares no ano passado. Estas questões estão a ser negociadas, por quê? A ideia não é, e este é um ponto que nós temos mesmo que ver. A ideia de Donald Trump não é um processo de paz no Irão, porque Donald Trump em janeiro disse nove vezes que as pessoas tinham que se rebelar no Irão e que o povo tinha que sair à rua. E eu acredito que muita gente que ouviu esta frase terá saído à rua mesmo na esperança de que Donald Trump poderia intervir militarmente e derrubar o regime. E sabemos hoje que devemos ter qualquer coisa não menos do que 40 mil mortos nas ruas do Irão. Portanto, Donald Trump não está preocupado com a paz, está preocupado com fazer isso, que é andar nestas negociações, um pouco como aconteceram, por exemplo, até na questão do Hamas, que nós achávamos que elas não andavam muito ou às vezes retrocediam e depois de repente vai aparecer com um acordo. Mas este acordo parece-me que vai ter esta questão, a questão de que os Estados Unidos vão poder controlar o projecto nuclear iraniano e ter a certeza que ele só é utilizado para uma questão energética e não nuclear em termos de bomba nuclear, e efectivamente negociar alguma forma de controlarem política e economicamente o Irão na sua relação comercial com a China e na sua relação comercial e militar com a Rússia, porque é isso que interessa a Donald Trump. E, portanto, a paz estará certamente. Neste caso não é a paz, mas é a liberdade, é o facto do que nós assistimos nos últimos meses no Irão, apesar de Donald Trump nos ter dito que estava horrorizado com o que se estava a passar, mas não interviu. E portanto, nós não sabemos se aquilo que está a acontecer não é só mais um passo, mais uma etapa nesta dramatização política e diplomática que ele faz para tentar dizer ao Irão que vocês vão ter que negociar comigo, o que nós sabemos que o Irão já começou a fazer.

Estaríamos aqui horas, Miguel Baumgartner, a falar sobre os conflitos. A nossa discussão hoje fica pelo Médio Oriente. Agradeço-lhe o facto de ter aceitado o nosso convite. O Gabinete de Guerra regressa amanhã. Uma boa noite.