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Abrimos a porta do Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Eu sou o Martim Madeira e hoje contamos com a análise de Luís Tomé, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa. Boa noite, seja muito bem-vindo à Rádio Observador.

Olá, boa noite.

Obrigado por ter aceitado o nosso convite. Vamos começar pela situação no Médio Oriente. Donald Trump fez uma publicação a dizer que o Irão nunca suspendeu as negociações com os Estados Unidos há pouco tempo, ao contrário do que foi noticiado no dia de ontem. Uma das maiores razões para o Irão suspender as negociações, pelo menos ontem, era o facto de Israel estar com uma ofensiva ativa no Líbano. Donald Trump ontem anunciou um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah e por coincidência, logo a seguir afirmou que as negociações com o Irão estavam a correr bem. Analisando aqui os timings, podemos confiar nesta afirmação de Donald Trump de que nunca houve uma suspensão ou de fato houve uma suspensão e Trump teve de recorrer ao anunciar do cessar-fogo para trazer o Irão de volta à mesa de negociações?

Aquilo que aparentam estas várias informações é que não houve propriamente uma suspensão ou um cessar-fogo completo no sentido em que habitualmente o entendemos. O que se passou ontem foi Donald Trump reagindo até — eu acho que para uma grande potência não foi muito avisado — reagindo às ameaças do Irão não só de suspender, de facto, as negociações, mas do próprio Irão entrar no conflito contra Israel caso se confirmasse o ataque israelita a Beirute. Aquilo que foi conseguido ontem e anunciado pelo presidente Trump foi que Israel não iria atacar Beirute como estava previsto e que o Hezbollah não atacaria o norte de Israel. Mas o que nós percebemos logo a seguir é que Israel, se de fato suspendeu esse ataque à capital do Líbano, nunca deixou de dizer que iria prosseguir a sua campanha no Líbano, como aliás começou a fazer logo a seguir. Houve um próprio ministro do governo israelita, o Ben-Gvir, que disse que é tempo de dizer não a Donald Trump. E na realidade hoje o presidente do Parlamento iraniano volta a dizer a mesma coisa. Portanto, que no fundo não é apenas o Irão suspender as negociações com os Estados Unidos. O Irão pode também entrar em confronto direto com o inimigo, com Israel, caso aquilo que eles chamam a agressão de Israel contra o Líbano continue. Nós estamos num limbo, estamos em cessar-fogo, que não é um cessar-fogo de fato, nem as negociações entre Israel e o Líbano podem ter grande validade, porque o beligerante no lado do Líbano é o Hezbollah e esse conflito com Israel continua. Israel continua a sua campanha no Líbano porque é uma forma também de prejudicar, obviamente, as negociações entre os Estados Unidos e o Irão.

Pois, inclusivamente até Donald Trump tinha dito que conversou com o Hezbollah, o Hezbollah tinha confirmado que não ia atacar. Entretanto, hoje um representante do Hezbollah já disse que afinal vai continuar os ataques a Israel. Netanyahu ameaçou que se esses ataques continuassem, ia para Beirute. É um cessar-fogo pouco confiável?

Não é cessar-fogo. Desde que foi declarado o cessar-fogo, na hora seguinte nós vimos Israel a continuar a sua campanha contra posições do Hezbollah e vimos o Hezbollah atacar posições de Israel e no norte de Israel em particular. De facto, é um cessar-fogo completamente virtual, é um cessar-fogo "in nomine". E o estranho no meio disto é que nós percebemos a degradação da autoridade do presidente dos Estados Unidos, da influência do presidente americano sobre o governo de Israel, que de todo modo Netanyahu vai mantendo coeso porque sabe que há linhas vermelhas que podem fazer colapsar a coligação governamental e ele caindo do governo vai imediatamente ser julgado, perde o poder e isso passa, obviamente, são as suas prioridades. Agora, nós bem sabemos que este governo israelita não é só o Likud e os partidos extremistas têm uma agenda que não é coincidente com a agenda dos Estados Unidos, mas isso coloca-nos aqui um problema, porque nós temos uma menor potência que tem objetivos claros e uma estratégia clara há muito tempo que prossegue, e temos a superpotência que nunca teve objetivos completamente definidos sobretudo nesta campanha militar e sem ter objetivos claros, não é possível ter uma estratégia coerente e coincidente. É por isso que vemos do lado americano, seja em relação à forma como lida com Israel e com o conflito com o Hezbollah, seja em particular com o Irão, sem objetivos completamente definidos, tem algumas aspirações, mas não tem uma estratégia que possa responder ao como atingir esses objetivos e por isso vemos permanentemente deambulações. Parece que do lado americano e em particular do presidente Trump, tudo faz parte de uma narrativa comunicacional destinada a satisfazer várias partes, a começar pelos mercados que ele vai tentando que não reajam mais negativamente para uma escalada ainda maior dos preços da energia, dos alimentos, dos fertilizantes, mas também para ao mesmo tempo tentar acalmar algumas preocupações crescentes de países árabes, de republicanos de várias fações e do seu movimento MAGA. E tudo isto em contexto de grande pressão, embora ele diga que não está pressionado pelo tempo, é de fato o presidente americano a perder a iniciativa, a perder a liderança das negociações e portanto, nada disto é bom nem para os Estados Unidos, nem diria eu, para a segurança internacional.

