Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Gabinete de Guerra na Rádio Observador, hoje com Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Bem-vindo, professor. Mais uma vez, obrigado pela sua disponibilidade. Vamos começar pelo discurso do estado da nação de Donald Trump na última madrugada. Deu para perceber se sim ou não vamos ter um ataque ao Irão a curto prazo?

Boa tarde, Miguel. Não é fácil responder diretamente a essa questão e por isso vou aqui dar um enquadramento, se me permite. Primeiro, porque o discurso foi virado para dentro, naturalmente, preocupado com as sondagens, com a aprovação que tem tido, com as midterms já em novembro, e sempre foi forte a comunicar. Portanto, procura comunicar aqui aspetos internacionais no sentido de compensar alguns problemas económicos a nível interno. Mencionou mais que uma vez a preocupação com o Irão. Curioso não ter mencionado outras situações internacionais, não se esperava também, mas o Irão como apontando um ponto forte da política externa norte-americana. Referiu as ambições sinistras, salvo erro eram estas palavras, e que não disse as palavras secretas, obviamente referindo-se ao nuclear, mas basicamente, e como disse o Eid Koff numa entrevista, procura a capitulação. Em causa estará o programa nuclear, obviamente, mas também os mísseis balísticos essenciais para a defesa do Irão, segundo os próprios, e o apoio que eventualmente o Irão possa dar aos proxies. São três temas que ainda não estão completamente assegurados. E se há uma pressão internacional/regional da Arábia Saudita, Qatar, Emirados, para não avançar, há também muita pressão de Israel para se explorar o sucesso. Donald Trump já movimentou muitas forças. Antes dizia que tinha uma armada pujante, mas não tinha, agora sim, já tem, a partir do momento em que a Strike Group do Ford chegou à região, tem os F-22, tem os F-35, tem os reabastecedores, as aeronaves reabastecedoras que apoiam os B-2, principalmente. E por isso, de alguma forma, agora foi colocado numa posição complexa e que pode não salvar a face se não fizer algum tipo de ataque. Portanto, é uma oportunidade, de fato, o Irão está fragilizado, mas também é um risco. O Irão está encostado à parede, eu diria, há uma ameaça existencial ao seu regime, portanto vai reagir com toda a capacidade que tenha, direta ou indiretamente, através de proxies, sobre os interesses dos Estados Unidos, os seus aliados do comércio internacional, tudo o que conseguir. E as mentalidades de ação, e com isto termino, não são fáceis. O ideal seria negociar o desenvolvimento de algum tipo de ação negociada, o ataque simbólico em que salva a face, mas não terá resultados e acaba por dar tempo ao Irão. O ataque limitado, tipo o que aconteceu na Venezuela, mas que os seus generais já disseram que não conseguirão, não têm capacidade para um ataque rápido e decisivo neste tipo de contexto, e um ataque prolongado, que assim é muito mais preocupante, porque não quer tropas no terreno, não quer criar instabilidade. A sua base de apoio, MAGA, não quer, impede a retração estratégica, ou seja, obriga a divergir da orientação estratégica para a Ásia-Pacífico. Por isso há muito em jogo.

Alguma dessas opções lhe parece mais provável?

Eu neste momento acharia que é mais provável, eu diria duas: um esforço muito grande para negociar e aceitar uma qualquer vitória na mesa de negociações. Acho que será essa a prioridade. E a segunda, um ataque limitado, por muito que não seja rápido e decisivo, mas definitivamente não quererá ir para um ataque prolongado. Quanto ao tempo, eu julgo que será exatamente quando o fator surpresa estiver assegurado, mesmo que existam negociações marcadas. Será determinante. E quando estiverem seguros que os interesses dos Estados Unidos estão de alguma forma assegurados, porque ainda não estão, e essa capacidade decisiva estará em causa. Claro que teremos depois que pensar no day after, na instabilidade regional, nos refugiados, que a Turquia já cria uma buffer zone na Síria, etc. Mas isso será para outras calendas e os Estados Unidos, seja com esta administração, seja com outra, nunca foi muito forte pensar no day after.

Professor, voltemos agora a agulha para a Ucrânia. A União Europeia vai dar drones e munições a Kiev. É disso que a Ucrânia precisa?

Em boa verdade, a Ucrânia já teria capitulado sem o apoio da Europa, seja no plano diplomático, seja mesmo no plano de apoio financeiro e militar. Isto faz parte inclusivamente do apoio prometido. O militar e administrativo, agora um pouquinho em causa com a recusa da Hungria de colaborar. A Europa é pouco forte, é uma média potência regional. Já temos falado muito nisto, sem externess a nível global, mas está consciente da ameaça à sua própria segurança, portanto a alteração da arquitetura de segurança euro-atlântica é grande, há uma ameaça existencial, no mínimo, em relação aos valores europeus, aos interesses europeus e eventualmente numa segunda fase, em relação ao território europeu. Ela existe, de fato. Este armamento é o essencial para o imediato, para a defesa aérea Reagir aos sucessivos ataques aéreos que têm causado tanto dano na área de retaguarda da Ucrânia, porque a capacidade de defesa aérea é muito limitada no país e terá que balancear entre as forças da frente e as infraestruturas e a população na retaguarda. E por isso, isso vem trazer uma nova dinâmica, seja através dos drones e munições de artilharia, seja através de mísseis que possam combater de alguma forma a nível de paridade com os ataques recebidos. Eu penso que a expressão foi mesmo do António Costa, não posso confirmar, mas achei interessante que é criar um porco-espinho de aço para desincentivar ataques. De alguma forma, conseguir, não através de armamento ofensivo, que poderia ser mal recebido e até uma desculpa aproveitada para não negociar por parte de Moscovo, em que a Europa procura agora desenvolver algum tipo de pontos, mas definitivamente criar condições para continuar com a negociação numa posição que não seja demasiada fragilidade. A esse propósito, os Estados Unidos e a Ucrânia vão se reunir amanhã para preparar posteriores negociações e para, eventualmente, desenvolver algum tipo de aproximação no chamado pacote de prosperidade.

O que não tem sido possível até ao momento, pelo menos as negociações com a Rússia. Senhor professor, ontem assinalaram-se precisamente os quatro anos da intervenção militar russa em território ucraniano. A oportunidade para o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, voltar a apelar aos países europeus para que seja consumada a entrada da Ucrânia no clube dos 27. A adesão vai ser no próximo ano, 2027, como pede Zelensky?

Será muito difícil. A adesão à União Europeia é uma das maiores armas que a União Europeia tem para dar, complementada naturalmente pela diplomacia, pelo apoio, pelos pacotes de sanções, etc. Mas essa é a grande arma que tem para oferecer à Ucrânia e, de alguma forma, estabilizar a arquitetura europeia. Será impossível cumprir em 2027, na minha opinião. Há aqui várias questões, uma delas é a própria Ucrânia não cumprir os critérios, seja a nível de sistema político, corrupção, justiça, e chegaria até aos direitos humanos, há um conjunto de dossiês que ainda não estão cobertos, mas a verdade é que precisa dessa adesão para garantir a segurança e soberania, essencial para podermos pensar num segundo passo. Só que a adesão à União Europeia tem três fases e os órgãos da União Europeia só conseguem verdadeiramente controlar dois, e mesmo esses mal. Um primeiro é cumprir os capítulos, três já estão cobertos, faltam outros três. A negociação do tratado propriamente dita é demorada, é exigente, mas pode ser conseguido. E o terceiro, esse completamente fora do controle da União Europeia, que é a ratificação pelos Estados. E isso é incontrolável, tanto no plano político como administrativo. Alguns tomam mais tempo, outros são mais complexos e depois a nível político nós sabemos que há vários atores que não estão muito orientados para isso. Portanto, temos problemas internos dentro do sistema de decisão de unanimidade, mas temos outros problemas e que eu saliento também a gestão dos outros processos de candidatura, alguns deles com décadas, como é o caso da Turquia, como é o caso de alguns países dos Balcãs, como é o caso da Moldávia e da Geórgia, que fazem fronteira com a Rússia e que lhes pode mais uma vez alimentar a sensação de ser. Ainda há demasiados aspectos, mas obviamente este tem que ser um processo prioritário.

Também ontem, Vladimir Putin, a pretexto desta efeméride, voltou a ameaçar a Europa. Disse Putin que haverá consequências do apoio dos países europeus à Ucrânia e acusa também a Europa de querer dotar o regime ucraniano com armamento nuclear. Estas ameaças são credíveis, são para levar a sério?

Eu julgo que sim, são sempre de levar a sério e têm que ser consideradas sempre com alguma responsabilidade. Porque em última análise, é a grande arma que a Rússia tem é esse botão vermelho. Nas outras dimensões, a Rússia não é uma superpotência, mas no plano nuclear é, de fato, e tem essa capacidade e, naturalmente, aqui é uma capacidade que pode usar, seja pelo menos no plano tático, mas obviamente que rapidamente pode escalar e é particularmente perigoso. Putin endurece, normalmente, ou ele, ou Medvedev, ou algum dos seus elementos acaba por intervir com algum tipo de palavras mais duras numa perspectiva até de guerra de comunicação, que sabe que é uma das fraquezas europeias. E, portanto, a ameaça vai assustando, vai criando dúvida, vai criando afastamento pela causa ucraniana. O Putin não está isolado internacionalmente, é um ponto muito relevante que Donald Trump lhe ofereceu em determinado momento e que lhes dá uma certa garantia de poder falar com voz grossa neste tipo de ambientes. Eu tenho ouvido falar muito que está em momento de fraqueza e que está realmente numa posição muito débil. Não é que a nível económico e a nível de população não esteja, e até há uma expressão que eu considero interessante, que está, de certo modo, a comer o seu próprio futuro, mas a verdade é que tem tempo e está disposto a sofrer. No comparativo para este tipo de ameaças existenciais, que é a forma como Moscovo vê este tipo de conflito, é o comparativo da Segunda Grande Guerra, que tem muito mais baixas, muito mais empenho, muita mais dedicação por parte do povo russo. Portanto, é a sobrevivência do regime e que quer passar a ideia que é também a sobrevivência do país e de alguma forma mobiliza, até porque as baixas têm estado a surgir de zonas que não são as zonas determinantes. O draft não é ainda comum nas zonas mais cosmopolitas, diria. E portanto, de alguma forma consegue ir passando a mensagem. Procura explorar a fraqueza do Ocidente a longo prazo, a fadiga e o cansaço deste tipo de questões e enquanto não atingir pelo menos parte dos objetivos maximalistas, que é basicamente criar uma Bielorrússia 2.0 sem soberania, eu julgo que irá continuar a endurecer. Será perigoso se eventualmente houver posições ao mesmo nível por parte do Ocidente. Espero que não surjam.

Para mal do povo ucraniano. Professor Jorge Rodrigues, muito obrigado pela sua presença neste Gabinete de Guerra, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. Hoje aqui ajudou-nos a analisar e interpretar a intervenção de Donald Trump durante o Estado da Nação esta madrugada e também alguns dos factos mais recentes relacionados com a intervenção militar russa em território ucraniano.