Queria agora falar sobre as declarações de Marco Rubio hoje. Ele anunciou que os Estados Unidos não vão levantar as sanções sobre o Irão. Sabemos que isto é um ponto muito importante para o Irão. Parece-lhe que o Irão pode aceitar um acordo onde as sanções não são levantadas ou vamos ter uma estagnação?

Rubio diz mais, ele diz que os Estados Unidos não vão levantar essas sanções ao Irão em troca da reabertura do Estreito de Ormuz. No fundo, o que está a dizer é que não vão pagar através dos ativos iranianos que estão congelados para ter essa reabertura, e até diz que qualquer alívio dessas sanções está completamente condicionado à renúncia do urânio enriquecido por parte do Irão. Não deixa de ser estranho, Rubio aparece agora a falar em vários assuntos, ele por múltiplas ocasiões vai tentando justificar e racionalizar uma política externa muito confusa, bizarra, para não dizer errática, do presidente Donald Trump, mas ele não consegue desfazer tudo aquilo que o presidente dos Estados Unidos faz. Tanto que Rubio também acaba por dizer aquilo que não tem nexo com a realidade, porque ele também referiu que a operação Fúria Épica foi um sucesso. Ora, o problema no meio disso tudo é que estamos muito longe das posições que possam permitir algum tipo de aproximação ao denominador comum em matérias não apenas com os ativos iranianos, mas também com a questão do urânio enriquecido, com a questão da abertura do Estreito de Ormuz e desses termos, e portanto não se vê, como não se via há semanas, possibilidade de podermos ver um ponto de encontro, com a agravante de nós não termos a certeza do que é que se passa nos corredores de decisão do Irão. O que nós percebemos é que se as autoridades iranianas, a várias vozes, rejeitam aquilo que é a capitulação, e parece ser essa a linha dos Estados Unidos nas suas exigências, que é no fundo a capitulação iraniana àquilo que os Estados Unidos pretendem. Mas na verdade nós também percepcionamos diferenças mais ou menos subtis, outras vezes nem tão subtis, entre as várias fações iranianas. E não sabemos exatamente agora e nos próximos tempos quem é que decide definitivamente. Desde o novo guia supremo até às fações do governo ou do Parlamento, até às fações militares do Corpo da Guarda Revolucionária ou dos próprios media iranianos, nós vemos diferentes posições entre aqueles que rejeitam completamente qualquer concessão aos Estados Unidos e entre aqueles que têm uma visão mais pragmática. Portanto, se do lado dos Estados Unidos é muito indefinida aquilo que é a sua estratégia porque vão variando, também do lado iraniano percebemos que há diferenças e divergências que se calhar aprofundam, mas para todos os efeitos, para todas estas fações e leituras diferentes, o tempo joga a favor do Irão. E portanto eles vão protelando até porque não querem fazer qualquer tipo de concessão, desde logo porque têm a arma negocial de que não querem abrir neste momento, porque se vão negociar seja o que for sobre o programa nuclear ou sobre os outros conflitos como o Líbano ou a Faixa de Gaza ou os ativos russos, sempre com a pressão em particular sobre o presidente americano por causa do estrangulamento do Estreito de Ormuz, que pode aliás agravar-se, como eles têm ameaçado ontem e hoje, se alastrar também aos Huthi no Iémen e portanto ao estreito de Bab-el-Mandeb.

Ainda neste tópico das sanções, eu queria fazer aqui uma espécie de correlação entre conflitos. Apesar de Rubio admitir que não vão levantar as sanções do Irão, os Estados Unidos levantaram de facto as sanções do petróleo russo e Marco Rubio hoje justificou esse levantamento das sanções sobre o petróleo russo como uma espécie de abertura da oferta global. Também tivemos uma notícia de que a Rússia está com o maior volume de exportações de petróleo bruto desde a invasão da Ucrânia e Zelensky disse ontem que esta é a altura em que a Ucrânia está melhor posicionada para pressionar a Rússia. Ou seja, a suspensão das sanções por parte dos Estados Unidos que ainda está em vigor e que pode ser prolongada, não se sabe, mais o facto do foco militar estar no Irão com o aumento dos preços do petróleo global e agora o aumento do volume de exportações do petróleo russo, não poderemos estar a ver esta janela para pressionar a Rússia a negociar a fechar-se.

Não creio. Eu acho que os Estados Unidos mais uma vez com esta administração em relação à guerra russo-ucraniana e em particular à forma como lidam com o regime de Putin seguiram uma estratégia errada desde o início, porque mesmo que se quisessem posicionar como mediadores não podiam ter um ponto de partida que é dar tudo a Putin e fazer toda a pressão para obter concessões e a capitulação do lado ucraniano, aliás marginalizando os europeus. Porque isso colocou Putin numa posição de esperar que a administração Trump dê à Rússia aquilo que a Rússia não conseguiu militarmente ao longo de todos estes anos de guerra. E é por isso que nós não temos qualquer tipo de concessão do lado russo e a pressão quando ciclicamente aparece do lado americano normalmente é em regra sobre a Ucrânia e sobre os seus aliados europeus. Mas é bom dizer que se é verdade que a Rússia tem o maior volume de exportações de petróleo bruto desde a invasão, também é verdade que há uma queda muitíssimo significativa da refinação de petróleo russo para o valor mais baixo dos últimos 16 anos, segundo eu li nas notícias da Bloomberg.

Especialmente também com vários ataques ucranianos às refinarias de petróleo russo.

Ora, precisamente, é porque neste momento embora a Rússia continue à espera que Donald Trump de alguma forma consiga levar a Ucrânia a conceder, nós estamos numa fase em que o momento é favorável à Ucrânia e acentuam-se as dificuldades do lado russo. Pelo segundo mês consecutivo a Rússia perdeu terreno. A situação econômica continua a degradar-se. Nós vimos em maio um aumento significativo do número de drones e de mísseis lançados pela Rússia, mas também segundo os dados disponíveis os ucranianos conseguiram interceptarCerca de 91% dessa enorme quantidade de drones e de mísseis. E ainda por cima, a Ucrânia tem sido capaz de atacar com sucesso a retaguarda, a infraestrutura russa, por exemplo, 15 ou 16 refinarias russas só este ano. Portanto, a situação no terreno não é vantajosa neste momento para o lado russo. É por isso que nós estamos a ver quase uma situação de desespero estes ataques massivos do lado russo contra as cidades ucranianas, como aconteceu esta madrugada. Mas isto não significa que a Rússia esteja prestes a perder a guerra ou a capitular. A Rússia, aliás, torna-se mais perigosa numa situação de desespero, porque a guerra não é existencial apenas para a Ucrânia enquanto Estado soberano e a sua integridade territorial, é existencial para o regime de Putin. E todos nos lembramos, não há assim tanto tempo, como o próprio representante chinês disse que a sua prioridade era impedir o colapso da Rússia e a derrota da Rússia por causa desses perigos. Portanto, mesmo que o momento esteja favorável à Ucrânia, a Ucrânia precisa de ajuda para interceptar, sobretudo, os mísseis balísticos, e é de crer que a Rússia se prepare para fazer aquilo que Zelensky anunciou, um ataque em larga escala à indústria de produção de armamento ucraniano, provavelmente esta noite, nos próximos dias. Na sequência deste ataque, deveremos também atingirem esses alvos ucranianos.

Chegamos ao final do nosso tempo. Obrigado, Luís Tomé, diretor do Departamento de Relações Internacionais da Universidade Autónoma de Lisboa. Obrigado pela análise.

Eu é que agradeço. Boa tarde.

O Gabinete de Guerra fica como sempre disponível em podcast.